22.5.06

Fascinados por algo muito mais profundo

Duas pessoas que muito admiro e que leio com gosto e atenção, António Marujo e José Agostinho Baptista, ganharam hoje prémios.
Dois casos, em áreas e modos distintos, de grande rigor na escrita.
[outros melros XXXVI]

FRANCISCO DUARTE MANGAS

O melro bico amarelo
na primavera subia ao alto
da cerejeira
e deixava escorrer um assobio
longínquo: uma bátega tépida
esborratava os campos lavrados

a meteorologia natural
está a chegar ao fim

(de Espécies cinegéticas, 1987)

21.5.06

RUI KNOPFLI

METODOLOGIA


Convoco os duendes da inquietação
e da alegria, urdindo um laborioso
rito circular, delicada teia iridiscente
de que, relutante, a luz se vá
pouco a pouco enamorando.

Palavras não as profiro
sem que antes as tenha encantado
de vagarosa ternura; mal esboçados,
gestos ou afagos, apenas me afloram
a hesitante extremidade dos dedos

que, aquáticos e transidos, estacam
no limiar surpreso do seu rosto.
Movimentos longos da tarde
e sussurros graves da noite
que tendessem para a imobilidade

e o silêncio, não seriam mais cautos
e aéreos. Quietas estátuas de cristal,
intensamente nos fitamos, enquanto
trémula, lenta e comburente,
a luz mais pura nos atravessa.

(de O Corpo de Atena, 1984)

20.5.06

RUI CARLOS SOUTO

DIFÍCIL REALIDADE


Sair ao encontro das árvores
É produzir refúgio
É reduzir tudo a encontrar
Coisas

Depois vemo-nos rodeados
Por janelas
Que não alcançam
Depois as ruas
Misturam-se com as palavras
E falam em monólogo
Com as folhas

É o fumo do tabaco
Perto ao sol
As bailarinas
Junto aos olhos
O movimento lento
Do tempo

Esgota-se o sonho
Até ao limite
Num equilíbrio mascarado
Ou na ilusão

É o cansaço que se bebe
Num certo fechar
De olhos
Certa forma inquieta
De despertar

(de Maneiras de Andar, Black Sun editores, 2001)

19.5.06

[para uma antologia de bicicletas - 5 e 6]

ALEXANDRE O'NEILL


Os outros pedais da bicicleta


Ninguém toma a sério a bicicleta como eventual substituto do automóvel na crise de energia que atravessamos, que nos atravessa. A bicicleta é resignação, fleuma, ginástica, infância revisitada, revivida (mais como sonho do que como prática), humor, euforia dominical de carolas que vão «pescar» a sua caldeirada a vinte ou trinta quilómetros da cidade. A bicicleta poderá ser a pedalada contestação dos amigos da Natureza. Para nós, os escravos do volante, ela não passa de mais uma ideia que nos faz sorrir. Nada substituirá, no nosso apreço, o automóvel. Nem no trabalho, nem no lazer. Por enquanto...
Mas a bicicleta tem outros pedais que não podemos ver. Movido pela necessidade, esse «tubular engonço», como em jeito barroco uma vez lhe chamei, desenrola quilómetros bem menos alegres do que as tiradas que nele sonhamos fazer.
A bicicleta pode ser o mundo às costas: serra de carpinteiro, caixa de ferramentas, cesto de padeiro. A bicicleta pode ser a cruz às costas. Para um renovado olhar sobre a bicicleta, aqui transcrevo, sem mais oitos, o «Apelo Angustiantes» que há anos, por ocasião das grandes cheias na região de Lisboa, apareceu nos jornais:
«O meu marido saiu de casa no dia 25 de Novembro para procurar trabalho no Carregado ou no Barreiro, levava: uma bicicleta a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro, vestia calças azuis de zuarte, camisa verde, blusão cinzento, tipo militar, e calçava botas de borracha e tinha chapéu cinzento e levava na bicicleta um saco com uma manta e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo e uma panela de esmalte azul. Como houve as inundações e não tive mais notícias, já estou alarmada e já espero o pior. Estou aflita, eu e os meus dois filhos.»

(in A Capital, 5 de Fevereiro 1974, compilado em Coração Acordeão, O Independente, 2004 - série Inéditos de Imprensa)


ELOGIO BARROCO DA BICICLETA

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me estangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,

dá-me as asas - trrrim! trrrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar!

