11.7.05

JUAN GÓMEZ CASAS

- Rio-me quando os senhores que escrevem novelas fazem os seus personagens passar fome, enquanto que eles vivem no melhor conforto e fartura nas suas casas. Rio-me por isto: que saberão eles da fome? Que saberão eles no que se passa nas tripas vazias do faminto, os seus desconfortos, dos quais há toda uma variedade, das suas reacções ou das chispas que a fome dá aos seus pensamentos? Digo-lhes que esses indivíduos que escrevem são todos ignorantes - fez uma pausa, durante a qual agarrou num passarito que saltitava no pescoço. Deu-lhe de comer, estendeu-lhe a mão. Passeou um olhar pelo grupo que o rodeava -. Um dia escreverei qualquer coisa - disse. Qualquer coisa que assombrará e envergonhará muita gente.

(excerto do conto O Homenzinho dos Pássaros, incluído em Histórias do Cárcere, tradução de José Rolim, Cadernos Peninsulares, 1970)

10.7.05

REGINA GUIMARÃES

DIZER-ME RESPEITO

Nenhuma resistência se organiza
apenas alguma simetria de palavras justas
postas em comum. Maldito oásis,
tribunal de árvores na tua sombra não
há descanso para as mãos apenas para,
de serafim em serafim, a competição dos espíritos
de toalha ao pescoço. Passa um pássaro
acobardado; muito e tudo escondem as asas,
numa feérica colheita de pontos de encontro.

(de Anelar, Mínimo, &etc, 1985)

[outros melros XXVIII]

ANA HATHERLY


UM VOO PROTEGIDO


Segundo Messiaen
o melro não canta:
desenha no espaço
complexas colcheias melismáticas.

Não é negro:
às vezes
é mesmo branco
sua brilhante plumagem
em sequestro
está na partitura do Maestro
que aliás
prefere a cor lilás
(muito mais vibrátil
segundo me disse).

Na esfera do não-onde
o melro tem
seu voo protegido.

(de Itinerários, edições Quasi, 2003 - uma existência de papel)
[A página 56!!!]

MÁRIO DE CARVALHO

Isto de amar alguém tem que se lhe diga e decididamente não vem nos livros.
Assim me foi revelado por Simão Ullenstein, quando o encontrei nos últimos anos de uma longa vida, a um canto da terceira sala da gigantesca biblioteca da Aqwa, frente à sua enorme mesa de fichas.
- Pergunte-me qualquer coisa sobre o assunto - disse-me Simão.
Como ter mesmo? - perguntei eu.
Ele manuseou desencantado um ficheiro amarelecido, dobrou em quatro um velhíssimo pergaminho e volveu-me:
- Eu não dizia? Nunca tenho resposta para nada...
Foi toda uma vida de compilador em vão.
O epitáfio de Ullenstein era um artístico ponto de interrogação gótico, muito negro, sobre alvo mármore.
Consegui que os herdeiros de Ullenstein me vendessem os seus ficheiros e documentação.
Uma noite comecei a desempacotar. Estava tudo em branco. Os pergaminhos mais antigos, por ele coligidos, haviam sido cuidadosamente apagados, com uma solução corrosiva.
Há dias voltei à enorme biblioteca. A um canto encontrei um jovem muito moreno, de barbicha negra talhada em ponta. Andava numa azáfama febril, de estante para estante.
Perguntei-lhe que fazia.
- Estou a coligir tudo, sobre amar alguém - disse.
- Conhece os trabalhos de Ullenstein?
- Perderam-se todos no incêndio da biblioteca do Vaticano, não sabia? - respondeu.
- Daqui a sessenta anos nos encontraremos - volvi eu.
Ficou uns momentos quieto. Depois, sem me voltar, ouvi-lhe as passadas miúdas, de prateleira para prateleira, o dedilhar nervoso sobre os infólios.

(de Fabulário, &etc, 1984 - há uma edição mais recente pela editorial Caminho)

9.7.05

[em face dos últimos acontecimentos, caetanear...]

Everybody knows that our cities were built to be destroyed
You get annoyed, you buy a flat, you hide behind the mat
But I know she was born to do everything wrong whith all of that

*

(O cu do mundo esse nosso sítio)
O crime estúpido, o criminoso só
Substantivo, comum
O fruto espúrio reluz
A subsombra desumana dos linchadores

*

Existirmos - a que será que se destina?

*

A mais triste nação
Na época mais podre
Compõe-se de possíveis
Grupos de linchadores

(retalhos de canções de Caetano Veloso)

[post originalmente publicado em 13 de Março de 2004]
Aos 15, 16 anos convivi muito com amigos cerca de 20 anos mais velhos que eu que me deram a conhecer muita da música da sua juventude, coisas irreverentes e subversivas num tempo em que ainda havia censura.
Do meio de tudo isso, certo dia, saiu O Operário em Construção.
A antologia de Vinicius onde consta o poema do post anterior foi, assim, o primeiro (ou um dos primeiros) livros de poesia que comprei.
Não sei como ainda não tinha colocado aqui nada de Vinicius de Moraes até hoje, data do 25º aniversário da sua morte.
Aproveito para referir a excelente evocação que o Ivan d' A Praia está a fazer, sobretudo o post em que se ouve a voz de Chico Buarque num belíssimo depoimento.

