3.1.06

[a propósito de uma sequência de Kundera, pelo Tim, em Novembro: um, dois, três, quatro, cinco; e de um post, mais recente, de Luís Rainha, no Aspirina B]

HANS MAGNUS ENZENSBERGER

a merda


como se ela tivesse culpa de tudo.
vejam só como suave e modesta
ela que se senta debaixo de nós!
porquê conspurcarmos então
o seu bom nome
e o emprestamos
ao presidente dos usa,
aos chuis, à guerra
e ao capitalismo?

que efémera ela é,
e aquilo a que damos o seu nome
que duradouro!
ela, a flexível,
anda na nossa boca
e referimo-nos aos exploradores.
ela, que nós esprememos,
terá agora que exprimir ainda
a nossa raiva?

não nos aliviou?
de mole consistência
e singularmente mansa
é de todas as obras do homem
provavelmente a mais pacífica.

que mal é que ela nos fez?

(de Poemas Políticos, tradução de Almeida Faria, publicações Dom Quixote, 1975 - original de gedichte 1955-1970, de 1971)

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