Poesia distribuída na rua.

24.3.13

GERARDO DIEGO


OS OMBROS DOS FILÓSOFOS

Os ombros dos filósofos estabelecem o aqueduto
de onde nos chega o sangue obtido pelo degelo
dos mais altos corações
Se ponho os meus maxilares nesse entreposto de séculos
estremecem-me aladas todas as árvores das minhas veias
e enchem-se de repente as minhas humilhadas bochechas

Ninguém tem o direito de trocar um inverno de cinema
por um par de pistolas incrustadas de estrelas
nem a conseguir que o céu lhe devolva as suas bengalas esquecidas
e os seus cartões de visita desperdiçados

O que já entrou no canal intestinal da serpente
nunca mais se arrepende nem sequer
faz um nó gracioso no mais belo do caminho

Deixa-me passar a mão pelo dorso suavíssimo destes versos que escrevo
A eternidade assim por baixo dos meus dedos miará ternamente


(tradução minha – original de Biografia incompleta, 1925-1941)

25.2.13

MARTA CHAVES


É impossível
quando procuras
um mapa
um espelho

um lugar onde assinalar estes desaparecimentos.


(de onde não estou tu não existes, tea for one, 2009)

13.1.13

LÊDO IVO


O  INVERNO

Suportar o  inverno
com a coragem dos sonhos.
Poeta viril e consciente
colherei flôres cheirosas
para você, fruta madura,
que em oferenda se abre.
Na chuva que cai
você nua se dispersa
e aceita o rio grávido
as tanajuras e a terra
parindo   destroços  biblicamente.

E na rede que oscila
o mundo renasce
surpresa e nudez
para a chuva que cai.


(de As Imaginações, 1944, incluído em Uma Lira dos Vinte Anos, com planejamento gráfico de Antônio Houaiss e João Cabral de Melo Neto, Livraria São José, 1962)

7.1.13

MANUEL BANDEIRA


POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. 

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. 

Abaixo os puristas.

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis 

Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. 

De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc. 

Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbados 
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos 
O lirismo dos clowns de Shakespeare. 

- Não quero saber do lirismo que não é libertação.


(de Libertinagem, 1930)

9.12.12

[efeméride]


JORGE DE SENA


Hei-de ser tudo o que eles querem:
a raiva é toda de eu não ser um espelho
em que mirem com gosto os próprios cornos,
as caudas com lacinhos, e os bigodes
de chibos capripédicos.
Não sou sequer imagem.
Mas voz eu sou
que como agulha ou lança ou faca ou espada
mesmo que não dissesse da miséria
de lodo e trampa em que se espojam vis
só porque existe é como uma denúncia.

Hei-de ser tudo, não o sendo. Um dia
— podres na terra ou nos caixões de chumbo
estes zelosos treponemas lusos —
uma outra gente, e limpa, julgará
desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de umbigo preso à podridão de impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.
9/12/1972
  
Viajemos.
Oh não para comer comidas raras.
ou para experimentar corpos exóticos.
Mas para não ficar num lugar só
e na corrida não ter tempo nunca
de descobrir o que sabe: é porca
a mesma humanidade em toda a parte.
Olhemos a paisagem, monumentos,
notemos como há gente muito bela,
passemos onde espíritos sofreram
(sem visitá-los onde dormem pó)
— e tomemos depressa avião ou barco,
ou carro ou expresso, antes que alguém comece
a abrir a boca e mostre a dentadura.
9/12/1972

(in Visão Perpétua, edições 70, 1989)

27.11.12

não sou nem nunca serei um poeta a sério. publiquei dois livros, colaborei em revistas e antologias, estive neste ou naquele evento. mas tudo muito superficial, sem consistência. também não faço parte de grupos tertúlias ou movimentos afins. as relações literárias q tenho tido são pontuais e inconsequentes. mesmo aqueles do "meio" a quem posso chamar Amigos, são gente com quem raramente falo ou contacto de qualquer outra forma. basicamente, sou um leitor solitário, q de vez em quando descarrega palavras com a ânsia de serem lidas. o facebook nesse aspecto é muito útil, pois cria a ilusão de se ser lido. no fim, tudo excessivamente efémero.

19.11.12

PARMÉNIDES


Pois bem, eu vou falar, e tu escuta e retém as minhas palavras,
que te ensinarão as duas únicas vias do conhecimento que é possível conceber.
A primeira é o que é e que não pode deixar de ser.
É a via da persuasão, companheira da Verdade.
A segunda é o que não é e como é forçoso que não exista.
Digo-te: esta via é uma senda que não se pode percorrer.
Pois não poderás conhecer o que não é
nem exprimi-lo por palavras.

