[outros melros XV]
TONINO GUERRA
CANTO DÉCIMO OITAVO
Quando o melro de Pídio, o sapateiro,
fugiu da gaiola, nós o esperávamos
no pátio e cada sombra que passava
parecia ele. E no entanto não era.
Até que uma tarde, na sebe de canas,
qualquer coisa negra baloiçava
mirando-nos com uns olhitos que pareciam pontas de navalha.
Então afastámo-nos da janela
e fingimos deslocar nossas cadeiras.
(de O Mel, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2003 - documenta poetica)
15.3.04
14.3.04
JOSÉ BLANC DE PORTUGAL
O vento leste soprou desabrido
sob o nítido Sol em céu imaculado.
Sobre pedras duras, entre casas altas
mosqueadas pelas injúrias de acrescentados anos,
o Caminhante faz por esquecer as próprias dores
com a esperança de um feliz encontro e,
estranhamente,
quanto mais intensa a dor
mais eficazmente lha mitiga
a esperança.
29.III.90
(de Quaresma Abreviada, Black Sun editores, 1997)
O vento leste soprou desabrido
sob o nítido Sol em céu imaculado.
Sobre pedras duras, entre casas altas
mosqueadas pelas injúrias de acrescentados anos,
o Caminhante faz por esquecer as próprias dores
com a esperança de um feliz encontro e,
estranhamente,
quanto mais intensa a dor
mais eficazmente lha mitiga
a esperança.
29.III.90
(de Quaresma Abreviada, Black Sun editores, 1997)
RUY CINATTI
GANDHI I
Isto da violência
tem que lhe diga
quando os tais violentos
a negam e julgam.
A justiça impera
na terra, nos céus.
De Deus, a justiça.
Nos homens, a fome.
Gandhi foi, entre outros,
o mor paladino
dos tempos modernos
da justiça e amor.
Vê-lo debruçado
sobre a justa causa.
Ouvi-lo falar
do leite da vaca...
Grandes são os santos,
soldados, poetas.
A nossa derrota,
mas que grande festa!
As chamas alteiam.
Cheira a pau de sândalo.
Sobre Babilónia
as luzes apagam-se.
14/7/83
CONTENCIOSO
Ide, canções minhas, proclamai
o estado de sítio
com reflexos d'água, informais
em papel de seda,
porque não em seda crua?!...
Ela virá então nua
com ademanes fatais,
lembrar que a paz não se alcança
com violência,
corrupção, incompetência
e outras curiosas experiências
habituais no meu país.
O presidente ficará em Belém.
O primeiro ministro reabita Sintra.
Propositadamente,
a bem do cidadão,
criar-se-á o Ministério da Qualidade de Vida
para satisfazer as necessidades
de outro cidadão menos pateta.
Lorpas, imbecis,
farroupilhas, tontos,
que assim deixais à vontade
o desgraçado do poeta!
Reclassificai-o já, baixai-lhe a letra.
Que se reforme ou peça baixa médica!
Ela, entretanto, a mais que bela,
debruçar-se-á da janela
dar-lhe-á a sua bênção.
E vero!
14/7/83
(poemas inéditos, dactilografados e fotocopiados pelo Autor para serem distribuídos na rua ou aos amigos que o visitavam)
GANDHI I
Isto da violência
tem que lhe diga
quando os tais violentos
a negam e julgam.
A justiça impera
na terra, nos céus.
De Deus, a justiça.
Nos homens, a fome.
Gandhi foi, entre outros,
o mor paladino
dos tempos modernos
da justiça e amor.
Vê-lo debruçado
sobre a justa causa.
Ouvi-lo falar
do leite da vaca...
Grandes são os santos,
soldados, poetas.
A nossa derrota,
mas que grande festa!
As chamas alteiam.
Cheira a pau de sândalo.
Sobre Babilónia
as luzes apagam-se.
