Poesia distribuída na rua.

21.12.16

MADALENA DE CASTRO CAMPOS


Lavandaria Lusitana

Davam-lhe vómitos. Todos.
Os evidentes e os obscuros, os traduzidos e os ignorados,
os premiados, os ressentidos, os que escreviam
contra a lógica e os que esbracejavam contra a língua,
os homens, as mulheres, os novos, os velhos,
os consagrados, as promessas, os carecas, os tatuados,
as desleixadas e as meninas bem.
Levavam-se sempre demasiado a sério,
confundindo as palavras com o umbigo e a literatura com
um livro de reclamações, no qual garatujavam
uma meia dúzia de banalidades que tinham lido algures
e desde então tomavam por expressão, exigindo para si
um direito que não reconheciam aos outros
e de que se mostrariam incapazes de fazer uso,
percorrendo as linhas com a ponta do dedo,
na veneração de analfabetos
que constatam os caracteres, sem reconhecerem o sentido,
e admitem respeitosamente a existência de uma gramática
que não compreendem e que nunca saberão contestar.
Lia-os por obrigação, desistia depressa.
Não via invenção, mas erros de perspectiva,
não via transgressão, mas incorrecções ortográficas,
falhas de concordância
em género e número, tempo, modo e tudo
quanto pudesse tornar-se disforme.
E também ela,
fruto do mesmo buraco que os tinha parido,
não faria diferente.
Abria a mesma boca, usava a mesma língua,
engolia com a mesma garganta.
Limparia ela própria o seu vomitado.



20.12.16

JOSÉ MANUEL SIMÕES


PLENO VÁCUO

Repleto no oco do que ao longo
dos braços que o não contêm
se escoa, perde e anula,
o estar presente é não já acto
mas dádiva, porque ao não ter
dou de mim o espaço, emblema
de nos ouvidos e no sangue
poder conter amor, sexo, distância
a pôr entre os que para sempre
e desde sempre sabem
qual o longe de ter ao pé
a solidão que os move e excede
e não dá ao corpo o sossego
de abandono se jazer e imóvel
dizer não à eternidade.


(de Sobras Completas, Abysmo, 2016)


19.11.16

FERNANDO ALVES DOS SANTOS


DOIS POEMAS DA INTRANQUILIDADE

I

Deve haver uma maneira tranquila
uma tranquilidade
uma certeza.
Deve haver uma febre
uma febre que seja, quando menos,
que nos dê olhos para ler tudo.
Depois dizem que há uma salvação…

Da minha infância
não guardo agora senão o chão que piso
e esse não chega.
Talvez a minha face
o meu vulto
a sombra
possam servir de algo.
Mas não.

Assim sem alegria
arrefecido, antigo
como posso comover-me
arder exausto
ou beijar o ar
o ar simplesmente
enleado!

II

Porque não posso senão trazer esta humildade
como posso dar-me ou pedir-me
se me pedem e me dão
dizendo fazê-lo por uma esperança.
Mas eu vejo
o que a morte me tem sido para que veja
e não respondo ao que imagino
porque sei que só posso desejar o que desejo.



(in Diário Flagrante [Poesia], edição de Perfecto E. Cuadrado, Assírio & Alvim, 2005)

18.11.16

JOÃO RUI DE SOUSA


O ESPELHO E A FACE

ao Rui Knopfli

É porque somos bóias da terra
e lesta a semente se move
é porque as roupas perturbam
e simples a alegria transcende
é porque a exaustão dos canos
impede sair de repente
é porque com vírgulas se abraçam
os gestos incandescentes
e a viagem viagem viagem
é a noite de muita gente
é porque com o fel das lágrimas
se afundam céus generosos
e são tao vis pedregosas
as mortes de tantas irmãs
é porque há a erva dobrada
mesmo sem vento ou granizo
e frágeis ramos deslizam
na fuga de mágoa e mágoa
– que nascem rugas no rosto
(a esperança e a desesperança)
por nomes de voz rasgada


(de Corpo Terrestre, 1972)

