7.5.12


ANA PAULA INÁCIO


como se o vento trouxesse
recados
que pudesse abandonar
ao serviço do mensageiro

como se o vento te pudesse
levar e as palavras transformar
no milagre da cerejeira

não descuides o vento
que quem uiva
é lobo faminto

rodeia-te antes do essencial
faz-te cozinheira, semeia o teu quintal

o que por natureza rola
há-de rolar
e tu sozinha
o que podes contra o vento?


(de Vago pressentimento azul por cima, ILHAS, 2000)

6.5.12

RITA TABORDA DUARTE


TORNAR-SE O SER CRIADO EM CRIADOR

A Francesco Petrarca
Justo é saber que cada um já    retomou
A falsa-humilde condição de um servidor
E por fim finja não ser ele o criador
De quem afinal fingimos      que nos criou

Porque alguém que escreve é também alguém que é lido
Por um outro alguém que se lê           como num espelho,
À certeza inquieta do gesto     devolvido.

É ténue a linha entre a verdade e a aparência :
E se o estilo é doce é menos novo do que é velho,
Que só pel' efémero se sustenta a permanência.

Nem se sabe por que medida se mede o homem
Sequer de quem nos recebemos por herança
Mais: talvez só    sejamos sombra    à semelhança
Das demais fábulas absurdas que nos consomem


(de Na Estranha Casa de Um Outro [Esboço de uma biografia poética], edições Asa, 2005 - colecção pequeno formato)

25.4.12

EGITO GONÇALVES


A PRIMAVERA


Pouco sabemos sobre a Primavera!

Mas sabemos que as árvores reverdecem,
navios dançam sobre vagas curtas
e às janelas abrem-se os sorrisos
que adoçam os olhares e as manhãs.

Sabemos que o amor vem dos telhados
para ceifar os restos da agonia
e no ar límpido que anuncia o Verão
a coragem ganha alento, novos ritmos.

Sabemos que são fáceis as viagens
e o lançar de escadas sobre o abismo;
que os ventos são amenos e é possível
com um sopro afastar o silêncio e a angústia.

Sabemos que um relógio quebra a inércia
e ordena que se queimem os arquivos;
que há pássaros e peixes que perfuram
a rede com que o cerco nos limita.

Sabemos que então se lavra a terra
onde germina o pão e os lilases
e é doce repousar sobre os teus seios
— primaveras também, esperança, vida...


(de Poemas Políticos (1952-1979), Moraes editora, 1980)

23.4.12

ANTÓNIO SALVADO


A POESIA

Difícil, estreita passagem,
força quente perscrutada,
corpo de névoa, de imagem,
com sulcos de tatuagem,
voz absoluta escutada...

Destino de aranha, tece
com fios vários da vida
alegria se amanhece
ou chora se a luz fenece
pela noite perseguida.

Intimidade exterior,
pureza de impuras formas,
conhecimento e amor,
água límpida, estertor,
sem regras feita de normas.


(de Difícil Passagem, 1962)

19.4.12


PAULO JOSÉ MIRANDA


Desejo

A pele alva, o esplendor do inverno, o desejo.
Tocávamo-nos de tão perto, ríamos,
junto a um muro ervas rasteiras, nem um beijo.

Daqui ouvíamos a voz dela nesta praia
«... as flores, os caminhos, a solidão,
provavelmente o que mais retenho de Agostinho

Baptista, o que mais gosto, tu não?»
Mas do que gostava mesmo era dos seus olhos,
da sua boca, de imaginar como seria.

No carro vi as suas pernas conduzirem-me.
«... sim, sim. É o mais antigo e o mais moderno
dos poetas d'hoje...» Parou, saímos.

Junto ao mar doía a demora da entrega.
O vento, contrário ao previsto, ajudava-a
e foge-me com gestos precisos «... no fundo

não sei bem porque gosto dessas metáforas.»
Sentámo-nos. «A poesia deve ser assim,
imagens vindas de longe por uma dor tão perto.»


(de A Voz que nos Trai, livros Cotovia, 1997)

16.4.12


O vento a fazer-me chorar, o vento
Solução fácil para a descoberta
Da desilusão. O vento é a perda
Do corpo arrumado, dos dedos limpos,

A dar-me conta da força que tenho
Em cada fenda nos lábios. O vento
Coisa invisível, macia, letal,
Sopro em mim de fora, desordenado.

O vento é sal, subida, espécie de onda
A cobrir saudades na praia mansa
Em que os pés se enterram na vaga areia.

E muda, o vento, quando agita árvores
De grande porte, de folhas incertas.
Muda para ser o que é, silente.