14/7/83
CONTENCIOSO
Ide, canções minhas, proclamai
o estado de sítio
com reflexos d'água, informais
em papel de seda,
porque não em seda crua?!...
Ela virá então nua
com ademanes fatais,
lembrar que a paz não se alcança
com violência,
corrupção, incompetência
e outras curiosas experiências
habituais no meu país.
O presidente ficará em Belém.
O primeiro ministro reabita Sintra.
Propositadamente,
a bem do cidadão,
criar-se-á o Ministério da Qualidade de Vida
para satisfazer as necessidades
de outro cidadão menos pateta.
Lorpas, imbecis,
farroupilhas, tontos,
que assim deixais à vontade
o desgraçado do poeta!
Reclassificai-o já, baixai-lhe a letra.
Que se reforme ou peça baixa médica!
Ela, entretanto, a mais que bela,
debruçar-se-á da janela
dar-lhe-á a sua bênção.
E vero!
14/7/83
(poemas inéditos, dactilografados e fotocopiados pelo Autor para serem distribuídos na rua ou aos amigos que o visitavam)
EDUARDO GUERRA CARNEIRO
RUY CINATTI
Cinatti veste roupão de seda japonês
na Travessa da Palmeira. De samurai travestido,
o sabre desembainha e salta no sobrado.
Fala-me depois de Guevara, de Cristo,
e da Virgem de Macarena de Sevilha.
Brande agora um rosário e brandy
serve. Abre a janela de repelão
e recomeça as sagas de Timor.
Recusa um charro mas conta d'outras
passas nos reinos do Oriente.
Atira ao ar as folhas dos poemas e pagelas
com santinhos. Impaciente enxota-nos.
Mas volta ao patamar da escada, aos berros,
para dizer que o chá abriu.
(de Contra a Corrente, & etc, 1988)
RUY CINATTI
Cinatti veste roupão de seda japonês
na Travessa da Palmeira. De samurai travestido,
o sabre desembainha e salta no sobrado.
Fala-me depois de Guevara, de Cristo,
e da Virgem de Macarena de Sevilha.
Brande agora um rosário e brandy
serve. Abre a janela de repelão
e recomeça as sagas de Timor.
Recusa um charro mas conta d'outras
passas nos reinos do Oriente.
Atira ao ar as folhas dos poemas e pagelas
com santinhos. Impaciente enxota-nos.
Mas volta ao patamar da escada, aos berros,
para dizer que o chá abriu.
(de Contra a Corrente, & etc, 1988)
José Blanc de Portugal (1914-2000) e Ruy Cinatti (1915-1986), fundadores dos Cadernos de Poesia, nasceram ambos a 8 de Março. Ambos escreveram poemas como quem tira as sandálias no deserto.
O QUE PODERÁ SER A NOITE?
Não acabará o dia ao amanhecer da idade lenta,*
nem precisaremos de saber dos silêncios que se repetem.
Não há equilíbrio em saber dizer nomes semelhantes
a tudo o que não vemos. Porém fumamos como quando
éramos apenas pobres à procura de mais sonhos que
nos fizessem lembrar terras e tempos
mais remotos e simples.
Na memória estão ainda as palavras e o que elas dizem
demoradamente.
________________
*verso de um poema de Francisco José Viegas, que faz hoje anos.
Não acabará o dia ao amanhecer da idade lenta,*
nem precisaremos de saber dos silêncios que se repetem.
Não há equilíbrio em saber dizer nomes semelhantes
a tudo o que não vemos. Porém fumamos como quando
éramos apenas pobres à procura de mais sonhos que
nos fizessem lembrar terras e tempos
mais remotos e simples.
Na memória estão ainda as palavras e o que elas dizem
demoradamente.
________________
*verso de um poema de Francisco José Viegas, que faz hoje anos.
12.3.04
[SONETOS À SEXTA-FEIRA]
GOMES LEAL
Alucina-me a Cor! - A Rosa é como a Lira,
A Lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.
