8.12.03

Cardeal ALEXANDRE DO NASCIMENTO

Nasceu em Malanje, Angola, em 1925.
Ordenado presbítero em 1952 e bispo em 1975.
Foi bispo de Malanje e de Lubango e, desde 1986, é Arcebispo de Luanda, sendo emérito desde 2001.
Foi feito Cardeal em 1983, na sequência do rapto a que foi sujeito no ano anterior.

MAMÁ MUXIMA

Na Polónia florida e na terra dos Bascos
Na terra dos Teutões e na Tíndari dos Sículos,
Na Suíça polida e na Itália gentil,
Em muita outra parte, é pura verdade
Que é como preta que a Virgem veneram.

Bem sei que Murillo o impossível pintou,
E que Velasquez, o divino, de Rafael é rival.
Quem não viu em Madrid, quem não viu em Florença,
Milagres de pintura, assombros de cor?
Mas vê como passa essa turba fastienta
Diante de um retábulo de tanto requinte!
Parece sonâmbula, pensa noutra coisa,
Tem o sorriso frio de gente sabedora:
É gente erudita que leu Kant, conhece Espinosa...
Do que não suspeita, por certo, é que tem
a alma defunta...

Outra coisa é este meu povo, este povo sofredor
Gente do "mato" e do chimbeco em Luanda,
- A Velha Mutudi, a tia Ximinha;
Gente que ri, porque sabe o que é chorar;
Gente que cumprimenta, porque sabe o que é desprezo,
Gente que reza e finge zanga à Senhora.
Mas é certo e seguro, nem posso duvidar
Que tem amor, muito amor consigo esta gente.
Há nela essa fé que o Senhor diz fazedora de milagres.

Entre a Virgem do céu e este povo que sofre
Há funda amizade, há infinda ternura
Por isso eu não me rio, nem estranho sequer
Quando vejo gritar, simular grande zanga
Se tarda o milagre, ó Virgem Senhora!

Elas sabem como tomar-Te, entendem-Te tão bem!
Como roçam as mãos e os rostos também
No Teu manto bendito, bendita Mãe!
Pois é este povo que não estranha
Que sejas branca e também sua Mãe!
Mas sou eu quem Te faz a pergunta:
Porquê és assim?
Preta bem preta, nas terras dos brancos,
Branca bem branca na terra dos pretos!
- Não vês, meu filho, que vos quero lembrar
Que sois todos meus, meus pequeninos?
Assim vos não esqueçais que brancos ou pretos
Tendes a vossa Mãe que também é Morena:
Branca muito branca, na terra dos Pretos,
Preta bem preta, na terra dos Brancos:
O que conta para mim não é a cor,
Basta-me o coração: "Muxima!".


DISCRETA E TERNA

Discreta e terna há-de envolver-me
a luz terna do Teu olhar,
Senhora a Quem tantas vezes eu disse
"Ave Maria, cheia de graça":
que Tua presença me não falte
nessa hora, nesse instante.
És a Virgem fiel - a que mantém as promessas,
por isso, Tu cumprirás a promessa:
cumprirás, porque cá me diz o coração: "Mãe!"

Virás, assim, à beira do meu leito,
ou onde quer que a vida me comece a abandonar,
"Santa Maria, Mãe de Deus".
Olhar vago, talvez ardendo em febre,
talvez então nem de Ti eu me lembre,
ó meu Amor de sempre...

"Rogai por nós, pecadores".

Sei, porém, - mais: tenho a certeza
que foi por minha causa
que o Senhor orou: "Nas Tuas mãos,
Pai, entrego a minha alma..."

Desde então, é certo,
sempre que o poente da vida
crisma a fronte de um homem,
vibra intenso, como no Calvário,
o brado saído do coração de Deus:
"Mulher, aí tens o Teu filho".

Discreta e terna há-de envolver-me
a luz terna do Teu olhar.
Estreitando-me junto ao Teu peito virginal,
dirás então aos Anjos em êxtase:
"Um menino nos acaba de nascer..."

Há-de sorrir Isaías.
E Deus, também.

