20.11.03

o filho triste de um prosador polaco;
a grande campânula ensanguentada;
a febre; a fome; formigas a fugir;
o médico; o prodígio; a censura
e outros crimes intelectuais.

19.11.03

MANUEL BANDEIRA

Louvação a Rachel de Queiroz


Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, minha amiga, nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela, pois que, com ser do Ceará,
em de todos os Estados do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil, quero dizer Brasil de toda maneira
- brasílica, brasiliense, brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência e louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente, meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos, louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista, louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo
Louvo Rachel, duas vezes, louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance: O Quinze e os outros três;
louvo As três Marias especialmente, mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião e a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação, porque por mais que louvemos,
nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.

(de Poesia completa e prosa, J. Aguilar, 4ª ed: Rio de Janeiro, 1990)
Do outro lado do mar chega uma simpática colaboração a propósito do poema de Manuel Bandeira dedicado a Rachel de Queiroz, publicado aqui ontem.
Vem da Márcia Maia que tem um blog de prosa, arte e vida e outro de poesia, arte e vida - ambos muito simpáticos e que ficarão, a partir de agora, no meu roteiro de visitas diárias.

(vai, a seguir, o poema de Bandeira com outro arranjo gráfico e a respectiva referência da origem)
G. K. CHESTERTON

Não sei de que língua se julga ter vindo a democracia, mas deve admitir-se que a palavra deve fazer agora parte de uma língua chamada jornalês.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

18.11.03

MANUEL BANDEIRA

Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, minha amiga
nata e flor do nosso povo.
Ninguém tão Brasil quanto ela,
pois que, com ser do Ceará,
tem de todos os Estados,
do Rio Grande ao Pará.
Tão Brasil: quero dizer
Brasil de toda maneira
- brasílica, brasiliense,
brasiliana, brasileira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel e, louvada
uma vez, louvo-a de novo.
Louvo a sua inteligência,
e louvo o seu coração.
Qual maior? Sinceramente,
meus amigos, não sei não.
Louvo os seus olhos bonitos,
louvo a sua simpatia.
Louvo a sua voz nortista,
louvo o seu amor de tia.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo.
Louvo Rachel, duas vezes
louvada, e louvo-a de novo.
Louvo o seu romance: O Quinze
e os outros três; louvo As Três
Marias especialmente,
mais minhas que de vocês.
Louvo a cronista gostosa.
Louvo o seu teatro: Lampião
e a nossa Beata Maria.
Mas chega de louvação,
porque, por mais que a louvemos,
nunca a louvaremos bem.
Em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo, amén.

(da edição do Jornal de Letras de 12 de Novembro de 2003 - sem indicação do livro de origem nem da data)
RACHEL DE QUEIROZ

Nasceu em 1910, em Fortaleza, capital do Ceará, Brasil.
Escreveu, antes dos vinte anos, um dos romances mais belos da literatura brasileira contemporânea, a que se seguiu uma vasta obra, muito marcada pelo neo-realismo (Rachel foi membro do Partido Comunista Brasileiro) e repartida por ficção, teatro, crónica e infanto-juvenil, à qual foram atribuídos inúmeros prémios. Foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras, em 1977.
Morreu no dia 4 deste mês.