Se a terra, às vezes, brota a flor que não inspira
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor de alguma flor que expira...
Há plantas ideais de um cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...
A magnólia é uma harpa etérea e perfumada.
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
- Tem notas marciais, soa como um clarim.
CAMILO PESSANHA
Floriam por engano as rosas bravas
No inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
Sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
ÂNGELO DE LIMA
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado.
Pára e fica, e demora-se um momento.
Pára e fica, na doida correria.
Pára à beira do abismo, se demora.
E mergulha na noite escura e fria.
Um olhar de aço, que essa noite explora.
Mas a espora da dor seu flanco estria,
E ele galga e prossegue sob a espora...
FERNANDO PESSOA
GOMES LEAL
Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.
Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.
Inúteis oito luas de loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!
Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.
EDMUNDO DE BETTENCOURT
ABRIGO
Presa da chuva corre a prostituta,
corre presa,
e em frente é a porta aberta do palácio que lhe acena.
Mas à entrada,
o resto duma sereia emerge do escuro,
e um lobo acorda do sono dum tapete,
com uma risonha flor nos dentes,
que a uma claridade subterrânea
o palácio está sem tecto,
suas paredes transparecem,
todo ele é uma poça de água cintilando!
Fora,
uma lira de chuva num deserto
acena à prostituta...
VITORINO NEMÉSIO
O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vi uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Ninive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
CARLOS DE OLIVEIRA
SONETO FIEL
Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.
O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.
As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.
O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.
MANUEL DE CASTRO
A VOZ QUASE SILÊNCIO
vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco gasto frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento
o homem que foi um feto que foi um peixe
que foi o ar que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos
ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade
garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio
ANTÓNIO GANCHO
ULISSES-OLISIPO
Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe
A chaminé na cidade deita o fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu, Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração
O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa
também eu te vou a cantar
Grande a nostalgia do teu néon luminoso
a sentir-se dentro de mim e a dizer-se que já não posso
Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céus.
[todos estes poemas estão incluídos em Edoi Lelia Doura, antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa, organizada por Herberto Helder, Assírio & Alvim, 1985]
GOMES LEAL
Alucina-me a Cor! - A Rosa é como a Lira,
A Lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.
Se a terra, às vezes, brota a flor que não inspira
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor de alguma flor que expira...
Há plantas ideais de um cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...
A magnólia é uma harpa etérea e perfumada.
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
- Tem notas marciais, soa como um clarim.
CAMILO PESSANHA
Floriam por engano as rosas bravas
No inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
Sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
ÂNGELO DE LIMA
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz do esquecimento.
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado.
Pára e fica, e demora-se um momento.
Pára e fica, na doida correria.
Pára à beira do abismo, se demora.
E mergulha na noite escura e fria.
Um olhar de aço, que essa noite explora.
Mas a espora da dor seu flanco estria,
E ele galga e prossegue sob a espora...
FERNANDO PESSOA
GOMES LEAL
Sagra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.
Este, poeta, Apolo em seu regaço
A Saturno entregou. A plúmbea mão
Lhe ergueu ao alto o aflito coração,
E, erguido, o apertou, sangrando lasso.
Inúteis oito luas de loucura
Quando a cintura tríplice denota
Solidão e desgraça e amargura!
Mas da noite sem fim um rastro brota,
Vestígios de maligna formosura:
É a lua além de Deus, álgida e ignota.
EDMUNDO DE BETTENCOURT
ABRIGO
Presa da chuva corre a prostituta,
corre presa,
e em frente é a porta aberta do palácio que lhe acena.
Mas à entrada,
o resto duma sereia emerge do escuro,
e um lobo acorda do sono dum tapete,
com uma risonha flor nos dentes,
que a uma claridade subterrânea
o palácio está sem tecto,
suas paredes transparecem,
todo ele é uma poça de água cintilando!
Fora,
uma lira de chuva num deserto
acena à prostituta...
