2.6.10

TERESA TUDELA


Estas palavras que se dizem
como quem despeja um balde de água suja no tanque
que se dizem
não pra agredir o tanque
mas pra despejar o balde
mas que doem
como ferem
como ganham vida de punhos cerrados
mal se soltam no ar
como o filho que nos nasceu
e cresceu
e se fez seu contra nós
estas palavras crescem
no espaço de ar
do caminho percorrido
e no caminho se tomam
o corpo do som que têm
libertam-se da intenção primeira
refazem-se da mutilação sofrida
são elas no seu todo inteiro
o inteiro peso
o volume prenhe
com que esmagam
e entopem
o esgoto do tanque indefeso


(de No Côncavo da Aresta, edição da Autora, 1982)

1.6.10

NUNO DEMPSTER


DA IMPOSSIBILIDADE


A luz do sol está além do ocaso.
Não me refiro a um deus,
nem sequer ao delírio
da palavra perpétuo,
adjectivo da morte,
da qual também não trato
nem faço nenhum voto, indiferente
de indiferença altiva.
Igualmente não falo do passado,
pelo menos daquele que não cessa
de circular imagens como sombras
que não chamam por nós.
Quando digo que a luz do sol
está além do ocaso é porque
não pode tocar-se essa luz,
ninguém pode ir por ela para além dela:
do mesmo modo, a tua face não se dá,
os olhos já estranhos, sem o brilho
que liga o corpo ao corpo
quando o corpo parece ultrapassar-se,
o que, só para meu consolo,
digo ser um processo bioquímico
daquilo a que é costume chamar-se alma,
madre de sentimentos comburentes
e, quem sabe, de enganos da memória.


(de Confluências, in Dispersão, edições Sempre-em-Pé, 2008)

30.5.10

HAROLD PINTER


A Mesa

Janto demoradamente
Todo este tempo

Aos meus pés ouço-os
Cair na gordura

Em queijo e ovos
Em ossos de fim de semana

O ruído da luz
Deixou o meu nariz.

Tatuado por tudo o que
Não podia ver

Murmuro na
Minha orelha mais surda

O meu nome apagado
Já esteve aqui

Ou então um bluff total
Conservou-o cuidadosamente.

A isto encadeado
Apaixonado por isto

Avanço de gatas
Sem dizer palavra

E cheio de homenagens
Açambarco os restos

Sem fôlego,
Por baixo desta enorme mesa.
1963

(tradução de Jorge Silva Melo e Francisco Frazão, in Várias Vozes, edições Quasi, 2006 - Biblioteca Primeiras Pessoas)

24.5.10

PHILIP LARKIN


As árvores

As folhas rebentam nas árvores
Como algo que quase se diz;
Os novos botões espreguiçam-se,
O verde é uma forma de mágoa.

Será que renascem, e nós
A envelhecer? Não, também morrem.
O truque que as faz parecer novas
Está escrito no grão dos anéis.

Porém os castelos inquietos
Adensam e crescem com o Maio.
Dizem: "passou, morreu o ano —
Recomecem, recomecem..."


(de High windows / Janelas altas, tradução de Rui Carvalho Homem, edições Cotovia, 2004)

21.5.10

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE


syrinx, ficção pastoral


XI


Está tudo errado, tudo, ou quase: na verdade, apenas
um salto quântico de computador,
um fio trocado na electrónica mente
que manda nos horóscopos, e já se perde
a metamorfose de outro sapo;
não encomendei! não pedi! não quero
no lugar reservado à favorita imagem
este caso-problema que se droga e vende
e tem de todo errada a identidade,
a idade, o sexo, a cara indiferente.
Quando abre a boca avisto com terror
a língua, inteira, rósea, e gengivas com dentes
capazes de ladrar, de me morder,
de em público me dizer inexistente,
de me abrir pelo meio e me tirar
tudo o que tenho, como um ladrão demente.


XII

Fico interdito, não sei

de que lado me hei-de pôr,

que sabonete se usa

em que mão, se é bem preciso

lavar sempre as almofadas,

se se permitem as rimas,

onde fica o alçapão.

Já faltei à minha jura,

fumei cinza, comi vento,

abri fendas na janela,

pendurei-me no jardim;

só subindo aos ramos altos

é que enfim adormeci;

sonhei que estava dormindo

numa folha de papel

amarela, de cetim.