(de Livro de Ritmos, Gráfica de Coimbra, 1994)
[mais um na blogolândia]

JACINTO LUCAS PIRES

[primeiro parágrafo de]
Sombra e Luz

À minha frente estava um homem com duas caras. O comboio atravessava a noite escura. Uma cara olhava-me do vidro, por dentro dela passavam quintais, luzes, casas negras, pessoas, luzes, árvores de braços cortados, luzes, a outra, que o homem tinha sobre o pescoço, via o que lá fora era de ver. Os dois olhares, não sei como, não se cruzavam. Era estranho aquilo. O reflexo era mais real do que a coisa reflectida. Pensei então que o homem era feio. Tinha as sobrancelhas muito grossas e juntas, o nariz torto, a boca indecisa, a barba mal feita, os cabelos grisalhos. A seguir pensei que era bonito. Olhava-me.
(...)

(de Para Averiguar do seu Grau de Pureza, livros Cotovia, 1996)

7.12.03

[gosto muito de inventários XXXII]

São PAULO

(...) em tudo recomendamo-nos como ministros de Deus: por grande perseverança nas tribulações, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nas desordens, nas fadigas, nas vigílias, nos jejuns, pela pureza, pela ciência, pela paciência, pela bondade, por um espírito santo, pelo amor sem fingimento, pela palavra da verdade, pelo poder de Deus, pelas armas ofensivas e defensivas da justiça, na glória e no desprezo, na boa e na má fama; tidos como impostores e, não obstante, verídicos; como desconhecidos e, não obstante, conhecidos; como moribundos e , não obstante, eis que vivemos; como punidos e, não obstante, livres da morte; como tristes e, não obstante, sempre alegres; como indigentes e, não obstante, enriquecendo a muitos; como nada tendo, embora tudo possuamos!

(2ª Carta aos Coríntios, 6, 4-10)
[gosto muito de inventários XXXI]

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

FELICIDADE


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta

(de Livro Sexto, 1962)
[Neruda a fazer inveja a Carlos Tê...]

PABLO NERUDA

A areia


Estas areias de granito amarelo são privativas, insuperáveis. (A areia branca, a areia negra, aderem à pele, ao fato, são impalpáveis e intrusas.) As areias douradas de Isla Negra estão feitas como pequeníssimos penhascos, como se proviessem de um planeta demolido, que ardeu longe, lá em cima, remoto e amarelo.
Toda a gente atravessa a margem arenosa agachando-se, e procurando, remexendo, a tal ponto alguém chamou a esta costa «a Ilha das Coisas Perdidas».
O oceano é incessante fornecedor de pranchas carcomidas, bolas de vidro verde ou bóias de cortiça, fragmentos de garrafa enobrecidos pelas ondas, detritos de caranguejos, búzios, lapas, objectos devorados, envelhecidos pela pressão e pela insistência. Existe espinhas quebradiças ou ouriços minúsculos ou patas de navalheira roxa, o serpentino cochayuyo, alimento dos pobres, alga interminável, e redonda como uma enguia, que resvala e brilha, sacudida ainda na areia pela onda reticente, pelo oceano que a persegue ainda. E já se sabe que esta planta marinha é a mais comprida do planeta, crescendo até quatrocentos metros, presa como um titânico ramo parasita à penedias, sustentando-se como uma divisão de bóias que sustêm a cabeleira da alga macrocristis com milhares de pequenas tetas de âmbar. E como no território andino voa o condor e sobre o mar chileno se reúnem planando todas as famílias do albatroz e como o cachalote ou baleia dentada submergiu nas nossas águas e aqui sobrevive, somos uma pequena pátria de asas muito grandes, de cabeleiras muito longas sacudidas pelo grande oceano, de presenças sombrias nos porões do mar.

(de Una Casa en la Arena, 1966 / Uma Casa na Areia, publicações Dom Quixote, 1998 - tradução de Fernando Assis Pacheco)
[gosto muito de inventários XXX - com um agradecimento à Sandra]

CARLOS TÊ

INVENTÁRIO


Um pneu Michelin, um tampo de fórmica, uma
camurça, um gato morto, um sifão de autoclismo,
uma lata de Sheltox, dois tampaxes, uma garrafa
Três Marias, duas cotonetes, um colchão, um
espelho de alumínio anodizado marca Corsino,
um feto, um frasco de mokambo, um calendário
plastificado da Obra Salesiana com o Sagrado
Coração de Jesus, uma tainha, um cagalhão, uma
Barbie decepada, dois preservativos, três algas,
um Tantum verde, uma embalagem de natas
Agros, uma placa de esferovite, uma diskete TDK,
uma maçã Starking, um disco da Orquestra do
Ray Connitt, uma golfada de nafta e água, muita
água. De onde virá tanta água?