VITORINO NEMÉSIO
O recorte de um cão, na areia, ao luar.
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vi uivar a tanta eira?
Que longo e liso, o fio da noite!
- E amar, esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra, ou Ninive)
Encontrei um anel, uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi vão,
E até nem sei se esse osso tive.
CARLOS DE OLIVEIRA
SONETO FIEL
Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.
O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.
As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.
O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.
MANUEL DE CASTRO
A VOZ QUASE SILÊNCIO
vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco gasto frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento
o homem que foi um feto que foi um peixe
que foi o ar que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos
ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade
garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio
ANTÓNIO GANCHO
ULISSES-OLISIPO
Desenham-se no céu os números da solidão
por onde James Joyce conseguiu escrever o romance
Ulisses há-de sê-lo bem o meu coração
eu, a minha solidão, o meu transe
A chaminé na cidade deita o fumo da minha angústia
o meu desespero projecta a minha intoxicação
Ulisses, cidade de Dublin, eu, Lisboa, minha cidade
eu, Lisboa, a chaminé, o meu coração
O fumo sobe que sobe sobe que sobe e enche o ar
cidade de Dublin, Lisboa
também eu te vou a cantar
Grande a nostalgia do teu néon luminoso
a sentir-se dentro de mim e a dizer-se que já não posso
Aqui a enorme cidade aqui a tentacular
o meu crime é de estudar o céu que me invade
e onde arranha o arranha-céus.
[todos estes poemas estão incluídos em Edoi Lelia Doura, antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa, organizada por Herberto Helder, Assírio & Alvim, 1985]
marcadores:
Ângelo de Lima,
António Gancho,
Camilo Pessanha,
Carlos de Oliveira,
Edmundo de Bettencourt,
Gomes Leal,
Manuel de Castro,
Nemésio,
Pessoa,
Portuguesa,
sonetos
11.3.04
[enviado por um amigo]
Esta manhã explodia o terror em Madrid...
Ontem, as laudes da liturgia das horas propunham-nos este salmo...
Salmo 76(77)
Lembrando as maravilhas do Senhor
Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos (2Cor 4,8).
[...]
Será que Deus se esqueceu de ter piedade?
Será que a ira lhe fechou o coração?
Eu confesso que é esta a minha dor:
"A mão de Deus não é a mesma: está mudada!"
Mas, recordando os grandes feitos do passado,
vossos prodígios eu relembro, ó Senhor;
eu medito sobre as vossas maravilhas
e sobre as obras grandiosas que fizestes.
São santos, ó Senhor, vossos caminhos!
[...]
Voltemos a rezá-lo!...
Esta manhã explodia o terror em Madrid...
Ontem, as laudes da liturgia das horas propunham-nos este salmo...
Salmo 76(77)
Lembrando as maravilhas do Senhor
Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos (2Cor 4,8).
[...]
Será que Deus se esqueceu de ter piedade?
Será que a ira lhe fechou o coração?
Eu confesso que é esta a minha dor:
"A mão de Deus não é a mesma: está mudada!"
Mas, recordando os grandes feitos do passado,
vossos prodígios eu relembro, ó Senhor;
eu medito sobre as vossas maravilhas
e sobre as obras grandiosas que fizestes.
São santos, ó Senhor, vossos caminhos!
[...]
Voltemos a rezá-lo!...
7.3.04
O Tiago foi a primeira pessoa que conheci por causa dos blogues. Gosto muito do que ele diz e de como o diz.
Aquilo que muitos pensam ser mero exercício de ironia é, na verdade, a prática de uma honestidade e sinceridade que vão muito para lá da simples resistência ao politicamente correcto.
Quando fala da sua suburbanidade ou quando se compara a Saddam Hussein dizendo que podia ser tão mau quanto ele, o Tiago apenas está humildemente a demonstrar a sua lucidez evangélica.
O Tiago é um verdadeiro profeta, como é necessário que sejam todos os cristãos.
