Poesia distribuída na rua.

14.5.19


JOÃO MOITA


Sentado ao fogo, junto da minha mulher, inquilina da minha solidão, recordo os anos da juventude. Nessa altura, o mosto fermentava nas caves da idade, e nós aguardávamos o vinho maduro com a impaciência dos sóbrios. Tudo foi preparação. Os enforcados amavam as nossas travessias, as mães rezavam com as mãos postas sobre o linho corrompido pelo sal. Onde as aves desertavam, erguíamos um templo de suspeita e sedução. Eram os dias do amor e do arrependimento. Hoje sei que a embriaguez é só esta indiferença com que pressinto o sangue nos dedos da minha mulher, que borda, e que a sabedoria nos abandona no fim. Ainda esta noite comungarei com deus. Amanhã serei as uvas frescas na videira.

(Rembrandt, Tobias e Sua Mulher)


(de Fome, in Uma Pedra sobre a Boca, Guerra & Paz, 2019)




28.3.19

RUY BELO


Nunca ao indefeso leitor de poesia terá sido fácil discernir o que, na produção contemporânea, é ou não poético e o continuará a ser — ou a não ser —, alguns anos volvidos. Teria para isso de conseguir determinar pouco menos que toda a linha futura da história da poesia. Mas que essas dificuldades são hoje em Portugal quase insuperáveis, ninguém de olhos limpos o poderá negar.
Muitas causas para isso contribuem, desde o mais ou menos larvado desrespeito pela liberdade e isenção da crítica até à conversão da mediocridade em ideal de arte. Dir-se-á que esta questão é secundária, que sempre o poeta surgiu além ou apesar de cenáculos, compadrios e venalidades de configuração mais ou menos típica, com maior ou menor consciência praticados.
Mas, no limiar do exercício da crítica, levanta-se a indeclinável obrigação de procurar ao menos apontar para o mal. Sendo a formação do gosto poético tradicionalmente deixada à livre e desconexa iniciativa de quem lê por ler ou para, lendo, escrever, impõe-se-nos o trabalho preliminar de ao menos levantar a voz para, quanto mais não seja, não colaborarmos nessa obra de perversão do gosto. E a crítica, embora de feição construtiva ou talvez por isso mesmo, não poderá deixar de se impor esse ingrato trabalho, até por uma elementar questão de honestidade.
Ultimamente tem-se abusado dessas técnicas de desnorteamento que, por fraqueza ou ambição desproporcionada, sempre aliás se usaram. A poesia, que outrora se apresentava discretamente, de mãos caídas, aparece agora divulgada, se não até construída, através de métodos mais ou menos jornalísticos, não sabendo ou não querendo os poetas renunciar a um maior alcance no espaço, em favor de uma mais autêntica sobrevivência no tempo. Daí a dificuldade — momentânea apenas, valha-nos isso — em distinguir entre poetas que o são e pessoas — respeitáveis pessoas, vamos lá — que por tal se pretendem fazer passar.
Se outro remédio não houver, resta aos autênticos poetas, àqueles que só a uma norma íntima afinal obedecem, resta — dizíamos nós — aos poetas cultivar a impopularidade, certos de que a poesia é, como toda a arte, essencialmente impopular. Se houverem de prescindir de público, aliás tão necessário na progressiva definição dessa norma íntima, que lhes não faleça a coragem de saber prescindir. Esse público acabará por se formar, não talvez a tempo de influir beneficamente na criação da obra, mas de qualquer forma em condições de delimitar-lhe o espaço de circulação.
Só é pena que, podendo porventura preencher lugares altamente remunerados ou pelo menos granjear uma merecida consideração social, os aventureiros da poesia não saibam eximir-se a perturbar o trabalho daqueles que à poesia sacrificaram pelo menos elevada remuneração e alguma consideração social.


(excerto de «Atentados contra a criação artística», in Na senda da Poesia, 1969)

2.3.19

[outros melros LXXI]


LUÍS FILIPE PARRADO


UM MELRO NO TEMPO

Negro, anónimo, bravio,
demora-se por uns segundos apenas
(em voo é mais difícil de captar)
Na cerca de ferro forjado
Do jardim público.
Eu escuto-o, fico em suspenso. E confesso
que, lidos os mapas astrais
e os melhores tratados
de ornitologia,
continuo às cegas,
sem compreender porque me comove
tanto este assobio dilacerante.
Consegues ouvi-lo?
Sim. Canta como se tudo estivesse
no seu lugar, como se este
fosse o primeiro de todos os dias do mundo,
como se nada de mal nunca nos pudesse acontecer.


