26.1.14

CARLO VITTORIO CATTANEO


PONTO DE INTERSECÇÃO

quando ressoa a flor de sombra
- arbusto às vezes ou charco sem confins -
escuto os passos dentro-fora
e no fulcro solar da lâmpada
rebenta a secretária (o azul expande-se
em corolas de branco: um enxame
terrível de canetas
sonha incestos de tinta e de palavras)

porque ninguém quererá arrancar-me a esta cadeira
se tu me chegas de raízes inominadas
e me confundes no dúplice reflexo
do teu sorriso da tua distância

água de monte escorre num fluir de objectos
para a cama abandonada gelo para o vazio
à janela — observo
espelho de mim cada cauto desfolhar-se
dentro-fora dos meus estratos de sombra
e o tormento de emergir antigo
com a geológica sageza de um menino

esmago o cigarro e agrumulam-se os passos
nestes muros marcados pela tua ausência
(aquele menino já morto a cada morte do mar
se ergue por vezes: é uma onda que volta a ferir)

na semente oculta da flor de sombra
as vozes corroem outra luz
quando a presa ria entre escolhos
inflamando a garganta de túrgidas invenções
- o sol dentro: fora um gotejar de sal:
a minha lâmpada amarela arrastada por azul tenaz

hoje que o pranto não paga
aquela aterrada sageza — nada mais resta
senão a poeira a ameaçar-te o rosto
e o reencontrar-te por trás de cada distância


(anexo a uma carta para Jorge de Sena, datada de «Roma, 9 de Maio de 1978», com tradução de Jorge Fazenda Lourenço, in Correspondência 1969-1978 - Jorge de Sena e Carlo Vittorio Cattaneo, Guimarães editores, 2013 - original posteriormente incluído em Cronache e Palinsesti, 1980)

25.1.14

[Mindelo, 22.Setembro.1922 - 24.Janeiro.2014]

AGUINALDO FONSECA


ESTIAGEM

Esta secura calada na garganta
não sei bem se veio do vento
ou das entranhas do inferno.

Este horizonte estreito
a estrangular distâncias e esperanças
não sei se é feito de sangue
ou de poeira vermelha.

(Oh! que desejo de uma carícia
de sombra fresca
de verdes ramos
e rochas húmidas)!

Será que perdi a voz
neste mar de sol
onde a paisagem é figura desfocada?

Se grito
o grito em mim persiste a esbracejar
porque não sai
do poço desta angústia amordaçada.



(in «Claridade», n.º 8, 1958)


PELA ESTRADA LONGA DA MINHA ESPERANÇA...

De cabelo ao vento,
Pela estrada longa da minha esperança,
Vou marchando sempre,
Ao compasso quente do meu coração.

Vou de mãos vazias, vou de lábios secos.
Pela estrada longa da minha esperança
Vou colhendo tudo e vou deixando tudo.

Dias, meses, anos, vou-os sepultando
Sob a estrada longa da minha esperança.

Olham para mim
E gritam com sarcasmo:
— Por que vais marchando, por que vais sorrindo?
Que mistério é esse que te acena ao longe?

Vão caindo folhas...
Frios ventos uivam
Pelo descampado...



(de Linha do horizonte, 1951)

22.1.14

HÉLIA CORREIA


DOIS POEMAS

1.

Tranco solidamente as portas. Casas há
que nasceram sob os pulsos
quando as magras mães dos mortos
arquejavam nas grutas junto às campas.
Casas de centros sucessivos. Essas que vós, os mortos,
sugeristes na indignação final.
Em surdina eu vos fujo para sempre
no mais dentro das coisas. Nas parábolas.

E nada aqui vos chora. Vossas noivas
pariram noutros leitos. Nada em nossas cidades
vos repetiu ainda em febre ou hino
Vede que nem o pão mudou
nem as pequenas danças ou os servos.
Tudo vos deram pois, mesmo o perdão
por vossa morte ousada
nossas bocas tremendas arquivadas na rocha.

Ouço o abismo e tranco o meu repouso.
Casas há que os mortos construíram
no seu modo de andar inquieto e são.
Casas tão pensativas que seu mármore afunda
largos veios de raiva e à noite cercam
externamente os ritos
em que a cidade alonga a sua história.
Casas que como um lodo nos recebem
no esquecimento. Casas lentas. Prévias.

Hoje apesar de vós moramos poucos
deste lado da trégua. E mal sabemos
quantas horas durou o vosso sangrar.

