[em face dos últimos acontecimentos]
TROVANTE
Beirute
Quem recordará como foi
Duvido que ainda haja alguém de pé
Que tenha dançado ao som das noites quentes
De Beirute
Será que alguém chora um ausente
Já não há ninguém para ausentar
Já não há ninguém para soluçar
Em Beirute
Em Beirute
Nem o sol nasce
Em Beirute
Como merece
É mais quente que o ar do deserto
É mais escuro que um buraco aberto
Na memória de uma terra ainda morna
Que já não torna
A ser Beirute
Em Beirute há bares fantasma
Onde outrora o amor se acoitou
E a alegria andava lado a lado
Com Beirute
Na terra onde o calor é quem manda
Havia uma cidade que era assim
Dizia nessa altura mais para mim
Do que Beirute
Quando enfim a história virar
Num tempo de arqueólogos errantes
Veremos corpos e ruínas militantes
Por Beirute
Encontraremos gente tão velha
Que nem parece ser da nossa era
Beijaremos os filhos da guerra
E choraremos
Por Beirute
(do álbum Um destes dias, 1990 - Letra de Luís Represas / Música de João Gil)
23.7.06
20.7.06
[em face dos últimos acontecimentos]
ISRAEL ELIRAZ
A ALDEIA
2
Amontoa-se o meio-dia
sobre as folhas carnudas
uma abelha selvagem indica-te a estrada pulverosa.
Demoras-te, examinas as costuras
que estalam sob o impulso.
O verão devasta
o outro lado do verão.
O gavião leva um rato
para o minarete da mesquita
vai uma vaca
para o seu macho.
Passa um homem a vender histórias
que não vos fazem mais novos
(tradução de Pedro Tamen, a partir da versão francesa de Colette Salem, in Poesia no Porto Santo, DRAC, 2002)
ISRAEL ELIRAZ
A ALDEIA
2
Amontoa-se o meio-dia
sobre as folhas carnudas
uma abelha selvagem indica-te a estrada pulverosa.
Demoras-te, examinas as costuras
que estalam sob o impulso.
O verão devasta
o outro lado do verão.
O gavião leva um rato
para o minarete da mesquita
vai uma vaca
para o seu macho.
Passa um homem a vender histórias
que não vos fazem mais novos
(tradução de Pedro Tamen, a partir da versão francesa de Colette Salem, in Poesia no Porto Santo, DRAC, 2002)
18.7.06
[outros melros XXXIX]
EUGENIO MONTALE
AO MEU GRILO
Que diria o meu grilo
disse Gina observando o melro
que debica larvas e lagartas nos vasos
de flores da varanda e suja tudo.
Mas o mais engraçado é que o grilo eras tu
enquanto foste viva e poucos o sabiam.
Tu sem olhinhos de alfinete de que tenho
um duplo, um verdadeiro insecto de celulóide
com duas bolinhas que seriam os olhos,
dois pistilos e nos olha de uma cómoda.
Que diria o grilo de então do seu sósia
e do melro? É por causa dela que aqui estou
diz Gina e enxota com a vassoura o maroto do melro.
Depois sobem-se os primeiros taipais. E é dia.
(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 - original de Diário de 71 e 72, 1973)
EUGENIO MONTALE
AO MEU GRILO
Que diria o meu grilo
disse Gina observando o melro
que debica larvas e lagartas nos vasos
de flores da varanda e suja tudo.
Mas o mais engraçado é que o grilo eras tu
enquanto foste viva e poucos o sabiam.
Tu sem olhinhos de alfinete de que tenho
um duplo, um verdadeiro insecto de celulóide
com duas bolinhas que seriam os olhos,
dois pistilos e nos olha de uma cómoda.
Que diria o grilo de então do seu sósia
e do melro? É por causa dela que aqui estou
diz Gina e enxota com a vassoura o maroto do melro.
Depois sobem-se os primeiros taipais. E é dia.
(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 - original de Diário de 71 e 72, 1973)
15.7.06
PEDRO DA SILVEIRA
PEQUENO POEMA INFINITO
A mão sobre o mapa
não viaja,
interroga.
