27.12.03

RUY BELO

ORLA MARÍTIMA


O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao rio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida

(de Homem de Palavra[s], 1970)

26.12.03

As meninas duais passaram-se... e passaram-se bem!
Já não bastavam as coisas boas que nos têm dado, arranjaram maneira de dar prendas personalizadas a uma multidão de amigos.

A prenda que me calhou foi esta:

SANDRA COSTA

caridade


tudo falta, inevitavelmente,
se a noite dos néons cria um círculo fechado
sobre as ruas e de fora fica a cintilação
dos corações que amam o próximo

(acrescento ao poema um interminável silêncio
que um arqueólogo encontrou junto de velhas ânforas
que um dia deram de beber aos lábios)

25.12.03

RUI KNOPFLI

Nasceu em 1932, em Moçambique.
Morreu no dia de Natal de 1997.

AMOR DAS PALAVRAS

Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo
para o sabor de teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o de meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo e pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.

(de O País dos Outros, 1959)
FERNANDO SYLVAN

Nasceu em 1917, em Díli, Timor-Leste.
Morreu no dia de Natal de 1993.

Infância

as crianças brincam na praia dos seus pensamentos
e banham-se no mar dos seus longos sonhos

a praia e o mar das crianças não têm fronteiras

e por isso todas as praias são iluminadas
e todos os mares têm manchas verdes

mas muitas vezes as crianças crescem
sem voltar à praia e sem voltar ao mar

(de Tempo Teimoso, 1974)
CHARLIE CHAPLIN

Nasceu em 1889, em Londres, Reino Unido.
Morreu no dia de Natal de 1977

Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, ele recebeu o poder sobre os seus ombros, e lhe foi dado este nome: Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-eterno, Príncipe-da-paz, para que se multiplique o poder, assegurando o estabelecimento de uma paz sem fim

(Isaías, 9, 5-6)

24.12.03

LOPES MORGADO

Ando a esperar-me num longo advento
Ando a nascer-me num parto lento

E entretanto
quanto me pesa
vivo encantado no meu encanto
nesta certeza-quase-incerteza
de já ser gente

precocemente

(de Agora que Nasci - poema do natal intemporal, Multinova, 1976)

23.12.03

E. E. CUMMINGS

I


mOOn Over tOwns mOOn
whisper
less creature huge grO
pingness

whO perfectly whO
flOat
newly alOne is
dreamest

oNLY THE MooN o
VER ToWNS
SLoWLY SPRoUTING SPIR
IT

(de No Thanks, 1935 - incluído em Poems 1923-1954, New York, 1968)
Hoje, na rua 1º de Dezembro, na Baixa de Lisboa, pouco antes das 6 da tarde, cruzei o meu olhar com o de um descendente de Almeida Garrett, também ele escritor.
Ele não me conhece, mas no lapso de segundo em que me olhou, parecia que me conhecia.
Sinto que, nesse instante, fui uma personagem de algum dos seus contos. Ou alguém de um poema de um amigo comum.
[parece-me que o Rui Manuel Amaral quer ler este texto...]

JORGE DE SENA

1888 E A POESIA


Em 1888 nasceram três grandes poetas, glórias da língua italiana, da língua portuguesa e da língua inglesa: a 8 de Fevereiro, em Alexandria, Egipto, Giuseppe Ungaretti; a 13 de Junho, em Lisboa, Fernando Pessoa; a 26 de Setembro, em St. Louis, Missouri, Estados Unidos, T. S. Eliot. A poesia das suas respectivas línguas e a poesia universal só por equívoco continuaram a ser as mesmas depois da revolução expressiva que cada um deles efectuou. E sem dúvida que Pessoa, se vivo fosse, conheceria este ano uma consagração gloriosa como a que os países anglo-saxónicos estão tributando a T. S. Eliot, e como a que não sei se a Itália terá tributado a quem é hoje o seu maior poeta vivo. Altos espíritos, para nenhum deles a poesia foi um dom gratuito dos deuses, mas uma atenção, uma coragem, um desassombro. Críticos lúcidos, influíram poderosamente no pensamento estético do seu tempo, e com eles, como com outros que os precederam ou seguiram de pouco, sofre um golpe mortal a concepção romântica da poesia como devaneio sentimental. São, em que pese a crítica, poetas da inteligência, da emoção dilucidada, da acuidade expressiva. Não são artistas do verso - que os houve sempre demais, e mesmo entre os românticos -, mas artistas da criação poética, da poesia como conhecimento e apreensão profunda. Homens de expressão exacta, densa oblíqua, ultrapassaram simultâneamente a ambiguidade simbolista, que a todos marcou, e a imprecisão romântica, a que todos fugiram. E, sobretudo, liquidaram o arsenal de convenções temáticas, imagísticas e linguísticas da mediocridade poética, expondo-o no pelourinho da secura irónica ou da severidade ascética da expressão. Pessoa não necessita de ser relembrado em seus versos, pois que, depois de Camões, nenhum poeta português conheceu, como a sua obra está conhecendo, um tão autêntico e tão vasto prestígio. Mas de Eliot e Ungaretti, menos conhecidos entre nós, até por menos difundidas as suas línguas que o espanhol ou o francês, há que lembrá-los por poemas seus. A seguir encontrará o leitor a tradução, que fiz, de dois dos mais célebres poemas e dos mais característicos de uma certa maneira de cada um: O «Boston Evening Transcript», de T. S. Eliot, Io Sono uma Creatura, de G. Ungaretti.