Mortos, morrei de novo. Morrei sempre
no grande encontro dos poderes da terra.
Mortos nas negras mães que vos suspendem
no cérebro da lua.

Como se vos amássemos ainda.

2.

Contigo partilhei os vários leitos
dos amigos dispersos. Mesas, sumos,
os degraus mal ardidos do terror.
Contigo um pouco em cada aldeia, enquanto
nada de nós podia ultrapassar
as paredes dos outros que jaziam
no repouso e no largo e tu compravas
permanecendo os nomes tumulares.

Já então começávamos a longa
inelutável morte dos estios
e eu colhia os agoiros nas fornalhas
de infatigável pão. E cada noite
um maior julgamento nos calava.

Já então nos vestíamos nos cantos
de antigamente sós. Contigo, aos poucos,
recomeçava o frio e as grandes vagens.

De terra em terra, humilde, e raramente
antecedendo a desamor final. Sem transição. Sem dor.
E hoje penso que sobreviverei sem ti
ainda quando a névoa sobreposta nos deixar
tão nus como se de hábitos nascêssemos.



(in Poesia 71, selecção de Fiama Hasse Pais Brandão e Egito Gonçalves, editorial Inova, 1972 - originalmente publicado em «Sintoma», suplemento do «Jornal do Centro»)

19.1.14

EUGENIO MONTALE


A VIDA oscila
entre o sublime e o imundo
com alguma propensão
para o segundo.
Saberemos mais acerca disso
depois das últimas eleições
que se farão lá em cima
ou lá em baixo ou em lugar algum
porque fomos já eleitos
todos nós
e quem o não foi
está bem melhor aqui em baixo
e quando se dá conta
é tarde demais
les jeux sont faits
diz o croupier pela última vez
e com a sua pá
vai varrendo as cartas.



(in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio Alvim, 2004 - original de Quaderno di quattro anni, 1978)

18.1.14

CHARLIE CHAPLIN, citando HART CRANE


Por intermédio de Waldo [Frank] conheci Hart Crane e jantámos os três muitas vezes no pequeno apartamento que Waldo tinha na Village, onde discutíamos até à hora do primeiro almoço do dia seguinte. Eram discussões apaixonantes, em que nos esforçávamos por alcançar a definição subtil dos nossos pensamentos.
Hart Crane vivia na maior pobreza. O pai, fabricante rebuçados milionário, queria que o filho entrasse para o negócio e tentava desencorajá-lo da poesia, cortando-lhe os víveres. Não tenho nem o ouvido nem o gosto afeitos à poesia moderna, mas enquanto escrevia este livro li The Bridge (A Ponte) de Hart Crane, obra à qual confiou todas as suas emoções, livro estranho e dramático, cheio de angústia lancinante e de mordaz sentido da imagem, para mim de agudeza um tanto excessiva. Mas talvez que em Hart Crane semelhante excesso fosse inato. No entanto, era dotado de grande afabilidade.
Discutimos o intento da poesia. Eu disse que a poesia era uma carta de amor dirigida ao mundo. «Um mundo muito pequeno», respondeu Hart com tristeza. Considerava que a minha obra se mantinha na tradição das comédias gregas. Confessei-lhe que tentara ler uma tradução inglesa de Aristófanes, mas não conseguira nunca lê-la até ao fim.
Hart acabou por receber uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim, mas tarde de mais. Ao fim de anos de pobreza e abandono, entregava-se à bebida e à libertinagem e, quando regressava num barco de passageiros do México para os Estados Unidos, atirou-se ao mar. 
Uns anos antes de se suicidar, mandou-me um livro de poemas curtos intitulado White Buildings (Edifícios Brancos), publicado por Boni Liveright. Na página de guarda, escreveu: «A Charlie Chaplin, lembrança do Kid, de Hart Crane. 20 de Janeiro de 1928.» Um dos poemas intitulava-se Chaplinesque: 

Vamo-nos adaptando humildemente,
Contentes dessas ocasionais consolações
Como as que o vento deposita
Em fundas, excessivas algibeiras.

Ainda podemos amar o mundo, os que encontramos
Um gatinho esfaimado à porta, e sabemos
Onde abrigá-lo do furor da rua
Numa caminha tépida de penas.

Esquivar-nos-emos, e até ao derradeiro esgar
Adiaremos a sentença do polegar inevitável
Que lentamente aponta para nós a falange enrugada,
Encarando os olhares vesgos com que inocência
E que surpresa!

