19.11.12

PARMÉNIDES


Pois bem, eu vou falar, e tu escuta e retém as minhas palavras,
que te ensinarão as duas únicas vias do conhecimento que é possível conceber.
A primeira é o que é e que não pode deixar de ser.
É a via da persuasão, companheira da Verdade.
A segunda é o que não é e como é forçoso que não exista.
Digo-te: esta via é uma senda que não se pode percorrer.
Pois não poderás conhecer o que não é
nem exprimi-lo por palavras.

... Pois pensar é o mesmo que existir.

(in Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, Portugália editora, 2010)

16.11.12


JULIO CORTÁZAR

Sempre que chega o tempo fresco, ou seja, a meio do Outono, passam me pela cabeça ideias de tipo echêntríco e esótico, como por ezenplo tornar me uma andorinha para poder voar para os paízes onde está mais calor, ou de ser formiga, para poder enfiar me bem dentro de uma cova e comer os alimentos armazenados durante o Verão ou de ser uma bívora como as do soológicO, onde as têm bem guardadas numa jaula de vidro aquecida para que não fiquem duras de frio, que é o que acontece aos pobres seres humanos, que não podem comprar roupa de tão cara questá, nem podem aquecer se por causa da falta de querosene, carvão, lenha, petróleo, e essencialmente por causa da falta de massa, porque quando alguém anda cheio dela pode dar se ao luxo de entrar em qualquer tasca para beber uma boa grappa e é ver enquanto aquece, ainda que convenha não abusar, porque do abuso vem o víssio e do víssio a degeneração tanto do corpo como das taras moral de cada um, e quando alguém se vem abaixo pela suspensa e fatal falta de condupta moral em todo o sentido, já ninguém nem ninguéns o livra de acabar no mais espantoso caixote de lixo do desprastíjio humano, e nunca lhe darão uma mão se entenderá para o resgatar da lama inmunda na qual se rebolve, nem mais nem menos do que se fosse um condoR que quando jovem soube correr e voar pelo cume das altas montanias, mas que ao envelhecer caiu prabaixo como um bombardeiro em voo picado ao qual falha o motor moral. Oxalá o que estou a escrever sirva pralgum tomar atenção ao seu comportamento e para não sarrepender quando for demasiado tarde e já tudo tenha ido pró badano por sua própria culpa!
CÉSAR BRUTO, O que eu gostaria de ser se não fosse o que sou (capítulo Cão de São Bernardo).

(in O Jogo do Mundo (Rayuela), tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008)

13.8.12

[outros melros LXVI]

MILAN KUNDERA


No decorrer dos últimos duzentos anos o melro abandonou as florestas para se transformar num pássaro das cidades. Primeiro na Grã-Bretanha, logo no final do século XVIII, umas dezenas de anos mais tarde em Paris e no Ruhr. Ao longo do século XIX, conquistou, uma após outra, as cidades da Europa. Instalou-se em Viena e em Praga por volta de 1900, continuou para leste, chegou a Budapeste, Belgrado e Istambul.
No que diz respeito ao planeta, esta invasão do melro no mundo do homem é incontestavelmente mais importante do que a invasão da América do Sul pelos Espanhóis ou do que o regresso dos Judeus à Palestina. A modificação das relações entre as diversas espécies da criação (peixes, pássaros, homens, vegetais) é uma modificação de ordem mais elevada do que as mudanças nas relações entre os diferentes grupos de uma mesma espécie. Que a Boémia seja habitada pelos Celtas ou pelos Eslavos, a Bressarábia conquistada pelos Romenos ou pelos Russos, à Terra tanto lhe faz. Mas que o melro traia a sua natureza original para seguir o homem no seu universo artificial e contranatura é um facto que já altera alguma coisa quanto à organização do planeta.
No entanto, ninguém ousa interpretar os dois últimos séculos como a história da invasão das cidades do homem pelo melro. Somos todos prisioneiros de uma concepção pré-estabelecida do que é importante e do que não o é, fixamos sobre o que é importante olhares ansiosos, enquanto furtivamente, nas nossas costas, o insignificante conduz a sua guerrilha, que acabará por alterar sub-repticiamente o mundo e a atacar-nos de surpresa.