... Pois pensar é o mesmo que existir.

(in Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, Portugália editora, 2010)

16.11.12


JULIO CORTÁZAR

Sempre que chega o tempo fresco, ou seja, a meio do Outono, passam me pela cabeça ideias de tipo echêntríco e esótico, como por ezenplo tornar me uma andorinha para poder voar para os paízes onde está mais calor, ou de ser formiga, para poder enfiar me bem dentro de uma cova e comer os alimentos armazenados durante o Verão ou de ser uma bívora como as do soológicO, onde as têm bem guardadas numa jaula de vidro aquecida para que não fiquem duras de frio, que é o que acontece aos pobres seres humanos, que não podem comprar roupa de tão cara questá, nem podem aquecer se por causa da falta de querosene, carvão, lenha, petróleo, e essencialmente por causa da falta de massa, porque quando alguém anda cheio dela pode dar se ao luxo de entrar em qualquer tasca para beber uma boa grappa e é ver enquanto aquece, ainda que convenha não abusar, porque do abuso vem o víssio e do víssio a degeneração tanto do corpo como das taras moral de cada um, e quando alguém se vem abaixo pela suspensa e fatal falta de condupta moral em todo o sentido, já ninguém nem ninguéns o livra de acabar no mais espantoso caixote de lixo do desprastíjio humano, e nunca lhe darão uma mão se entenderá para o resgatar da lama inmunda na qual se rebolve, nem mais nem menos do que se fosse um condoR que quando jovem soube correr e voar pelo cume das altas montanias, mas que ao envelhecer caiu prabaixo como um bombardeiro em voo picado ao qual falha o motor moral. Oxalá o que estou a escrever sirva pralgum tomar atenção ao seu comportamento e para não sarrepender quando for demasiado tarde e já tudo tenha ido pró badano por sua própria culpa!
CÉSAR BRUTO, O que eu gostaria de ser se não fosse o que sou (capítulo Cão de São Bernardo).

(in O Jogo do Mundo (Rayuela), tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008)

13.8.12

[outros melros LXVI]

MILAN KUNDERA


No decorrer dos últimos duzentos anos o melro abandonou as florestas para se transformar num pássaro das cidades. Primeiro na Grã-Bretanha, logo no final do século XVIII, umas dezenas de anos mais tarde em Paris e no Ruhr. Ao longo do século XIX, conquistou, uma após outra, as cidades da Europa. Instalou-se em Viena e em Praga por volta de 1900, continuou para leste, chegou a Budapeste, Belgrado e Istambul.
No que diz respeito ao planeta, esta invasão do melro no mundo do homem é incontestavelmente mais importante do que a invasão da América do Sul pelos Espanhóis ou do que o regresso dos Judeus à Palestina. A modificação das relações entre as diversas espécies da criação (peixes, pássaros, homens, vegetais) é uma modificação de ordem mais elevada do que as mudanças nas relações entre os diferentes grupos de uma mesma espécie. Que a Boémia seja habitada pelos Celtas ou pelos Eslavos, a Bressarábia conquistada pelos Romenos ou pelos Russos, à Terra tanto lhe faz. Mas que o melro traia a sua natureza original para seguir o homem no seu universo artificial e contranatura é um facto que já altera alguma coisa quanto à organização do planeta.
No entanto, ninguém ousa interpretar os dois últimos séculos como a história da invasão das cidades do homem pelo melro. Somos todos prisioneiros de uma concepção pré-estabelecida do que é importante e do que não o é, fixamos sobre o que é importante olhares ansiosos, enquanto furtivamente, nas nossas costas, o insignificante conduz a sua guerrilha, que acabará por alterar sub-repticiamente o mundo e a atacar-nos de surpresa.


(excerto de O Livro do Riso e do Esquecimento, tradução de Tereza Coelho, 3ª edição: publicações Dom Quixote, 1986)

27.7.12


D. H. LAWRENCE


COBRA

Uma cobra abeirou-se da gamela
Num dia de calor, tanto calor e eu de pijama,
Para beber da minha água.

Na sombra funda de perfume estranho da grande alfarrobeira escura
Desci os degraus de cântaro na mão
E tive de ficar, ficar ali à espera pois na gamela à minha frente estava o réptil.
Ele desceu por uma fenda do muro de terra na sombra
E no bordo da gamela de pedra arrastou devagar o ventre fulvo e mole
E encostou o pescoço no fundo de pedra
E numas pingas límpidas de água escorrida da torneira
Bebeu aos poucos por fauces lisas
Bebeu de leve por gengivas lisas enchendo o corpo lento e longo

Em silêncio.