O pequeno ia no meio da carga, amarrado por um pano aos cabeçotes da cangalha.
De vez em quando, levava a mãozinha aos olhos, e fazia rah! rah! ah! ah! numa enrouquecida tentativa de choro.
Cordulina chegava-se à burra para o consolar, ajeitava-lhe o chapéu de pano na cabeça, até que um dos menores gritava:
- Olha, mãe! Os pés da zabelinha! olha o coice!
Chico Bento fechava a marcha, com o cacete ao ombro, do qual pendia uma trouxa.
Mocinha, de vestido engomado, também levava sua trouxa debaixo do braço, e na mão, os chinelos vermelhos de ir à missa.
O sol ia esquentando. De cima da cangalha, o menino chorou com mais força, debatendo-se, até que Cordulina o retirou, com medo de uma queda.
Pô-lo no quarto; logo uma briga se armou entre os outros, num assalto aceso ao lugar na cangalha; na balbúrdia da disputa, eles se confundiam e só se podia distinguir, de momento a momento, um murro, um rasgão, e nuvens de poeira.
Chico Bento, intervindo, trepou o menor. E os outros, por trás do pai, vingavam-se, estirando a língua, com gestos insultuosos mas perdidos porque o cavaleiro não os via, mergulhado na alegria de sua vitória.
Súbito, sua vozinha estridulou num grito comovido:
- Olha a Rendeira!
E apontava para uma vaca pintada de preto e branco, que, magra e quieta à beira da estrada, parecia esperar a família fugitiva para uma derradeira despedida.
Cordulina recomeçou a chorar; o próprio Chico Bento passou rapidamente a manga pelo rosto.
A Rendeira fitou em todos os seus grandes olhos dolorosos, donde escorria uma lista clara sobre o focinho escuro, como um caminho de lágrimas.
Só Mocinha olhou a rês com indiferença, ajeitou na mão as chinelas, e continuou a andar no seu passo macio, tão rápido e leve que mal esmagava os torrões quebradiços do chão.

(excerto de O Quinze, 1930)
G. K. CHESTERTON

No número 999 do vasto catálogo da biblioteca dos livros que eu nunca escrevi (todos eles mais brilhantes e persuasivos do que aqueles que escrevi) está a história de um bem sucedido cidadão que parecia esconder um segredo negro da sua vida. E acabou por ser descoberto por detectives que ainda brincava com bonecas ou com soldados de chumbo ou qualquer outro insolente jogo de infância. Posso dizer com toda a modéstia que eu sou aquele homem em tudo, excepto na solidez da reputação e na prosperidade comercial. Isto era talvez ainda mais verdadeiro aplicado ao meu pai; mas eu, pelo menos, nunca deixei de brincar e sempre desejei que houvesse mais tempo para isso. Quem me dera que não nos tivéssemos dispersado em coisas frívolas, tais como leituras e literaturas, no tempo que poderíamos ter dado aos trabalhos sérios, sólidos e construtivos, como por exemplo recortar figuras em cartão e nelas colar coloridas lantejoulas. Ao dizer isto, eu chego à terceira razão que me leva a tomar o teatro de bonecos por um livro aberto, e a respeito da qual haverá por certo muito malentendido, devido às repetições e aos estafados sentimentos que, de certa maneira, vieram aderir a eles. É uma daquelas coisas que foram sempre mal compreendidas pela simples razão que foram demasiado explicadas.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

17.11.03

FRANCISCO JOSÉ VIEGAS

VERSOS ANTIGOS


se a noite se perder em ritmos de água, eu morrerei.
não há palavra mais doce que aquela que se despe
lentamente na baía, na nostalgia de si mesma.
outrora era a evidência do verso, rumor de aves,

lagos espirais caminhos por entre fontes e azuis
danças de deus nos longínquos areais, mas as
incertezas acumularam-se depois do sono, lembranças
da infância, da fronteira, dos açudes ruidosos.

eu morrerei se ouvir de novo essa voz, por isso
afastai-a célere dos oceanos, das portas entreabertas,
dos segredos. essa palavra é doce e mortífera: amai-a

longe de mim onde o silvo, o alarme das estações, é uma
espada, um gume à deriva no corpo. ficarei entre
sinais, escombros, longe das margens dos lagos, leve.