E no entanto essas quedas subtis não são mais falsas
Que os molinetes duma bengalinha;
Os nossos funerais não são, no fundo, um empreendimento.
Podemos fugir-vos, e de tudo, mas não do coração:
Que havemos de fazer, se o coração palpita?

O jogo impõe sorrisos afectados,
Mas nós vimos a lua nas vielas desertas
Desencadear bátegas de gargalhadas dum balde do lixo vazio,
E através dessa algazarra ouvimos
Um gatinho a miar na solidão.



(in Autobiografia, tradução de António Lopes Ribeiro, Ulisseia, 1965)

17.1.14

JOSÉ TERRA


Seremos deuses, enfim, deuses humildes,
generosos, lúcidos e humanos.
Onde acaso tocar o nosso pé
nascerão fontes, pássaros e cânticos.
Dormiremos na fronte das montanhas
com as feras, as aves e as serpentes.
De manhã, na curva do horizonte
raiará nosso filho em vez do sol
e à porfia com rios e colinas
correremos às praias e ao oceano.
As nossas mãos conduzirão os ventos
de todos os quadrantes. E as estrelas
virão dormir no nosso coração.



(de Para o Poema da Criação, 1953)

16.1.14


RUY BELO, entrevistado por MARIA TERESA HORTA


— Acha que a poesia não pode, ou melhor, não deve ser ambígua, difícil, mas sim clara, fácil?

A poesia é por natureza difícil. Como o futebol. Desculpe a alusão. Mas não é descabida. Porque é que eu leio muito jornais desportivos? Porque os nossos maiores jornalistas são Alfredo Farinha, Carlos Pinhão, Aurélio Márcio ... Este último fez uma reportagem notável no Popular sobre o último Campeonato do Mundo de futebol. A anotar muito bem o concreto, o pormenor, como o melhor Hemingway. E Fernando Pessoa nunca será conhecido por tanta gente como Eusébio. E acho bem. O êxito.


(in «A Capital», de 18 de Setembro de 1968, e reproduzido em Na senda da Poesia, 1969)

11.1.14

[no dia em q completa 88 anos] 

JÚLIO POMAR


XXI

Pode pensar-se claramente pensado
que muitas senão todas as palavras que teimam
na parva intenção de domesticar um a um os mistérios do mundo
fazem a diferença entre uma coisa e outra na busca
do seu ser próprio, do próprio a cada uma
(passando em branco o sentido de ser, se é que o ser o tem
e o que ele diz de si próprio e sobre si próprio pensa):
eu ia a sugerir que as palavras todas mesmo
as mais levezinhas e precisas
são crostas de feridas em nós feitas
pelo roçar pelos outros ou por
nós próprios como por áspera e ignota parede.
As palavras são o barro com que modelamos o sarro
que em nós se vai depositando da
face e avesso do mundo
(que é pelo avesso que o mundo nasce e nele
o que à face aflora, galbo ou fenda).
Este é o direito
da palavra, a face que ela mostra mas
ao mostrá-la insinua que
pelo avesso sente o vício
de pedir a esmola de um catre na
grande caserna onde a comunicação arruma
as suas forças de intervenção rápida.



(de TRATAdoDITOeFEITO, publicações Dom Quixote, 2003)