3.4.12


DIANA ALMEIDA


HOJE NOS SUBÚRBIOS À TARDE
(ao Eduardo Guerra Carneiro)

acredita na inspiração?
poderia ter perguntado
sempre a respirar falava
de poemas, claro
e hoje nos subúrbios à
tarde cinzenta de um maio
invernoso, foram-se as andorinhas
mas os pássaros cantam ainda
a anunciar a madrugada
respondem ao seu assobio
encantado até, ao abrir a
janela, para o rio azul cobalto
amanhece tão depressa na
cidade o chá arrefecia nas
chávenas dos anos 30
(casamento dos meus pais,
sublinhou, partira já um outro serviço)
era tília rosada, uma tisana,
poderíamos talvez ter feito uma
infusão de trevos de quatro folhas,
nascia um terceiro no vaso da
cozinha por cima de uma colher de pau
como estaca.

O Príncipe da Noite guiou-nos
numa atitude de profissionalismo
solícito até ao camarote presidencial
de onde expulsou uma puta grande
um travesti de branco e um homem
as russas acabavam uma dança de
ventres e lantejoulas penas na cabeça
um cenário de David Lynch
que me fez lembrar Blue Velvet em
vermelho, num dos cabarets
mais antigos de Lisboa
(espaço que seria depois retratado em
uma lamentável revista aburguesada,
transpirando luzes e efeitos hilariantes,
ainda em cena...), genuína
miséria, o Peter não pode entrar
de ténis e como tem um pé
muito grande, constatou consternado
o primeiro empregado antes
do Príncipe, não lhe podemos
arranjar sapatos, e eu divertida
nos meus doc martins esboroados
salva pelas conveniências.

de táxi vamos sempre mais longe
pelas ruas enlameadas da
cidade à noite cálido álcool
pode sim mas tenha cuidado
com os estofos, a língua queimada
do tabaco com brandura ao
contrário dos costumes nacionais
ferozes insurreições evocadas nos
dedos ó profeta de revoltas adiadas.
que vai embalado por um saudosismo barroco
os sonhos de cristais: Lucy in the
sky with diamonds, candeeiros.

de que falarão os poetas?
olhos de mulheres últimas
como o sol, a própria luz nos dias
as palavras que dizem outros poetas
como tesouros, junto às plantas
na casa esses livros a crescer
e também de música a
memória como uma longa ausência

de que falam os poetas,
senão de amor?


(in Dez, edição dos Autores, 1995)

2.4.12


LUÍS AMARO


CREPÚSCULO

Saudade o que sinto
no íntimo da alma
e segreda baixinho?

Calou-se o mundo.
Já me não perturbam vozes
alheias... Estou sozinho

e é quase noite. Vou,
pela rua, esquecido
do dia que findou,

e é qual uma doçura
a envolver-me, a mim
que já supunha ferido

da vida... Caminho,
os outros seguem... Eis-me
num canto de jardim

a divagar... E penso:
porquê esta saudade
dum bem que nunca foi?

Ah, de ilusões vivemos!
Inda que sejam falsas,
nós próprios as erguemos.

E a noite nasce, branda…
Regresso, já saudoso
desse anónimo instante
breve, silencioso


(de Dádiva, 1949 / in Diário Íntimo, &etc, 2006)

1.4.12



[Poesia Incompleta - logótipo, por Luis Manuel Gaspar]


Duas pedras.

De que bolso sai
(para que regaço regressa?)
Cada uma?

31.3.12

FERNANDO ESTEVES PINTO


Improvisas uma forma de aceitação enquanto escreves.
Por exemplo o tempo a semear estacas
em redor do teu pensamento.

Também Ellington sopra pregos harmoniosos
numa intensa dança ao ritmo do medo.

Uma imagem de alicerce a ruir:
tudo o que reúnes na tua loucura.

Como um programa de entretenimento
os rostos fermentados num silêncio ofensivo
os aplausos do desespero quando a razão
é a arte das palavras interiores.

Nenhuma multidão é um antídoto
para os múltiplos rostos que exibes
em confronto com o fragmento feliz.


(de Área Afectada, Temas Originais, 2010)


DUKE ELLINGTON


 


30.3.12


[a propósito da notícia divulgada e desenvolvida pela Joana Lopes neste post]

RUTH FAINLIGHT


Seres Fabulosos

É difícil não pensar no Atlântico
e no Mediterrâneo como dois
seres fabulosos, às vezes guerreando-se,
outras em paz. Tantos mitos
e histórias registam os seus encontros
em Tanger, Tarifa, Gibraltar...

Mas para mim, o encontro dessas águas
é significado não por bandeiras ou estátuas
mas por barcos a meter água atafulhados de pessoas
desesperadas para alcançar a fronteira final
antes de serem apanhadas por uma lancha de alta velocidade
da polícia, ou afogadas numa tempestade...

