3.4.14

CESAR VALLEJO


E SE DEPOIS DE TANTAS PALAVRAS...

E se depois de tantas palavras,
não sobrevive a palavra!
Se depois das asas dos pássaros,
não sobrevive o pássaro parado!
Mais valeria, na verdade,
que comam tudo e acabemos!

Ter nascido para viver da nossa morte!
Levantar-se do céu rumo à terra
por seus próprios desastres
e espiar o momento de apagar com a sua sombra as suas trevas!
Mais valeria, francamente,
que comam tudo e tanto faz!...

E se depois de tanta história, sucumbimos,
não já de eternidade,
mas dessas coisas simples, como estar
em casa ou pôr-se a matutar!
E se em seguida descobrimos,
subitamente, que vivemos,
a avaliar pela altura dos astros,
pelo pente e as nódoas do lenço!
Mais valeria, na verdade,
que comam tudo, sem dúvida!

Dir-se-á que temos
num dos olhos muita pena
e também no outro muita pena
e nos dois, quando olham, muita pena...
Então... Claro!... Então... nem uma só palavra!



(in Antologia, tradução de José Bento, Limiar, 1981)

23.3.14

JOHANNES BOBROWSKI


COM A TUA VOZ

Com a tua voz
fala pela noite
adentro o salgueiro, luzes
voam em seu redor.
No alto, uma flor-de-água
atravessa a escuridão.
Com os seus animais
respira o rio.

Levo para os cálamos
a minha casa entrançada.
O caracol
inaudível
passa pelo meu telhado.
Gravado
na palma das minhas mãos
encontro o teu rosto.


(in Como um Respirar - Antologia Poética, tradução de João Barrento, Livros Cotovia, 1990)

3.3.14

JULIO CORTÁZAR


A um deus desconhecido

Quem quer que sejas
não venhas já.
Os dentes do tigre misturaram-se com a semente,
chove fogo em permanência sobre capacetes de protecção
já não se sabe quando acabarão os esgares,
o desgaste de um tempo feito em pedaços.

Por te obedecermos caímos.

– A torre subia erecta, as mulheres
levavam cascavéis nas pernas, provava-se
um vinho forte, perfumado. Novas rotas
se abriam como coxas à alegre cobiça,
às quilhas insaciáveis. Glória!
A torre desafiava as medidas prudentes,
como numa festa de estrategas
era a sua própria grinalda.
O ouro, o tempo, os destinos,
o pensar, a violenta carícia, os tratados,
as agonias, as carreiras, os tributos,
rolavam como dados, com suas pintas de fogo.

Quem quer que sejas, não venhas já.
A crónica é a fábula para estes olhos tímidos
de lentes focais e bifocais, Polaroid, anti-halo,
para estas mãos com escamas de cold-cream.
Por te obedecermos caímos.

– Os professores obstinados fazem gestos de ratazana,
vomitam Górgias, patesís, anfictionias e Duns Escoto,
concílios, cânones, seringas, skaldas, trempes,
que vida descansada, os direitos do homem, Ossian,
Raimundo Lúlio, Pico, Farinata, Mio Cid, o pente
para que Melisandra penteie os seus cabelos.
É assim: preservar os legados, adorar-te nas tuas obras,
eternizar-te, a ti o relâmpago.
Fazer da tua raiva vivente um apotegma,
codificar a tua livre gargalhada.
Quem quer que sejas
não venhas já.

– A ficção cara de farinha, como se pendura no seu macaco,
o relógio pontual a arrancar-nos da cama.
Venha às duas, venha às quatro,
infelizmente temos tantos compromissos.
Quem matou Cock Robin? Por não usar
antitranspirantes, sim senhora.

Por outro lado a bomba H, o pente com música,
os detergentes, o violino eléctrico,
facilitam a passagem do tempo. Não é tão má assim
a sala de espera: alcatifada.
- Consolações, jovem antropólogo? Sortidos:
você vê-os, julga-os e leva-os.
A torre subia erecta,
mas aqui há Dramamina.