Alguém chegara primeiro à minha gamela de água
E eu que vim depois fiquei à espera.

Ergueu a cabeça depois de uns goles tal como o gado
E fitou-me vagamente como faz o gado a beber,
A língua saía-lhe da boca, bífida, súbita; alheou-se um momento
E inclinou-se a beber um pouco mais
Castanho como terra, terra de oiro, saído das entranhas da terra ardente
Nesse dia siciliano de Julho, com o Etna em fumos.

As vozes da minha educação diziam
Que tinha de ser morto esse réptil
Pois na Sicília não há mal nas cobras todas negras mas nas douradas há venenos.

E aquelas vozes em mim diziam: Se fosses homem
Pegavas num pau, partias-lhe a espinha e era o fim.

Será preciso confessar que gostei dele
Que era bom ele ter vindo, convidado silente, beber da minha água
E poder voltar em paz, apaziguado, sem mesmo agradecer
Para as entranhas ardentes dessa terra?

Era cobardia não ousar matá-lo?
Era perfídia querer tanto falar-lhe?
Era humildade sentir tanta lisonja?
E era tanta a lisonja que eu sentia.

E todavia aquelas vozes:
Se não fosses medroso, havias de matá-lo!

Tinha medo na verdade um grande medo.
Ainda assim, maior era a lisonja
Pois ele viera ao meu quintal pedir guarida
Saindo a porta escura da terra de mistério.

Deu-se por satisfeito,
E levantou a cabeça no olhar ausente de quem já bebeu
E a língua súbita saía-lhe da boca como negra noite bífida nos ares
Parecia lamber o lábio
E como um deus olhou os ares em volta, sem ver,
E virou a cabeça devagar
E devagar, devagar como se em triplo sonho
Dispôs-se a desenrolar o seu lento comprimento
E a trepar de novo pela rampa em ruína do meu muro.

E enquanto metia a cabeça naquele buraco horrendo
E se erguia devagar num espreguiçar de réptil que se enterra,
Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra o seu regresso àquele buraco negro e horrendo
Contra aquele retorno deliberado à escuridão no arrastar lento do corpo
Apossou-se de mim ao vê-lo de costas.

Olhei em volta, pousei o cântaro,
Peguei num pau grosseiro
E atirei-o à gamela num estalido.

Acho que não lhe acertei
Mas o resto do corpo entrou de repente em convulsão brusca e descomposta
Contorceu-se como relâmpago e sumiu-se
No negro buraco, na fenda de bordos térreos da face do muro;
Olhei fascinado na luz do meio-dia intensa e calma.

E arrependi-me no mesmo instante.
Pensei que fora um gesto ignóbil, perverso, obsceno!
Tive nojo de mim e das vozes da minha maldita educação humana.

E pensei no albatroz
E desejei que voltasse a minha cobra.
Pois esse réptil parecia-me um rei de novo
Rei exilado deposto sem coroa no mundo subterrâneo
Prestes a ser de novo coroado.
Perdi o ensejo concedido por um dos soberanos da vida.
E tenho de expiar uma atitude: Ser mesquinho.


(in Gencianas Bávaras e Outros Poemas, versão de João Almeida Flor, Na Regra do Jogo, 1983)

7.7.12

JOÃO RUI DE SOUSA


FRAGMENTOS PARA DEBUSSY
Evocando o Prélude
à l'après-midi d'un faune

Cíclica vertigem
aquecida ao rubro do teu canto
- espero e invoco.

Sinais de búzios,
compassados ecos,
completos sempre
em vegetal memória.

Esperar? Exacto
- que há sempre mais e mais
na voz da água pura.

Pedir? Também
- que é sempre cheia e grave
a face que escolheste.

Querer mais? Muito mais?
Não sei. Fértil e exacto
o que me dão, nada mais me cabe.

*

Se invoco um nome grato
é porque, à luz com que eu encontro
a claridade em castos olhos,
invoco, julgo, um nome com o meu sangue.

Se invoco um nome afável
- guitarra        harpa
                               astro puro        areia -
é porque sei ou sinto
que é aí - está aí -
a paisagem que me abrange.

*

De novo surges
como névoa ao sol da vida,
estrídulo arco,
como um papel branquíssimo
sobre a areia.