Mas chegar à luz dos teus olhos
é entrar no porto
o navio que deram por perdido.
(de Poemas Ausentes, edição O Mirante, 1999 - colecção Alma Nova)
PEQUENO POEMA INFINITO
A mão sobre o mapa
não viaja,
interroga.
Mas chegar à luz dos teus olhos
é entrar no porto
o navio que deram por perdido.
(de Poemas Ausentes, edição O Mirante, 1999 - colecção Alma Nova)
12.7.06
[Quarta-feira, dia da Alegria]
JOÃO CANDEIAS
2
volvamos o olhar sobre a terra
onde se afaga a tepidez da carne e as lavras
se pede a alma do húmus em seu seio.
porque eu sei que de profundos sulcos
fica o rosto quando percorre arados na paisagem
e céus no infinito, pontos que arrastam
zodíacos de lama, rios de prata morta
peixes que passaram e forma vivos.
transcorrido o alcatrão onde morrem cães
pela madrugada da surpresa chegamos
ao lar de granito. séculos, séculos ternos
de água cultivando a sede
(de Voltei à casa pequena, editorial Diferença, 1999)
JOÃO CANDEIAS
2
volvamos o olhar sobre a terra
onde se afaga a tepidez da carne e as lavras
se pede a alma do húmus em seu seio.
porque eu sei que de profundos sulcos
fica o rosto quando percorre arados na paisagem
e céus no infinito, pontos que arrastam
zodíacos de lama, rios de prata morta
peixes que passaram e forma vivos.
transcorrido o alcatrão onde morrem cães
pela madrugada da surpresa chegamos
ao lar de granito. séculos, séculos ternos
de água cultivando a sede
(de Voltei à casa pequena, editorial Diferença, 1999)
11.7.06
[depois de ver A Lula e a Baleia e pela memória de Syd Barret]
PINK FLOYD
Hey You
Hey you, out there in the cold
Getting lonely, getting old
Can you feel me
Hey you, standing in the aisle
With itchy feet and fading smile
Can you feel me
Hey you, don't help them to bury the light
Don't give in without a fight
Hey you, out there on your own
Sitting naked by the phone
Would you touch me
Hey you, with your ear against the wall
Waiting for someone to call out
Would you touch me
Hey you, would you help me to carry the stone
Open your heart, I'm coming home
But it was only fantasy
The wall was too high, as you can see
No matter how he tried he could not break free
And the worms ate into his brain
Hey you, out there on the road
Always doing what you're told
Can you help me
Hey you, out there beyond the wall
Breaking bottles in the hall
Can you help me
Hey you, don't tell me there's no hope at all
Together we stand, divided we fall
(do álbum The Wall, 1979)
PINK FLOYD
Hey You
Hey you, out there in the cold
Getting lonely, getting old
Can you feel me
Hey you, standing in the aisle
With itchy feet and fading smile
Can you feel me
Hey you, don't help them to bury the light
Don't give in without a fight
Hey you, out there on your own
Sitting naked by the phone
Would you touch me
Hey you, with your ear against the wall
Waiting for someone to call out
Would you touch me
Hey you, would you help me to carry the stone
Open your heart, I'm coming home
But it was only fantasy
The wall was too high, as you can see
No matter how he tried he could not break free
And the worms ate into his brain
Hey you, out there on the road
Always doing what you're told
Can you help me
Hey you, out there beyond the wall
Breaking bottles in the hall
Can you help me
Hey you, don't tell me there's no hope at all
Together we stand, divided we fall
(do álbum The Wall, 1979)
GASTÃO CRUZ
METÁFORA
Escolho o silêncio assunto antigo para
falar deste domingo: descrevê-los
o silêncio o domingo será como
falar da escuridão e que metáfora
mais certa se as há certas, para a ínfima
luz própria metafórica do dia
A tua voz então vem como nave
a si mesma sulcar-se, na penumbra
tornando-se, não sei se mais igual
ou mais diversa do escuro sentido
do sentido, o tema interrompendo