(in «Nervo – colectivo de poesia» / 4, Janeiro/Abril 2019)

13.2.19


THEODOR W. ADORNO


Sentis a poesia lírica como um elemento de oposição à sociedade, de natureza totalmente individual. A vossa resposta emocional insiste que assim permaneça, que a expressão lírica, em fuga das coisas materiais, evoque a imagem de uma vida liberta da coacção da prática dominante, do utilitarismo, da pressão obstinada do instinto de conservação. Contudo, esta exigência, em relação à poesia lírica, a reivindicação da palavra inviolada, é, em si mesma, de natureza social. Ela contém em si o protesto contra uma situação social que cada individuo vive como hostil e alheia, fria e opressora, e é pela negativa que essa situação se inscreve na composição poética: quanto mais pesada é a sua carga, maior a intransigência com que o poema lhe resiste, não se vergando a nada que lhe seja heteronómico e constituindo-se inteiramente de acordo com a sua própria norma. O seu distanciamento da pura existência converte-se na medida do que esta tem de falso e nocivo. Em protesto contra essa realidade, o poema exprime o sonho de um mundo onde a vida fosse diferente. A idiossincrasia do espírito livre contra a violência opressiva das coisas é uma forma de reacção contra a reificação do mundo, o domínio das mercadorias sobre as pessoas que se difundiu desde o início da Modernidade e que se desenvolveu a partir da Revolução Industrial, a ponto de se converter na força preponderante da existência. O rilkeano “culto dos objectos” insere-se igualmente no círculo mágico dessa idiossincrasia, enquanto tentativa de atrair e dissolver objectos estranhos no campo da expressão pura e subjectiva, conferindo credenciais metafísicas à sua estranheza; e a debilidade estética deste culto dos objectos, este gesto arremedando o oculto, mescla de religião e artes aplicadas, deixa simultaneamente entrever o peso efectivo da reificação que já não se deixa dourar com uma qualquer aura lírica, nem abranger pelo sentido.
Dizer que esta ideia, que para nós se converteu num dado imediato, praticamente numa segunda natureza, é de teor integralmente moderno, não é senão exprimir de outro modo a essência social da poesia lírica.


(excerto da conferência Poesia lírica e sociedade, proferida em 1957; tradução de Maria Antónia Amarante, Angelus Novus, 2003)

4.2.19

JORGE DE SENA


Antes de mais, reflictamos que, no estado actual da civilização, muita gente há, a esmagadora maioria, para quem a literatura não existe. E só os nossos desejos ou anseios humanísticos nos demonstram que, modificadas as circunstâncias, e tornado geral o hábito da leitura e distribuída imparcialmente a educação do gosto, aquilo a que chamamos as grandes obras literárias encontrará uma igual e equitativa receptitividade. De resto, só por si, o hábito da leitura não significa um conhecimento ou reconhecimento da literatura como tal. Mas, ainda que esse reconhecimento se processe em muitos leitores, daí não resulta que eles sintam necessidade de situar, correlacionar, comparar, historiar o que estimam, que os fira o apetite de o comunicarem a outros as observações que fizeram, ou que a literatura ocupe, em suas vidas, um lugar preponderante, absorvente, que seja ela o que dá sentido e estrutura a essas vidas. Do mesmo modo, estudar literatura não implica também um conhecimento ou reconhecimento dela, em extensão e em profundidade, cada vez mais se observa, no mundo de hoje, a tendência para limitar o âmbito do que se estuda, para isolar do resto o objecto de estudo, para elevar à contemplação satisfeita as últimas minudências de que se é capaz. Cada vez mais se observa, até, o curioso fenómeno de estudar literatura sem conhecê-la, evitando-se mesmo conhecê-la, preferindo-se as considerações críticas e a análise dos métodos críticos às próprias obras a que umas e outros se aplicam ou seriam aplicáveis. E uma atitude dessas de modo algum pressupõe que se pretenda ensinar ou viver o que, afinal, é já um objecto de segunda ordem. Também o ensino da literatura tende, cada vez mais, para o desconhecimento, a desestima, a não-vivência dela. De resto – e decorre da própria essência da literatura – teria de ser necessariamente assim. Porque a literatura não pode ser ensinada. Ensinar seja o que for é apresentar um instrumental adequado e explicar a maneira de uma pessoa tirar o proveito dele. Daí resulta que se ensina a escrever estudos sobre literatura, e estudos sobre os estudos de literatura, indefinidamente; ou se ensina a ensinar literatura. Quando afinal, aquilo que verdadeiramente, e do ponto de vista da literatura como tal, pode ser ensinado, não é uma literatura sem história ou uma história sem literatura, mas a consciência de que, como tal, e como sucede a todas as coisas ante a lucidez harmoniosa do que são e representam, a literatura não se basta a si própria, e só é literatura, verdadeira e autêntica literatura, quando deixa de o ser, isto é, quando ultrapassa, por sua própria essência, os quadros em que se define como autónoma e independente. O único ensino verdadeiro é este: o de que a literatura é um equilíbrio precário entre ser ela mesma e não ser tudo aquilo que se espera ou se pretende que ela seja.