O que eles sonham: ser acolhidos algures
a norte do Mediterrâneo,
longe do Atlântico, é pouco provável
que aconteça. Aqueles seres fabulosos
que lhes controlam o futuro raramente concedem
boa fortuna - indiferentes como o oceano.


(traduzido por Helena Barbas, in No Cais da Poesia 2, editorial Teorema, 2006)

15.3.12


ANA HATHERLY


Falo do que é físico

Falo do que é físico porque não tenho outra realidade.
Falo do corpo
do mundo
do que ainda não sabemos e chamamos divino.

Falo do que é físico
porque tudo o que é real tem corpo e ocupa espaço.

Falo disso.
Falo do que existe
e tudo é tanto que nunca chega o tempo
                             nunca chega o fôlego.

Vejo até à asfixia
gente, coisas, o invisível.

Tudo me faz estar em permanente frémito
sair para a rua de noite
e andar até cair de cansaço.
Pensando em tudo isso
extremamente sobreposto
como se uma grande dor não anulasse outra
como se fosse possível
pensar em mais de uma coisa de uma só vez
sentindo o simultâneo impossível
querendo abranger
a incontrolável voracidade dentro de tudo.

Corro por mim fora
como um grande atleta
campeão de barreiras e distâncias invencíveis
tentando vencer
mas tudo é enorme e intrincado
tudo em mim são olhos vigilantes
sem jamais pálpebra.

Mas tudo isso não chega.
Tudo é enorme
e morro tão depressa


(de A Idade da Escrita, edições Tema, 1998)

13.3.12


PAULO DA COSTA DOMINGOS


Inúteis. O desenho: uns tomam-no de suas hortas
nas traseiras; outros, do encavalitado de ares
condicionados; além atiram comida das janelas.
Gatos esperam que nunca o deus do trabalho e
das férias lhes feche a torneira desse maná, inúteis.
Como, aliás, devem ser os versos, espreguiçados
ao longo de um muro, miticamente branco por
baixo do musgo. Que por detrás de um veículo
topo de gama acabamos sempre por encontrar
nabiças, um seu familiar que não limpou ainda
a lama das botas, e traz da encosta uma gritaria
impossível de miúdos maltrapilhos e farinha no
sabugo. Não fora a destreza dos gatos, e outro galo
cantaria. E eu, perplexo na barafunda de opiniões
e de soslaios que me fixam, preparo meu salto
antes que, piegas, me abandone a poesia, versos
inúteis.


(de Nas alturas, frenesi, 2006)

5.3.12


MANUEL DE SEABRA


– Sabes o que fazia eu em França?
– O Sabaté disse-me.
– Não disse nada. O Sabaté não te disse nada.
– Bem, – murmurou Queralt.
– Vivia à custa duma gaja.
– Ah!
– Não te admiras?
– Eu disse «Ah!»
– Nunca viveste à custa de uma gaja?
– Não. Sempre assaltei bancos.
– Não sabes, portanto, fazer outra coisa.
– Não.
– Eu nem isso. Nem assaltar bancos. Só sei beijar a Elisenda. Mas isso foi há muito tempo. Ela agora tem outro para fazer-lhe isso.
– Tens ciúmes?
– Nada. Daqui a uns anos está velha e então já não haverá ninguém que queira beijá-la.
– Oh!
– Que é que quer dizer esse «Oh!»?
– Nada.
– Dantes queria ser escritor, sabes?
– E que escrevias tu?
– Histórias. Escrevia histórias horríveis. Mas encontrava sempre algum sentido nos homens.
– E porque não continuaste?
– Não. Que queres? Um dia descobri que esse sentido que eu encontrava nos homens era falso. Ficavam só as histórias horríveis. Foi então que deixei de escrever.


(excerto de Os Sobreviventes, colecção Imbondeiro, 1964)

4.3.12


MANUEL RESENDE


POR EXEMPLO

Por exemplo: os cheiros não têm nome
– Nem as nossas penas e alegrias.

Como separar o cheiro da alfazema, da urze, do beijo, dos corpos,
Da alfazema, da urze, do beijo, dos corpos?

As palavras cobriram com o seu mar
A maior parte da terra
E lá dentro já só vivem peixes mudos
E plantas meio descoradas,

Mas
Ameaçadoras
Ou aduladoras
Embateram impotentes
Contra as falésias onde
Começa o reino dos cheiros e da emoção.

Como dizer
O cheiro da alfazema, da urze,
Dos beijos ou dos corpos,
Ou disso tudo junto?
Só estando lá.


(de O mundo clamoroso ainda, Angelus Novus editora, 2004)