De novo surges...

*

Singelo e ao vento, persigo-te
(nos ramos, na flor, na aragem)
até encontrar a oculta voz,
o espírito puro
com que tudo se move e dilui
- para beijá-lo.


(de Circulação, 1960)



6.7.12

GERRIT KOMRIJ

«Uma migalha na saia do universo»

As palavras dos poetas parecem, às vezes, servir só para serem citadas pelos parvos. O dito de Pessoa «A minha pátria é a língua portuguesa», que políticos e oradores de copo de água repetem até à exaustão em actos oficiais, é disso exemplo. Assim parece ter Goethe afirmado «O homem só se reconhece no homem», e também perante isso nos calamos reverentes. Receio que muitos dos políticos e oradores de copo de água pretendam sugerir que Pessoa tinha coisa de género nacionalista em mente, como se nessa asserção algo luzisse duma identidade patriótica ou dum sentimento colectivo. Tenho muita pena deles, mas Pessoa não falava a língua dos parvos. Estou convencido de que esse dito significa exactamente o contrário do que os oradores de copo de água no seu enlevo suporiam. Aí se afirma que o poeta vive no idioma e não num sistema político. É a língua a estabelecer as suas fronteiras, não o Estado. Poetas e poesia — eles vivem numa mesma pátria, seja o texto em swaíli, em português ou em neerlandês.
[...]

A poesia é maneável e fugidia, ela oferece delírio e ilusão. Oferece emoções por medida e de encomenda. É só o poeta dizer o que quer. Um poema é capaz de tudo. A poesia tem uma paciência infinita. Esse dado parece-me em todos os países o mesmo. Para tal não são precisas pátrias.
O idioma, esse, sim, é preciso. O idioma todos os dias é contaminado. Em qualquer país. Com o idioma atrai a si o vendedor da praça os clientes, com o idioma alivia um adolescente o coração a transbordar, com o idioma o político dá ao seu público a impressão de possuir um cérebro. É esse o idioma que o poeta usa. Imagine-se o seu infindável martírio.
Quanto mais o idioma é contaminado, com tanto maior firmeza tem o âmago da poesia de opor resistência. À medida que as palavras práticas ganham terreno, cresce a necessidade do poeta de «lavar» as suas palavras, tirar-lhes a sujidade, desinfectá-las. A poesia é o último reduto num mundo «inimigo da palavra». A verdadeira pátria dos poetas é a lavandaria. Sem a possibilidade de, num poema, guardar a carga original das palavras, ou de exactamente modificá-la, colocando-as numa zona de tensão fechada, o pensamento deixaria de existir.
A esta luz, qualquer preocupação com o que fosse «uma» poesia portuguesa ou «uma» poesia neerlandesa seria ociosa.

[...]
Países pequenos como Portugal, a Bélgica e a Holanda sabem pouco uns dos outros — e isso apesar das semelhanças da sua história e do seu desenvolvimento. No terreno da cultura, põem os olhos de preferência nos países grandes. Até os poetas não parecem desejar outra coisa. Tal vaidade não deve ser-lhes levada a mal. É evidentemente mais interessante ser traduzido para francês, alemão ou inglês do que para neerlandês, sueco ou português. No entanto, não seria insensato de vez em quando empreenderem juntos qualquer coisa contra a hegemonia de línguas mais poderosas. Mostrando uma vez ou outra mais interesse pela cultura uns dos outros. A sobrevivência da pátria do poeta depende disso. Depende disso a sobrevivência das diferentes línguas que lhes servem de veículos da arte.
A indiferença política e as leis do mercado arruinam (e por fim destroem) uma língua. Os países mais pequenos não devem ter sempre tantos receios quando da sua língua se trata. Não é acomodando-se e como que eliminando-se culturalmente que os países pequenos alcançam o seu objectivo, mas apresentando-se uns aos outros com mais clareza e mais energia. Os países grandes, não tenhamos medo, hão-de compreender o nosso brio. A nossa luta é também a deles. Veja-se a guerra que a valente prima, a França, dá à invasão linguística pelo grande tio, os Estados Unidos.
Um purismo à francesa é coisa que também não precisamos de exibir, claro. Uma osmose entre os idiomas pode ser frutífera. Quer dizer — até às exactas fronteiras da poluição linguística de que a poesia é guardiã.
[...]