(excerto do ensaio «Amor da literatura», datado de 1961 e incluído em O Reino da Estupidez - I, 3.ª edição: Edições 70, 1984)

11.1.19

T. S. ELIOT


IV

Descendo a pomba corta o ar
Com chama de incandescente terror
Cujas línguas anunciam
A única remissão do pecado e do erro.
A única esperança, ou então desespero
Reside na escolha da pira ou da pira –
Para sermos redimidos do fogo pelo fogo.

Quem, então, inventou o tormento? O amor.
O amor é o Nome mal conhecido
Atrás das mãos que teceram
A intolerável camisa de chamas
Que o poder humano não pode arrancar.
Nós apenas vivemos, apenas suspiramos
Consumidos pelo fogo ou pelo fogo.


(da sequência «Little Gidding», in Quatro Quartetos, tradução de Maria Amélia Neto, Edições Ática, 1983 / original de Four Quartets, 1943)

6.1.19


JORGE DE LIMA


O GRANDE CIRCO MÍSTICO

O médico de câmara da imperatriz Teresa – Frederico Knieps resolveu que seu filho também fosse médico,
mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
de que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun – a tatuada no ventre
quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa.
Então, Margarete tatuou o corpo
sofrendo muito por amor de Deus,
pois gravou em sua pele rósea
a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula a dentro,
chorava como um recém-nascido.
Seu esposo – o trapezista Ludwig – nunca mais a pôde amar,
pois as gravuras sagradas afastavam
a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps.
Mas o maior milagre são as suas virgindades
em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
são as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
é a sua pureza em que ninguém acredita;
são as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
Marie e Helene se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
Marie e Helene se repartem todas,
se distribuem pelos homens cínicos,
mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
atiram as almas para a visão de Deus.
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.

(de A Túnica Inconsútil, 1938)

14.12.18

[outros melros LXX]


LUÍS FILIPE JOÃO


(Mas) O que é um melro?

É uma ave, veste negro fulvo
e bico loiro.
(não gosta do amarelo
como toda a gente.)

Saltita no Outono
em seio úbere ou carvão
incandescente.

Enjeita ninho
não inocente.

É poeta: alimenta ofício
de ave bem atenta.

(de Chocolate em Repouso, Átrio, 1994)

7.11.18

MANUEL GUSMÃO


Carlos de Oliveira pertence a uma tradição que na modernidade é a da autoconsciência do trabalho poiético da forma.  Entretanto, esse trabalho não é praticado nem imaginado como um simples labor construtivo, mecânico ou mecanizável, todo método e cálculo. Esse trabalho inclui a preparação paciente de uma «pequenina explosão»; inclui a espera, a passividade disponível, o acontecimento imprevisível. Como o mostrou convincentemente Gustavo Rubim, esse trabalho «desfaz a oposição entre o cálculo e o acontecimento».
Há a este propósito uma longa tradição que pensa de forma dualista a poesia e as poéticas. Haveria num pólo o poeta «voyant», inspirado, possuído ou órfico (a matriz está em Platão) e, num outro pólo, o poeta «artiste», artífice, premeditado ou hermético (a matriz estaria agora em Aristóteles). De um lado, a inspiração, a força, a «chama», a energueia e, do outro, o cálculo, a forma, o «cristal», o ergon. A oposição não é de todo inverosímil, nem inútil, é possível vê-la como um particular sintoma da dificuldade de pensar uma identidade essencial e a-histórica do que seria a poesia. Mas Carlos de Oliveira é precisamente um daqueles que mostra como o dualismo rígido dessa bipolaridade pode deixar de funcionar: a sua obra é a de um artesão afectado pela paixão.


