1.12.13

EGITO GONÇALVES


OS VEGETANTES

Continuam aqui
roendo as unhas!

Substituem as unhas por poemas
(ou cafés, futebol, anedotário)
e estilhaçam espelhos que na luz
ao seu devolvem a cruel imagem.

Vidrado limo o rosto
de rugas sem memória
assistam à vida como um filme:
disparar sobre a tela é proibido
e além do miais inútil.

Curvam ao solo os ombros
escoriados; curvam-nos para
duradoiras urtigas, seixos
sem horizonte, epitáfios
de lama, dezembros, poeira fria.

Se chovem as esperanças não acorrem
a apanhá-las na boca ao ar aberto.
Tijolo articulado a língua balbucia
«É a vida!». Sementes violadas
não germinam.

Em vão os bombardeiam os oráculos
com agulhas de sangue. Nada tentam
para dar vida à fala que utilizam,
ao país do cansaço que entre dentes
ressaca.

E fazem do amor essa triste humidade,
um delíquio formal logo amortalhado.

São dóceis, cibernéticos,
dia a dia premiados
de alguns gramas a mais
no chumbo do pescoço.



(de Poemas Políticos 1952-1979, Moraes Editora, 1980)

30.11.13

PAUL DURCAN


30 DE NOVEMBRO, 1967

Acordei com uma dor de cabeça,
A minha mãe aos pés da cama;
«Más notícias no jornal», disse ela,
«Morreu Patrick Kavanagh».

Depois de uma semana isenta de real
Por fim, instalei-me frente a uma refeição normal;
Estava sentado com uma cerveja e uma sandes de carne
No Mooney's depois da rua que vem da Rotunda.

Por acaso, acabei por sintonizar
A conversa da mesa em frente a mim;
Ouvi um velho do Norte dizer para a mulher
«Era um tipo às direitas, Deus o tenha, não era como nós.»



PATRICK KAVANAGH


Há um ano, apaixonei-me pela funcionalidade de uma ala
De hospital: uma fila de compartimentos quadrados,
Betão, lavatórios - o desespero de qualquer amante de arte -,
Para não falar do modo como o fulano na cama ao lado ressonava.
Mas nada o amor interdita,
O comum, o banal, podem o calor dela conhecer.
O corredor conduzia a uma escadaria e, por baixo,
Ficava a imensa aventura de um pátio com gravilha.

É isto que o amor faz às coisas: a Ponte de Rialto,
O portão principal que o peso de uma carrinha amolgou,
O assento nas traseiras de uma cabana que era um foco de luz,
Nomear estas coisas é o acto de amor e a sua promessa;
Já que nos cumpre registar o mistério do amor sem desconversar,
Resgatar do tempo o passional transitório.



(in Estradas Secundárias - doze poetas irlandeses, selecção, posfácio e tradução de Hugo Pinto Santos, Artefacto Edições, 2013)

29.11.13

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA


CADERNO

Tudo o que fizemos e dissemos e amámos — ou
talvez nem isso —
cabe num mísero caderno onde o esplendor não
lança os seus raios.
De mais ou menos palavras se faz o tempo de
semear,
mas nenhuma colheita retomará o calor do feno,
nada que se possa tocar com a alegria dos dedos,
nada de inocente e sagrado
que nos deixe adormecer sobre o linho.



(de Agora e na Hora da Nossa Morte, Assírio Alvim, 1998)

28.11.13

MANUEL DE FREITAS


NADA DE NADA
para o José Carlos Soares
Um dia, logo de manhã, entraremos
num cemitério e perguntarás a Antonia
Pozzi se estar morto é mais ou menos
triste do que estes dias arduamente sepultados.
Receando que saibas a resposta, beberei
com Lowry a primeira ou a última tequila,
na certeza de que ambos os adjectivos estarão
certos (um pouco, talvez, demasiado certos).