(excerto de O Livro do Riso e do Esquecimento, tradução de Tereza Coelho, 3ª edição: publicações Dom Quixote, 1986)

27.7.12


D. H. LAWRENCE


COBRA

Uma cobra abeirou-se da gamela
Num dia de calor, tanto calor e eu de pijama,
Para beber da minha água.

Na sombra funda de perfume estranho da grande alfarrobeira escura
Desci os degraus de cântaro na mão
E tive de ficar, ficar ali à espera pois na gamela à minha frente estava o réptil.
Ele desceu por uma fenda do muro de terra na sombra
E no bordo da gamela de pedra arrastou devagar o ventre fulvo e mole
E encostou o pescoço no fundo de pedra
E numas pingas límpidas de água escorrida da torneira
Bebeu aos poucos por fauces lisas
Bebeu de leve por gengivas lisas enchendo o corpo lento e longo

Em silêncio.

Alguém chegara primeiro à minha gamela de água
E eu que vim depois fiquei à espera.

Ergueu a cabeça depois de uns goles tal como o gado
E fitou-me vagamente como faz o gado a beber,
A língua saía-lhe da boca, bífida, súbita; alheou-se um momento
E inclinou-se a beber um pouco mais
Castanho como terra, terra de oiro, saído das entranhas da terra ardente
Nesse dia siciliano de Julho, com o Etna em fumos.

As vozes da minha educação diziam
Que tinha de ser morto esse réptil
Pois na Sicília não há mal nas cobras todas negras mas nas douradas há venenos.

E aquelas vozes em mim diziam: Se fosses homem
Pegavas num pau, partias-lhe a espinha e era o fim.

Será preciso confessar que gostei dele
Que era bom ele ter vindo, convidado silente, beber da minha água
E poder voltar em paz, apaziguado, sem mesmo agradecer
Para as entranhas ardentes dessa terra?

Era cobardia não ousar matá-lo?
Era perfídia querer tanto falar-lhe?
Era humildade sentir tanta lisonja?
E era tanta a lisonja que eu sentia.

E todavia aquelas vozes:
Se não fosses medroso, havias de matá-lo!

Tinha medo na verdade um grande medo.
Ainda assim, maior era a lisonja
Pois ele viera ao meu quintal pedir guarida
Saindo a porta escura da terra de mistério.

Deu-se por satisfeito,
E levantou a cabeça no olhar ausente de quem já bebeu
E a língua súbita saía-lhe da boca como negra noite bífida nos ares
Parecia lamber o lábio
E como um deus olhou os ares em volta, sem ver,
E virou a cabeça devagar
E devagar, devagar como se em triplo sonho
Dispôs-se a desenrolar o seu lento comprimento
E a trepar de novo pela rampa em ruína do meu muro.

E enquanto metia a cabeça naquele buraco horrendo
E se erguia devagar num espreguiçar de réptil que se enterra,
Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra o seu regresso àquele buraco negro e horrendo
Contra aquele retorno deliberado à escuridão no arrastar lento do corpo
Apossou-se de mim ao vê-lo de costas.

Olhei em volta, pousei o cântaro,
Peguei num pau grosseiro
E atirei-o à gamela num estalido.

Acho que não lhe acertei
Mas o resto do corpo entrou de repente em convulsão brusca e descomposta
Contorceu-se como relâmpago e sumiu-se
No negro buraco, na fenda de bordos térreos da face do muro;
Olhei fascinado na luz do meio-dia intensa e calma.

E arrependi-me no mesmo instante.
Pensei que fora um gesto ignóbil, perverso, obsceno!
Tive nojo de mim e das vozes da minha maldita educação humana.

E pensei no albatroz
E desejei que voltasse a minha cobra.
Pois esse réptil parecia-me um rei de novo
Rei exilado deposto sem coroa no mundo subterrâneo
Prestes a ser de novo coroado.
Perdi o ensejo concedido por um dos soberanos da vida.
E tenho de expiar uma atitude: Ser mesquinho.