(de penso sujo, in-libris, 2003)
[gosto muito de inventários XXIX]

GLORIA FUERTES

- Hornillos eléctricos brocados bombillas
discos de Beethoven sifones de selt
tengo lamparitas de todos los precios,
ropa usada vendo en buen uso ropa
trajes de torero objetos de nácar,
miniaturas pieles libors y abanicos.
Braseros, navajas, morteros, pinturas.
Pienso para pájaros, huevos de avestruz.
Incunables tengo gusanos de seda
hay cunas de niño y gafas de sol.
Esta bicicleta aunque está oxidada es de buena marca.
Muchas tijeritas, cintas bastidor.
Entren a la tienda vean los armarios,
tresillos visillos mudas interiores,
hay camas cameras casi sin usar.
Artesas de pino forradas de estaño.
Güitos en conserva,
óleos de un discípulo que fue de Madrazo.
Corbatas muletas botas de montar.
Maniquíes tazones cables y tachuelas.
Zapatos en buen uso, santitos a elegir,
tengo santas Teresas, San Cosmes y un San Bruno,
palanganas alfombras relojes de pared.
Pitilleras gramófonos azulejos y estufas.
Monos amaestrados, puntillas y quinqués.
Y vean la sección de libros y novelas,
la revista francesa con tomos de Verlaine,
con figuras posturas y paisajes humanos.
Cervantes Calderón el Óscar y Papini
son muy buenos autores a duro nada más.
Estatuas de Cupido en todos los tamaños
y este velazqueño tapiz de salón,
vea qué espejito, mantas casi nuevas,
sellos importantes, joyas...

(de Obras incompletas, Madrid: Cátedra, 1975 - gentilmente cedido pelo amigo Ferran)

6.12.03

[mais um que se apercebeu do sagrado do mundo no olhar de um transeunte]

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Calle Principe, 25


Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

(de Baldios, Assírio & Alvim, 1999)
S. S. KHARKIANÁKIS

é bispo da Igreja Ortodoxa Grega de Sydney, Austrália.


Intensive care

A poesia, irmã, não é
Nem canção, nem reflexão.
Poesia é «cuidado intensivo»
Aplicado à criação em sangue
E sobretudo registo
De como a vida conduz à morte.


O cidadão de hoje

As relações com os semelhantes
Tornaram-se tão complicadas
Que as únicas actividades que não exigem conselho jurídico
São os desmaios, o enjoo e as lágrimas.


O humanismo das árvores

As árvores fiéis ficam onde as plantamos
Derrotam a inércia da morte
Absorvem a distância com uma constância sem falhas
Com todo o seu corpo bandeira rumorejante
Ralham aos bichos pelos seus
Movimentos sem rumo.


Antropocentrismo

O sagrado do mundo não está contido
Na história do Génesis
Pois ninguém a viveu
Nem estamos obrigados a cálculos devotos.
O sagrado do mundo é função
Duma dor vivida que não se pode registar
Num diário pessoal nem numa obra de arte
Pois não dispomos de instrumentos para tal.
O sagrado do mundo apercebi-o
Fitando o profundo olhar dum transeunte
Que ia sendo atropelado
Ao passar distraído na passadeira.

(in Di Versos, 6 - Outono de 2001 - tradução de Manuel Resende)
Ontem, no Telejornal, um octogenário de Castelo Branco, a quem a polícia apreendeu um arsenal bélico de fazer inveja a um pequeno exército, declarava com o maior à-vontade e com um sorriso na cara:

"Não há nenhuma lei que proíba um cidadão de cometer crimes."

5.12.03

TAMARA KAMENSZAIN

Nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1947.
Começou a publicar em 1973.
É um dos nomes mais significativos da poesia argentina contemporânea.