Assim possa a chuva apagar todos
os versos que escrevemos
para nada, sobre nada, contra nada,
à sombra imensa dos jacarandás
que floriam - distraídos, quase por engano -
no Rossio. E inundavam de luz (nunca
vi uma luz tão escura) as portas
e os umbrais deste cemitério assim.



(de Terra sem Coroa, Teatro de Vila Real, 2007)

27.11.13

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


Nós inventamos as formas que nos dão alegria. Claro que estar alegre é cada vez mais e cada vez menos o instante. O instante entre o longo tempo em que não estamos de nenhum modo e o tempo do sofrimento que, sendo pouco, é tempo, tão longo. Nós escolhemos as formas da alegria, talvez seja a única coisa que, de verdade, escolhemos no mundo; uma escolha quase sempre sem grande sentido, sem grande valor e sem alguma imaginação; para além de toda a imaginação, sentido e valor, pois trata-se do acto único que mais soubemos e sabemos construir.
A alegria é um estado de coisas bem simples, do tamanho de um bilhete de autocarro que é pequeno e tem números, pouca espessura e, às vezes, um pequeno anúncio nas costas. A alegria tomo-a como uma escolha absoluta, um instante em que compreendo como as coisas são em si mesmas, como as integro na minha vida e como me deixo ser viajado por elas; pelas coisas, pela alegria das coisas.
Há itinerários de alegria, desenhos que traço e que permanecem como uma linha única na minha, na nossa memória. Alegria: coisa distinta, obrigatória, encadeada no corpo de sangue e nervos que não podemos nem queremos deixar de ser.


(excerto de «Mendes», in Uma paixão inocente, Livros Cotovia, 1989)

25.11.13

JOSÉ CARLOS SOARES


Vestes de branco, atravessas um campo de girassóis. Dezembro
é um mês longínquo. Espero-te, algumas murchas
flores na mão que hão-de abrir-se, se
na água de tua boca. Com a fadiga de quem pudera
descobrir-se, sentas-te a meu lado e dormes no meu ombro.
O árido deserto, minha morada, lentamente vai
sorvendo o branco. E a noite cai.
Lembro batalhas ganhas
e, quando acordas, convido-te
à viagem. Sonho, encontro, iniciação, eis
a chave para a vida eterna. Trocamos de água, sementes,
sossegados caminhamos para as árvores. Tantos
os pássaros, dizes, como podem
estas coisas acontecer? Estão ao teu serviço, proponho,
e logo alças voo e te despedes.

Passaram-se três noites em que fiquei ocupado
de mim mesmo. Cantou o galo, uma serpente
visitou-me meiga, mesmo um pastor
se abeirou de mim. Mantive-me quieto. Tentava
descobrir em que morada passaras já
a ser. Foi então que murmurei: ele
é meu amigo e tenho que visitá-lo.
Passado algum tempo, expirei.



(in Amor Luxúria e Morte, Mirto, 1987)

24.11.13

DANIEL JONAS


IMITAÇÃO DE VIDA

A minha vida...
Conquanto a minha vida seja
uma repetição da minha vida,
conquanto imitação da minha
a minha vida
conquanto minha nem pareça
e não, e seja muito e muito mais
do que a queria,
conquanto vivo me experimente enquanto morto
e enquanto morto a mim me sobreviva
a vida não é mais do que perdê-la
e tanto que a perdi pois
me acho num lugar
por insistente inexistente
passando inversamente nos lugares muito mais
da minha insistência em pensá-los...
Prossigo, pois, é mister que assim prossiga,
mas não trago um carinho por mim mesmo,
antes arrasto o móvel por que me tenho
(que peso, meu Deus, de sê-lo)
conquanto imóvel me detenha
e imóvel me seja o que sou
e tanto do que pense ou faça.
Sou tanto aquilo que não pensei de mim...
Sou tanto aquilo que não sou ou não quis
e tanto por tentar...
Sim... as coisas que eram e não foram...
O que mais ardentemente desejei e não cumpri.
As ondas que se foram para nunca mais...
Oh delírio!
A minha cabeça que anda tão perdida...