do poema: o silêncio o domingo
(in Diversos 9 - Primavera de 2006)
METÁFORA
Escolho o silêncio assunto antigo para
falar deste domingo: descrevê-los
o silêncio o domingo será como
falar da escuridão e que metáfora
mais certa se as há certas, para a ínfima
luz própria metafórica do dia
A tua voz então vem como nave
a si mesma sulcar-se, na penumbra
tornando-se, não sei se mais igual
ou mais diversa do escuro sentido
do sentido, o tema interrompendo
do poema: o silêncio o domingo
(in Diversos 9 - Primavera de 2006)
10.7.06
[para uma antologia de bicicletas - 9]
M. ANTÓNIO
(excerto de Crónica da Cidade Estranha, Agência-Geral do Ultramar, 1964 - colecção Unidade)
M. ANTÓNIO
(...) Ele que podia ter comprado uma bicicleta, caso tivesse feito economias (o dinheiro dos cigarros, o dinheiro com que ia ver futebol...). Mas, lembra-se, mesmo que as tivesse feito, inútil lhe teria sido o sacrifício, pois nunca conseguira equilibrar-se em duas rodas. Era mesmo um rapaz de pouca sorte... Desde a escola que tinha pouca sorte - e perante o «écran» das pálpebras corridas passam, iluminadas, imagens probatórias da sua pouca sorte...
Deixa-se estar de olhos fechados. Era um processo de pensar sem dificuldade. Assim, não se cansava. Por imagens, apareciam-lhe os pensamentos, desenvolviam-se e apontavam-lhe soluções. Sem ele se esforçar. Agora, aparecem rodas, a principio paradas e pequenas, que aumentam de tamanho e se põem em movimento. São rodas ágeis, elegantes, que se ligam (agora o vê) aos pares. São bicicletas, com rodas brilhantes, e faíscam. Têm pneus largos, vermelhos. Mas andam sozinhas como se tivessem cérebro e olhos, fazem curvas, contra-curvas, empinam-se como cavalos. Depois vão desaparecendo e só fica uma que aumenta de tamanho e - como nos filmes, quando um comboio, ou carro, ou bicicleta, se aproxima da plateia - sobre a qual se destaca um vulto que inicialmente vê inteiro e não reconhece, de que depois vê só meio-corpo, depois só até o rosto, o rosto em que Beto vê a sua cara, segura, radiante, sorrindo um sorriso igual ao que se desfaz quando abre os olhos, confuso, para os ladrilhos do chão. Levanta-se, faz o gesto de quem procura a pasta inexistente e, imóvel, percorre-lhe o espírito, ou o cérebro, ou o coração, ou o corpo, esta ideia, ou vibração, ou desejo, ou estremecimento: «- Se ao menos soubesse andar de bicicleta...»
(excerto de Crónica da Cidade Estranha, Agência-Geral do Ultramar, 1964 - colecção Unidade)
9.7.06
JOÃO CANDEIAS
este hemisfério
I
quando o homem se senta na sua
cadeira de para quê e escreve
uma labareda inunda de chamas
o apenas lume que parece.
e dentro delas há um corpo eros
que se derrama na efabulação do mito
de tanto ser e da verdade que parece.
pouco a pouco como as orbitas do tempo
se vão construindo os pesadelos sonoros:
algumas falas que de dia se insinuam
de noite fingem dormir atormentadas.
por isso minha avó não teve úlceras
duodenais nem flatos coronários.
ela não tinha a moral inventada
dos párias que agora a têm.
e eros dormia um sono de aguadas
azuis e telas francas.
no ventre um báratro mistério
esguio azougue e invasões de mel.
telhas que se desmoronavam e medravam
quando a ressurreição da fé perdida
gerou um pai que foi o meu
II
retomo o labirinto das adagas
de seu fio uma distância inerme;
como espelhos medem a errância
do gesto, enquanto a certeza divaga
se silaba numa fractura de segundos
destruídos.
passam à janela algumas hordas
límpidas de flâmulas coruscantes
e gritam o sangue cardeal das artérias
que dão o ponto norte e o pólo oposto
(de Ignição Ozone, espiral, 1984)
este hemisfério
I
quando o homem se senta na sua
cadeira de para quê e escreve
uma labareda inunda de chamas
o apenas lume que parece.