ESCUDO DE DAVID

Debaixo de sua boina negra
há um teto inflamável
turbulências
as nuvens vermelhas do trópico
flamejam acaloradas
a meio pau sobre Havana Velha
onde ninguém sabe dizer
onde repousam os restos
o que resta de mim
me deixa à mercê
de meu próprio mausoléu
puta
detida sobre seus pés
não espero por ninguém
e insisto que alguém
tem que chegar
um messias
sobre sua boina negra ladeado
o olho da tempestade
o manto celestial que arranque
pontas estreladas
dos óculos de Trotsky
estilhaços de um herói que se estampa
entre o peito e as costas
uma camiseta ferida
vale como escudo.


ANTEPASSADOS

Aonde vão?
Vou com eles descendo de meus filhos
até onde queiram chegar astros circulantes
se na hora do nascimento calcularam ascendente
não o abandonem mais.
Do Mar Negro até o Estreito
naturalizam-se comigo de mim procedem
meninos de sobrenome decomposto
viajando para ser argentinos
imigrantes por vomitar no convés
dando voltas eles nos voltam
como vinil arranhado dos beatles
da Rússia para cá
e daqui para a URSS que foi
donos de um deserto que avança
bisavós do nada.


MURO DAS LAMENTAÇÕES

Uma pasta vazia
sobre a mesa vela os restos
Com o quê escrever agora?
Resta apenas
o alefbet que com a ponta de mármore
anota nome e data
em outro mundo.
Cega, leiga, analfabeta,
que eu não bata a cabeça
contra a tumba imponente
dessa parede.

(de O gueto, Moby-Dick, 2003 - tradução de Carlito Azevedo e Paloma Vidal - este livrinho está a ser distribuído juntamente com o último número da revista Inimigo Rumor)
NELLY SACHS

Nasceu em Berlim, em 1891.
Começou a publicar em 1921 e recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1966.
Morreu em 1970.

MÃOS
Dos jardineiros da Morte,
Que da macela do berço,
Que medra nas várzeas duras
Ou na encosta,
Fizeste nascer morte, o monstro de estufa do vosso ofício.
Mãos,
Que arrombais o tabernáculo do corpo,
Filando como dentes de tigre os sinais dos mistérios -
Mãos,
Que fizestes vós,
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Pegastes numa gaita de beiços, nas crinas
Dum cavalo de baloiço, agarrastes a saia da mãe no escuro,
Apontastes pra uma palavra na cartilha -
Era talvez Deus, ou Homem?

Ó mãos degoladoras,
Morreu a vossa mãe,
A vossa mulher, o vosso filho?
Pra manterdes assim só a morte nas mãos,
Nas mãos degoladoras?

(de Nas Moradas da Morte / In den Wohnungen des Todes, Berlim, 1946)


MÃE DE LUTO

DEPOIS DO DESERTO do dia,
no deserto do entardecer,
sobre a ponte q o amor
com lágrimas construiu sobre dois mundos,
veio o teu menino morto.
Todos os teus caídos castelos no ar
os cacos dos teus palácios devorados pelas chamas,
cânticos e bênçãos
desmoronados no teu luto,
cintilam à volta dele como um castelo
que a morte não conquistou.

A sua boca orvalhada de leite,
a sua mão que se adiantou à tua,
a sua sombra na parede do quarto
uma asa da noite,
com a lâmpada extinta regressando a casa -
na praia para Deus
espalhado como cibo pra pássaros num mar
o som do eco da prece de criança
e o beijo caído por sobre o debrum do sono -
Ó mãe de lembrança,
nada mais é teu
e tudo -
pois as estrelas cadentes buscam
através dos campos de papoilas do esquecimento
no seu caminho de regresso o teu coração,
pois todo o teu conceber
é dor desamparada.