(de Quatro Caprichos, Assírio & Alvim, 1999)

14.5.10

[poemas com o Papa por cá - IV]

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL



DE «AS OBRAS DE MISERICÓRDIA»

DAR BOM CONSELHO


O conselho é tocar, provar,
Aspirar todos os cheiros do inundo,
Ouvir sempre e ver eternamente,
Abrir as cinco portas; por mais só que estejas
O que entra chega bem para mil vidas.
Depois... é tê-las escancaradas
Pois nada foge e, embora
Saia e entre a cada instante tudo,
É só assim que é possível
Ter e não ter pra sempre tudo.

Casar a pobreza e a riqueza
Viver e morrer mil vezes por segundo
Mudar e ser igual no tempo todo
Cada presente ser
Passado e futuro.

Recusar é deixar;
Conceder tirar;
Tirar é pôr num outro lado;
Pôr é mover;
Mover é fixar num móvel;
Fixar seria
Mudar o futuro.
Esperar é caminhar pra ele.


(de O Espaço Prometido, livraria Moraes editores, 1960 - Círculo de Poesia)

13.5.10

[poemas com o Papa por cá - III]

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA


A presença mais pura


Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um 'não esquecer' fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»


(de A Que Distância Deixaste o Coração, 1998)

12.5.10

[poemas com o Papa por cá - II]

MARIA DE LOURDES BELCHIOR



PALAVRA


Onde as palavras lisas e límpidas
capazes de transportar
esta quotidiana inquietação
ração diária de gozo e dor?
Onde as palavras purificadas
do lastro do uso das nossas falas mortais?
Não mais na linha do horizonte a Palavra?
Enraizadas no terrunho; carregadas de sonoridade
sujas, enfarinhadas, as palavras senha do nosso falar comum
fabricam o pão alimento, suporte do diálogo impossível.
Só palavras genesíacas, lustrais, abissais,
hão-de revelar e decifrar o verdadeiro nome das coisas?
Que linguagem, miragem do ser e do estar
há-de dizer homem, mundo, amor?
Na linha do horizonte impossível?
a Palavra?
Só no fim dos tempos decifrada?


(de Gramática do Mundo, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985 - Biblioteca de Autores Portugueses)

11.5.10

[poemas com o Papa por cá - I]

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO


das coisas peregrinas


que ousemos o entusiasmo
da luz de cada dia,
a agilidade dos vindimadores
socalco acima

mantém-nos, Deus ao rés da terra
e altos, de inquietos, vigilantes voos

não se esgotem as cisternas
da paciência para a vida,
nem os agapantos azuis
nos encharquem de clandestina morte

dá-nos o paladar das coisas peregrinas,
o lugar do vento que não sabe donde,
o sítio dos comboios nos apeadeiros breves

que no rodopio das horas
a tua mão nos mostre o pino do sol
e o cheiro a mosto e a pão de milho
anuncie a ceia, a mesa da justiça, do bem e da beleza


(de dizer DEUS ao (des)abrigo do Nome, 1991)

10.5.10

MANUEL MARÍA


O POEMA


UN poema é un ser vivo que anda,
respira, soña, chora, salouca,
ama, berra, cintila, escurece,
cala, aborrece a mentira,
sente ódio e tenrura, desángrase,
fala de intimidade a intimidade
coas cousas e coa xente, suxere
mundos posíbeis e imposíbeis,
sua, cansa, sofre sede e fame,
adoece, agoniza. E nunca morre.


(in Antoloxía Poética, Espiral Maior, 1993 - original de A luz ressuscitada, 1984)

Salouca = soluça

9.5.10

LI SHANG-YIN

CHUVA NA PRIMAVERA

Deito-me vestido de branco, a Primavera aproxima-se.
Penso na Cidade das Portas Brancas, onde não posso estar.
Os teus aposentos vermelhos, ocultos pela chuva, acossados pelo frio.
Recordo esse dia distante, em que parti.
As noites são longas, intervalos breves de sono.
Envio-te este presente, um par de brincos de jade -
Contemplo um ganso solitário, entre a vastidão das nuvens.


(de Chuva na Primavera e outros poemas, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2001 - Gato Maltês)

8.5.10

JACKSON POLLOCK


Eyes in the Heat, 1946
óleo sobre tela
54x43 cm
Colecção Peggy Guggenheim, Veneza




MARIA TERESA DUARTE MARTINHO


Um quadro

(Eyes in the Heat, Jackson Pollock)

Se fosse um padrão,
teria sido papel abstracto com as cores do Natal
(servira, por exemplo,
para forrar gavetas e livros,
espalhando ideias de pintura,
até entre os que diziam não a ver).
Se fosse um tecido,
era lã e dava uma saia em viés.
Se fosse um espelho,
seríamos, por exemplo,
nós todos,
cada um abraçado ao seu rodopio


(de Visões e Demonstrações, edições Vendaval, 2006)