(in Gencianas Bávaras e Outros Poemas, versão de João Almeida Flor, Na Regra do Jogo, 1983)

7.7.12

JOÃO RUI DE SOUSA


FRAGMENTOS PARA DEBUSSY
Evocando o Prélude
à l'après-midi d'un faune

Cíclica vertigem
aquecida ao rubro do teu canto
- espero e invoco.

Sinais de búzios,
compassados ecos,
completos sempre
em vegetal memória.

Esperar? Exacto
- que há sempre mais e mais
na voz da água pura.

Pedir? Também
- que é sempre cheia e grave
a face que escolheste.

Querer mais? Muito mais?
Não sei. Fértil e exacto
o que me dão, nada mais me cabe.

*

Se invoco um nome grato
é porque, à luz com que eu encontro
a claridade em castos olhos,
invoco, julgo, um nome com o meu sangue.

Se invoco um nome afável
- guitarra        harpa
                               astro puro        areia -
é porque sei ou sinto
que é aí - está aí -
a paisagem que me abrange.

*

De novo surges
como névoa ao sol da vida,
estrídulo arco,
como um papel branquíssimo
sobre a areia.

De novo surges...

*

Singelo e ao vento, persigo-te
(nos ramos, na flor, na aragem)
até encontrar a oculta voz,
o espírito puro
com que tudo se move e dilui
- para beijá-lo.


(de Circulação, 1960)



6.7.12

GERRIT KOMRIJ

«Uma migalha na saia do universo»

As palavras dos poetas parecem, às vezes, servir só para serem citadas pelos parvos. O dito de Pessoa «A minha pátria é a língua portuguesa», que políticos e oradores de copo de água repetem até à exaustão em actos oficiais, é disso exemplo. Assim parece ter Goethe afirmado «O homem só se reconhece no homem», e também perante isso nos calamos reverentes. Receio que muitos dos políticos e oradores de copo de água pretendam sugerir que Pessoa tinha coisa de género nacionalista em mente, como se nessa asserção algo luzisse duma identidade patriótica ou dum sentimento colectivo. Tenho muita pena deles, mas Pessoa não falava a língua dos parvos. Estou convencido de que esse dito significa exactamente o contrário do que os oradores de copo de água no seu enlevo suporiam. Aí se afirma que o poeta vive no idioma e não num sistema político. É a língua a estabelecer as suas fronteiras, não o Estado. Poetas e poesia — eles vivem numa mesma pátria, seja o texto em swaíli, em português ou em neerlandês.
[...]

A poesia é maneável e fugidia, ela oferece delírio e ilusão. Oferece emoções por medida e de encomenda. É só o poeta dizer o que quer. Um poema é capaz de tudo. A poesia tem uma paciência infinita. Esse dado parece-me em todos os países o mesmo. Para tal não são precisas pátrias.
O idioma, esse, sim, é preciso. O idioma todos os dias é contaminado. Em qualquer país. Com o idioma atrai a si o vendedor da praça os clientes, com o idioma alivia um adolescente o coração a transbordar, com o idioma o político dá ao seu público a impressão de possuir um cérebro. É esse o idioma que o poeta usa. Imagine-se o seu infindável martírio.
Quanto mais o idioma é contaminado, com tanto maior firmeza tem o âmago da poesia de opor resistência. À medida que as palavras práticas ganham terreno, cresce a necessidade do poeta de «lavar» as suas palavras, tirar-lhes a sujidade, desinfectá-las. A poesia é o último reduto num mundo «inimigo da palavra». A verdadeira pátria dos poetas é a lavandaria. Sem a possibilidade de, num poema, guardar a carga original das palavras, ou de exactamente modificá-la, colocando-as numa zona de tensão fechada, o pensamento deixaria de existir.
A esta luz, qualquer preocupação com o que fosse «uma» poesia portuguesa ou «uma» poesia neerlandesa seria ociosa.