(de Escurecer as Estrelas / Sternverdunkelung, Amsterdão, 1949)


MAS DE NOITE,
quando os sonhos c'uma lufada de ar
levam paredes e tectos de quartos,
começa a peregrinação pra os mortos.
Sob o pó de estrelas os procuras -

A tua saudade vai construindo a irmã -
dos elementos que a mantêm escondida
traze-la cá pra dentro
até que ela respira no teu leito -
mas o irmão vai dobrar a esquina
e o esposo regressou já muito alto
então a humildade faz-te emudecer -

Mas depois - quem interrompeu a viagem -
começa o regresso -
Como os queixumes das criancinhas
assustadas co'a Terra
estás tu -
a morte dos mortos abateu-se
c'o tecto do quarto -
protectora jaz a minha cabeça sobre o teu coração
o amor - entre ti e a morte -

Assim chega o crepúsculo
espalhado co'a semente rubra do Sol
e a noite desfez-se em lágrimas
dia dentro -

(de Terra de Israel / Das Leiden Israels, Francoforte do Meno, 1964)


Escuro ciciar do vento
na seara
A vítima pronta ao sofrimento
As raízes estão caladas
mas as espigas
sabem muitas línguas maternas -

E o sal no mar
chora na distância
A pedra é uma existência de fogo
e os elementos puxam pelas cadias
pra a união
quando a escrita espectral das nuvens
recolhe imagens primevas

Mistério na fronteira da morte
«Põe o dedo nos lábios:
Silêncio Silêncio Silêncio» -

(de Enigmas em Brasa / Gluhende Ratsel, incluído em Spate Gedichte, Francoforte do Meno, 1965)

(poemas incluídos em Poemas de Nelly Sachs, antologia, versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela, Portugália, 1966)
YEHUDA AMICHAI

é um poeta e novelista. Grande parte da sua obra foi traduzida para outros idiomas, assim como a sua novela Não desta época, Não deste lugar. Em 1982, recebeu o Prêmio Israel de Poesia.
[Como já foi dito, há mais informações no Quartzo]


NOS MONTES DE JERUSALÉM

Aqui onde a ruína anseia reerguer-se,
Seu desejo é agregado ao nosso.
Mesmo os espinhos, cansados de ferir,
Querem consolar.
E a lápide, arrancada de uma sepultura profanada,
Foi colocada na nova muralha, com seu nome e suas datas.
E alegra-se, porque não será esquecida.
E as crianças, as únicas que poderiam tudo mudar,
Brincam entre rochas e ruínas.
Elas nada querem modificar.

O cancelamento de uma noite de amor no Neguev
Faz nascer uma flor nos montes de Jerusalém.
Coisas se esvaziam e se enchem,
E nem sempre você está entre as que se enchem.
E o tomilho, nem sempre cura,
Mas rasga uma profunda ferida no esquecimento,
Recordação de uma sede antiga.

Todos aqui se ocupam da tarefa de lembrar.
A ruína se lembra, se lembra o jardim,
O poço recorda suas águas e o bosque, que o plantaram,
Lembra-se, na laje de mármore, um holocausto distante
Ou mesmo, somente o nome de um doador morto,
Para que seja lembrado um pouco mais que os outros.

Mas nomes não são importantes nestes montes.
Como no cinema, quando da lista de participantes na tela
Antes do filme, ela ainda não é interessante; e no fim do filme -
Já não o é mais. Acendem-se as luzes, as letras se dissolvem
E desce a ondulada cortina, as portas são abertas e do lado de fora é noite.

Para esses montes somente o verão e o inverno são importantes,
Somente o seco e o molhado: e até mesmo as pessoas
São meros receptáculos da água dispersa em volta,
Como poços e cisternas e fontes.


NAS LARGAS ESCADAS - A POSTOS À ESPERA DA FELICIDADE

Nas largas escadas que descem para o Muro das Lamentações
Uma linda mulher me apareceu: "Você não se lembra de mim,
Eu sou Shoshana, em hebraico. Sou outra em outras línguas.
É tudo futilidade".
Assim disse ela na hora do crepúsculo, de pé entre o destruído
E o em construção, entre a luz e a escuridão.
Pássaros negros e pássaros brancos trocavam lugares
Ao compasso intenso da respiração.
A luz das câmeras dos turistas iluminou também a minha memória:
O que faz você aqui entre o prometido e o esquecido,
Entre o esperado e o imaginário?
O que faz você aqui à espera da felicidade,
Com seu lindo rosto de garota-propaganda do turismo de Deus,
E sua alma dilacerada e rasgada como a minha?

Ela me respondeu: Minha alma está dilacerada e rasgada como a sua
E é isso que a faz bonita,
Como uma fina renda.