(de Todas as Coisas, editorial Caminho, 1988)
G. K. CHESTERTON

Realmente, as coisas de que nos lembramos são aquelas que esquecemos. Quero dizer que, quando a recordação recua pronta e rápida, atravessando as resistências do esquecimento, ela surge num instante tal qual fora. Se pensamos nela repetidas vezes, enquanto a sua evidência essencial permanece verdadeira, ela torna-se cada vez mais a nossa própria recordação da coisa e cada vez menos a coisa recordada.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)

16.11.03

[outros melros XI]

JORGE DE SOUSA BRAGA

NINHOS


Dias antes de morrer, acordou com vontade de ir aos ninhos. Tentou levantar-se da cama. Que queria trepar às árvores. Que sabia de um ninho de melro abandonado. Disseram-lhe que a primavera já tinha passado, que as árvores estavam escorregadias, que já não havia árvores, que os pássaros já não sabiam fazer ninhos... Mas ele continuava a insistir. Entrou depois num longo delírio. De vez em quando pronunciava palavras como musgo cor-de-rosa, lama seca, palavras que se foram tornando cada vez mais indistintas. Por último, parece que chilreava.

(de Os Pés Luminosos, 1987)
[outros melros X]

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

DA ANALOGIA NO MUNDO


Três cantores negros
com patas de aves, esguias,
assustadiços sempre,
esquivos mas fiéis,
não abandonam o Mundo,
presente em grande parte
naquelas árvores.

Três árvores e três cantores?
Ou apenas a ilusão
de que também as árvores
cantam, depois
de tanto amor?
E o mundo está
em três melros, hibiscos?

(de As Fábulas, Quasi edições, 2002)

15.11.03

EDUARDA TAVARES

Nasceu em S. Miguel, Açores, em 1965.


A cada instante os nossos olhos permanecem em silêncio no nome de cada forma, de cada abandono.
Um anjo, exactamente de uma cor igual à cor do dia, passa junto a nós, e os nossos membros reconhecem o movimento de se enlaçarem a qualquer coisa, qualquer coisa como o corpo desse anjo, ou a desconfiança num segredo que trazem em nome da nossa dor. Mas sendo quase só a vastidão do tempo a nossa dor, não podemos esperar que o nosso corpo se aperfeiçoe, nem mais, nem menos, na solidão do que isso. Fingimos.


*


Junto ao portão virei todo o meu tronco para vocês, os anjos.
E junto aos meus olhos recebi gestos de uma subtileza incrível.
Foi um tormento, o meu sorriso não soube imitar-vos e ser sereno ao mesmo tempo. Mas os vossos braços ao chamarem-no, acolheram-no no mais doce da vossa pele.
Depois pronunciaram o meu nome - didi - disse um anjo pequeno. Desfiz-me num movimento lento, e ao olhar para onde vinha a voz, vi belamente o meu sorriso, sereno à minha espera.


*


Tarefa: Descrever a passagem do estado de alguém que nos
Atrai, ao estado de alguém que deixa de nos atrair.

Era o tempo de usarmos os relógios separados. E era também o
tempo de não vermos as horas. Era o tempo de não ser assustador o tempo.
Falo da luxúria dos segundos.
Falo dos tempos da luxúria do meu rosto.
E da luxúria do teu na imagem do meu.

Falo agora de quando perdi o meu relógio
Falo de quando precisei de saber as horas
e tive de perguntar a outrem
Falo do tempo em que no teu relógio, embora sendo perfeito, nunca via as horas.
Falo que elas conheciam a luxúria e já não conhecem
Falo de um tempo assustador - o meu.


*


Comprei uma casa com os riscos suficientes para ser minha.
Um quarto para o meu corpo.
Um quarto para a minha amada.
Um quarto para a loucura.
Um quarto para as perguntas.
E à saída, um quarto que espera as respostas.


*


Ao sair a minha sombra feminina desprendeu-se de mim.
Desprendeu-se na forma mais lenta de dizer adeus sem mesmo dizer se voltava. Tdos os dias, quando os moinhos ao longe adormeciam na agitação impossível, os meus olhos vagueavam no sonho efémero da sua liberdade, como a juventude erra enfim distante da idade, até que alguém ouça finalmente dizer - perdeu-se.