6.1.14

MARIA ESMERALDA MENDES


ELE ABRIU o pequeno armário e tirou de lá uma garrafa, e abrindo-a avançou para mim. «E agora fale-me de si». Tive que lhe explicar que nada tinha para lhe contar de mim. Houve um momento de silêncio.
Toda esta situação parecia ridícula. Sou efectivamente muito estúpida, encontrava-me sentada junto à porta. Perto dele o tempo eram horas. Tudo isto porque eu e o Zé estávamos numa situação financeira muito grave.
Quando o copo foi acabado de encher, levantei-me. O meu movimento era de uma pessoa cobarde. E pensei que efectivamente era fêmea, mas com colhões na cabeça. Os remorsos tomaram-me a garganta, bruscamente acabei de beber o que estava no copo. «Escute, disse-lhe, não pense mais no que lhe pedi». Ele não quis escutar nada do que lhe dizia. Eu tão pouco estava interessada. «Sabe? Eu não sou assim tão pobre», e sorri.
Detesto histórias. Prefiro o silêncio calmo das ruas nocturnas desta cidade nua.
Quando no fim me acompanhou à porta, senti-me outra.
Na minha carteira apenas papéis inúteis.
Não! Já estou farta. A mesma história todos os dias.
Tinha fome (pensava como é que se pode escrever com fome, mas a verdade é que se pode. Acho que li em qualquer parte, numa biografia de um escritor, desses muito conhecidos do nosso meio intelectual. E para quê ler biografias? O facto é que neste momento o estômago começa a exigir, e eu nada tenho para lhe dar).
Entro no café, e num esforço consciente tiro uma folha de papel da minha carteira, e, como nunca, começo esfericamente a evocar tudo o que seria capaz para que o meu nome surgisse um dia como ponto indefinido neste tipo de desastre que te acompanha e me acompanha. «Alguém terá que pagar esta bica». Toda esta miséria, este drama de uma raça marginal que pretende sair da merda, e toda esta divagação quase homérica, os males de África, da Ásia, os tuberculosos, os Manuéis de Castro! Pobre amigo, quem é que se lembra de ti? Aristophane ligado aos seus pássaros, Joyce agarrado ao seu Ulisses... Os dramas familiares. Um escritor que se suicida (porque não queria compromissos), Lutero, os católicos, e, numa raiva, o pai que mata a filha porque esta se recusou a fornicar com ele. Que dramas! Valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo.
— E quem vai pagar esta maldita bica, que o senhor Simões acabou de trazer e eu já vomitei?
Era já noite quando cheguei ao meu quarto, Zé ainda não tinha chegado, isso poupava-me a explicações. Atirei-me sobre a cama e busquei o sono. Adormeci.


(terceiro capítulo de Rigor Mortis, edição da autora, 1982)

5.1.14

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


SOBRE UMA FOTOGRAFIA DE NUNO FERRARI

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
O trabalho, a pressa de chegar, o jogo das obrigações, deixam-no, por agora, indiferente.
Ele vira as costas ao trânsito da Vida e caminha para a máquina, para o magnésio que lhe dará a revelação duma serena amargura.
A sua Vida está suspensa nesse momento preciso.
Lesionado, impedido de jogar, toca nele, dentro dele, uma música triste.
Por isso se afasta do rio, do silêncio da água ou da neblina da manhã já alta.
As colunas do cais são um termómetro gigante a medir a amargura duma exclusão.

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
Apanhado na trama secreta dum acaso infeliz, desloca memórias de tardes entre sol e pó, à procura dos longos abraços dos companheiros a correr do outro lado do campo.
Por isso não olha de frente a objectiva, não se enquadra nas sombras, nas rugas, na duvidosa estrada do futuro.
Imaginamos que ao lado passaram aves, rápidas, tensas, como urgentes vírgulas no tempo deste homem. Passam ou passaram a caminho do Sul mas este homem não teve a esperança do calor, nem do sal das praias ou do corpo efémero das ondas.
O seu olhar era amargo, demasiado real para o magnésio da verdade, demasiado forte para a revelação dum pequeno mundo a ser destruído.


(de Mesa dos Extravagantes, O Mirante, 1996)

4.1.14

[faz hoje 49 anos que morreu]

T. S. ELIOT


PRELÚDIOS

I

A tarde de Inverno instala-se
Com o cheiro de bifes nas passagens.
Seis horas.
Os fins queimados de dias fumarentos.
E agora uma chuvinha borrascosa embrulha
Os sujos fragmentos
De folhas aos nossos pés
E jornais vindos de lotes de terrenos vagos.
Os aguaceiros batem
Em gelosias partidas e vasos da chaminé,
E na esquina da rua
Um cavalo de trem, solitário, fumega e bate com as patas no chão
Depois, acendem-se os candeeiros.

II

A manhã toma consciência
De um leve e choco cheiro a cerveja
Que vem da rua juncada de serradura
Com todos os pés que se apressam
Para os estabelecimentos matinais de café.
Entre os outros mascarados
Que o tempo continua
Lembramo-nos de todas as mãos
Que estão a erguer estores sujos
Num milhar de quartos mobilados.

III

Arrojaste o lençol da tua cama
Deitaste-te de costas, e esperaste;
Dormiste, e a noite revelou-te
As milhentas sórdidas imagens
De que a tua alma era formada;
Voltejaram tontas contra o tecto.
E quando o mundo todo regressou
E a luz se infiltrou entre as portadas,
E ouviste os pardais pelas sarjetas.
Tiveste uma visão da tua rua
Que a própria tua rua não conheceria;
Sentada na borda da cama, onde
Tiraste os papelotes do cabelo
Ou pegaste nas plantas amarelas dos teus pés
Com as palmas sujas das mãos ambas.