(excerto de «A Arte da Poesia em Carlos de Oliveira», in Neo-Realismo — Uma Poética do Testemunho (alguns exercícios de releitura), Edições Avante​, 2018)

28.10.18


CECÍLIA MEIRELES


CENÁRIO

No jardim que foi de Gonzaga,
a pedra é triste, a flor é débil,
há na luz uma cor amarga.
Os espinhos selvagens crescem,
única sorte destas árvores
destituídas de primavera,
secas, na seca terra ingrata,
que é uma cinza de inúteis ervas
solta sob os pés de quem passa.

No jardim que foi de Gonzaga,
oscila o candeeiro sem lume,
apodrece a fonte sem água.
Longas aranhas fulvinegras
flutuam nas moles alfombras
do antípoda universo aéreo.

Um flácido silêncio adeja
sobre esses restos de uma história
de sonho, amor, prisões, seqüestros,
degredos, morte, acabamento…

Vagas mulheres sem notícias,
pobres meninos inocentes
circulam por essas escadas,
pisam as folhas secas, mostram
portas de anil desmoronado…

A névoa que enche os aposentos
não vem do dia nem da noite:
vem da cegueira: ninguém sente
o ranger da pena, na sombra,
o luzir da seda das véstias,
à luz de altos caules de cera…

Ninguém vê nenhum livro aberto.
Ninguém vê mão nenhuma erguida,
com fios de ouro sobre o mundo,
para um bordado sem destino,
improvável e incompreensível
remate do fátuo vestido…

Apenas um cacho de rosas,
que nascem pálidas e murchas,
habita um desvão solitário,
quer falar, porque veio a custo
de antigas lágrimas guardadas
num chão sem ouro nem diamantes…

Mas inclina-se à tarde, ao vento,
e como um rosto humano morre,
sem dizer nada, inerme e triste,
ao peso do seu pensamento,
– como acontece entre os amantes.


(de Romanceiro da Inconfidência, 1953)

19.9.18

MENDES DE CARVALHO


CANTIGA DO POBREDIABISMO DE CAFÉ


Intelectuais reconhecidos pelo notário
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tacteia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel

e se houvesse justiça tinham pena capital


(de Cantigas de Amor & Maldizer, 1966)

2.9.18


PAUL ELUARD


A AURORA DISSOLVE OS MONSTROS

Ignoravam
que a beleza do homem é maior do que o homem

Viviam para pensar pensavam para se calarem
Viviam para morrer eram inúteis
Ocultavam a sua inocência na morte

Tinham posto em ordem
sob o nome de riqueza
sua miséria sua bem-amada

Mastigavam flores e sorrisos
Só encontravam um coração na ponta das carabinas

Não percebiam a injúria dos pobres
Dos pobres amanhã sem problemas

Sonhos sem sol tornavam-nos eternos
Mas para que a nuvem se transformasse em lama
Desciam deixavam de fazer frente ao céu

A noite do seu reino a sua morte a sua bela sombra miséria
Miséria para os outros

Esqueceremos estes inimigos indiferentes
Em breve uma multidão
Repetirá baixinho a chama clara
A chama para nós dois unicamente paciência
Para nós dois em toda a parte o beijo dos vivos.


(in Algumas das Palavras, traduções de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, Publicações Dom Quixote, 1969 / original de Le lit la table, 1944)

19.8.18


MÁRIO AVELAR


APRIL LOVE – ARTHUR HUGHES

a José Tolentino Mendonça

Esmagado ainda pelo peso
da cor, da mancha sufocando o espaço
sobre Saulo… a conversão, como
Caravaggio a concebeu… absorto,
no meu rumo íntimo
para Damasco, regressava
de Santa Maria del Popolo, pela
Via del Corso, quando a voz
De um anjo me interpelou…
a mim, apenas a mim, nos versos
do meu amigo Francesco:

E qualcosa rimane,
fra le pagine chiare,
fra le pagine scure.

Seria o seu rosto como
o céu de abril?

Dela retive apenas
a silhueta sentada
numa cadeira de rodas.

Revi-a meses depois,
ao regressar uma vez mais de
Santa Maria del Popolo.
Na Via del Corso, pois bem.