7.5.10

PEDRO DE ORAÁ


BARAGAÑO ENTRA NO ESPELHO


Enfebrecido pela humidade de uma paisagem mísera de três paredes,
entra na água do espelho sobre a bacia amarelenta,
água cujas reminiscências apagam rostos tão lúcidos
como o seu muitas tardes no porto ou nos alfarrabistas:
aí costumava fazer ironia e sorrir, aí recordava
o terceto de Quevedo e a cidade ilusória,
o flutuar da sua sombra e a sagacidade de Artaud,
ali tirava o sobretudo preto do seu triste coração

Estou certo de que o seu coração clamava aos gritos
contra a postura sardónica, contra o nariz peçonhento,
a sua tendência para dar à língua noite adentro,
para amigos inverosímeis e as companhias gastas:
pálido vinha, desolado de ruas exterminadas à chuva,
de escrutar neves espessas à Poesia, sua jactância admirável
ou a sua má língua: quem o tornou assim se não a Poesia,
o seu amor extremista, o seu ódio à mudez?
Queria conhecê-la como ninguém, à Poesia,
levá-la nas roupas, na mão,
como as pequenas moedas que não chegavam para nada,
e sempre que assim fosse, nos precipitavam
sobressaltados aos cafés e aos lupanares.
Então sentíamo-nos maiores e ele era realmente grande:
em Paris vira os pérfidos delírios de Lautréamont,
conversara sobre a infância cinzenta com a governanta
de Milosz, enfim, ia a Paris para a explorar.

E um dia, entre tolos os dias implacável, instaurou a sua manhã
diferente de teor e humor: voltou transfigurado
das neves, pôs-nos sobre o ombro o seu nome confesso,
José Álvarez. Mas todos regressávamos de obstinados crepúsculos,
de ruas nuas, de amarguras, de pratos frios.
Decidiu, connosco, defender o raio de sol na parede raspada.
Agora, a mão cheia de poesia tem a expressão mais lenta, arranja a gravata:
Baragaño contempla o queixo vaidoso e entra no espelho.


(de Poesia Cubana da Revolução, tradução de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1975)
JOSÉ ÁLVAREZ BARAGAÑO


DE POESIAS REVOLUCIONÁRIAS


Serei parco
Para falar da fome da doença da morte
Das ilhas de fruta-pão
Das rosas abanadas por um vento caótico
Falei da vida
Falei do amor
Conheço os ares que se tomam matutando um nome, uma resposta.

Para a casa com todas as portas fechadas
Que só abre as mãos entreabertas do tempo
Nas diversas esmeraldas dos olhos marinhos.

Não o nada e o vazio
Não espalham as cinzas solares à volta do vinho
E as donzelas nuas vencidas por todas as línguas
O oráculo
Olha-me com os seus olhos penetrantes
— Só aquilo que tocares com paixão
O que beijares com os teus lábios de febre
O que insultares através de um véu de sangue
Quando os teus dedos não temem
O punho da faca
— Oh, mentiroso
Tu não recebeste os grandes mensageiros
A beleza
Troa aos teus ouvidos com zumbido de grande voo
Compreende a morte que te espera
Altivo companheiro da tua pureza
Que reconheces a miséria do mundo
Quando aos teus ouvidos onde se fundem os ventos
Dizem:
Quem és irmão que não me tens compreendido?


(de Poesia Cubana da Revolução, tradução de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1975)

6.5.10

GUERRA JUNQUEIRO


ORAÇÃO À LUZ


Claro mistério
Do azul etéreo!
Sonho sidéreo!
Luz!

Da terra dorida
Alento e guarida!
Fermente, da vida,
Luz !

Eucaristia santa,
Vinho e pão que alevanta
Homem, rochedo e planta...
Luz !

Virgem ígnea das sete cores,
Toda abrasada d'esplendores,
Mãe dos heróis e mãe das flores,
Luz!

Fiat harmónico e jocundo,
Verbo diáfano e profundo,
Alma do sol, corpo do mundo,
Luz!

Luz-esp'rança, luz rútila da aurora,
Vida vibrando na amplidão sonora,
Vida cantando pela vida fora,
Luz!

Luz que nos dás o pão, ó luz amada!
Luz que rios dás o sangue, ó luz doirada!
Luz que nos dás o olhar, luz encantada!
Bemdita sejas, luz, bemdita sejas!

Sejas bemdita em nós, ó fonte de harmonia!
Sejas bemdita em nós, ó urna de alegria!
Bemdito seja o filho teu, o alvor do dia!
Perpetuamente, ó luz, ó mãe, bemdita sejas!


(de Oração à Luz, 1904)