A Voz do Deserto completou esta semana um ano de emissões.
Aquilo que muitos pensam ser mero exercício de ironia é, na verdade, a prática de uma honestidade e sinceridade que vão muito para lá da simples resistência ao politicamente correcto.
Quando fala da sua suburbanidade ou quando se compara a Saddam Hussein dizendo que podia ser tão mau quanto ele, o Tiago apenas está humildemente a demonstrar a sua lucidez evangélica.
O Tiago é um verdadeiro profeta, como é necessário que sejam todos os cristãos.
A Voz do Deserto completou esta semana um ano de emissões.
[as Torneiras recanalizaram-se para o local de origem. Convocam-se os GNR, para marcar o evento (ainda que com atraso...)]
FREUD & ANA
Mão morta/Mãe morta
Vai bater àquela porta
"Que se lixe quem não dança"
(disse Carl Jung)
É o século XX/
É o sexo vintage
A nossa doença, a nossa militância
É há cá quem sofra de complexos
E quem se queixe de SIDA
Mesmo de novas misturas
Em casais de pombos
E há cada vez mais novos combos
E até electro-choques
Insulina a rodos e outros mentais retoques
Querida,
Apareces-me em sonhos
Com penas de gato e muita comida
Que não te falte nada
Mesmo assim vestida
A tua líbido é mistura
De desejo e bebida
Como a cabeça do bispo
Tu comes a cabeça da dama
Vendo-te o "cavalo"
Empresto-te a torre
Mas quero saber que me ataca
Atropelo um peão
Juro que ele não morre
Baby eu sei que não sente
Liebschen ele nem trabalha
Não come não sente
Já não se lembra quem é...
E o luar é tão cândido
E eu e tu Ana tudo é pureza e limpeza
E era tudo tão claro
E agora é tudo tão vago
Tudo gente tão podre
E há uma assimetria
Com um toque de lobotomia
Ó miss Psicanálise - Que perfeita que és
E tão pequenina
Com umbigo e tudo - E até unhas nos pés
Que saúde que tens!
(Como eu a invejo)...
Que perfeita que és da cabeça aos pés!
(do álbum Os Homens não se Querem Bonitos, de 1985 - Letra e Música: Rui Reininho, Alexandre Soares, Jorge Romão e Toli)
FREUD & ANA
Mão morta/Mãe morta
Vai bater àquela porta
"Que se lixe quem não dança"
(disse Carl Jung)
É o século XX/
É o sexo vintage
A nossa doença, a nossa militância
É há cá quem sofra de complexos
E quem se queixe de SIDA
Mesmo de novas misturas
Em casais de pombos
E há cada vez mais novos combos
E até electro-choques
Insulina a rodos e outros mentais retoques
Querida,
Apareces-me em sonhos
Com penas de gato e muita comida
Que não te falte nada
Mesmo assim vestida
A tua líbido é mistura
De desejo e bebida
Como a cabeça do bispo
Tu comes a cabeça da dama
Vendo-te o "cavalo"
Empresto-te a torre
Mas quero saber que me ataca
Atropelo um peão
Juro que ele não morre
Baby eu sei que não sente
Liebschen ele nem trabalha
Não come não sente
Já não se lembra quem é...
E o luar é tão cândido
E eu e tu Ana tudo é pureza e limpeza
E era tudo tão claro
E agora é tudo tão vago
Tudo gente tão podre
E há uma assimetria
Com um toque de lobotomia
Ó miss Psicanálise - Que perfeita que és
E tão pequenina
Com umbigo e tudo - E até unhas nos pés
Que saúde que tens!
(Como eu a invejo)...
Que perfeita que és da cabeça aos pés!