15.11.16

RUI NOGAR


CICLO VITAL

catanas de silêncio
onde o crime
da pretendida
mutação biológica
se esboçou mais
que a premissa pretendida

catanas de silêncio
jugulando
“as nossas melhores intenções
nossas humaníssimas intenções”


(in “Caliban” N.º 1, 1971)

13.10.16


ADONIS


SEIS NOTAS DO LADO DO VENTO

4

A poesia, nos nossos dias, expõe-se a um perigo que não vem dela, mas da palavra que se lhe refere. Ela é ofuuscada por essa palavra. O leitor já não lê o poema, lê o poeta, as suas referências, as suas inclinações. Lê o que lhe declaram do poeta e da poesia. O poeta tornou-se para o crítico um meio de afirmar as suas opções, de expor as suas teorias, não de dar acesso ao poema enquanto tal. Trata-se aqui de uma crítica que decifra a poesia por intermédio do mundo. A verdadeira crítica é o seu oposto, desvenda o mundo através da poesia. Acede às energias da própria língua, sem outro instrumento que não seja só a poesia.


(in O Arco-Íris do Instante, introdução, tradução e selecção de Nuno Júdice, Dom Quixote, 2016)

24.7.16

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


CRIPTOPÓRTICO

Quem pudera viver sempre pelos dias do
verão, quando o mar é a pele que sentimos
e o sol fica a amassar a erva dos caminhos
nas lojas, nos corredores sob o chão de
Aeminium, sob a vaga luz de uma lucerna
— o âmbar do azeite — o pão escuro,
a doce tâmara, uma cesta de sal, as cores
vesperando de tapetes esperam o repouso, a
conversa, notícia do Império — Caracala
manda assassinar Gela, seu irmão — a
um canto o vendedor de cerâmica de verniz
vermelho e figuras
sob outro alvéolo, os que se dispunham a
celebrar sacrifícios, danças, péan por um
deus por um herói. A água corria das
ânforas, pérolas frias, semelhantes ao gelo
e o vinho, uvas esmagadas deixavam nos
lábios um sabor doce, acidulado de sombras
— as essências ardiam nos turíbulos —
eram vagos, então aqueles que passavam na
cripta, entre um e outro piso. Hoje,
quando regresso ao calor ténue dessa luz
coada, a vida, não mais essa outra vida que
não tenho já, mas que terá sido a tristeza e a
alegria com as quais agradei e frustrei o
génio que me foi dado outrora — também
hoje chegará um verão pelo som dos passos
da ligeira sandália e se fundeará na aeternitas
imperii

* Alicerce do fórum romano. C. 40-50 d. C.


E DE REPENTE IRROMPE A RUA

E de repente irrompe a rua da cidade
aquela que se chama do Cabido
a de S. Salvador, com o
pequeno largo — vejo-as do extenso
vidro da janela. Na igreja escreveram
zona antifascista
um pouco mais abaixo, a roxo, praxe
sedativo n.º 1 em Coimbra

duas vizinhas descem para a Rua do Loureiro, se
acaso nestas ruas ainda vive alguém
num andar esconso, no desvão dos cafés manhosos —
nas mesas cai a dama de espadas
a juventude regressa noite fora — entre
uma porta e uma janela cega
passeia-se o desenho de um gato preto
líquenes nos beirais, a culpa venial
de mais um dia que passa, denso, varrido por clareira
de rogos. E

se nos virarmos
o grande teatro da Capela do Tesoureiro
à nossa espera
como se estivéssemos em tribuna eleita
bem em frente a imagem de Fortuna, festão de pedra.

Vai o olhar pela rua que foi dos açougueiros. Estreitos
quintais entre muros, ancoradouro de laranjas
o casario estremece nos versos de António Nobre
transporta carta selada
leva escrita a distinção entre a morte e o acto de viver.
Na outra margem o que resta de olival e de bosque.