O «BOSTON EVENING TRANSCRIPT»
de T. S. Eliot

Os leitores do Boston Evening Transcript
Curvam-se ao vento como seara madura.

Quando a tarde se apressa um pouco na rua
Despertando apetites de vida em alguns
E a outros trazendo o Boston Evening Transcript,
Eu subo as escadas, toco a campainha,
Voltando-me cansado, como que se voltaria para acenar adeus a Rochefoucauld,
Se a rua fosse tempo e ele no fim da rua,
E digo: - Prima Henriqueta, aqui está o Boston Evening Transcript.

(Prufrock and Other Observations, 1917)


SOU UMA CRIATURA
de G. Ungaretti

Como esta pedra
do S. Miguel
assim fria
assim dura
assim enxuta
assim refractária
assim totalmente
desanimada
como esta pedra
é o meu pranto
que não se vê

A morte
desconta-se
vivendo.

(Allegria di Naufragi, 1919)

(de O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios, edições Asa, 1994 - originalmente publicado em Gazeta Musical e de todas as artes, Ano IX, 3ª série, nº 91/92 de Outubro/Novembro de 1958)

22.12.03

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Tocar com um dedo, auscultar
a pulsação,
o ritmo único das pedras do deserto,
algumas ervas ou talvez estrelas,
talvez apenas uma haste silenciosa
e, todavia, saber arriscar tudo
num jogo em que a pobreza é extrema
e o desastre de um exacerbado múltiplo
pode fragmentar o prisma incorruptível
e desviar o dardo da divina desmesura.
A mão, no entanto, escruta e suscita
as constelações tecidas pela matéria
do silêncio num alvor de navio
e as torres lentas das pulsações
ao longo das veias
com janelas abruptas e ardentes.
Há um assombro nos músculos e palavras
e os olhos são porosos como os seixos.
Fulminado pelo impossível, o poema
sustenta-se sobre o ilegível
entre a plenitude e o nada.

(de O Centro Inteiro, em colaboração com Agripina Costa Marques e António Magalhães, Cadernos Solares, 1993)

21.12.03

JORGE PALMA

+ 1 Comboio


Vejo tanto olhar encafuado
Em automóveis bestiais
Casos graves de bem estar,
Por mais que tenham, nunca têm a mais.

Aleijados do conforto,
Refugiados na t.v.,
O pior não é estar triste
O pior é não saber porquê.

Há o entretenimento
Há o remoto control
Há-de haver mais um comboio
Para o centro comercial

Nesta altura ninguém faz greve,
Embora muitos tentem adormecer
Alguns vão derretendo a neve
Nas colheres a ferver.

Nas entradas do metro, o frio
É combatido com papel de jornal
Útil informação para os que estão na frente,
Cegos pelas luzes do Natal.

(do CD Espanta Espíritos, de 1995 - com música de Flak)

20.12.03

O prémio Luís Miguel Nava, instituído em 1998 pela fundação criada por vontade testamentária do poeta e a que também foi dado o seu nome, tem premiado todos os anos um livro de poesia editado no ano anterior.
Têm sido escolhidos excelentes livros, mas não dos mais divulgados, até porque a poesia, por si, não é mediática - o próprio poeta que dá nome ao prémio só há pouco tempo começa a ser mais conhecido e, mesmo assim, quase só pelos poucos leitores habituais de poesia.
Será interessante verificar, na lista abaixo, que todos os autores dos livros premiados até agora são autores já consagrados e todos mais velhos que Luís Miguel Nava (1957-1995). Este facto contrasta com o (quanto a mim) excessivo furor que tem provocado a poesia de poetas nascidos muito depois de Nava.

