26.10.03

[Numa entrada de 28 de Setembro, o Jorge Reis-Sá questiona-se sobre o lirismo. Talvez este excerto de um texto com mais de 50 anos ajude um pouco a iluminar, não só as dúvidas do Jorge, mas as de nós todos.]

DAVID MOURÃO-FERREIRA

LIRISMO


(...)
Uma elegia de Jiménez ou um soneto de Camões, a Evocação do Recife de Manuel Bandeira ou A Tortura das Quimeras de Gomes Leal, La Nuit d'Exil de Aragon ou a Barca Bela de Garrett - são poesias indiscutivelmente líricas. Inútil procurar uma natureza de motivos, que as irmane ou aproxime. A afinidade, entre poesias de natureza tão diversa, cifra-se, em primeiro lugar, na maneira involuntária e urgente como os motivos se apresentam (ou melhor: se impuseram) aos respectivos poetas. Argumentar-se-á: - como saber se tais motivos se impuseram ao poeta, de maneira involuntária e urgente? E a este argumento só poderá responder o poeta, ou o leitor atento de poesia (que, no fundo, é também um poeta): esse carácter de involuntariamente urgente, que determina o tratamento de um motivo, adivinha-se, surpreende-se, pressente-se... Nisso consiste o mistério da poesia: na maneira involuntária e urgente como os motivos se impõem. Mas esta noção de mistério não deve ir mais além: bem será que não perturbe o processo de desenvolvimento dos motivos e que intervenha nos aspectos técnicos ou formais. Perante a poesia, têm sempre existido duas atitudes falsas, e falsificadas: uma, que não admite a participação de mistério e encara a criação poética como actividade estritamente racional e deliberada; e outra, que estende absurdamente o mistério inicial (da misteriosa imposição de motivos) até ao campo da construção.
(...)

1949

(in Távola Redonda, fasc. 1, de 15 de Janeiro de 1950 - reproduzido em Motim Literário, editorial Verbo, 1962 - os sublinhados são os do original)

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