(do álbum Os Homens não se Querem Bonitos, de 1985 - Letra e Música: Rui Reininho, Alexandre Soares, Jorge Romão e Toli)
REVISTA DE BLOGS IMAGINÁRIOS:
· O Na paz dos reis propõe a continuação da Panóplia do fetichista cinéfilo, mas só com filmes lusófonos:
101 - Fato aos losangos ("A dança dos paroxismos", Jorge Brum do Canto)
102 - Boneco de ventríloquo ("O grande Elias", Arthur Duarte)
103 - Sapatos brancos ("Ópera do malandro", Ruy Guerra)
104 - Lupa ("A Comédia de Deus", João César Monteiro)
105 - Luvas sujas de sardinhas ("Tráfico", João Botelho)
· No Velho cinema de réprise, a Rita revê a sua história.
· No Geórgicas & Bucólicas, o Virgílio conta que foi ao McDonalds do Chiado comer um GreekMac e foi atendido por uma rapariga chamada Eneida.
· O Figuras com estilo apresenta exemplos de pleonasmos onde se repete a mesma ideia:
- endereço de e-mail electrónico;
- líquido fluído;
- os clássicos: subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro e sair para fora;
- falantes de língua lusófona;
- subscrevo por baixo.
· No Nada a aclarar considera-se despropositada e inoportuna (além de atrasada 3 dias) a evocação d'oblogsobrekleist pelo Ruialme.
· O Na paz dos reis propõe a continuação da Panóplia do fetichista cinéfilo, mas só com filmes lusófonos:
101 - Fato aos losangos ("A dança dos paroxismos", Jorge Brum do Canto)
102 - Boneco de ventríloquo ("O grande Elias", Arthur Duarte)
103 - Sapatos brancos ("Ópera do malandro", Ruy Guerra)
104 - Lupa ("A Comédia de Deus", João César Monteiro)
105 - Luvas sujas de sardinhas ("Tráfico", João Botelho)
· No Velho cinema de réprise, a Rita revê a sua história.
· No Geórgicas & Bucólicas, o Virgílio conta que foi ao McDonalds do Chiado comer um GreekMac e foi atendido por uma rapariga chamada Eneida.
· O Figuras com estilo apresenta exemplos de pleonasmos onde se repete a mesma ideia:
- endereço de e-mail electrónico;
- líquido fluído;
- os clássicos: subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro e sair para fora;
- falantes de língua lusófona;
- subscrevo por baixo.
· No Nada a aclarar considera-se despropositada e inoportuna (além de atrasada 3 dias) a evocação d'oblogsobrekleist pelo Ruialme.
6.3.04
(Alberto Giacometti, estudo para Homem Caminhando)
MÁRIO RUI DE OLIVEIRA
O VENTO DA NOITE
De olhos cerrados, num autocarro, até me perder. Vazio, indigente, puro, regresso suplicando compaixão. É tarde. O crepúsculo já pronunciou o seu nome e não sei onde fica a minha casa.
Rente aos muros, coração descalço, persigo o vento da noite, o murmúrio de uma voz.
(de O Vento da Noite, Assírio & Alvim, 2002)
marcadores:
Mário Rui de Oliveira,
pintura,
Portuguesa
5.3.04
[SONETOS À SEXTA-FEIRA]
GREGÓRIO DE MATTOS
Ao conde de Ericeira, D. Luiz de Meneses, pedindo louvores ao poeta, não lhe achando ele préstimo algum
Um sonêto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já êste quartetinho está no cabo.
Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
Na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.
Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.
Nesta vida um sonêto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.
(fixação do texto de Gilberto Mendonça Teles)
OLAVO BILAC
VIA LÁCTEA
Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Teres notado que outras coisas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.
Mas amastes, sem dúvida... Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço coisas tristes,
Que mais aflijam, que torturem tanto.
Quem ama inventa as penas em que vive:
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.
Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos sòmente e dos amantes
Na maior alegria andar chorando.
ALPHONSUS DE GUIMARAENS
Estão mortas as mãos daquela Dona,
Brancas e quietas como o luar que vela
As noites romanescas de Verona,
E as barbacãs e tôrres de Castela...