Quem quer que sejas
não venhas já.
Iríamos cuspir-te, lixo, fabricado
à nossa imagem
de náilon e algodão, Iavé, Deus meu.



(tradução minha – original de Arrimos, in Salvo el crepúsculo, edición definitiva: Alfaguara, 2009)

2.3.14



DESESPERO
(5 desenhos de ROGÉRIO RIBEIRO, num livro oferecido pelo Amadeu Baptista)


I
É impossível saber
Quantos nomes temos
Num só corpo.

Impossível também a voz
Que ama, a mão que toca,
Tudo, todos, sempre,

Alterando timbres,
Deixando suceder as cores
Constatando a impossibilidade.




II
O desequilíbrio acontece
Sempre em nós próprios
Na presença do outro,

De quem ali está, incerto,
Presença a confirmar
Ausência. O vazio

Alheio a nós, do outro lado
Do desamparo. E o corpo
A não saber chegar ao chão.


III
A ânsia de alguma coisa,
Nada, a sede de ter
Um rosto visível. Não

O quase limite de estarmos
Todos
Debaixo do mesmo céu,

Dentro de uma esquadria
Demasiado exígua. Não
Apenas a sobrevivência.



IV
Não perceber, não reconhecer
Quem, quantos de nós
Estamos vivos. Desejar

A forma do próprio rosto
Ainda – até quando? –,
Para não a perder. Esticar

Os braços
Como quem grita sabendo
Que nunca será ouvido.



V
Ainda o rosto, ainda
A forma dele
Simplificada à margem

De uma fuga ou
Vislumbre de ausência.
O nada de um corpo

É não ser visto. Uma
E outra são o mesmo,
Desconexas.


Desespero, 2003
Acrílico s/ papel
56 cm X 76 cm
(reproduzidos a partir de Rogério Ribeiro / Desenho, Galeria Municipal de Montemor-o-Novo, 2005)

18.2.14

[outros melros LXVIII]

FERNANDO ECHEVARRÍA


O MELRO REUNIU A CLARIDADE.
Trouxe-a ao cântico. Trouxe
com ela a suspensão dos arrabaldes
que descobriam esse ponto onde
o conforto pungia, recôndito, nas árvores,
não o cântico já, mas sua fonte.
Havia, porém, a frase.
Ou, se quiserem, esse tema que houve
de, limpamente, modular-se
por um exterior de brilho. Porque
a modulação requinta e abre
o exercício de uma nova ordem:
a de um ouvido que se erige a análise,
sem, por isso, perder o horizonte
do ainda a ouvir. E a elevar-se
a uma altura cada vez mais longe,
com o melro a construir a base
de quanto a pauta em júbilo recolhe.


(de Categorias e outras Paisagens, Afrontamento, 2013)

9.2.14

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL


O que me interessa — o que julgo interessa à poesia — é a realidade total. Por isso me julgo tão científico como metafísico; por isso me sinto, sempre e a cada momento, ao mesmo tempo, em cada um dos três estados da velha e eterna lei positiva de Augusto Comte. Quem não compreender isto não compreenderá nada da minha poesia — o que não terá importância de maior—; mas também pouco entenderá de Poesia, o que é certamente um mal, o terrível mal que poderia implicar a total danação da humanidade: o não poder nunca vir a encarar o total real e o aceitar dessa contemplação e acção como a sua inultrapassável dignidade no plano do criado.


(palavras finais da «Auto-Poética (a pedido)», que precede Odes Pedestres, editora Ulisseia, 1965)

4.2.14

LUÍS CARLOS PATRAQUIM


TRÊS VARIAÇÕES SOBRE O ESCURO ANTERIOR

o olho intrusivo
pouco
o que vês na paisagem
se houvesse

e
dizes a palavra muda

há uma savana anjo
que te redime

ela
pietá
a invisível árvore

e tu
filho de nada
no seu colo

*

Alta noite
depois do escuro anterior
eu vi a máquina

a máquina prótese
epigramática

e meu canto tinha a tensão de um arco
e cada grito era uma seta

*

Coração neuronal sanguínea pulsante fonte
de que mar beber-te a inteligência
que a voz pergunta

um chuço passou
e a cabeça larvar corre adiante
oscilando sob a Lua

As adagas flanqueiam a Carne
orgiásticas
subindo até à transcendência
do Gesto

o que dança
e explode da lava e a isso chamamos Mãe
e rasgamo-la!