e dentro delas há um corpo eros
que se derrama na efabulação do mito
de tanto ser e da verdade que parece.
pouco a pouco como as orbitas do tempo
se vão construindo os pesadelos sonoros:
algumas falas que de dia se insinuam
de noite fingem dormir atormentadas.
por isso minha avó não teve úlceras
duodenais nem flatos coronários.
ela não tinha a moral inventada
dos párias que agora a têm.
e eros dormia um sono de aguadas
azuis e telas francas.
no ventre um báratro mistério
esguio azougue e invasões de mel.
telhas que se desmoronavam e medravam
quando a ressurreição da fé perdida
gerou um pai que foi o meu
II
retomo o labirinto das adagas
de seu fio uma distância inerme;
como espelhos medem a errância
do gesto, enquanto a certeza divaga
se silaba numa fractura de segundos
destruídos.
passam à janela algumas hordas
límpidas de flâmulas coruscantes
e gritam o sangue cardeal das artérias
que dão o ponto norte e o pólo oposto
(de Ignição Ozone, espiral, 1984)
7.7.06
[outros melros XXXVIII]
JOSÉ CARDOSO PIRES
(excerto de Alexandra Alpha, 1987)
JOSÉ CARDOSO PIRES
Alexandra tinha que ir. Regressar a Lisboa, ao seu gabinete, ao novo pessoal, novas reuniões. A mãe ouvia-a, recostada na cadeira, o braço estendido sobre a mesa. Nem uma palavra. Juntava migalhas, juntava-as como quem fazia paciências, e algures no pátio, no freixo certamente, cantava um melro. Alexandra lembrou-se de que os melros tinham uma fidelidade muito especial aos lugares, como lhe explicara em menina o tio Berlengas. Todos os anos havia um melro naquele freixo.
(excerto de Alexandra Alpha, 1987)
4.6.06
JORGE DE SENA
(excerto da entrada relativa a 15 de Março de 1946, in Diários, edição de Mécia de Sena, Caixotim edições, 2004 - Obras Clássicas da Literatura Portuguesa / Século XX)
(...) cada vez mais acho a poesia uma coisa de especialistas... - nós não lemos tratados de medicina, vamos ao médico, quando precisamos. É esta exactamente uma das minhas angustiosas perplexidades, que, aliás, se resolve reconhecendo a legitimidade da poesia social, para "todos" (que a não lêem), e escrevendo uma outra que, teoricamente, diz mais profundamente respeito a todos (que igualmente a não lêem). Mas isto são contos largos.
(excerto da entrada relativa a 15 de Março de 1946, in Diários, edição de Mécia de Sena, Caixotim edições, 2004 - Obras Clássicas da Literatura Portuguesa / Século XX)
2.6.06
[para uma antologia de bicicletas - 8]
PAPINIANO CARLOS
OS CICLISTAS
Com um surdo rumor de escavadora
ressoa no subsolo a tua voz.
Muitos tapam os ouvidos delicados.
Outros escondem-se para não ouvir.
E outros estremecem de pavor.
Mas, rápidos, os ciclistas pedalam
na bruma dos subúrbios ao teu encontro.
Rosto baixo, mãos no guiador, pés
bem firmes nos pedais, geram
o movimento, o ritmo alado
das máquinas frágeis que cavalgam
ao amanhecer. Perpassam como espectros
sob a bruma e juntam-se, confluem,
avançam como um rio poderoso
sobre a cidade adormecida.
Os ciclistas. Os que erguem os andaimes
e fazem girar os fusos dos teares.
Os que movem as gruas. Os que transportam
o dinamite nas mãos calosas.
Os que não sabem envelhecer de tédio
à mesa do café nem vivem de mercadejar
preservativos, palavras, casas pré-fabricadas.
Os que não sonham morrer em glória
como jovens deuses trespassados na batalha.
Os que não hão-de apodrecer, como muitos
de nós, roídos de lepra e desespero.
Esses merecem bem a tua voz, Orfeu.