(de Sono Derramado, editorial Caminho, 1992)

14.11.03

EMANUEL JORGE BOTELHO

Nasceu em S. Miguel, Açores, em 1950.
Ilhéu (açoriano) por nascimento e por opção, E. J. B. É um dos grandes poetas a descobrir e a relembrar. Vive em Ponta Delgada. Os seus livros têm edições reduzidas, ora no continente, ora em pequenas plaquettes cuja produção artesanal assegura uma articulação quase secreta, muito restrita. Tão restrita que se torna injusta para um dos nomes a fixar na nossa literatura de hoje. (Francisco José Viegas - introdução de uma entrevista publicada na Ler nº 27 - Verão de 1994)


3.

...olho a minhas mãos
e só vejo sal.
na rota do SOL
interpõe-se uma vogal...

(de terra-mote ou a destruição dos búzios, 1980 - reproduzido em: Sempre disse tais coisas esperançado na vulcanologia - 12 poetas dos Açores, org. e notas de Emanuel Jorge Botelho)


é uma questão de linha comecemos
pelos postes
os fios sobre o nosso ombro carregam o peso
ó código dos campos lavrados em linha sob a fala
não se vê que barcos passam
no cobre a tua cara em linha cai
sobre o caldo que levas de madrugada no cesto à boca
em linha levas a colher enquanto
sobre ti se cruzam os pactos

(de MAS O TERRITÓRIO NÃO É O MAPA, 1981 - reproduzido em: Sempre disse tais coisas esperançado na vulcanologia - 12 poetas dos Açores, org. e notas de Emanuel Jorge Botelho)


2

dentro de cada palavra o cálice da luz, queria. sobre a mesa
os nomes olham a curvatura dos raios, os olhos
às vezes esta tinta a querer dar-se à noite
sobranceira ao líquido em que o sono se dilui. como era irmã
o coro das primeiras letras,
a tragédia babada o grito do hálito
das sílabas naquele caderno de duas linhas antes do susto destes dias tão novos? habitamos
aqui a fala que traz cada toalha ao desdobrar-se nada mais se pode
pedir à noite que um pouco de anil para a folha alva. tudo repousando
sempre
. o cálice como um foco e os olhos na mesa
posta de nomes servida

(de Cesuras, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982)


esta pedra ainda fala. no rumor dos cheiros a boca súbita do momento em que o ferreiro move a mão para os cravos. dá notícia

(de SARDAS, &etc, 1984)

risco de asa. a mulher carda
a face de olhos rente aos pés. não
é preciso que o linho chegue de noite com uma faca nos dentes.
a arma branca plana certeira sobre a hora da cara pedir
uma ardósia para o voo das laranjas. vem descalça

(de BOOMERANG, frenesi, 1985)


vai-se diluindo o peso da mão, o que nela é água leve
para a explosão do gesto

a cara lambe os dedos, espera
um fio de lágrima, sobre a morte

(de ASAS E PENAS, &etc, 1988)


talvez te reste o pano com que o riso
trai a luz de bibe que há nos vidros

a crina do lume já domada
com um livro de horas na virilha

o coice é de oiro, como a morte
no perdão de fuligem que há na cal


*


para onde é que nós vamos quando a música não dói
cega de unhas
no urro dos pulsos

a faca de costas para o espanto da cigarra
e um grilo algemado
entre o lábio e a terra

eu queria dizer-te que o fim é quase mudo,
como a tília

(1992?-1995)

(de PERGUNTAS QUEIMADAS, edições Bumerangue, 1996 - colecção guarda-rios)


três pancadas depois
a cor pisa o branco
muda

e uma amora de agosto cai,
ferida, numa crina de passagem

há cinza guindada de uma mão que aplaude


*


resiste-se à morte
semeando heras,
tatuando, na subida,
os ombros de deus

(de A GIZ DE ALFAIATE, Black Sun editores, 2000)
[GNR partiram ontem para o Iraque]


MORTE AO SOL

Felizmente que a noite cai
Ainda bem que à névoa por aí
Estou contente se a luz se esvai
E uma sombra invade este lugar

Se um amanhã perdido for
metamorfose de horror

As trevas não vão demorar
estou contente se a luz se esvai
Se o céu se fecha sobre nós
desprende-se uma rouca voz

Se o amanhã perdido for
overdose de pavor

Directa sim eu declaro morte ao sol
Directa não e a quem o apoiar

(aí vem a luz!)