IV

A sua alma esticada firme nos céus
Que se apagam atrás de um quarteirão
Ou pisada por insistentes pés
Às quatro horas e cinco e seis horas;
E dedos curtos e quadrados enchendo cachimbos
E jornais da tarde, e olhos
Seguros de certas certezas
A consciência de uma rua escurecida
Impaciente de assumir o mundo.

Comovo-me por fantasias que se curvam
À volta destas imagens, e persistem;
A noção de uma coisa infinitamente gentil
E infinitamente sofredora.
Limpa a boca com a mão, e ri;
Os mundos andam à roda como mulheres velhas
A colherem madeira nos lotes vagos.


(in Antologia Poética, estudo prévio, selecção e tradução de José Palla e Carmo, publicações Dom Quixote, 1988 - Poesia Século XX)

30.12.13

JOANA DA GAMA


Soneto

Quem consigo puder o desejo enfrear
Estará livre de esperanças compridas
Que com suas tardanças consumem as vidas
E a todos estados dão muito pesar,

E o tempo se nos vai sem nos aproveitar.
De tamanhas mágoas andemos temidas,
Pera quantas vierem bem apercebidas,
Por que com as virtudes nos possamos pagar

Com desejo perfeito de as sempre seguir.
Julguemos o porvir pelo que é passado,
Que tudo a ua medida se há-de medir.

Não gastemos o tempo mal gastado,
Que esta é a perda que é mais de sentir,
Quem da graça de Deus estiver dotado.


(de Ditos da Freyra. Ditos diversos feytos por hua Freyra da Terceyra regra. Nos quaes se cõtê sen têças muy notáveis, e avisos necessarios, Évora, André de Burgos, 1555 / reproduzido em Uma Antologia Improvável - A Escrita das Mulheres (Séculos XVI a XVIII), organização de Vanda Anastácio, Relógio d'Água editores, 2013)

29.12.13

JOSÉ AUGUSTO SEABRA


DAS CINZAS

Lançar ao largo as cinzas diluídas
onde se esvai o rasto de entrever
o sonho ténue onde bordeja o início
da luz dourando a margem a morrer.

É isto indício ou nem sequer o resto
do que não foi nem há-de vir a ser?


DO INDEFINIDO

Enseada do fim
debruada nas águas
efémeras, sem mitos
nem mágoas.

No aqui
do nada
indefinido.


DO AZUL

Da franja diluída
que ao vento se incendeia
não toco nem a esquiva
transparência. Clareia
o fogo a lume brando
do rubor que tacteia
o azul e desmaia.


(de Do Nome de Deus, Instituto Cultural de Macau, 1990)

26.12.13

FERNANDO ECHEVARRÍA


1

ENTRARAM PARA ONDE A DESMESURA,
abstraindo a importância de lugares,
os absorveu na drástica coluna
de um fogo repentino a desastrar-se.
E a dirigi-los pela noite súbita
para um limbo de incêndio inominável
em que só ecos de negrura e música
ajustariam cunhos singulares.
Não haveria transparência avulsa.
Apenas a de esquecimento em fase de
sobreviver à bruma
em cujo esquecimento se afastasse.
E, com ele, se ausentaria a chusma
de gente, de animais, coisas e árvores.
Iriam para mais zona nenhuma.
Nela, invisível, erguer-se-ia a idade
de pulsos convincentes e de lúcidas
pungências a abismar-se
pela abstracção de puridade alguma.
Para ausência infinita de lugares.

2

MAS ERA AUSÊNCIA OPERATIVA. DE ONDE
surdiam pulsos contundindo, quando
a compenetração trazia o longe
à transparência intemporal de páramo,
regido só por dimensões tão doces
que retinham apenas sobressaltos.
O sopro aí sobressaía imóvel.
Abria a sua doação de fausto
a que aderia o homem
depois de ao tempo se eximir e ao espaço.
E depois de sofrer mais horizontes
cada vez mais extensos - ou mais altos? -
de onde ausentar-se convocava. E a noite,
convocada também, sumia o rasto
de quanto se sumira, abrindo, a monte,
antevisão possível, recuando.

3

E O RECUO CONVOCAVA AINDA,
retendo, embora, quantos convocara
nessa extensão de ausência operativa,
aqui tão perto de a uma tal distância.
Apontavam aí marcos de via
e de pungência jubilosa. Farta
expunham a visão funda de míngua
que doação igual proporcionava.
Abstrusamente e por um triz ubíqua
ia chegando a pulsação. A mágoa
alargava-se à conta da alegria,
recolhendo as presenças alheadas
daqueles, convocados, que seguiam
mantendo-nos afins, à borda de água.

