12.7.04

PABLO NERUDA

O MAR


Um único ser, mas não existe sangue.
Uma carícia apenas, morte ou rosa.
Vem o mar e reúne as nossas vidas,
sozinho ataca e reparte-se e canta
em noite e dia e criatura e homem.
A essência: fogo e frio: movimento.

(de Plenos Poderes, tradução de José Bento, in Antologia de Pablo Neruda, editorial Inova SARL, 1973 - colecção as Mãos e os Frutos)
Hoje é dia da Terra da Alegria

11.7.04

ANTONIO GAMONEDA

Oír el corazón
en un silencio nuevo,
advertir el destino
donde estaba el deseo.

Oh verdadero amor,
qué sensación de tiempo
poseído, pensar
en el mundo y en ti
en sólo un pensamiento.

(in Edad - Poesía 1947-1986, Catedra, 5ª ed: 2000)

10.7.04

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

SEGREDOS


Segredos de uma espécie tão rara
na altura das grandes migrações
a vida pobre os bosques
o vento arrasa nuvens pelo céu
sem outro saber

O tempo era maior
do que se dizia
e ela dispunha-se a contar tudo
do mesmo modo delicado

para Maria de Lourdes Pintasilgo

(de De Igual para Igual, Assírio & Alvim, 2001)

9.7.04

EGITO GONÇALVES

Beijo não é palavra de poema. É o raiar da madrugada, o anúncio de um dia longo, o final da tensão que ameaçava partir a corda: podemos escolher imagens, comparações, fazer literatura. Será sempre outra coisa, meu amor, o beijo do poema. É como o branco que dizem ser a fusão de todas as cores. Não se retira um beijo do poema, este é apenas a fotografia de alguns pormenores. Um beijo é o corpo que antes não existia e ali nasce, uma nova estrutura óssea que suporta um pulsar único, um aposento onde o esplendor apaga todas as lágrimas que conseguiram viver até chegar ali.

(de O Mapa do Tesouro, editora Campo das Letras, 1998 - O Aprendiz de Feiticeiro)
[em face dos últimos acontecimentos]

MÁRIO CESARINY

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

(mais uma Nobilíssima Visão)

7.7.04

Dom HÉLDER CÂMARA

Que toda palavra


nasça
da ação e da meditação.
Sem ação
ou tendência à ação
ela será apenas teoria
que se juntará
ao excesso de teoria
que está levando os jovens
ao desespero.
Se ela é apenas ação
sem meditação
ela acabará no ativismo
sem fundamento,
sem conteúdo,
sem força...
Presta honras ao Verbo eterno
servindo-te da palavra
de forma
a recriar o mundo.

(de O Deserto é Fértil, editora Civilização Brasileira S. A., 1976)
Hoje é dia da Terra da Alegria.
Lá, tento fazer uma homenagem a Sophia de Mello Breyner. Reconheço que o texto não está grande coisa, ainda para mais pelo que pretende...
Sei que não é justificação que convença, mas é muito difícil expressar convenientemente o impacto que a grandeza da obra de Sophia tem na minha vida.
Talvez as palavras que se seguem digam melhor.

5.7.04

perguntamos um ao outro quem somos
deixamos o ar cair sobre o que desejamos

4.7.04

[só para lembrar àqueles que fizeram promessas, que uma das invocações mais frequentes de Nossa Senhora, em Fátima, é Téotokos]
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Depois da cinza morta destes dias,
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.

(de Coral, 1950)
O Almocreve das Petas evoca Sophia da maneira informada e rigorosa a que nos tem habituado.
No entanto há que fazer dois reparos: O Bojador, incluído na lista dos livros de poesia, é uma pequena peça de teatro "escrita em 1961, para as filhas qu frequentavam o 3º ano do liceu no Colégio de S. José das Irmãs Dominicanas" e foi, de facto, editado apenas em 2000 pela editorial Caminho e belamente ilustrado por Henrique Cayatte; é omitida uma outra peça de teatro: O Colar, editado também pela Caminho, em 2001.
Já agora: a fotografia incluída na evocação é de Fernando Lemos.
Há coincidências inefáveis: a poesia que enche as ruas de Lisboa no dia em que Sophia vai a sepultar é feita em grande parte por gente vinda da Grécia.
JORGE DE SENA

ODE PARA O FUTURO


Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárneo, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.

(de Pedra Filosofal, 1950)