(de A Saca de Orelhas, 1979)

18.5.06

[outros melros XXXV]

TEOPHILE GAUTHIER

(...)
Se algum poeta madrugador tivesse passado pela Avenida Gabriel com os primeiros rubores da madrugada, teria escutado o rouxinol terminar os últimos trinados do seu canto nocturno, e visto o melro passear nas suas pantufas amarelas pelo jardim, como faria um pássaro que se sentisse em sua casa; mas, se tivesse passado à noite, depois de abafado o último rumor provocado pelas viaturas que regressavam da ópera, esse mesmo poeta teria podido vislumbrar uma sombra branca que dava o braço a um belo jovem; e o poeta teria regressado à sua mansarda, a alma mortalmente triste.
(...)

(excerto de Avatar, in Avatar e outros contos fantásticos, editorial Estampa, 1973)

15.5.06

ROBERTO JUARROZ

Toda a palavra chama outra palavra.
Toda a palavra é um íman verbal,
um pólo de atracção variável
que inaugura sempre novas constelações.

Uma palavra é toda a linguagem,
mas é também a fundação
de todas as transgressões da linguagem,
a base onde se afirma sempre uma antilinguagem.

Uma palavra é ainda o homem.
Duas palavras são já o abismo.
Uma palavra pode abrir uma porta.
Duas palavras fazem-na desaparecer.

(de Poesia Vertical, antologia e tradução de Arnaldo Saraiva, Campo das Letras editores, 1998 - Campo da Poesia)

14.5.06

JOSÉ TERRA

As palavras ferem-se no vento,
retraem-se no íntimo da concha.

As palavras, em hélice, padecem
a tortura do indeciso tempo.

Saltam da alma como peixes. Ficam
asfixiantes na aridez da praia.

As palavras batem contra o espelho
e evitam o rosto reflectido.

A etimologia emigra no silêncio.
As palavras resignam. É o reino

da esfinge, frio, imperturbável.
As palavras espantam-se no vento

do claro sol, da limpidez da água.
Os archeiros d'El-Rei pisam a noite

e exigem-lhe à entrada o passaporte.
O frio gládio alveja o peito

e as puríssimas vestes poisam, lentas.
Revistam-lhes as tranças e o sorriso

e, mesmo assim, a sentinela embarga
o limiar da linha alfandegária.

As palavras vestem o cilício
da conturbada hora em que nasceram

palpitantes, vívidas, certeiras.
As palavras à esquina do silêncio,

rastejam ao luar, sob a fronteira.

(de Canto Submerso, Portugália editora, 1956)

13.5.06

RUY CINATTI

A NOSSA SENHORA


Então, vida e tecla do visível
amparo dos mortais, ei-la, senhora
dos espaços siderais
e mãe na terra.

Cruzada pelas espadas
no coração - fruto sensível
que se mastiga com amor, com nojo -
adormece no sonho.

Gera mitos e lendas.
Conhece devaneios e surpresas:
mãos estendidas, joelhos
na pedra rija.

Vómitos de cera
honram-na em lágrimas
humedecendo faces
ou repentes de alegria.

Ei-la, portanto, senhora
nos espaços siderais
e na terra mãe
desamparada.

Seu olhar magoado
fere um intranquilo
raio de luz.

E entro no templo
onde milhares de mãos compadecidas
acendem círios.

Digo: Maria!
Ouço: Meu filho!

(de Corpo - Alma, editorial Presença, 1994 - colecção forma)

11.5.06

[os argumentos economicistas com que Raul Brandão responde a Francisco José Viegas]

RAUL BRANDÃO

Tive sempre a ideia que quem manda em todo o país é a mulher. Na lavoura, às vezes o bruto bate-lhe, mas é ela que o guia e lhe dá os mais atilados conselhos. E é ela em toda a parte que nos salva, parindo filhos sobre filhos para a emigração, para a desgraça e para a dor. Creio que só assim parindo e gemendo, tecendo e lavrando, mas principalmente parindo, é que se equilibra a nossa balança comercial, o que nos tem permitido viver como nação independente. Diz um amigo meu: - Portugal enquanto tiver a mulher e a sardinha, não morre. (...)