Ei-lo! O cavaleiro mongol degolando
a última estrela

Um pescoço de nuvem onde
pasmam as gazelas cúbicas
sossegadas



(«unpublished poems for "Anjos Urbanos" exhibition by José Cabral», in Urban Angels, P4Photography, 2009)

2.2.14

JORGE DE SENA


ELOGIO DA VIDA MONÁSTICA

Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.

Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes colectivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efectivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
O ter-se uma alma que jogar e perder.

26/9/1965 

(de 40 Anos de Servidão, edições 70, 1989)

26.1.14

CARLO VITTORIO CATTANEO


PONTO DE INTERSECÇÃO

quando ressoa a flor de sombra
- arbusto às vezes ou charco sem confins -
escuto os passos dentro-fora
e no fulcro solar da lâmpada
rebenta a secretária (o azul expande-se
em corolas de branco: um enxame
terrível de canetas
sonha incestos de tinta e de palavras)

porque ninguém quererá arrancar-me a esta cadeira
se tu me chegas de raízes inominadas
e me confundes no dúplice reflexo
do teu sorriso da tua distância

água de monte escorre num fluir de objectos
para a cama abandonada gelo para o vazio
à janela — observo
espelho de mim cada cauto desfolhar-se
dentro-fora dos meus estratos de sombra
e o tormento de emergir antigo
com a geológica sageza de um menino

esmago o cigarro e agrumulam-se os passos
nestes muros marcados pela tua ausência
(aquele menino já morto a cada morte do mar
se ergue por vezes: é uma onda que volta a ferir)

na semente oculta da flor de sombra
as vozes corroem outra luz
quando a presa ria entre escolhos
inflamando a garganta de túrgidas invenções
- o sol dentro: fora um gotejar de sal:
a minha lâmpada amarela arrastada por azul tenaz

hoje que o pranto não paga
aquela aterrada sageza — nada mais resta
senão a poeira a ameaçar-te o rosto
e o reencontrar-te por trás de cada distância


(anexo a uma carta para Jorge de Sena, datada de «Roma, 9 de Maio de 1978», com tradução de Jorge Fazenda Lourenço, in Correspondência 1969-1978 - Jorge de Sena e Carlo Vittorio Cattaneo, Guimarães editores, 2013 - original posteriormente incluído em Cronache e Palinsesti, 1980)

25.1.14

[Mindelo, 22.Setembro.1922 - 24.Janeiro.2014]

AGUINALDO FONSECA


ESTIAGEM

Esta secura calada na garganta
não sei bem se veio do vento
ou das entranhas do inferno.

Este horizonte estreito
a estrangular distâncias e esperanças
não sei se é feito de sangue
ou de poeira vermelha.

(Oh! que desejo de uma carícia
de sombra fresca
de verdes ramos
e rochas húmidas)!

Será que perdi a voz
neste mar de sol
onde a paisagem é figura desfocada?

Se grito
o grito em mim persiste a esbracejar
porque não sai
do poço desta angústia amordaçada.



(in «Claridade», n.º 8, 1958)


PELA ESTRADA LONGA DA MINHA ESPERANÇA...

De cabelo ao vento,
Pela estrada longa da minha esperança,
Vou marchando sempre,
Ao compasso quente do meu coração.

Vou de mãos vazias, vou de lábios secos.
Pela estrada longa da minha esperança
Vou colhendo tudo e vou deixando tudo.

Dias, meses, anos, vou-os sepultando
Sob a estrada longa da minha esperança.