(de Passageiro Frequente, Língua Morta, 2013)

20.11.13

ANTUNES DA SILVA


A PAISAGEM SÓ

Nem sempre o silêncio é grande
Nas altas faias do rio.
Há lágrimas nos valados
E solidões nos montados,
Nos vastos campos lavrados
O enigma de um desafio.
Do longo beijo nas trevas
Que a noite vai semear,
Nasce uma flor mimosa
Que não é cravo nem rosa
Nem papoila esplendorosa
Como as estrelas do mar.
São os caminhos floridos
Das mais suaves cantigas
Que alguém soube decorar,
Cantando a vida a chorar,
De peitos nus, a sangrar
As nossas dores antigas.
Belas imagens de infernos,
De céus doridos e quentes.
Sementes de terras rudes
Onde medram os açudes
E se cantam as virtudes
Da maioria das gentes.
E é doloroso o cantar,
Tanto como esta amargura
De quem ama com secura
A própria vida futura
Que um dia há-de despontar.
Chorosos sonhos de morte
Que a Planície teve um dia.
Há o arvoredo que grita,
Na sua linguagem aflita,
A sua sede maldita
De sol e de ventania.
Nem sempre o silêncio é grande
Nas altas faias do rio.
Há lágrimas nos valados
E solidões nos montados,
Nos vastos campos lavrados
O enigma de um desafio.



(de Esta Terra que é Nossa, Centro Bibliográfico, 1952 - Cancioneiro Geral)

18.11.13

JOÃO LOPES


POESIA

Pedes mais certeza à poesia
e tens razão em pedir o que todos aprenderam a pedir
porque se não avançamos com precisão
então, como tu disseste, não sabemos para onde vamos
e sem saber para onde vamos
não podemos lá chegar
ignorando que lugar é esse
para onde começámos a caminhar.

Esperas mais transparência da poesia
e tens razão em ansiar por sair do pânico das noites
porque se não celebramos o dia
então, como alguém sugeriu, não merecemos a atenção divina
e sem a protecção da linguagem divina
o destino transforma-se numa feira
mesmo se é verdade que te confunde
que esta estrofe retome o ritmo da primeira.

Anseias por uma poesia sem máscaras
e tens razão em protestar contra todas as mentiras
porque se não nos apresentamos assim mesmo
então, como bem sabemos, desvalorizamos o próprio poeta
e já nos basta que um poeta
chamado Robert Allen Zimmerman
assine Bob Dylan e não desista de o fazer
what the fuck does that mean, man.

Exiges mais rigor à poesia
e tens razão em celebrar a luz das ciências
porque se não nos entregamos à escola
então, como todos sabem, seremos párias sem rosto
e quando se desagrega o rosto
está ameaçada a casa e a identidade
e tudo o que nelas nos garante
o direito de circular pela cidade.

Gostas que a poesia não te desiluda
e tens razão em combater a tristeza nascente
porque se o planeta anda deprimido
então, como eles pediram, organizaremos festas
e ocupados e felizes com as festas
usaremos um anel de diamante
rindo dos touros esquartejados
rastejando numa poça de sangue brilhante.

Desculpa não te seguir
na celebração do mundo certo
os meus deuses são veados
de um poema de sexo incerto.

Aquele cadáver és tu
é isso que a poesia proclama
podes até chamá-lo pelo meu nome
mas não podes obrigá-lo a rimar.



(de Poemas de Guerra, Gótica, 2002)

17.11.13

HAN SHAN


37

Os ricos cheios de trabalho, preocupações,
lutam por tudo, contentam-se com nada.
Mesmo com arroz bolorento nos celeiros,
incapazes de emprestar uma malga a um pobre.
Só pensam nos bens, no lucro,
transformam pano reles em seda de primeira.
Um dia todos irão dar um último suspiro,
só as moscas lhes apresentarão condolências.