O MOINHO EM YEMIN MOSHE

Este moinho jamais moeu farinha.
Ele moeu ar santo e os pássaros
da saudade de Bialik, ele moeu
palavras e tempo triturado, ele moeu
chuva e até mesmo bombas,
mas ele jamais moeu farinha.

Agora ele nos descobriu,
E mói a nossa vida, dia a dia,
fazendo de nós farinha da paz,
fazendo de nós o pão da paz
para as gerações futuras.


UM PASTOR ÁRABE PROCURA UM CABRITO NO MONTE SION

Um pastor árabe procura um cabrito no Monte Sion,
E no monte em frente eu procuro por meu filho pequeno.
Um pastor árabe e um pai judeu
Ambos no seu temporário fracasso.
Nossas vozes se encontram sobre
A piscina do Sultão, no vale entre nós.
Nenhum de nós quer que o filho e o cabrito
Entrem no terrível processo
Da música da Páscoa "Um Cabrito".*

Depois achámo-los entre os arbustos,
E nossas vozes retornaram a nós
E choraram e riram por dentro.

As buscas de um cabrito ou de um filho
Foram sempre
Começo de uma nova religião nestes montes.

_______________________________________

* Uma cantiga infantil cantada no encerramento da Páscoa dos judeus, com o propósito de ilustração moral, mostrando como os opressores dos judeus, através da História, foram destruídos pela divina retribuição por terem perseguido o "um cabrito" - o Povo Judeu.

(Apresentação do Autor, poemas e nota publicados em ariel - Revista de Artes e Letras de Israel, 1983 - edição especial para língua portuguesa, recolhendo textos da edição normal - tradução de Clara Rosenberg)
PEQUENA EXPLICAÇÃO E AGRADECIMENTOS

Os poemas que aqui publiquei ontem iniciam uma sequência que se pretende multi-religiosa e que parte de uma espécie de preparação que fiz para o encontro de que falei anteontem.

Por feliz coincidência, no regresso, constatei que no Quartzo publicaram um dos poetas que fazia parte dessa escolha, Yehuda Amichai, de quem eu só conhecia os poemas e a referência que publicarei de seguida. O Quartzo dá muito boas pistas para conhecer este poeta e publica uma tradução inédita de Miguel Gonçalves.

Também o Quartzo fez, entretanto, uma referência aos poemas de ontem
Também o amigo catalão Ferran, me refere, oferecendo-me um inventário de Gloria Fuertes e ainda um novo amigo galego, que partilha a admiração por Chesterton.

Enquanto estive fora houve ainda uma outra referência feita pelo Miguel da Cibertúlia, a propósito do Ivan, que lamenta conhecer poucos católicos.

4.12.03

HASSAN ABDALLAH AL-QORACHI

Nasceu em Meca, Arábia Saudita, a 12 de Dezembro de 1934. fez os estudos liceais em Fellah e, depois, com interrupções, frequentou a Universidade, em Ryadh, onde seguiu cursos de História.
Após trabalhar no Ministério das Finanças e na Rádio, e com Embaixador do seu país no Sudão e na Mauritânia, Al-Qorachi consagra-se às viagens e à poesia.
Publicou mais de uma dezena de livros, entre os quais Cor dos Sorrisos, Música Azul, O Lago da Sede e, por último, A Vagabundagem das Caravanas...
O poema antologiado pertence a O Lago da Sede.


PARA QUEM A GLÓRIA

A glória, nesta vida, é para quem paga os seus dias
com tudo o que possui
com pão, com alegria e com sangue
para quem espalha as suas dádivas e dissipa os perfumes
d'alma, do coração que escorre, gota a gota,
do incêndio das dores
A pura glória desta vida é só para quem morre
por um princípio, uma ideia
uma mão-cheia de terra
pelo canto de um pássaro nos jardins amáveis
por uma mulher com o rosto banhado em lágrimas
um sorriso furtivo nas rugas do pai
um chilreio nos lábios da criança
pelo riso do rio
uma tenda que os ventos açoitam de noite
a brotar de uma planta na encosta da montanha


(Versão de Muhammad Abdur Rashid Barahona)

(Apresentação do Autor e poema publicados em O Selo - Revista de Cultura Islâmica e Universal nº 3, 11 de Janeiro 1994 / 28 de Rajab 1414)