20.4.06

[500 anos depois - 3]

FRANCISCO JOSÉ VIEGAS

Uma fronteira ao acaso


Lembras-te de Netafim, caro amigo? Contámos a história
de Deus ao longo da estrada que cruzava o Sinai, rente ao
deserto, à poeira, à luz da noite, ao medo do fim do dia -
o nosso êxodo é de palavras sinceras, de rituais repetidos

sem medo ou vergonha. A história do rabino era fantástica,
atravessando numa bicicleta voadora o céu de Eilat e as margens
do mar Vermelho. A noite colheu-nos ao volante do carro,
como um resumo da história de Deus. É esta a nossa sinagoga:

o deserto, os declives das montanhas, as aldeias escondidas,
o vento que arrasta poeiras e esconde as fronteiras das cidades,
nela entramos por acaso, conforme a voz nos chama para

uma prece ou para uma refeição. Olhemos a fronteira de Netafim,
os nomes comovem-nos. Falar com Deus é estar ligado ao deserto,
preparar a morte, escolher os frutos, adormecer em Jerusalém.

(de O Puro e o Impuro, edições Quasi, 2003)

19.4.06

[500 anos depois - 2]

NELLY SACHS

VOZ DA TERRA SANTA


Ó MEUS FILHOS
A morte passou pelos vossos corações
Como por uma vinha -
Pintou Israel a vermelho em todas as paredes da Terra.

Para onde há-de ir a pequena santidade
Que ainda mora na minha areia?
Através dos canais da solidão
Falam as vozes dos mortos:

Deponde sobre o campo as armas da vingança
Pra que elas falem baixo -
Pois também o ferro e o trigo são irmãos
No seio da Terra -

Para onde há-de ir a pequena santidade
Que ainda mora na minha areia?

A criança no sono assassinada
Levanta-se; torce pra baixo a árvore dos milénios
E prende a estrela branca anelante
Que outrora se chamou Israel
Na sua coroa.

Reergue-te de novo, diz ela
Pra lá, onde lágrimas significam Eternidade.

(in Poemas de Nelly Sachs, tradução de Paulo Quintela, Portugália editora, 1967 - original de Coros Depois da Meia-Noite / Chöre Nach der Mitternacht, 1946)
[500 anos depois - 1]

SOU JOSÉ VOSSO IRMÃO

João XXIII recebeu, em audiência de 17 de Outubro, cerca de duzentos delegados judeus da United Jewish Appeal dos E. U. A., que se haviam deslocado a Roma. Acolheu-os de braços abertos e com uma citação bíblica: «Sou José, vosso irmão!»
Numa carta dirigida ao Superior Geral dos Franciscanos, o Papa escreveu, pensando nos judeus: É preciso lançar mão de todos os meios para superar mentalidades ultrapassadas, ideias preconcebidas e expressões pouco corteses.
Sabe-se que João XXIII mandou suprimir a qualificação pérfidos que se encontrava numa das orações de Sexta-Feira Santa, consagrado à conversão dos judeus.

(relatado por Henri Fesquet, in Fioretti do Bom Papa João, tradução de Maria Eugenia Varela Gomes, Livraria Morais editora, 1964 - negritos meus)

18.4.06

[para acrescentar às outras três versões]

DYLAN THOMAS

A MÃO QUE ASSINOU O PAPEL...


A mão que assinou o papel derrubou uma cidade;
Cinco dedos soberanos decidiram a sorte,
Duplicaram os mortos, dividindo um país;
Foram cinco reis a dar a um rei a morte.

A mão poderosa levou a um ombro caído
Quando as falanges dos dedos se crisparam;
Um bico de pato pôs fim ao crime
Que pôs fim àqueles que falaram.

A mão que assinou o tratado trouxe febre,
Fez crescer a fome, vieram gafanhotos;
Grande é a mão que determina
Com um garatujar, o número de mortos.