4

ENQUANTO SE AUSENTAVAM NOS ABRIAM
a feliz novidade de um espaço
de onde somente se alargava a vista.
E em que tempo algum era contado.
Essa ausência, contudo, nos retinha
o impulso veemente, o luto em rapto
daquele, jubiloso, que partira
deixando-nos, no entanto,
o pulso contundente. A sua ida
pungindo o ponto críptico do campo
que nos reduz a uma atenção tão limpa
que nela avulta o espigão do trânsito.
Como avulta também a campa lisa,
a compenetração e os carvalhos
a aparecer do fundo dessa vida
que traz a lume a nitidez sem espaço.



(de In Terra Viventium, Afrontamento, 2011)

24.12.13



RAUL DE CARVALHO


O MEU MELHOR POEMA…

Claro que era perfeitamente natural
que eu escrevesse agora
o meu melhor poema.

Que interrompesse
a leitura interrompida
por acção e graça
de qualquer fortuita
eventualidade:
um cachimbo vazio
uma casca de noz
a notícia de que
finalmente chegou
o amigo do estrangeiro
a falta absoluta de sono
ou por exemplo
um assobio.

Vibrante claro matinal musical festivo categórico
absolutamente vivo
absolutamente
um assobio.

Que veio
que entrou sem eu saber como
(nunca se sabe como)
pelas pernas destapadas
dos meus ouvidos
pelas ancas
coléricas
em que se apoiam
os meus ouvidos
pela parte de trás
dos meus ouvidos
(bolas! as coisas são o que são
e quem mente não diz
a verdade).
Um assobio que passeia.
(Lembro-me de um homem que passeia
pela rua
com um galgo
pela rua à hora
em que as pessoas despem
suas camisas de dormir
e pedem a Deus
muitas coisas.
O homem que passeia pela rua com um galgo
também pede a Deus muitas coisas.)

Pelos pêlos encaracolados
dos meus ouvidos
pelos orifícios por onde se cruzam
se estendem se apalpam se complicam
ouvidos e pernas pernas e ouvidos
ouvidos com pernas pernas com ouvidos.
(Por que diabo a esta hora
há alguém que se lembra
de assobiar,
a esta tão absurda hora,
a esta hora tão cheia
de cravos e ruas e conversas e noite
a esta hora da noite sem movimento
hora de peões abrigados à chuva
contando uns aos outros
pequenas histórias
pequenas e maravilhosas histórias
para passar o tempo
a esta hora em que tudo
é mentira é mentira!
Quem será que se lembra?)

Nos tempos de el-rei
coração-de-leão
morreu um menino
de coração puro.
Quem será que se lembra?
Que foi
que aconteceu?
Por que razão
à vizinha do lado
lhe deu uma síncope
ao operário lhe apareceu
de repente trabalho
Jesus-Cristo apareceu
e não foi um milagre
há santos e santas na corte do céu
e há gosto por todas as coisas da vida
por que razão o suicida
gostou da água (— Quentinha!, disse ele, — Quentinha!)
por que razão o amor
é a coisa mais natural
que pode haver?
por que razão
alguém se pôs
a assobiar???

E eu, que estava tão sossegado
tão dentro de mim
tão bem instalado aqui dentro
tão longe dos meus amigos
tão cheio de boas e honestas obrigações
tão humilde para o olhar do próximo
tão disposto a perdoar a dar a concordar a perder
a tudo o que vocês quiserem
tão atrapalhado por não saber onde pôr as mãos
tão arrependido de me levantar tarde
tão resolvido definitivamente
a acabar: acabou-se: Acabar
com essa repugnante
história dos pontapés.
Eu que neste momento
da lembrança
só tinha a lembrança
dum ponto qualquer
vazio e total
diferente e igual
conforme e fatal
onde não fazer
mal a ninguém
que me fez mal.
Eu que estava mesmo quase convencido
de que a poesia para ser boa
não deve perturbar a sagrada
reunião da família.
Eu, que não sou forte em metáforas,
e quero e adoro e odeio
a realidade.

Por que diabo aquele tipo
se lembrou de mim, a esta
hora?

Sempre, sempre esta suspeita
de música...


(in Pequena Antologia do Natal, edições Mic, 1977)