26.2.05



(Disco de Phaestos - Creta, 1700 a. C.)
LEWIS CARROLL

WINTER
WINNER
WANNER
WANDER
WARDER
HARDER
HARPER
HAMPER
DAMPER
DAMPED
DAMMED
DIMMED
DIMMER
SIMMER
SUMMER

(1879)

24.2.05

VERLAINE

CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne,
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,

Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure;

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà
Pareil à la
Feuille morte

(de Poèmes Saturniens, 1866)


JAMES JOYCE

TRANSLATION OF VERLAINE'S "CHANSON D'AUTOMNE"

A voice sings
Like viol strings
Through the wane
Of the pale year
Lulleth me here
With its strain.

My soul is faint
At the bell's plaint
Ringing deep;

I think upon
A day bygone
And I weep.

Away! Away!
I must obey
Thid drear wind,
Like a dead leaf
In aimless grief
Drifting blind

(datado de "1900-1902")


CANÇÃO DE OUTONO

O pranto longo
Dos violinos
Do Outono
Fere-me a alma
Com um langor fino
Sempre igual

Já sufocando,
Pálido, quando
Bate a hora

Ainda me lembro
De antigos tempos
E então choro;

E vou-me embora
Por um mau vento
Que me leva
Sem rumo, lento,
Tal como leve
Folha morta

(tradução de Fernando Pinto do Amaral, in Poemas Saturnianos e Outros, Assírio & Alvim,1994 - documenta poetica)

23.2.05

JOSÉ AFONSO

ALEGRIA DA CRIAÇÃO

Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado

A palavra rompeu
Cresceu como a baleia
No silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar estações soprar a ventania
Brilhar de novo o sol sobre a baía

Fui um bom engenheiro um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida
Me ensinou a cantar esta cantiga

Feiticeira
Mãe de todos nós
Flor da espiga
Maldita para tiranos
Amorosa te louvamos
tens mais de um milhão de anos
Rapariga

Quando o lume nos aquece
No grande frio de Inverno
Vem até nós uma prece
Que assim de longe parece
Uma cantiga

Magistrada Nossa natural
Vitoriosa
Curandeira dos aflitos
Amante de mil maridos
Há mais de um milhão de idos
tormentosa

Quando a fera encarcerada
Que dentro de nós suplanta
Quebra a gaiola sozinha
Voa voa endiabrada
Uma andorinha

(do álbum Galinhas do Mato, 1985)

21.2.05

[só para demonstrar o equívoco de umas certas afirmações]

RUI MANUEL AMARAL

Eléctrico n.º 18


Tarde cinzenta de domingo. Chuva a bater nos vidros,
pouco trânsito desaparecendo nas ruas quase desertas do fim-de-semana.
Lembra-me as antigas tardes de Inverno
em que descíamos de eléctrico a avenida da Boavista
entre as pequenas histórias do dia e o vento frio
que crescia nas janelas.
Vagaroso como um caracol, o velho eléctrico seguia pela tarde,
por dentro da sua fina concha de sal.
Cinco mil metros de solidão até ao mar
e o meu amor a desaparecer sob uma nuvem de espuma.

Imenso o céu, intocado pelo brilhos das vastas ondas,
o mar tão branco enrolando nos cabelos,
a invadir os muros, a ecoar nas fachadas.
Homens e gaivotas remoinhando no vento,
os dedos claros como grãos de areia.
Por entre as árvores baixas da foz
o mar espalhava as suas sementes misteriosas.

Há muito que o eléctrico não desce a longa avenida.
Hoje lembrei-me de ti. A tarde caía para sempre
no coração sombrio deste longo Inverno.
Um resto de morte invadiu-me antes ainda de a noite nascer.

(in Diário de Notícias de 7 de Fevereiro de 1999 - secção DN Jovem)


CEUTA

Café Ceuta. Anoitecer. À minha volta as mesas estão vazias. Dois
empregados conversam ociosamente encostados ao balcão. A porta abre-se
(vento frio). Um homem entra. Senta-se do outro lado da sala. Um
empregado aproxima-se. O homem pede um café. O empregado afasta-se.
O homem tira um livro da mala preta e pousa-o sobre a mesa. Acende um
cigarro. Lê a primeira página. O empregado traz o café. O homem bebe um
pouco. Depois arranca a página e come-a. Lê a página seguinte. Acaba de
beber o café. Arranca essa página e come-a também. Apaga o cigarro.
Fecha o livro e guarda-o na mala preta. Levanta-se. Aproxima-se da porta
(vento frio).

