Poesia distribuída na rua.

15.7.09



Chave de ignição

o novo livro de poesia de
Ruy Ventura,
editado pela Labirinto
vai ser lançado amanhã,
pelas 21h00,
na Biblioteca Municipal de Sesimbra

14.7.09

RUI PIRES CABRAL

Montanha



Eu fiz das grandes cidades o meu desejo,
nelas subia à montanha invisível onde era quente
e seguro. Na impressão da tua boca havia uma árvore
que me abraçava contra a frialdade do céu.

Veríamos essas praças cheias de gente inócua,
os palácios pequenos e arrumados como num livro
que já não apetece. Perder o sentido ao mundo
era apenas como perder o caminho
para casa, uma questão simplesmente
topográfica. E eu trocava a nata de um ano inteiro
pelos primeiros segundos da tua respiração,
dava-te os meus pulsos a beber
na latitude conquistada aos últimos pássaros.

(de A Super-Realidade, edição do Autor, 1995)

13.7.09

CATARINA COSTA


esqueceste o que perguntarias
àquele que se retirou antes da estranheza da tua vida

mais fácil trautear sábias cançonetas
aos que sacham contigo as terras

para que a vegetação desborde em parcerias
questionas pouco
negoceias algo

mostras o chapéu apropriado ao sol
que entrelaçaste nos interregnos do crescimento
enquanto ouvias alguém da tua idade
a ensaiar o concerto à memória de um anjo


(de Marcas de urze, Cosmorama edições, 2008)

12.7.09

JOSÉ ÁLVARO AFONSO

A janela ilumina o deserto
Procura de outras margens
Limite adivinhado das águas

Corrente cativa as palavras
Soam como vidros quebrando-se
A pele hirta por há muito as esperar
Água escrevo como escrevi paz
Como de novo o medo
Exorcismo – convocar as luzes
As navegações de vidas só além
– Perplexo repito: Onde está a nudez
Dos sentidos impossíveis de trocar?

O sol brilha
Até amanhã

Chamo-te silêncio sem poesia
Como quem lavra a terra e
Constrói noite dentro a casa do gado

(de Furtiva a Luz, edições Salamandra, 1999 – colecção Garajau)

10.7.09

RUI KNOPFLI

APRENDIZ NA OFICINA DA POESIA

Não rimes.
Ou rima, se quiseres,
mas não violentes
a palavra.
Não busques ansioso,
qual amante inexperiente,
a palavra.

Espera antes
a sua vinda.

Música e rima
são acessórios dispensáveis:
O poema é outra coisa.

Deixa, pois
que as palavras acordem
na matriz
e caiam maduras.
Áridas ou frias,
secas e imperturbáveis,
orvalhadas, humildes,
estropiadas até,
que sejam precisas,
prenhes de significado.

Espera as palavras.
Elas viajam misteriosas,
desconhecidas ainda,
elas germinam
em ti.

Caem. Juntam-se.
Doloridas, feias
sob o visco placentário,
deselegantes por vezes,
elas procuram-se
e organizam-se.

Juntas transcendem-se,
há algo de íntimo,
coeso e secreto
nelas.

O poema está aí.

(de Reino Submarino, 1962)

9.7.09

OLGA SAVARY

MERGULHO



Com certeza não foi aqui
onde a pedra no fundo d'água
era apenas essa coisa: medo.

Água
(flor carregada de perguntas,
nuvem onde me esgarço, líquida),
a idade da pedra se soubesses
não passearias assim tua tranquilidade.
Água,
responderias talvez com alguma praia
mesmo que as houvesse submersas,
que retivessem um corpo magiciado
– não mais corpo mas só algas,
algas se desfazendo em água.

Eu não saberia dizê-lo certo
mas com certeza não foi aqui.
E o não saber a perda onde encontrar
e o quanto é grande, a água que me chama
me inventa em secreto mar.

RIO, NOV. 1961


(de Espelho Provisório, livraria José Olympio editora, 1970)

8.7.09

BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

o mar em chamas



todos os livros que leio me falam da tua morte
mas não se pode acreditar em tudo o que se lê
e sabendo embora que a tristeza não existe
não posso deixar de me sentar com a cara apoiada numa das mãos

a vida é uma doença de que alguns se curaram
passo os dias sentado num café à distância
e entre mim e mim existe já uma intimidade insuportável
(como dar de novo ouvidos aos meus mestres de outrora?)

fui dos que julgaram ter nascido para tornar grande o mundo
mas atrasei-me de propósito num quarto cheio de homens
– procuro perceber que tempo é que me cabe –

uma noite fui visto a lançar fogo ao mar


(de A Substância da Saudade (ou os últimos poemas de Américo Radar), in e outros poemas, Quetzal editores, 2002 – este poema pode ser ouvido, na voz do Autor, no cd O Vento a Escrever, Sombra do Amor edições, 2007)