Os cinco reis contam os mortos mas não saram
Chagas que já endureceram; nem podem afagar.
A mão governa a dor como outra mão o céu;
Nas mãos não há lágrimas que chorar.

(tradução de Victor Palla in Poemas do Inglês, Ler editora, 1985)

17.4.06

ANA HATHERLY

A MATÉRIA DAS PALAVRAS


Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.

(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

16.4.06

MARTIN SCHONGAUER


Noli me tangere, 1462-1465
têmpera sobre madeira
116 cm x 87 cm

Colmar, Unterlinden-Museum
ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

NOVA MEDITAÇÃO PASCAL


Passo a passo subimos ao Calvário
(Na treva espessa é que se aspira à luz),
Mas o caminho nunca é solitário:
Há sempre quem ajude a suportar a cruz!

Há sempre uma mulher que nos enxuga o rosto
E que o piedoso pranto não sustém
Ao ver sangrar o filho à fúria exposto:
Há sempre alguém a quem chamamos Mãe!

Há sempre o açoite do ódio e da vingança
E o jogo no pó do interesse mesquinho.
Há sempre, num insulto, a ponta de uma lança
A ferir-nos de fel, mais que o cravo e o espinho!

Mas há sempre uma voz que nos pede perdão
E morre ao nosso lado com serena alegria.
Há sempre, meu Jesus, a Tua mão
E o milagre do terceiro dia!

(de Estado Estacionário, 1988)

15.4.06

"trêmulo"

Por que é que Pacheco Pereira insiste em passar poemas de Fernando Pessoa em versão brasileira?

2.4.06

RUI ANDRÉ DELÍDIA

PARA ONDE PENSANTE


Para onde pensante
esvoaça esta nuvem?
que segredo lhe viaja dentro?
talvez o seu sopro
raiz antiquíssima
dos gritos, indócil
chama múltipla
aos olhos una
água reflorida

em forma de anjo
flamejante
violino áleo
irradiando música
no centro do vento
diurno, nasce
o sideral silêncio
dos espelhos longínquos
o Tempo escapa
à sedução dos relógios

suspensa a tua mão
dá-me essa harpa
dourada, na inexistência
de respostas é nóbile
a exaltação das perguntas
desce das nascentes
dos espelhos, a tua face
adolesce, perfeita de sol
esbelta figueira
subitamente enlouquecida.

(de Do fogo (1981-1991), in Arte Inútil, Hiena editora, 1991)

1.4.06

AUTOR DESCONHECIDO


L'homme au verre de vin, ca. 1640
óleo sobre tela
44 cm x 63 cm
Paris, Museu do Louvre


VASCO GRAÇA MOURA

l'homme au verre de vin

numa sala do louvre dedicada à
pintura espanhola há um quadro
atribuído à escola portuguesa
de quatrocentos. é o

homem do copo de vinho, ou, dir-se-ia
do copo de solidão; e é possível
que seja flamengo e triste. mas tomemos
a origem indicada como boa

para esse homem que vai entrar na noite,
gravemente na noite, como numa
parda natureza. eu nunca pude
um slide dessa imagem,

um bilhete postal, ou quaisquer dados
para situar aquela estranha placidez
de quem vai encontrar no vinho umas verdades, de
alguém que vou visitar de vez em quando,

para beber um copo em companhia.
é possível que fosse na flandres
algum feitor discreto e rico ou que em lisboa fosse
o português cultivado melancólico,

segurando uma alcachofra minuciosa
que o pintor depois terá mudado
para tornar mais intenso o sentimento
ou mais real a sua digna sede.

(de a sombra das figuras, 1985)


GÉRARD CASTELLO-LOPES


(in Em demanda de Moura, Quetzal editores, 2000)

31.3.06

CARLOS BESSA

palavras de um portfólio


Do lado esquerdo e à janela, por favor.
Dois adultos, um bebé e uma criança.
O número de passageiros frequente é...
Vamos ao bar tomar qualquer coisa?