(excertos da introdução a Uma Migalha na Saia do Universo, tradução de Fernando Venâncio [e outros], Assírio & Alvim, 1997 - documenta poetica)


4.7.12


MANUEL ANTÓNIO PINA


4 DE JULHO DE 1965

segundo fontes geralmente bem
os altos interesses nacionais
foi recebido carinhosamen-
pretende para fins matrimoniais

entre os países menbros da otan
as suas provas de doutoramento
sua excelência o presidente da
a conferência do desarmamento

excelentíssimo senhor director
ardilosos amigos do alheio
nosso prezado colaborador
atrasos na entrega do correio

não perca esta excelente ocasião
da santa madre igreja faleceu
resposta em carta à administração
de casa dos seus pais desapareceu


(de Ainda Não é o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas Um Pouco Tarde, 1974)

20.6.12


JORGEN THEOBALDY


Uma cerveja, por favor

Eu podia habituar-me a ser uma pessoa
arrumada.  Aqui chega ao fim um dia calmo
todo o dia o telefone esteve calado, e em silêncio quase rebenta
o cesto da roupa debaixo do lavatório.
No écran explode uma casa perante a cara
espantada do locutor.  Oh the fucking news!

O que eu quero é sobretudo amor. Não quero
preocupar-me com a marca das minhas cuecas, das minhas meias
que me oferecem pelo Natal, nos meus anos,
pela Páscoa e no dia em que morrer. Em criança pedia
um comboio e recebia uma camisa
coisa prática! embrulhada em celofane, presa com mil alfinetes.
Este poema não é praticamente nada. Mas pensa bem:
Como há-de desaparecer o que nós não derrubamos, a não ser o sabonete
na água do banho? Estou outra vez a fazer humor, embora não
me sinta  voltado para aí.  Terei mesmo
de lavar a cabeça antes de tu chegares? Lavar a cabeça
é uma recordação terrível...

E depois, amo toda a família, especialmente a minha mulher
que não é da família. Como? Eu não disse nada.
Acabou o noticiário do dia, o dia em noticias, the fucking
news. Hoje houve boas notícias. A  Casa da América
foi ocupada, não digo onde.  Começa o filme
e ainda não lavei a cabeça!
Tu não és a minha mulher. Amo-te. Protege-me
que estou a fumar demais! Fica-se nervoso nesta casa
depois de 1933 e depois de 1945. Estás a ligar alguma coisa ao que eu digo?

De repente encontro-me num café, com grande barulheira
ao balcão. Este poema está cheio de potencialidades
como a nossa vida. Evidentemente que não se passa um dia
sem álcool. Ah, a bebida é que dá gosto à vida.
Mehdi já lá está, bêbado como um cacho.  Também tu já chegaste há
um bocado, e tens razões para não falar comigo.
Vai alta a noite, a música está alta. Peço uma aguardente clara
para a minha cabeça ainda clara. Uma cerveja, por favor. Seja o que for
que tu penses de mim, é importante que eu te diga: também tu
escreveste este poema. Não foi arte nenhuma; foi escrito
de costas para a janela.


(in De Costas para a Janela / Poesia Alemã Contemporânea - I, Selecção e tradução de João Barrento,  colecção O Oiro do Dia, 1981)

19.6.12

JORGE DE LIMA



CANTO III
POEMAS RELATIVOS

X

Vós não viveis sozinhos,
os outros nos invadem,
felizes convivências,
agregações incômodas,
enfim ambientalismos,
e tudo subsistências
e mais comunidades;
e tantas ventanias,
acotovelamentos,
desgastes de antemão,
acréscimos depois,
depois substituições,
a massa vos tragando,
as coisas vos bisando;

os hábitos, os vícios,
as moças embutidas
mudando vossas cartas;

sereis administrados
no sono e nos pecados,
vós mapas e diagramas
com várias delinqüências,

e insanidades várias,
dosando o vosso espaço,
pesando o vosso pão
de tempos racionados;
e não tereis vivido
e não tereis amado,
porém sereis morrido.

XIII

Uma janela aberta
e um simples rosto hirto,
e que provavelmente
nela se debruçou;
e nesse gesto puro
do rosto na janela
estava todo o poema
que ninguém escutou;
só a janela aberta
e o espaço dentro dela
que o tempo atravessou.

XIV

O conto era um dia,
um dia futuro,
e dentro do dia
incluído o conforme,
e dentro o que foi
porque fora isso
se tal não se dera,
se o mundo parasse
e o espaço se excluísse;
se a pedra não fosse
o símbolo que era,
pois tudo era um dia,
um dia sem dia,
porém com o poeta
que um dia seria.


(de Invenção de Orfeu, 1952)