Agora, que o espanto
se ausentara, olhei-a
sem pudor, detive-me no
rosto cortado pelas rugas –
não era este o de um céu de abril.

Entre a alegria e a dor,
perplexo fiquei perante a
prótese metálica… e a velha
guitarra acústica.

Mas a voz… a voz, essa era ainda a
de um anjo.


(de No Rumor das Imagens, in Coreografando Melodias no Rumor das Imagens, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2018)



5.8.18

FERNANDO GUIMARÃES


Esquecemo-nos muitas vezes que a realidade é o termo de um diálogo que, inconscientemente, se desenvolveu no tempo através de muitos encontros. Fomos nós e os outros quem o tornou possível até se dar a sua apropriação através de uma linguagem. No contacto que temos com os objectos, estes absorvem uma multiplicidade de sentidos que se depõem como outros tantos limiares de acesso à sua e à nossa presença. 
Vai-se dando, assim, uma significação aos seres que se transformam progressivamente ou adiam uma forma onde, como diria Rilke, o “perder é ainda nosso”. Dizer casa ou árvore equivale por vezes a invocar algo mais do que o indício que nos permita reconhecer ou localizar coisas que entre árvores e casas o são também. Dizê-lo é ou poderá significar o conhecimento radical que cada ser em face do homem suscita e que os diversos modos de o desligar invocam. Só nesse momento saberemos medir a casa pelo seu equilíbrio, pelo espaço que ela nos restitui cheio de significações; e que a árvore se tornará tão autêntica para nós como a realidade das estações que a atravessam ou o fogo futuro em que a sua presença brilha. Ou que, ainda, pode uma casa ser tão completa e solitária como uma árvore.
A acção do poeta consistirá em inventar ou atribuir uma ordem, um equilíbrio, a esses significados, a esses valores. E, pelo caminho das palavras, regressa-se de um mundo que se tornou ausente, embora os múltiplos sentidos que tal caminho nos propõe acabem por preencher totalmente essa ausência


(excerto de «Poesia e Sentido», in Conhecimento e Poesia, Oficina Musical, 1992)

9.7.18


MARÍA ZAMBRANO


A origem da filosofia enraíza-se nessa luta que se trava ainda dentro do sagrado e face a ele. A filosofia nasceu, foi o produto de uma atitude original ocorrida numa rara conjuntura entre o homem e o sagrado. A formação dos deuses, a sua revelação pela poesia, foi indispensável, porque foi ela, a poesia, que primeiro enfrentou esse mundo oculto do sagrado. E assim, em parte, a insuficiência dos deuses, resultante da acção poética, deu lugar à atitude filosófica. Mas, por outro lado, vemos que na atitude que a actividade poética supõe, se encontra já o antecedente necessário que dará origem à filosofia. Como sempre que de uma actividade humana nasce outra diferente, e até contrária, não é só da sua limitação, do que não chegou a alcançar, que ela nasce, mas também daquilo que chegou a ser; do seu aspecto negativo unido ao positivo.
E assim, a filosofia inicia-se do modo mais antipoético, por uma pergunta. A poesia, essa, começa sempre por uma resposta a uma pergunta não formulada. Interrogar-se é próprio do homem, o sinal de que chegou a um momento em que vai separar-se do que o rodeia, qualquer coisa como a ruptura de um amor, como o nascimento.
Toda a pergunta indica a perda de uma intimidade ou a extinção de uma adoração. Nos dois processos actua como fundo último, determinante, o cansaço, talvez a necessidade de um alguém que quer tornar-se independente, viver por sua conta, libertar-se daquilo mesmo que foi o lugar da sua alma. E mais ainda do que a ruptura de um amor, é algo como o nascimento; o processo em que um ser se alimentou e respirou dentro de outro, intrincado com ele, se solta à procura do seu próprio espaço vital. Assim, a pergunta filosófica que Tales formulou outrora [“O que são as coisas?”] significa o desprendimento da alma humana, já não desses deuses criados pela poesia, mas da instância sagrada, do mundo obscuro de onde eles próprios saíram. Pois as imagens poéticas dos deuses eram, por sua vez, uma solução encontrada para essa necessidade de desprendimento, da saída para um espaço livre, para uma relativa solidão.


(excerto de «A Disputa entre a Filosofia e a Poesia sobre os Deuses», in O Homem e o Divino, tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Relógio d’Água, 1995)