Se o céu não fecha já sobre nós
Revela-se esta imagem atroz

(Rui Reininho / Toli - do álbum Valsa dos Detectives, 1989)


TOXICIDADE

... e chega a polícia bacteriológica
Com um toque de classe impõe a sua lógica
E parte-se ao meio a cidade
Metade será caos a outra eternidade

Tem-se a vertigem a cor do vácuo
Comunicar sem som sentir ruído branco
Esquecida que foi a origem
A arder num fogo fátuo à venda em Porto Franco

Toxicidade ar do deserto
Asfixia devagar

Toxicidade num céu incerto
Chuva acre sem molhar
Vento morto a enterrar

(Rui Reininho / ZéZé Garcia - do álbum Rock in Rio Douro, 1992)

13.11.03

IVONE CHINITA

Nasceu em Grândola, em 1949, mas passou a maior parte da sua vida nos Açores.
Morreu em Espanha, em 1983.


há sempre um barco

a parede da ilha está na rocha
a porta da ilha está no porto
a parede da fome está no estômago
a porta da fome está em nós

ao porto a (em) nós
existe uma certeza


há sempre um barco que chega


as mãos

um homem com os bolsos das calças amarfanhados pergunta
viste minhas mãos por aí abaixo
tá maluco tadinho
e ele continua a correr aproximando-se do mar
precisava das mãos as mãos para abraçar o filho pois o filho
que andou na guerra já o vê a desfilar aprumado e feliz pelas ruas
as senhoras do movimento disseram até que as janelas teriam colchas
e banda também o homem está triste fixa os pés crispa os
bolsos das calças procurando afanosamente as mãos necessárias

és o fantasma do presente esvoaças em volta das mãos necessárias
teus olhos eram verdes se não me engano e ficavam mais belos
quando perto do mar

(de digo fome, 1970 - reproduzido em: Sempre disse tais coisas esperançado na vulcanologia - 12 poetas dos Açores, org. e notas de Emanuel Jorge Botelho)


OS FILHOS

Interrompo aqui
para te olhar os dedos
pequenos nos gestos
muitos e rápidos
de fino ouvido fico

ouço-te e amo-te

Interrompo
para te reter em mim
nos cinco sentidos
antes que cresças
e partas

interrompo-me aqui


[Breves Poemas Estivais]

3.
se devagar meus passos com
teus passos cruzam
pousando a carga de água
que sobre os ombros teus
tanto te pesa, é líquida
a ternura no teu rosto

4.
a cidade se deserta
na casa não me esperas
e os semáforos mudam
de ritmo para nada

chegam as primeiras chuvas
em sossego me fico
ouvido nas portas
nas janelas

5.
das mil e uma formas de ler
o relatório escolherei uma
deambularei pelo teu corpo dorso
receptiva a cada novo espaço

eu não posso saber em que ponto
fiquei, deambularei pelo teu corpo


POEMA TREMENDO

do tremendo poema que já fiz
ou antes do tremendo poema ficaram
gestos pouco diluídos
no ar pesado para respirar
como cinzenta era a ilha
e tremenda a solidão dos passos
deslocados sob os pés de
marinhante

a tristeza da criança
sentada ao meu lado
ocultando as nódoas da blusa

a roupa inevitável pendurada
nas cordas
a dor nas costas da mãe
lavando uma vida toda
lavando uma vida toda

mas tremenda, tremenda mesmo
é esta tarde parada
em que não temos coragem
de soprar no vento

(de Outra Versão da Casa, edições Base, 1980 - este livro tem a seguinte dedicatória:
Aos que viram a terra tremer
e as suas casa desabar em 1-1-1980
e em especial
aos que continuam sem casas
ou em casas repartidas
)