Olham para mim
E gritam com sarcasmo:
— Por que vais marchando, por que vais sorrindo?
Que mistério é esse que te acena ao longe?

Vão caindo folhas...
Frios ventos uivam
Pelo descampado...



(de Linha do horizonte, 1951)

22.1.14

HÉLIA CORREIA


DOIS POEMAS

1.

Tranco solidamente as portas. Casas há
que nasceram sob os pulsos
quando as magras mães dos mortos
arquejavam nas grutas junto às campas.
Casas de centros sucessivos. Essas que vós, os mortos,
sugeristes na indignação final.
Em surdina eu vos fujo para sempre
no mais dentro das coisas. Nas parábolas.

E nada aqui vos chora. Vossas noivas
pariram noutros leitos. Nada em nossas cidades
vos repetiu ainda em febre ou hino
Vede que nem o pão mudou
nem as pequenas danças ou os servos.
Tudo vos deram pois, mesmo o perdão
por vossa morte ousada
nossas bocas tremendas arquivadas na rocha.

Ouço o abismo e tranco o meu repouso.
Casas há que os mortos construíram
no seu modo de andar inquieto e são.
Casas tão pensativas que seu mármore afunda
largos veios de raiva e à noite cercam
externamente os ritos
em que a cidade alonga a sua história.
Casas que como um lodo nos recebem
no esquecimento. Casas lentas. Prévias.

Hoje apesar de vós moramos poucos
deste lado da trégua. E mal sabemos
quantas horas durou o vosso sangrar.

Mortos, morrei de novo. Morrei sempre
no grande encontro dos poderes da terra.
Mortos nas negras mães que vos suspendem
no cérebro da lua.

Como se vos amássemos ainda.

2.

Contigo partilhei os vários leitos
dos amigos dispersos. Mesas, sumos,
os degraus mal ardidos do terror.
Contigo um pouco em cada aldeia, enquanto
nada de nós podia ultrapassar
as paredes dos outros que jaziam
no repouso e no largo e tu compravas
permanecendo os nomes tumulares.

Já então começávamos a longa
inelutável morte dos estios
e eu colhia os agoiros nas fornalhas
de infatigável pão. E cada noite
um maior julgamento nos calava.

Já então nos vestíamos nos cantos
de antigamente sós. Contigo, aos poucos,
recomeçava o frio e as grandes vagens.

De terra em terra, humilde, e raramente
antecedendo a desamor final. Sem transição. Sem dor.
E hoje penso que sobreviverei sem ti
ainda quando a névoa sobreposta nos deixar
tão nus como se de hábitos nascêssemos.



(in Poesia 71, selecção de Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves, editorial Inova, 1972 - originalmente publicado em «Sintoma», suplemento do «Jornal do Centro»)

19.1.14

EUGENIO MONTALE


A VIDA oscila
entre o sublime e o imundo
com alguma propensão
para o segundo.
Saberemos mais acerca disso
depois das últimas eleições
que se farão lá em cima
ou lá em baixo ou em lugar algum
porque fomos já eleitos
todos nós
e quem o não foi
está bem melhor aqui em baixo
e quando se dá conta
é tarde demais
les jeux sont faits
diz o croupier pela última vez
e com a sua pá
vai varrendo as cartas.



(in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio Alvim, 2004 - original de Quaderno di quattro anni, 1978)