Noite. As mesas continuam vazias. lá fora as árvores na praça falam entre si,
na sua linguagem nublada de anjos da distância.

(de Quartzo, Feldspato e Mica, incluído em Com faca e garfo - colectânea de Jovens Criadores 2001, Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2002)


You Are Here

Meia-noite no porto a um domingo de tarde.
O sol avança sem vontade, como um gato ensonado,
pelas amenas ruas de Fevereiro.
Os cafés rangem cheios de gente
acendendo e apagando eternos cigarros
impregnados de Inverno.
Os velhos cruzam a cidade,
aos pares nos autocarros,
de lá para cá e de cá para lá,
dormindo profundamente.
E os pássaros quase se deixam apanhar,
Flutuando como borboletas pesadas
Sobre os canteiros indolentes das praças.
Tudo isto se pode ver em plena penumbra.
E tudo isto Fevereiro arruma,
lenta e meticulosamente,
ao longo de uma interminável tarde de domingo.
E pronto. Mais nada.

(de Bronze, incluído em A Semiologia Segundo Tarzan Taborda - colectânea de Jovens Criadores 2002, Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2003)
MÁRIO DE CARVALHO

Um homem quis ir até ao fim do mundo e foi.
Era uma grande falésia que dava para um abismo.
- Mas onde é que fica mesmo o fim do mundo? - duvidou o homem.
- Aqui ou lá em baixo?

(de Fabulário, &etc, 1984)

20.2.05

CLIVE BRANSON

DOMINGO À TARDE


Aragem delicada que basta para agitar
poeira leve, pequena folha, pela asa de um insecto

música de dança na telefonia; entre o prisioneiro
e a rapariga vestida como rosa, um sorriso.

Uma folha, uma rã, uma sombra, um pedaço de papel,
um gotejar de água, ler, escrever,

coisas que numa calma mais funda do que tudo
levaram toda a tarde à deriva no canal.

(tradução de João Ferreira Duarte, in Leituras - poemas do inglês, Relógio d'Água, 1993)

19.2.05

LORD BYRON

Encontro-me mais uma vez sobre as ondas, uma vez mais!
E erguem-se debaixo de mim as vagas como um corcel
que conhece o cavaleiro. Que o seu bramido seja bem-vindo!
Ah, que me guiem depressa, para qualquer lugar!
embora o mastro estremeça e se incline como um canavial
e as velas sejam impelidas, despedaçadas pelos ventos,
não posso deixar de prosseguir - porque sou uma alga
arrancada das rochas que voga sobre a escuna do Oceano
para onde a arrastam as ondas e a respiração da tempestade.
................................................................................................................

(Tradução de Fernando Guimarães, in Poesia romântica inglesa, Relógio d'Água, 1991 - original de Childe Harold's Pilgrimage, 1816)

18.2.05

JORGE DE SENA

Os paraísos artificiais


Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

(de Pedra Filosofal, 1950)

17.2.05

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

7


um gato assim era quase um sítio perdido entre
o pêlo e o acordar (pequena fábula sonhada por
entre as patas) quem o enviou quis ensinar ao
mundo o sentimento da inveja. a mãe tirava da

boca para lhe dar assim mesmo o lorde mentia
na hora a que chegava das sete vidas paralelas.
um dia fugiu pela manhã o (in)g(r)ato mesmo
sem se despedir ou pagar o que levou:

a coleira nova e o guizo ....................... 150$00
duas latas de comida ............................ 395$00
um saco de areia higiénica ................... 200$00

dá notícias pedaço de deus se acordares desse
intrigante sono repousando de (qual?) cansaço
que pensas tu afinal de Ivan Petrovich Pavlov?

(de Rua Trinta e Um de Fevereiro, 1991)

15.2.05

FERNANDO ECHEVARRÍA

A NOITE NOS ACENDE MOVIMENTOS

A noite nos acende movimentos
luminosos. E ampla se diria
ou paz, se não mover-nos
abrisse dentro da brisa.
Mas mesmo que o silêncio
nos alongue a memória e as axilas
respirem o que vemos,
a custo vemos crescerem às pupilas
os vasos de irem vendo
a inclinação das coisas esquecidas.