[...]
Países pequenos como Portugal, a Bélgica e a Holanda sabem pouco uns dos outros — e isso apesar das semelhanças da sua história e do seu desenvolvimento. No terreno da cultura, põem os olhos de preferência nos países grandes. Até os poetas não parecem desejar outra coisa. Tal vaidade não deve ser-lhes levada a mal. É evidentemente mais interessante ser traduzido para francês, alemão ou inglês do que para neerlandês, sueco ou português. No entanto, não seria insensato de vez em quando empreenderem juntos qualquer coisa contra a hegemonia de línguas mais poderosas. Mostrando uma vez ou outra mais interesse pela cultura uns dos outros. A sobrevivência da pátria do poeta depende disso. Depende disso a sobrevivência das diferentes línguas que lhes servem de veículos da arte.
A indiferença política e as leis do mercado arruinam (e por fim destroem) uma língua. Os países mais pequenos não devem ter sempre tantos receios quando da sua língua se trata. Não é acomodando-se e como que eliminando-se culturalmente que os países pequenos alcançam o seu objectivo, mas apresentando-se uns aos outros com mais clareza e mais energia. Os países grandes, não tenhamos medo, hão-de compreender o nosso brio. A nossa luta é também a deles. Veja-se a guerra que a valente prima, a França, dá à invasão linguística pelo grande tio, os Estados Unidos.
Um purismo à francesa é coisa que também não precisamos de exibir, claro. Uma osmose entre os idiomas pode ser frutífera. Quer dizer — até às exactas fronteiras da poluição linguística de que a poesia é guardiã.
[...]


(excertos da introdução a Uma Migalha na Saia do Universo, tradução de Fernando Venâncio [e outros], Assírio & Alvim, 1997 - documenta poetica)


4.7.12


MANUEL ANTÓNIO PINA


4 DE JULHO DE 1965

segundo fontes geralmente bem
os altos interesses nacionais
foi recebido carinhosamen-
pretende para fins matrimoniais

entre os países menbros da otan
as suas provas de doutoramento
sua excelência o presidente da
a conferência do desarmamento

excelentíssimo senhor director
ardilosos amigos do alheio
nosso prezado colaborador
atrasos na entrega do correio

não perca esta excelente ocasião
da santa madre igreja faleceu
resposta em carta à administração
de casa dos seus pais desapareceu


(de Ainda Não é o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas Um Pouco Tarde, 1974)

20.6.12


JORGEN THEOBALDY


Uma cerveja, por favor

Eu podia habituar-me a ser uma pessoa
arrumada.  Aqui chega ao fim um dia calmo
todo o dia o telefone esteve calado, e em silêncio quase rebenta
o cesto da roupa debaixo do lavatório.
No écran explode uma casa perante a cara
espantada do locutor.  Oh the fucking news!

O que eu quero é sobretudo amor. Não quero
preocupar-me com a marca das minhas cuecas, das minhas meias
que me oferecem pelo Natal, nos meus anos,
pela Páscoa e no dia em que morrer. Em criança pedia
um comboio e recebia uma camisa
coisa prática! embrulhada em celofane, presa com mil alfinetes.
Este poema não é praticamente nada. Mas pensa bem:
Como há-de desaparecer o que nós não derrubamos, a não ser o sabonete
na água do banho? Estou outra vez a fazer humor, embora não
me sinta  voltado para aí.  Terei mesmo
de lavar a cabeça antes de tu chegares? Lavar a cabeça
é uma recordação terrível...

E depois, amo toda a família, especialmente a minha mulher
que não é da família. Como? Eu não disse nada.
Acabou o noticiário do dia, o dia em noticias, the fucking
news. Hoje houve boas notícias. A  Casa da América
foi ocupada, não digo onde.  Começa o filme
e ainda não lavei a cabeça!
Tu não és a minha mulher. Amo-te. Protege-me
que estou a fumar demais! Fica-se nervoso nesta casa
depois de 1933 e depois de 1945. Estás a ligar alguma coisa ao que eu digo?

