28.3.08

RUI COSTA

Rafaela é bela e nenhum livro consegue disfarçar a beleza. Podemos negá-la, torcê-la, podemos amputá-la, esquecê-la, podemos nunca falar nela. Mas ela surge do avesso, põe-se atrás de portas que no momento seguinte são abertas. Transmuta-se na nossa negação e quando julgamos que o assassínio é possível é ela que se ergue das cinzas fumegantes do cadáver. O poeta nega a lírica e falha completamente, escreve um poema que não lhe sustenta os passos e eis que ela aparece sentada e sorridente e então é o tempo que pára e nós a inventar a forma de lhe pedirmos desculpa. Claro que essa desculpa é traiçoeira, claro que queremos a destruição sem vestígios, claro que sofremos com isso e temos medo que o nosso medo a volte a profanar. Inventamos fugas ao ritmo, dissonâncias, criamos martírios impossíveis de escrever. Insultamos a ginga das mulheres, sua melodiosa elipse, inventamos metonímias como forma de as surpreendermos em tudo. Mas em tudo é em nossa própria pele que caímos.

(excerto de A Resistência dos Materiais, exodus, 2008)

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