No último gesto de quem se abandona
A morte esquiva, que apavora e gela,
As suas mãos de Santa e de Madona,
Inda postas em cruz, pedem por ela.
Uma esquecida sombra de agonias
Oscula o jaspe virginal das unhas,
E ao longo oscila das falanges frias...
E os dedos finos... ai! Senhora, ao vê-los,
Recordo-me da graça com que punhas
Um cravo, um lírio, um goivo entre os cabelos!
JORGE DE LIMA
MISSÃO E PROMISSÃO
Não a vaga palavra, corruptela
vã, corrompida folha degradada,
de raiz deformada, abaixo dela,
e de vermes, além, sobre a ramada;
mas, a que é a própria flor arrebatada
pela fúria dos ventos: mas aquela
cujo pólen procura a chama iriada,
- flor de fogo a queimar-se como vela;
mas aquela dos sopros afligida,
mas ardente, mas lava, mas inferno,
mas céu, mas sempre extremos. Esta sim,
esta é que é a flor das flores mais ardida,
esta veio do início para o eterno,
para a árvore da vida que há em mim.
VINICIUS DE MORAES
SONÊTO DO GATO MORTO
Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selavas sinuosas da saudade
De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.
Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto
Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.
MARIA ÂNGELA ALVIM
A PEREGRINA
Calma, sim, acostumada
ao teu convívio constante
és a pessoa encontrada
sendo eterna itinerante.
Passas na comum estrada
e só tu passas durante
a multidão variada
de rostos para o levante.
Às vezes paras na estância
sem nenhum morno cansaço
de quem caminha com ânsia.
Entendes de todo engano
e fazes virar o passo
com tu pífaro indiano.
CARLOS PENA FILHO
SONETO DAS DEFINIÇÕES
Não falarei de coisas, mas de inventos
e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito
à música das cores e dos ventos.
Multiplicar-me-ei em mil cinzentos
(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.
Daí, o meu desprezo a jogos claros
e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.
Daí também, a enorme divergência
entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.
LUPE COTRIM GARAUDE
DESTINO MINERAL
Sou feita de uma carne perecível
futuro de outra carne, sem nenhuma
eternidade. A rocha é uma invencível
parte da terra; que ela me resuma
no seu mesmo destino mineral.
A solidez ausente que tortura
nossa matéria frágil, no final
se renderá: serei de pedra dura.
Nunca mais chorarei nessa passagem
de poesia. Com nítida certeza,
recorto nas montanhas minha imagem
mais que raiz, expressa na beleza.
Pela terra em que não me desfiguro,
hei de surgir um dia em cristal puro.
STELLA LEONARDOS
HARPEJOS
Qualquer coisa de terno e eterno encanto
deste canto em que estamos nos transcende,
um fresco germinado por manhãs
de pássaros que passam pelo ar cedo,
flagrante deflagrar virgem fragrância,
rufar de asas passantes pluma e seda.
Antes que haja plateia deste instante
já lhe doamos o nosso pensamento.
Cálido, o coração atinge um plano
de surdina nos tons ternura plena
onde entre vós e nós não vai distância
mas a saudade só calada e assente.
Àqueles em que calam acalantos
calor desse cantar feito acalento.
GREGÓRIO DE MATTOS
Ao conde de Ericeira, D. Luiz de Meneses, pedindo louvores ao poeta, não lhe achando ele préstimo algum
Um sonêto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já êste quartetinho está no cabo.
Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
Na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.
Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.
Nesta vida um sonêto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.
(fixação do texto de Gilberto Mendonça Teles)
OLAVO BILAC
VIA LÁCTEA
Em mim também, que descuidado vistes,
Encantado e aumentando o próprio encanto,
Teres notado que outras coisas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.
Mas amastes, sem dúvida... Portanto,
Meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço coisas tristes,
Que mais aflijam, que torturem tanto.