De repente encontro-me num café, com grande barulheira
ao balcão. Este poema está cheio de potencialidades
como a nossa vida. Evidentemente que não se passa um dia
sem álcool. Ah, a bebida é que dá gosto à vida.
Mehdi já lá está, bêbado como um cacho.  Também tu já chegaste há
um bocado, e tens razões para não falar comigo.
Vai alta a noite, a música está alta. Peço uma aguardente clara
para a minha cabeça ainda clara. Uma cerveja, por favor. Seja o que for
que tu penses de mim, é importante que eu te diga: também tu
escreveste este poema. Não foi arte nenhuma; foi escrito
de costas para a janela.


(in De Costas para a Janela / Poesia Alemã Contemporânea - I, Selecção e tradução de João Barrento,  colecção O Oiro do Dia, 1981)

19.6.12

JORGE DE LIMA



CANTO III
POEMAS RELATIVOS

X

Vós não viveis sozinhos,
os outros nos invadem,
felizes convivências,
agregações incômodas,
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias,
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;

os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;

sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,

e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.

XIII

Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.

XIV

O conto era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluísse;
se a pedra não fosse
o símbolo que era,
pois tudo era um dia,
um dia sem dia,
porém com o poeta
que um dia seria.


(de Invenção de Orfeu, 1952)




18.6.12


FERNANDO GUERREIRO


A pretensão em traduzir por escrito
o que, ao arrepio da faculdade
de simbolização da linguagem,
um dia tinha sentido talvez fosse
o que mais o incomodava na poesia.
De facto, que nome dar ao que,
retirando-se, põe em dúvida
a própria possibilidade do mundo
através da palavra encontrar
para o desconhecido
a promessa de um sentido?
Não era a linguagem que dava
corpo à verdade mas o real,
confirmado na sua ausência,
que obrigava as palavras
a alucinar-se produzindo
o monstro capaz de ocupar
o lugar na parede que, apenas
por existir, impedia o mundo
de sobre si ter ruído. Qualquer
nome de que nos servíssemos
continha em si a memória
atormentada de um corpo
em que as palavras estagnaram,
puxando-o para o fundo,
para a réstea de luz
de que se constitui,
presa dos limos,
a matéria seca do discurso.


(de Caminhos de Guia, Black Sun editores, 2002)

14.6.12

MANUEL PAES


PALAVRA PUERIL

Palavra pueril
que amarras o mundo
encarceras o pensamento
subtil, tudo reduzes
a gramática biológica

nasceste da ausência
e das invocações de guerra
paixões, navegações
clãs, shamans, altamiras
espelhos do vazio

redutora, simplificas
e a necessidade estruturas
em nossa errância na terra.


(de Em Equilíbrio no Tempo, tea for one, 2012 - Colecção matéria mínima)

13.6.12


ANTÓNIO BARAHONA


POEMA UNÍVOCO
À MANEIRA DE PREFÁCIO
À MEMÓRIA DE FERNANDO PESSOA

«Dó é unívoco do sentimento de compaixão e da primeira nota da escala musical.» D.P.I.

Eu tornei-me céptico, épico profissional,
mente amorosamente natural ao frio das
formas, lisérgico ao luar entre as urtigas
Desde Ptolomeu que andamos às cegas
com sistemas que são maneiras de treinar
o pensamento, mas não poemas que contêm
o mo(vi)mento, isto é a eternidade com
provada no esquecimento do assassino
tom da liberdade dos leques lique
feitos sobre os peitos perigosos das
mulheres amazonas uni-seio-nuas
músculos de terra a cintilar d'estrela
na amplidão do arco do cavalo branco
a sangrar do flanco um navio à vela

O perigo é mais sólido do que a pedra, mais
imóvel e mais branco e mais duro, por isso
a dureza consiste numa vantagem por extenso
nas pedras e nos versos que se aproximam do
perigo: os diamantes e os universos de som
sacrário sempre vivo no templo dos poetas
que uivam com voz de trigo e despedem setas

A dureza também consiste numa vantagem dos
seios, e na pronúncia vagarosa de dizer:
mulher de pedra viva dos oleiros, orquídea
dos luzeiros contra a perfídia do mundo,
escultora de escultores no mais profundo
da pedra, petrificada em ave dura que per-
dura sobre a neve eternamente suave