(de Sobre as Horas, 1963)

[fatal como eu, na Terra da Alegria de Hoje]

SÉRGIO GODINHO

CASO FATAL

É a mais pura verdade o caso que eu vou contar
quem quiser pode nem acreditar

Sé bem que, aviso já
mentiroso eu não sou
quem quiser pode ir lá ver
que eu não vou.
De mais a mais porque é
que eu havia de ir ver
o que já lá vi com estes dois
por quem sois
crêde em mim
vou contar-vos enfim
o tal caso verdadeiro:
aí vai, tim-tim por tim-tim

Verdadeiro ou não
só posso chamar-lhe atroz
este caso que me estrangula a voz

Não penseis que exagero
nem julgueis que é demais
ou que abuso de pimentas e sais

Não, bem pelo contrário
a minha musa indigente
nem sequer está à altura
e faz figura bem triste
mas bom, já que se insiste
estou disposto a revelar
no que este caso consiste

Ora bem foi assim
este caso fatal
que foi p'ra pior
depois de estar mal

Não me lembro da hora
nem se era noite ou dia
só sei que algo no ar se pressentia

E os pressentimentos
são a modos que mosquitos
a esvoaçarem no ar
esmagar dois ou três
se alivia o freguês
não anula o problema
nem o resolve de vez

Então seguiu-se o resto
do que estava p'ra vir
nem vos conto, p'ra vos não combalir

Foi um ver se te avias
um vai-vem muito louco
um toma-lá-dá-cá e fica com o troco

Teve um pouco de tudo
e foi pouco p'ro que teve
sem ter mais nem porquê
já se vê p'lo aparato
que foi de esfola-gato
este caso que no meu modesto verso relato

Bem, e agora que já
estais familiarizados
com o assunto e seus assins e assados
e que tendes presente
a complexidade
de apartar do mexerico a verdade
podereis ter ficado
com a estranha sensação
que eu nada disse, e porém...

Também muitos doutores
falam bem fazem flores
mas não dizem nada, nada
ao discursar: Meus senhores...

(do álbum Coincidências, 1983)

14.2.05

Relembro as cidades enquanto cor,
maleáveis em viadutos. Ruas
que crescem dentro dos passos sonoros
e barcos que se levantam demais
à procura de limites fechados
entre esta pressa que se faz encontro
depois das casas ainda em segredo.

11.2.05



ARTHUR MILLER

NOTA DO AUTOR

Uma vista de olhos a Os Inadaptados mostra que está escrito duma forma pouco comum, nem de romance, nem de peça de teatro, nem de argumento cinematográfico. Talvez se justifique uma palavra de explicação.
É uma história concebida como um filme e todas as suas palavras têm o fim de indicar à câmara de filmar o que deve ver e as actores o que têm a dizer. É, no entanto, a espécie de narrativa que a forma telegráfica, de diagrama, do argumento cinematográfico não pode transmitir, porque o seu sentido depende tanto dos cambiantes de carácter e de lugar como da intríga. Tornou-se, por conseguinte, necessário fazer mais do que indicar apenas o que acontece; criar por meio das palavras as emoções que o filme acabado deveria possuir. Foi como se já existisse um filme e o escritor estivesse a recriar a plenitude dos seus efeitos através da linguagem, de modo que, como resultado duma tentativa puramente funcional de tornar clara para outros a visão dum filme, de um filme que apenas existisse ainda na mente do escritor, lhe houvesse sido sugerida por si mesma uma forma de ficção, uma forma híbrida se quiserem, mas uma forma que me parece ter vigorosas possibilidades de reflectir a existência comtemporânea. O cinema, a forma de arte mais difundida pela terra, criou, com vontade ou sem ela, um modo particular de ver a vida, e as suas rápidas transições, a súbita junção de imagens díspares, o seu efeito de documentação inevitável em fotografia, a sua economia de narração do argumento e a sua concentração na acção muda, infiltraram-se no romance e na peça de teatro - especialmente nesta última - sem que o factoseja confessado ou, por vezes, sem que seja de modo nenhum conscientemente realizado.
Os Inadaptados utiliza declaradamente as perspectivas do filme, de forma a criar uma ficção que possa ter uma imediação peculiar da imagem e as possibilidades de reflexão da palavra escrita.

(in Os Inadaptados, tradução de Sousa Victorino, Livros do Brasil, 1961?)


[uma evocação muito interessante no novo endereço da Rua da Judiaria]