(tradução de António Graça de Abreu, in "DiVersos - Poesia e Tradução" - N.º 15, Junho de 2009)

16.11.13

ROGER WOLFE


DE CERTEZA QUE A ELIOT NÃO ACONTECIAM COISAS DESTAS

Fumando um cigarro.
Lendo um livro que comecei
há seis meses. Esperando
que alguém telefone.
A vida esta tarde torna-se-me
tão monótona, tão insuportável
como três gerúndios no início
de um poema.


(tradução minha / original de Hablando de pintura con un ciego, 1993)
LI BAI


A Orquídea Solitária

Uma orquídea solitária
desabrochou um dia num jardim vazio,
rodeada de ervas e tristeza.
Outrora a Primavera tépida,
agora o Outono frio.
A geada embranquece a terra,
murcham as folhas verdes,
extingue-se a flor.
Se não soprar a brisa
quem aspirará as résteas de perfume?


(in Poemas de Li Bai, tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, Instituto Cultural de Macau, 1990)

12.11.13

JOÃO MIGUEL HENRIQUES


A ideia

e no momento exacto da compreensão
no preciso fulgor do entendimento
esse fugaz instante gasoso
entre a apreensão da língua
e a ideia consagrada
decidi fechar os olhos
apertar os punhos com força
retorcido sobre mim mesmo

era para ver apenas
se poderia suceder
a palavra ser só palavra
nada mais que linguagem
nada mais que um som despido
liberto de todo o sentido
matéria sem peso violento

a ausência da ideia
essa puta opressora


(de Também a memória é algum conhecimento, Lumme editor, 2009)

10.11.13

LEÓN FELIPE


TALVEZ ME CHAME JONAS

Eu não sou ninguém:
um homem com um grito de estopa na garganta
e uma gota de asfalto na retina.
Eu não sou ninguém. Deixem-me dormir!
Mas às vezes ouço um vento de tormenta que me grita:
«Levanta-te, vai a Nivine, cidade grande, e prega contra ela.»
Não faço caso, fujo pelo mar e deito-me a dormir no canto mais escuro da nave
até que o vento teimoso que me segue volta a gritar-me outra vez:
«Que fazes aí, dorminhoco? Levanta-te.»
— Eu não sou ninguém:
um cego que não sabe cantar. Deixem-me dormir!
E alguém, esse vento que procura um funil de trasfega, diz junto de mim, dando-me com o pé:
«Cá está; farei uma buzina com este oco e velho cone de metal;
meterei por ele a minha palavra e encherei de vinho novo a velha cuba do mundo. Levanta-te!»
— Eu não sou ninguém. Deixem-me dormir!
Mas um dia atiraram-me ao abismo,
as águas amargas rodearam-me até à alma,
a ulva emaranhou-se na minha cabeça,
cheguei até às raízes dos montes,
a terra pôs sobre mim as suas fechaduras para sempre...
(Para sempre?)
Quero dizer que estive no Inferno...
De lá trago agora a minha palavra.
E não canto a destruição:
apoio a minha lira sobre a crista mais alta deste símbolo...
Eu sou Jonas.



(tradução de Pedro da Silveira, in Mesa de Amigos, 2ª edição: Assírio & Alvim, 2002)

4.11.13

JOHN MONTAGUE


NÃO HÁ MÚSICA

Digo-te uma verdade amarga e mal sabida.
É mais duro deixar que ser deixado:
Ficar, partir, tudo isso nos dói.

Poderás sempre ter-me para ser culpado,
Ou sonhar que podíamos ter largado;
Do esqueleto da ausência, uma ardente ficção.

Mas tenho de assumir tudo o que fiz
E, se falhar, aceitarei o fardo
Do mal que te causei & a mais alguém.

Arrancar um velho amor pela raiz,
Calcar aos pés as afeições passadas:
Não há música para tão áspera canção.





(in Uma Luz Diferente, tradução colectiva, revista completada e apresentada por Fernando J. B. Martinho, Quetzal, 1992)