(de Mirleos, Relógio d'Água, 2015)

21.6.16

GEORGES BATAILLE


É o estado de transgressão que comanda o desejo, a exigência de um mundo mais profundo, mais rico e prodigioso, numa palavra a exigência de um mundo sagrado. A transgressão traduz-se sempre com formas prodigiosas como as formas da poesia e da música, da dança, da tragédia ou da pintura. As formas da arte não têm outra origem além da festa de todos os tempos; e a festa, que é religiosa, liga-se à ostentação de todos os recursos da arte. Não podemos imaginar uma arte independente do movimento que gera a festa. O recreio é, num ponto, a transgressão da lei do trabalho. A arte, o recreio e a transgressão só têm o seu encontro ligados num movimento único de negação dos princípios que presidem à regularidade do trabalho. Foi na aparência a maior preocupação das origens — como é ainda nas sociedades arcaicas — conciliar o trabalho e o recreio, o interdito e a transgressão, o tempo profano e os desvarios da festa numa espécie de equilíbrio leve onde os contrários não param de se compor, onde o próprio recreio ganha a aparência do trabalho e onde a transgressão contribui para a afirmação do interdito. Só avançamos com uma espécie de segurança: de que a transgressão, num forte sentido, só existe a partir do momento em que a própria arte se manifesta, e o seu nascimento na Idade da Rena coincide pouco mais ou menos com um tumulto de recreio e festa que estas figuras anunciam no fundo das cavernas onde a vida resplandece, onde ele está sempre a ser ultrapassado e se consuma no jogo da morte e do nascimento.


(excerto de O Nascimento da Arte, tradução de Aníbal Fernandes, Sistema Solar, 2015)

19.6.16

[outros melros LXIX]

CATARINA SANTIAGO COSTA

És um melro azul-ígneo,
os meus tímpanos vibram com os teus gorgeios
 ouço o que cantas, não o que dizes.

Pergunto-me se preferia ser a magnólia
pesada de folhas e flores gordas
que terias por morada
ou um parasita mínimo,
alfaiata de bainhas e mielina
que se aconchegasse no teu cérebro,
assomasse à escotilha do olho
a ver-te o voo.
Sairia depois pelo teu bico em sinfonia
perguntando «queres que regresse?»
e «sim» ou «não» seriam respostas boas
desde que me mantivesses por perto.

Mas é hora de chegar a termos com a dieta aérea
e acolher o vazio infinito de Deus
até ele forjar mar e terra.


(de Tártaro, douda correria, 2016)

13.6.16

LUÍS FALCÃO


Descascas o musgo das paredes
sustentando redenções
estucas o reboco
revendo a cartografia
da pertença a uma dor
reordenas prioridades
procurando
entre anotações para herbários
e troncos para o lume
outra arrumação para os dias profanados


(de Bruma Luminosíssima, Artefacto Edições, 2016)

21.1.16

VERGÍLIO FERREIRA


Caminhamos agora por uma recta extensa. Passam à nossa beira camponeses escuros, um ou outro pedinte de viagem com a face das misérias bíblicas. Ao fundo, barrando o horizonte, ergue-se a montanha, que recua, vagarosa, diante de nós, como para nos atrair à sua verdade de génese. E, suspenso sobre ela, unido ao cântico dos homens, que já não ouço, eis que se me abre um coral longínquo, eco de que paz triunfal numa manhã solene, esperança sem fim, esperança eterna? ‘Messias’. Haendel.
Behold the Lamb of God, that taketh away the sin of the world.
E é como se através da multidão dos séculos eu ouvisse o tropear de todos os povos da terra caminhando comigo, cantando o sonho da sua amargura milenária. Gente estropiada, escarros de humilhação, e a fome, e o remorso, e o cansaço, e a loucura que emerge como um incêndio na noite, e a lepra, e a angústia da interrogação, velhos da idade do sofrimento, gente que espera, gente que sonha… De que abismos esta mensagem? A montanha vibra na sua massa branca ao apelo da ansiedade. Vozes de longe, cantando, cantando. Marcha sem fim, ó coro da desgraça de sempre! Que força absurda vos ergue para a esperança do que não há?
Surely He hath borne our griefs, and carried our sorrows!
Como o sabeis? Como o sabeis? Ah, a vossa dor tem a medida da eternidade. Mas a a esperança renasce-vos sob as mesmas cinzas e a mesma ruína… Eis-vos cantando como doidos para a distância do céu nublado. Mas vós acreditais que uma estrela nascerá por detrás das nuvens…
O coro morre ao longe entre o silêncio das fragas. E quem avança para a montanha e para a mão que dela se ergue sou eu só. Esperança de nada, só a relembra agora a névoa da música irreal, onde de mim?, em que encontro impossível com a paz e a plenitude?