Saravá!
VINICIUS DE MORAES

Soneto da intimidade

Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio as vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

(de O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986 - originalmente incluído em Novos Poemas, 1938)

8.7.05

KURT MARTI

folha anexa aos compêndios de história


as velhas guerras estão mortas
as batalhas com que os rapazes se enebriavam
os heróis cantados por professores -
já não existem

as velhas vitórias estão mortas
o esplendor dos senhores da guerra e a glória
de cair vencido num campo de honra -
já não existem

nada é mais obsceno que aquelas guerras
que ainda existem: sémen e óvulo
já em corpos jovens
radioactivados e assassinados

o campo de honra fica baldio
e já há muito os frutos apodreceram -
como monumento de vitórias futuras acena
o salto de mutação para o cretinismo

(de Poemas à Margem, tradução colectiva sob a orientação de Ruth Huber, Apáginastantas, 1987)
VERSOS PORQUE, EM LONDRES...:

7.7.05

[em face dos últimos acontecimentos]

THE CLASH

LONDON CALLING


London calling to the faraway towns
Now war is declared, and battle come down
London calling to the underworld
Come out of the cupboard, you boys and girls
London calling, now don't look to us
Phoney Beatlemania has bitten the dust
London calling, see we ain't got no swing
'Cept for the ring of that truncheon thing

The ice age is coming, the sun's zooming in
Meltdown expected, the wheat is growing thin
Engines stop running, but I have no fear
'Cause London is drowning, and I live by the river

London calling to the imitation zone
Forget it, brother, you can go it alone
London calling to the zombies of death
Quit holding out, and draw another breath
London calling, and I don't wanna shout
But when we were talking, I saw you nodding out
London calling, see we ain't got no high
Except for that one with the yellowy eyes

The ice age is coming, the sun's zooming in
Engines stop running, the wheat is growing thin
A nuclear era, but I have no fear
'Cause London is drowning, and I live by the river

Now get this

London calling, yes, I was there, too
An' you know what they said? Well, some of it was true!
London calling at the top of the dial
After all this, won't you give me a smile?
London calling

I never felt so much alike alike alike alike

(do álbum London Calling, 1979)

30.6.05

Tão ao jeito dos desaforismos do O'Neill
(mas com epígrafe de Ruy Belo)
NUNO GUIMARÃES

Doença de palavras com morfina
sobre o peito que seca e envelhece
(as palavras as pedras como doem)

um peso em cada peito
deserto cada vez mais na raiz.
Não é bem a secura das palavras

mas a secura de aves. Perigoso
estio que, pesando sobre as asas,
lhes fere o voo livre.

Aves de seca. Anos que se queimam
noutro passe, outra morte, outra incerteza
outro repouso algébrico dos membros.

Nem a margem dos rios se acomoda
ao rumor geométrico do fogo
às formas aos sinais - o sedimento

onde as noites e o sono se acumulam
as areias, a fome, o movimento,
o corpo saturado nas arestas.

(de Corpo Agrário, 1970)

29.6.05

Ah!!...
e hoje é dia
da Terra da Alegria
"Quando o Barnabé cá chegou" eu perguntei... agora que ele vai embora é que vem a resposta.
ARMANDO DA SILVA CARVALHO

21.


O verso fabricado não caiu repentino
da pálpebra perfeita.
Também não foi um pulo. Nem o motor
pateta de quem quer dar ao dedo.
Na fissura do liso alfabetado
ardeu a impaciência - agora branda purga
contra os canais histéricos
que refluem no tempo.
Dizem do pobre, a pobreza de espírito,
a limitada obcessão do que é pequeno.
O rótulo não delimita a obra das matrizes
os cristais literários
que o dedo aflora e logo sai repleto
com essa carga eléctrica que explode no silêncio.
As câmaras vivas que a memória habita
reproduzem-se. A fala incha.
As babugens sonoras são este eco do mar,
do mar humano.
Coabitas agora com os parvos da história.
Os que arrastam nos gestos a identificação,
a idade senil dos personagens,
o rio contuso das turvas lavagens cerebrais
sobre um palco doente.
Ouve a bailarina, o arquiduque, o chefe
das metáforas. Toma tento em como se desfaz
a hipérbole cantante no rosto amarelado
e que simula a fala perversa do desejo.
Não isoles o verbo dos seus dados sonoros:
o jogo de mãos, as paulatinas figuras
dos sentidos, os espaços aéreos,
a branca curva que restringe sobre os cemitérios
o árido prazer que te relegam os mortos.
De cada coisa a cada coisa a luz.
A fístula que a febre insonorizou
na garganta doente
seja a poção metálica
seja o fulgor do cérebro na boca
entreaberta.

(de Armas Brancas, 1977)