(de Os Ciclistas, in A Ave Sobre a Cidade, livraria Paisagem, 1973)
PAPINIANO CARLOS
OS CICLISTAS
A Vasco de Magalhães-Vilhena
Com um surdo rumor de escavadora
ressoa no subsolo a tua voz.
Muitos tapam os ouvidos delicados.
Outros escondem-se para não ouvir.
E outros estremecem de pavor.
Mas, rápidos, os ciclistas pedalam
na bruma dos subúrbios ao teu encontro.
Rosto baixo, mãos no guiador, pés
bem firmes nos pedais, geram
o movimento, o ritmo alado
das máquinas frágeis que cavalgam
ao amanhecer. Perpassam como espectros
sob a bruma e juntam-se, confluem,
avançam como um rio poderoso
sobre a cidade adormecida.
Os ciclistas. Os que erguem os andaimes
e fazem girar os fusos dos teares.
Os que movem as gruas. Os que transportam
o dinamite nas mãos calosas.
Os que não sabem envelhecer de tédio
à mesa do café nem vivem de mercadejar
preservativos, palavras, casas pré-fabricadas.
Os que não sonham morrer em glória
como jovens deuses trespassados na batalha.
Os que não hão-de apodrecer, como muitos
de nós, roídos de lepra e desespero.
Esses merecem bem a tua voz, Orfeu.
(de Os Ciclistas, in A Ave Sobre a Cidade, livraria Paisagem, 1973)
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Papiniano Carlos,
Portuguesa
1.6.06
[poesia de crianças]
"A minha vida é uma memória"
(João Pedro Vitorino, 3 anos)
"A poesia é uma coisa que não é a mesma coisa mas é igual"
(Beatriz Antunes, 4 anos)
"O coração é uma bolinha pequenina que faz barulho"
(Ana Carolina Gargalo, 3 anos)
"Eu tenho letras
Que andam no meu nome"
(Jorge Nunes, 4 anos)
"O silêncio é um bocadinho de boca"
(Silvana Cravide, 2 anos)
"O amor é o dobro"
(João Cassola, 5 anos)
"Onde foi a luz quando apaga-se?"
(Mariana Dionísio, 2 anos)
"Os adultos, mal ouvem uma coisa que não gostam
ficam logo com a coisa que estava combinada
que já não é"
(Cláudia Inês Guerra, 4 anos)
(poemas citados por Miguel Somsen, no seu artigo de hoje na edição de Lisboa do jornal Metro)
31.5.06
[no dia do "não-fumador" adquiri os Papéis de Fumar, volume da poesia completa de um grande Autor]
VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA
NAU PRETA
6
Porque nada parece querer dizer
O nada que alguma coisa sempre diz,
É que, chegada a hora de morrer,
Muito pouco foi tudo o que se quis.
Muito, não digo, o que havia a fazer,
Disse-o ele, aliás, com ar quase feliz,
E, acrescentou, enfim, pra se saber:
Fumar a vida eis o que, na vida, fiz!
Fumador, fumador por profissão
De tabaco d'enrolar, assim, sem pressa,
Comprado em quiosque de estação,
À mesa do café, antes que esqueça,
Tabaco louro que, por qualquer razão,
Fica em cinza nos dedos, isso qu'interessa!
(de A Arte de Perder, in Papéis de Fumar, editora Campo das Letras, 2006)
VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA
NAU PRETA
6
Porque nada parece querer dizer
O nada que alguma coisa sempre diz,
É que, chegada a hora de morrer,
Muito pouco foi tudo o que se quis.
Muito, não digo, o que havia a fazer,
Disse-o ele, aliás, com ar quase feliz,
E, acrescentou, enfim, pra se saber:
Fumar a vida eis o que, na vida, fiz!
Fumador, fumador por profissão
De tabaco d'enrolar, assim, sem pressa,
Comprado em quiosque de estação,
À mesa do café, antes que esqueça,
Tabaco louro que, por qualquer razão,
Fica em cinza nos dedos, isso qu'interessa!
(de A Arte de Perder, in Papéis de Fumar, editora Campo das Letras, 2006)
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