As notas do poeta unificam-se em torno do Nu:
castidade perante a escultura do culto
do arbitrário do signo exacto, des-
construtor com pacto do elo da linguagem e
das coisas, engenheiro da maquinaria da
transcendência metalicamente real no re-
flexo d'olhos ténue d'Eglantina que sorri
anterior ao naufrágio onde perdi Dinamene

Adquirir uma «existência opaca» a fim
de ouvir o órgão nas margens do Sena quando
poemas ao poema o poeta escreve insinuando
que a loucura amadurece, despojado de memória,
proscrito da história que não o esquece, com-
fundindo-o com os símbolos, o quadrado e o cír-
culo, signos da transcendência realmente meta-
lica nas teclas que desprendem pombos quando

Convenhamos que o amor é experiência, base
da ciência da poética capaz de reconstituir
a ausência: o poeta é instrumento e ins-
trutor, conhecedor da cadência, repetidor
até em termos de ternura que enternece o texto
o homem fragmentado entenebrece o gesto

Doença, não há dúvida, na direcção de um
vento qualquer a omnipresença da barca unívoca
de velas desfraldadas a navegar pacífica e à
vante o elefante a ganir a teologia da mulher
um cavalo branco galopante a emergir do mar
terrífico claustro da escrita que contém a vida

Convenhamos uma vez mais que o amor é ex-
periência, o amor na cama consciente de uma
técnica, o amor na lama diferente de na água
laminada, a pele macia da lama sem lâminas,
a pele cortada de mágoa na água em chamas
e a palavra fria no poema, flébil mosca, resto
d'orquídea seca na encosta ao sol d'agosto

Sim, experiência de Serenidadeés minha, o a
mor não aquece ao sol, não voa a enegrecer
o ar, não descende de flores: é a fúria de
florir no caos, primeira letra do alfabeto
lua no seu grito, exclamativa na arte de
agarrar silêncio, metê-lo numa caixa com
mãos ávidas, escrevê-lo numa faixa de papel
tumultuário, enquanto esquiva vai à garra
a barca unívoca num mar de mel e laca

Alegria da morte unificada suave, sensitiva
serenidade de agulha e gume, a única pedra
fragmentada na praia, etérea de esmeril,
tépido como um til na palavra manhã a viver
no verão sobre o estrume estético das vacas
sagradas trepidantes no seu vácuo cósmico

A única pedra, dizia, ficou a ver a barca uni-
voca, que convoca a glória do poeta: uni
verso, verificado a ver a barca equívoca,
estame de rosa na relojoalharia do poema, regra
íntima da necessidade do descuido cuidadoso
de noite e de dia e sem sistema d'ir à guerra

Onde está o tempo que ainda não vivi, o qual
se «chama futuro»? Do mal o menos da vida, da
vida o mais do menos que vivemos à despedida
só, no escuro, a pontuação de luz, os líquenes
das vírgulas inspiradas, como no inicial
poema unívoco as mulheres amazonas uni-
ficadas com seus leques liquefeitos
sobre os peitos perfeitos como diques

Boavista, 21-2-77.


(de Pátria Minha, Fiel do Amor, 1978)

30.5.12

BERTOLD BRECHT


MENSAGEM DO POETA MORIBUNDO À JUVENTUDE

Vós, gente moça de futuros tempos e de
Novas auroras sobre cidades que
Ainda não foram construídas, também
Vós, não-nascidos, ouvi
A minha voz agora, de mim que morri
E não em glória.
Mas sim
Como um camponês que não amanhou a leira e
Como um carpinteiro que preguiçoso fugiu
Do madeiramento aberto do telhado.

Assim desperdicei
Eu o meu tempo, esbanjei os meus dias e agora
Tenho que pedir-vos
Que digais tudo o que não foi dito
Que façais tudo o que não foi feito
E que me esqueçais depressa, peço-vos, para que
O meu mau exemplo não venha ainda também a perverter-vos.

Ai, para que me sentei eu
À mesa dos estéreis, a comer do banquete
Que eles não tinham cozinhado?
Ai, porque misturei eu
As minhas melhores palavras
Ao seu pairar ocioso? Enquanto lá fora
Andavam os ignorantes
Sequiosos de aprender.