(excerto do capítulo Nazaré, de Os Pescadores, "edição definitiva", com texto fixado "a partir do exemplar de trabalho da 2ª edição (1924) que pertenceu a Raul Brandão", editorial Comunicação,1986)

27.4.06

SAMUEL BECKETT

CASCANDO


1

fosse apenas o desespero da
ocasião da
descarga de palavreado

perguntando se não será melhor abortar que ser estéril

as horas tão pesadas depois de te ires embora
começarão sempre a arrastar-se cedo de mais
as garras agarradas às cegas à cama da fome
trazendo à tona os ossos os velhos amores
órbitas vazias cheias em tempos de olhos como os teus
sempre todas perguntando se será melhor cedo de mais do que nunca

com a fome negra a manchar-lhes as caras
a dizer outra vez nove dias sem nunca flutuar o amado
nem nove meses
nem nove vidas


2

a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

palavras rançosas a resolver outra vez no coração
amor amor amor pancada de velha batedeira
pilando o sono inalterável
das palavras

aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem


3

a não ser que te amem

(tradução de Miguel Esteves Cardoso in As Escadas não têm Degraus 3, livros Cotovia - Março de 1990)
JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

19


vamos então falar de arvores antigas abrigos e
outros ventos. olá: diz-me o teu nome (se quiseres)
tenho dois ou três pensamentos (nunca mais que)
penso já em escrever o romance das brisas húmidas.

uma vez li um poeta que dava vida aos castelos
ensinou-me: pequenos cheiros à margem dos
sentidos não te prendas à noite (a visão mais
perfeita do mar é tomada do cimo das falésias).

queria agora acrescentar-me a ti mas (sabes?:)
faço destas linhas a eternidade algo assim
como o diálogo (nosso) entre o corpo e o riso

resta ficar dentro dos dias. é verdade: de que
me querias falar? perdoa mas a manhã está-se
a esgotar (não tenho tempo: a perder)

(de Há Violinos na Tribo, 1989)

25.4.06

NIKIAS SKAPINAKIS


Declacroix no 25 de Abril em Atenas, 1975
óleo Sobre Tela
235 cm x 145 cm
Galeria Fernando Santos

JOSÉ GOMES FERREIRA

XXVIII

(Comício.)

Tudo começa na boca
- ao princípio era o verbo -
combinação de palavras com o sangue.

Discursos, discursos, discursos...

Palavras com fogo ritual.

Palavras com mãos que empurram os homens,
abrem abismos,
estrangulam,
deitam chumbo derretido nas chagas,
magoam de existir.

Dêem-e palavras. Tomem palavras...
Palavras não faltam, já tão velhas que parecem novas,
recém-nascidas com as mesmas raízes
ignoradas.

É esse o milagre:
nascer todos os dias
nas bocas esquecidas
dos fios de prumo.

Palavras
- silêncio que agride,
os passos do fumo.

XXIX
(Grito «NÃO!» à revolução de flores de retórica.)

Revolução das flores?

Sim.
Mas não apenas para disfarçarmos com bandeiras de cravos
o pólen das Áfricas dos nossos lutos.

Queremos flores
que já tragam no ventre
o sabor dos frutos.

(de Maio-Abril / 1968-1975, in Poeta Militante, Viagem do Século Vinte em mim - III, 1978)

23.4.06

MIGUEL DE CERVANTES

[NA SEPULTURA DE D. QUIXOTE DE LA MANCHA: EPITÁFIO COMPOSTO POR SANSÓN CARRASCO]


Jaz aqui o fidalgo forte
que a tal denodo chegou
que se descubra e se exorte
que a morte não triunfou
de sua vida com sua morte.

Teve o mundo inteiro em pouco;
foi o espantalho e o coco
do mundo, em tal conjuntura,
que abonou sua aventura
morrer cordo e viver louco.

(de Don Quijote, tradução de José Bento)


WILLIAM SHAKESPEARE

SONETO XV


Se considero quanto cresce vivo,
e atinge a perfeição só por instantes;
e que este imenso palco está cativo
de ocultos astros fortes e inconstantes;

se atento que Homem como planta aumenta,
do mesmo céu domado e guarnecido,
e que da seiva juvenil que o tenta
quando é mais forte é que será esvaído;

então o conceito deste incerto estado
mais rico em juventude em mim te cria,
ao ver que o Tempo a te mudar se há dado
em noite escura esse tão claro dia.

Com o Tempo em guerra por amor de ti,
o que el' te rouba, eu te reponho aqui

(tradução de Jorge de Sena, in Poesia de 26 seculos)