Subir ao número certo, depositar
a bagagem de mão e apertar cada
cinto com um sorriso. Sim, isto não é poesia,
não é senão rotina, sem metro, sem rima.

Algumas horas mais tarde, de novo no solo,
o sorriso é outro e atrapalhados com as
malas o táxi leva-os a novo destino
onde se bebe e fala com a emoção

de um capítulo de que há muito se adivinha
o epilogo, embora isto também não seja ciência.

(de Em partes iguais, Assírio & Alvim, 2004)

30.3.06

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

QUINTO OLHAR


Olha o vidro - vê só uma sombra
automóveis e peões na rua, a luz,
a reflexão dos sonhos no azul.

Não se levanta - fica logo presa
e prende numa esfera (talvez) azul
o peso da voz que não a revela.

Não revela nem persegue - só vê
permanece no registo (nada mais)
o sufocado desenho da palavra.

Quem reparar bem não lhe fixa nada
- perde todo o tempo no olhar
e enche a tarde com a sua imagem.

(de poemas do olhar, in 1983 um resumo, jornal "O Mirante", 1991)

29.3.06

[dia da TdA]

ARMANDO SILVA CARVALHO

UM DIA DA TERRA


Escreveste um dia que te levantavas
Quando o desgosto já não era alegórico
E te sufocavam os seus dedos
Devoradores.
Hoje antes de me deitar
Ouço o locutor dizer que a Terra
Será sempre território exclusivo do sol,
Do ar, da água.

Este planeta onde tenho a cama
E os mais instrumentos
Que me suportam o sono e outras formas
De esquecer os dias
Dá-me uma noite calma a ouvir
A voz do mar
Zeladora da minha solidão que sinto
Ligada à sua.

Não me apetece dormir.
Quero ficar de barriga para o céu
À minha volta
Quando o ar não me falta
E água me embala com o seu coro enrouquecido
De navegantes mortos
Com as suas mãos medonhas suspensas
Sobre as rochas
Como as duma velha ama.

Decido-me a fazer companhia
À Terra
E esqueço (sem esquecer)
O cruel fim dos milhares de indefesos,
As chacinas diárias, o ruído do ódio,
Do mal que grita
À minha cabeceira a minutada força
Do destino humano
Traduzido nas suas alegorias
Democratas.

Que belo rendez-vous me propõe
A torpe insónia
Nesta noite de Juízo Íntimo.
Tratar por tu severos astronautas
As emoções da Terra derramadas em gráficos,
O falso azul, os buracos negros,
A luz indiferente das estrelas,
O livro do universo.

E como tu dizias,
O domínio da vida sobre a ideia da morte.
A materia de deus deitada a meu lado
No branco do lençol.

9.9.04

(de Sol a Sol, Assírio & Alvim, 2005)

26.3.06

OCTAVIO PAZ

MAIÚSCULA


Flameja o esganicristério da alva. Primeiro ovo, primeiro bicar, carnificina e alvoroço! Voam penas, abrem-se asas, incham velas, mergulham remos na madrugada. Ah, luz sem brida, encabritada luz primeira. Desmoronamentos de cristais irrompem do monte, tímbales rompetímpanos quebram-se à minha frente.
Não sabe a nada, não cheira a nada a alvorada, a menina cega às apalpadelas pelas ruas, a menina ainda sem nome, ainda sem rosto. Chega, avança, titubeia, vai pelos corredores. Deixa um rasto de rumores que abrem os olhos. Perde-se nela mesma. E o dia esmaga com o grande pé colérico uma estrela pequena.

(de águia ou sol?, tradução de Rui Rosado, Hiena editora, 1985 - colecção Cão Vagabundo)
Ainda a propósito, faço ligação para dois textos que antes aqui coloquei: um de Jorge de Sena e outro de David Mourão-Ferreira.