Ai, porque é que
Não se erguem as minhas canções dos lugares onde
As cidades se nutrem, onde se fazem os navios, porque é que
Não sobem elas como fumo
Das locomotivas dos comboios rápidos, fumo
Que fica para trás no céu?

Porque a minha fala
Aos úteis e criadores
Lhes fica na boca como cinza e gaguejar de bêbedo.
Nem uma palavra só
Eu sei para vós, gerações dos tempos futuros
Nem um gesto a apontar com dedo incerto
Vos poderia dar, pois como
Poderia apontar o caminho quem
O não andou!

Assim só me resta, a mim que assim esbanjei
A minha vida, apelar para vós
Pra que não espreiteis nenhum mandamento saído
Da nossa boca ociosa e que não aceiteis
Nenhum conselho daqueles que
Assim falharam, mas que só
Decidais por vós próprios sobre o que
Seja bom para vós e vos
Ajude a amanhar a terra que nós deixámos decair
E a fazer habitáveis as cidades
Que nós empestámos.


(tradução de Paulo Quintela, in Obras Completas IV - Traduções III, Fundação Calouste Gulbenkian, )

29.5.12


JOÃO GUIMARÃES ROSA


Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de António Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado de posses — Davidão era o nome dele. Vai, um dia, coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão pegou a ter medo de morrer. Safado, pensou, propôs este trato a um outro, pobre dos mais pobres, chamado Faustino: o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas, em lei de caborje — invisível no sobrenatural — chegasse primeiro o destino do Davidão morrer em combate, então era o Faustino quem morria, em vez dele. E o Faustino aceitou, recebeu, fechou. Parece que, com efeito, no poder de feitiço do contrato ele muito não acreditava. Então, pelo seguinte, deram um grande fogo, contra os soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em São Francisco. Combate quando findou, todos os dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A de ver? Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia. Ah, e assim e assim foram, durante os meses, escapos, alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e veja: isto mesmo narrei a um rapaz de cidade grande, muito inteligente, vindo com outros num caminhão, para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse? Que era assunto de valor, para se compor uma estória em livro. Mas que precisava de um final sustante, caprichado. O final que ele daí imaginou, foi um: que, um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão não aceitava, não queria, por forma nenhuma. Do discutir, ferveram nisso, ferravam numa luta corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia, os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso, por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do Faustino, que falecia...
Apreciei demais essa continuação inventada. A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de outros movimentos, sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar. A vida disfarça? Por exemplo. Disse isso ao rapaz pescador, a quem sincero louvei. E ele me indagou qual tinha sido o fim, na verdade de realidade, de Davidão e Faustino. O fim? Quem sei. Soube somente só que o Davidão resolveu deixar a jagunçagem — deu baixa do bando, e, com certas promessas, de ceder uns alqueires de terra, e outras vantagens de mais pagar, conseguiu do Faustino dar baixa também, e viesse morar perto dele, sempre. Mais deles, ignoro. No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso...


(excerto de Grande Sertão: Veredas, 1956)

28.5.12

ALEXANDRE PINHEIRO TORRES


O MONOPÓLIO DA SABEDORIA

Homens sábios avançam pelas planícies
chegam ao pé de nós e dizem      Vocês são
aves de rapina      Nós pequeninos ratinhos
E logo nos crescem duríssimas asas

e garras de afiadas pontas e vemo-nos
a pairar ameaças entre mar e terra      A nossa
sombra alastra nas campinas      sobreiros
e oliveiras      É isto um pesadelo?

Acordamos suando a tactear de novo o mundo
Homens ainda mais sábios entram-nos nas searas
e dizem      Vocês afinal são lobos e nós cabrinhas
Pulando de raiva andamos à volta nas clareiras

repelimos os sábios      mas alguns dos nossos dizem-nos
Olhem como despontam já as vossas orelhas de lobo
E correm amedrontados a juntar-se às cabrinhas
e estas festejam-nos com almudes de vinho e leitinho


(de O Ressentimento dum Ocidental, Moraes editores, 1981)