Quem ama inventa as penas em que vive:
E, em lugar de acalmar as penas, antes
Busca novo pesar com que as avive.
Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos sòmente e dos amantes
Na maior alegria andar chorando.
ALPHONSUS DE GUIMARAENS
Estão mortas as mãos daquela Dona,
Brancas e quietas como o luar que vela
As noites romanescas de Verona,
E as barbacãs e tôrres de Castela...
No último gesto de quem se abandona
A morte esquiva, que apavora e gela,
As suas mãos de Santa e de Madona,
Inda postas em cruz, pedem por ela.
Uma esquecida sombra de agonias
Oscula o jaspe virginal das unhas,
E ao longo oscila das falanges frias...
E os dedos finos... ai! Senhora, ao vê-los,
Recordo-me da graça com que punhas
Um cravo, um lírio, um goivo entre os cabelos!
JORGE DE LIMA
MISSÃO E PROMISSÃO
Não a vaga palavra, corruptela
vã, corrompida folha degradada,
de raiz deformada, abaixo dela,
e de vermes, além, sobre a ramada;
mas, a que é a própria flor arrebatada
pela fúria dos ventos: mas aquela
cujo pólen procura a chama iriada,
- flor de fogo a queimar-se como vela;
mas aquela dos sopros afligida,
mas ardente, mas lava, mas inferno,
mas céu, mas sempre extremos. Esta sim,
esta é que é a flor das flores mais ardida,
esta veio do início para o eterno,
para a árvore da vida que há em mim.
VINICIUS DE MORAES
SONÊTO DO GATO MORTO
Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selavas sinuosas da saudade
De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.
Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto
Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.
MARIA ÂNGELA ALVIM
A PEREGRINA
Calma, sim, acostumada
ao teu convívio constante
és a pessoa encontrada
sendo eterna itinerante.
Passas na comum estrada
e só tu passas durante
a multidão variada
de rostos para o levante.
Às vezes paras na estância
sem nenhum morno cansaço
de quem caminha com ânsia.
Entendes de todo engano
e fazes virar o passo
com tu pífaro indiano.
CARLOS PENA FILHO
SONETO DAS DEFINIÇÕES
Não falarei de coisas, mas de inventos
e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito
à música das cores e dos ventos.
Multiplicar-me-ei em mil cinzentos
(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.
Daí, o meu desprezo a jogos claros
e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.
Daí também, a enorme divergência
entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.
LUPE COTRIM GARAUDE
DESTINO MINERAL
Sou feita de uma carne perecível
futuro de outra carne, sem nenhuma
eternidade. A rocha é uma invencível
parte da terra; que ela me resuma
no seu mesmo destino mineral.
A solidez ausente que tortura
nossa matéria frágil, no final
se renderá: serei de pedra dura.
Nunca mais chorarei nessa passagem
de poesia. Com nítida certeza,
recorto nas montanhas minha imagem
mais que raiz, expressa na beleza.
Pela terra em que não me desfiguro,
hei de surgir um dia em cristal puro.
STELLA LEONARDOS
HARPEJOS
Qualquer coisa de terno e eterno encanto
deste canto em que estamos nos transcende,
um fresco germinado por manhãs
de pássaros que passam pelo ar cedo,
flagrante deflagrar virgem fragrância,
rufar de asas passantes pluma e seda.
Antes que haja plateia deste instante
já lhe doamos o nosso pensamento.
Cálido, o coração atinge um plano
de surdina nos tons ternura plena
onde entre vós e nós não vai distância
mas a saudade só calada e assente.
Àqueles em que calam acalantos
calor desse cantar feito acalento.
marcadores:
Alphonsus Guimarães,
Brasileira,
Carlos Pena Filho,
Gregório de Matos,
Jorge de Lima,
Lupe Cotrim Garaude,
Maria Ângela Alvim,
Olavo Bilac,
sonetos,
Stella Leonardos,
Vinicius
Subscrever:
Mensagens (Atom)