Eis a lista:

1997 - O búzio de Cós de Sophia de Mello Breyner Andresen (n. 1919)
1998 - Geórgicas de Fernando Echevarría (n. 1929)
1999 - Quatro Caprichos de António Franco Alexandre (n. 1944)
2000 - Lisboas de Armando Silva Carvalho (n. 1938)
2001 - Teatros do Tempo de Manuel Gusmão (n. 1945)
2002 - Lições de Trevas de Fernando Guimarães (n. 1928)
FERNANDO GUIMARÃES

Nasceu em 1928.

As nossas mãos, ao abrirem um livro, por vezes detêm-se subitamente.
Mas logo outro movimento principia, o dos olhos que procuram não as mãos que seguram o livro, mas aquelas que o escreveram. É, então, que se encontram aí novas palavras. Elas são as que efectivamente lemos, mas não lhe pertencem agora. Desapareceram para que o livro seja escrito desde o princípio.

(texto inicial)


O que podemos esperar? É mais perto que vês
um caminho. A ele nos habituamos. É deste modo
que consegues compreender-me melhor. Reparas agora
como os gestos podem ficar reduzidos a um único
movimento e as cores à mesma transparência
que as há-de tornar maiores. Encontras o sentido
que pertencia a tudo, para que finalmente seja
apenas nosso, como se olhássemos para longe.

(da sequência Acerca do Sentido)


O olhar diante de outro olhar o que vê? Antes
era a distância entre ambos, esse relance súbito
que se torna interior, o seu cume tranquilo
dentro de cada imagem. Há um novo segredo
que vinha ter connosco e ali ocupa o espaço
que não é de ninguém. Assim foi o princípio
tão súbito dessa perda para que seja a leve
intimidade de em tudo haver o mesmo encontro.

(da sequência Lições de Trevas)


SEGREDO

Os gestos que esconderam qualquer rosto.
E mais nada. O que sentes lembra agora
uma enseada ao longe. Assim o modo
de surpreender mais cedo o que era a mesma

imagem que sujeita a própria ausência
ao que por ser assim contém a nova
vontade de encontrar uma mais íntima
direcção insuspeita que se alonga

noutro sentido até ficar oculta
só por instantes no que se aguardava
há muito: este segredo onde procuras

um rio ou uma ponte, os gestos leves
sobre o rosto voltado para nada
daquilo que foi nosso e assim se perde

(da sequência Seis Poemas)


Caminhamos até este lugar. Fecho os olhos para conhecer
o que se torna igual a uma promessa. As flores morrem nas jarras
e deixam cair ao longo dos caules um peso estranho. Tu reparaste
na sua transparência. Como era íntimo esse movimento capaz de vir
percorrê-las para ser menor esta destruição. É assim que principia
a perda do mesmo brilho que existe à nossa volta. Já nada
espero e, por isso, deixei que de mim o tempo se afastasse. De longe
chega uma voz e ela procura os lábios vazios até ficar dispersa
pela névoa. É talvez uma única palavra. Há quem julgue
que se trata da pronúncia que passa por uma ferida.

(da sequência Considerações de Ovídio acerca do seu desterro)

(poemas do livro Lições de Trevas, edições Quasi, 2002 - biblioteca “uma existência de papel”)
MATILDE ROSA ARAÚJO

Nasceu em 1921.

PÁGINAS DE DIÁRIO

Outro dia
Montanhas longe alagadas de rosa pálido. O sol já se pôs aqui, as árvores estão mais escuras, os prédios indecisos parece que vão cair. Em baixo passa uma menina de branco, chapéu e vestido brancos, numa bicicleta. Um chapéu de abas largas. Ali mais para a esquerda os montes estão azuis. Uma tristeza enorme me torna prisioneira solitária de uma ilha e mesmo assim sinto-me senhora do mundo. A minha janela é alta e a beleza deste morrer do dia tamanha. Já a menina deslizou e sumiu-se como uma flor pelo asfalto cinzento a rolar. E eu fui assim como uma gota que de mim inteira resvalasse.

(in Árvore - folhas de poesia - 1º fascículo, Outono de 1951)



LUCIDEZ DESNECESSÁRIA

Diante das estrelas
E do sol
Sabendo a morte
E a vida aranha
Disconforme
E concordante
Pronta a parar na teia
Envelheci
Mas posso olhar ainda
Ainda
Cravos de sangue e rosas da estrada
Como se eterna fosse
Mas tão tarde.

(de Voz Nua, livros Horizonte, 1986)


VIDA

- Mãe! O mundo é mau,
Torna a flor num lodo
E um pássaro num verme,
E eu não sabia...

- Filha! Semeia flores no lodo,
Empresta o teu canto ao verme.
Se as tuas mãos continuarem puras
E meigo o teu coração,
Acredita que o mundo é belo.
E saberás!

(de O Cantar da Tila - poemas para a juventude, Atlântida editora, 1979 - desenhos de Maria Keil)