18.1.14

CHARLIE CHAPLIN, citando HART CRANE


Por intermédio de Waldo [Frank] conheci Hart Crane e jantámos os três muitas vezes no pequeno apartamento que Waldo tinha na Village, onde discutíamos até à hora do primeiro almoço do dia seguinte. Eram discussões apaixonantes, em que nos esforçávamos por alcançar a definição subtil dos nossos pensamentos.
Hart Crane vivia na maior pobreza. O pai, fabricante rebuçados milionário, queria que o filho entrasse para o negócio e tentava desencorajá-lo da poesia, cortando-lhe os víveres. Não tenho nem o ouvido nem o gosto afeitos à poesia moderna, mas enquanto escrevia este livro li The Bridge (A Ponte) de Hart Crane, obra à qual confiou todas as suas emoções, livro estranho e dramático, cheio de angústia lancinante e de mordaz sentido da imagem, para mim de agudeza um tanto excessiva. Mas talvez que em Hart Crane semelhante excesso fosse inato. No entanto, era dotado de grande afabilidade.
Discutimos o intento da poesia. Eu disse que a poesia era uma carta de amor dirigida ao mundo. «Um mundo muito pequeno», respondeu Hart com tristeza. Considerava que a minha obra se mantinha na tradição das comédias gregas. Confessei-lhe que tentara ler uma tradução inglesa de Aristófanes, mas não conseguira nunca lê-la até ao fim.
Hart acabou por receber uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim, mas tarde de mais. Ao fim de anos de pobreza e abandono, entregava-se à bebida e à libertinagem e, quando regressava num barco de passageiros do México para os Estados Unidos, atirou-se ao mar. 
Uns anos antes de se suicidar, mandou-me um livro de poemas curtos intitulado White Buildings (Edifícios Brancos), publicado por Boni Liveright. Na página de guarda, escreveu: «A Charlie Chaplin, lembrança do Kid, de Hart Crane. 20 de Janeiro de 1928.» Um dos poemas intitulava-se Chaplinesque: 

Vamo-nos adaptando humildemente,
Contentes dessas ocasionais consolações
Como as que o vento deposita
Em fundas, excessivas algibeiras.

Ainda podemos amar o mundo, os que encontramos
Um gatinho esfaimado à porta, e sabemos
Onde abrigá-lo do furor da rua
Numa caminha tépida de penas.

Esquivar-nos-emos, e até ao derradeiro esgar
Adiaremos a sentença do polegar inevitável
Que lentamente aponta para nós a falange enrugada,
Encarando os olhares vesgos com que inocência
E que surpresa!

E no entanto essas quedas subtis não são mais falsas
Que os molinetes duma bengalinha;
Os nossos funerais não são, no fundo, um empreendimento.
Podemos fugir-vos, e de tudo, mas não do coração:
Que havemos de fazer, se o coração palpita?

O jogo impõe sorrisos afectados,
Mas nós vimos a lua nas vielas desertas
Desencadear bátegas de gargalhadas dum balde do lixo vazio,
E através dessa algazarra ouvimos
Um gatinho a miar na solidão.



(in Autobiografia, tradução de António Lopes Ribeiro, Ulisseia, 1965)

17.1.14

JOSÉ TERRA


Seremos deuses, enfim, deuses humildes,
generosos, lúcidos e humanos.
Onde acaso tocar o nosso pé
nascerão fontes, pássaros e cânticos.
Dormiremos na fronte das montanhas
com as feras, as aves e as serpentes.
De manhã, na curva do horizonte
raiará nosso filho em vez do sol
e à porfia com rios e colinas
correremos às praias e ao oceano.
As nossas mãos conduzirão os ventos
de todos os quadrantes. E as estrelas
virão dormir no nosso coração.



(de Para o Poema da Criação, 1953)

16.1.14


RUY BELO, entrevistado por MARIA TERESA HORTA


— Acha que a poesia não pode, ou melhor, não deve ser ambígua, difícil, mas sim clara, fácil?

A poesia é por natureza difícil. Como o futebol. Desculpe a alusão. Mas não é descabida. Porque é que eu leio muito jornais desportivos? Porque os nossos maiores jornalistas são Alfredo Farinha, Carlos Pinhão, Aurélio Márcio ... Este último fez uma reportagem notável no Popular sobre o último Campeonato do Mundo de futebol. A anotar muito bem o concreto, o pormenor, como o melhor Hemingway. E Fernando Pessoa nunca será conhecido por tanta gente como Eusébio. E acho bem. O êxito.


(in «A Capital», de 18 de Setembro de 1968, e reproduzido em Na senda da Poesia, 1969)