(excerto de Aparição, 1959)


24.12.15

WILLIAM CARLOS WILLIAMS


O POEMA 

Tudo está
no som. Uma canção.
Raramente uma canção. Deveria

ser uma canção  com
pormenores, vespas,
uma genciana — algo
imediato, tesouras

abertas, olhos
de mulher  centrífuga
ao despertar, centrípeta


(in Antologia Breve, tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 1995)

27.11.15

ISABELA FIGUEIREDO


A forma como olhamos para as nossas mãos na infância e a forma como olhamos para elas agora; estou a olhar para as minhas mãos agora, não muda. As mesmas mãos. Como puderam envelhecer e ser ainda as mesmas? As unhas iguais. Os nós dos dedos. Os mesmos olhos. O mesmo pensamento, quando olhamos, com os mesmos olhos, as mesmas mãos.
A partir de certa idade, muito cedo na infância, já somos nós, o que há de perseguir-nos sempre.



(excerto de Caderno de Memórias Coloniais, 6.ª edição, revista e aumentada: Editorial Caminho, 2015)


ANA TECEDEIRO


A minha mão começa
onde acaba a manga
Os meus dedos começam
onde cortei a luva
(Eu começo onde me descubro)


(de Deitar a Trazer, douda correria, 2015)

14.11.15

PAUL ÉLUARD


CORAGEM

Paris tem frio Paris tem fome
Paris já não come castanhas na rua
Paris anda vestido de velha
Paris dorme de pé sem ar no metropolitano
Ainda mais sofrimento é imposto aos pobres
E a sabedoria e a loucura
De Paris infeliz
É o ar puro é o fogo
É a beleza é a bondade
Dos seus trabalhadores famintos
Não peças socorro Paris
Estás vivo com uma vida sem igual
E por detrás da nudez
Da tua palidez da tua magreza
Tudo o que é humano se revela nos teus olhos
Paris minha bela cidade
Fina como uma agulha forte como uma espada
Ingénua e sábia
Tu não suportas a injustiça
Para ti só existe a desordem
Vais liberta-te Paris

Paris bruxuleante como uma estrela
Nossa esperança sobrevivente
Vais liberta-te da fadiga e da lama
Irmãos tenhamos coragem
Nós que não usamos capacetes
Nem botas nem luvas nem somos bem educados
Um raio se acende em nossas veias
Os melhores de nós morreram por nós
E eis que o sangue dos que morreram nos volta ao coração
E de novo é a manhã uma manhã de Paris
O extremo da libertação
O espaço da Primavera que nasce
A força idiota está na mó de baixo
Estes escravos nossos inimigos
Se compreenderem
Se forem capazes de compreender
Erguer-se-ão.


(in Algumas das Palavras, tradução de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, 2.ª ed.: Publicações Dom Quixote, 1977 / original de Au rendez-vous allemand, 1942)

26.10.15

FÉLIX CUCURULL


XXXVI

Direis, talvez:
já deixámos de ser crianças
e os anjos dissiparam-se.
As mãos adultas
fazem mal aos sonhos
que não têm raízes
profundas
nestes campos onde apenas floresce
a semente das coisas concretas.
Fizemos mal ao sonho dos anjos
e a nossa paz futura
será a dos ciprestes
que crescem em silêncio.
Dentro da sua seiva
poderemos triunfar — juntos! —
diante das estrelas
e dos vivos em que viveremos, quando lutam,
no esforço sempre retomado
do cérebro e dos músculos,
para ser, apenas ser
— indómita vontade...
Perduraremos para sempre
matando a sede nas chuvas.



(in Vida Terrena, tradução de António de Macedo com a colaboração de Carlos de Oliveira, Editora Ulisseia, 1966 / original de Els Altres Mons, 1952)