Mostrar mensagens com a etiqueta TdA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta TdA. Mostrar todas as mensagens

12.7.06

[Quarta-feira, dia da Alegria]

JOÃO CANDEIAS


2


volvamos o olhar sobre a terra
onde se afaga a tepidez da carne e as lavras
se pede a alma do húmus em seu seio.
porque eu sei que de profundos sulcos
fica o rosto quando percorre arados na paisagem
e céus no infinito, pontos que arrastam
zodíacos de lama, rios de prata morta
peixes que passaram e forma vivos.
transcorrido o alcatrão onde morrem cães
pela madrugada da surpresa chegamos
ao lar de granito. séculos, séculos ternos
de água cultivando a sede

(de Voltei à casa pequena, editorial Diferença, 1999)

31.5.06

[quarta-feira, da Alegria]

NATÉRCIA FREIRE

TERRA


Da Verde rua parada
Ao verde campo das sombras
Vai pouco mais do que nada.

Vai uma lua redonda
Vai o silêncio da estrada.

Vai um perfume sem nome
De raízes e de terra
Da terra que é fome e come.

Do meu corpo sob a lua
Ao teu leito sob o vento
Vai um quadrante de amor
Sonolento...

Terra, terra que me queres...
Como os homens à mulheres...

(de A Segunda Imagem, 1969)

24.5.06

[o Tim vai permitindo que seja dia da Terra da Alegria]

MARIA DE LOURDES BELCHIOR

ALEGRIA


Era à tarde... À flor da pele um arrepio
brisa suave na tarde distante
coalhadas sombras entre pinheirais,
perdidos, isolados, brancos os casais
alvejavam teimosos por entre as sombras
Iguais a quantos mais estes finais de
tarde virgilianamente evocados?
E no entanto, em cada fim de dia, ao cair da
tarde, cresce serena a morte, esgota o tempo:
sorve-o na noite e retoma-o no dia
Donde a melancolia do fim do dia?
Donde o medo obscuro do escuro da noite?
Terra, vento, lamento de quem? Imitação
ritual de ancestrais pesadelos. Agonia
de fim do dia. Donde a alegria?
Tudo sombra na noite? Do ventre na noite
nasce outra vez o dia. Donde a alegria?

(de Gramática do Mundo, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985 - Biblioteca de Autores Portugueses)

29.3.06

[dia da TdA]

ARMANDO SILVA CARVALHO

UM DIA DA TERRA


Escreveste um dia que te levantavas
Quando o desgosto já não era alegórico
E te sufocavam os seus dedos
Devoradores.
Hoje antes de me deitar
Ouço o locutor dizer que a Terra
Será sempre território exclusivo do sol,
Do ar, da água.

Este planeta onde tenho a cama
E os mais instrumentos
Que me suportam o sono e outras formas
De esquecer os dias
Dá-me uma noite calma a ouvir
A voz do mar
Zeladora da minha solidão que sinto
Ligada à sua.

Não me apetece dormir.
Quero ficar de barriga para o céu
À minha volta
Quando o ar não me falta
E água me embala com o seu coro enrouquecido
De navegantes mortos
Com as suas mãos medonhas suspensas
Sobre as rochas
Como as duma velha ama.

Decido-me a fazer companhia
À Terra
E esqueço (sem esquecer)
O cruel fim dos milhares de indefesos,
As chacinas diárias, o ruído do ódio,
Do mal que grita
À minha cabeceira a minutada força
Do destino humano
Traduzido nas suas alegorias
Democratas.

Que belo rendez-vous me propõe
A torpe insónia
Nesta noite de Juízo Íntimo.
Tratar por tu severos astronautas
As emoções da Terra derramadas em gráficos,
O falso azul, os buracos negros,
A luz indiferente das estrelas,
O livro do universo.

E como tu dizias,
O domínio da vida sobre a ideia da morte.
A materia de deus deitada a meu lado
No branco do lençol.

9.9.04

(de Sol a Sol, Assírio & Alvim, 2005)

15.3.06

[Quaresma na TdA]

E. E. CUMMINGS

sou uma pequena igreja(não uma grande catedral)
longe da opulência e da imundície das apressadas cidades
- não me preocupo se os dias mais breves se tornam brevíssimos,
não tenho pena quando sol e chuva fazem Abril

a minha vida é a vida do ceifeiro e do semeador;
as minhas orações são as orações da terra onde desajeitadas lutam
(encontrando e perdendo e rindo e chorando)as crianças
cuja qualquer tristeza ou alegria é meu tormento e meu aprazimento

à minha volta surge um milagre de incessante
nascer e glória e morte e ressurreição:
sobre o meu ser adormecido flutuam flamejantes símbolos
de esperança,e eu acordo para uma perfeita paciência de montanhas

sou uma pequena igreja(longe do alucinado
mundo com o seu enlevo e angústia)em paz com a natureza
- não me preocupo se as noites mais longas se tornam longuíssimas
não tenho pena quando a calma se torna canto

de inverno a primavera,ergo a minha espiral diminuta para
o misericordioso Ele Cujo único agora é para sempre:
permanecendo erecto na verdade imortal da Sua Presença
(acolhendo humildemente a Sua luz e orgulhosamente as suas trevas)

(in livrodepoemas, tradução de Cecília Rego Pinheiro, Assírio & Alvim, 1999 - original de 95 Poems, 1958)

8.3.06

[TdA]

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

ODE À MANEIRA DE HORÁCIO. I


Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida

(de O Búzio de Cós e outros poemas, editorial Caminho, 1997)

22.2.06

Hoje na Terra da Alegria:

- O Marco dá mais uma "lição" daquelas a que ele nos tem habituado: bem documentada e com uma boa dose de humildade;

- O Tim continua a partilhar connosco a leitura da encíclica de Bento XVI;

- O Miguel prova que, por vezes, blasfemar e meter tudo no mesmo saco são os melhores caminhos para a lucidez.

1.2.06

[com a força da Alegria]

NATÉRCIA FREIRE

PRIMAVERA DE JANEIRO


A Primavera anda longe,
mas eu a sinto nos dedos
da noite que se aproxima:
murmúrio de olivais
e a relva verde-fresca;
sol retardado, a pôr-se, embrulhado em mistério;
rumor de agua a correr, na Terra gigantesca.

E eu tão pequena, tão solitária, tão imensa,
no silêncio acordado desta casa da estrada!
Eu a perder-me nas adivinhações do Mundo;
a esconder-me entre os troncos tristes das oliveiras;
a debruçar-me no espelho das correntes
que irão banhar, talvez, os continentes
do meu exílio, em pátrias prisioneiras...

Ninguém me fale de beleza na Primavera!
É no Inverno que ela sempre me chega,
a erguer nos meus olhos a visão de bosques azuis...

Eu podia ser cega,
eu podia não ter tido nunca mocidade,
eu podia ignorar o cântico dos pássaros
nas madrugadas felizes,
que, ao avistar no espaço a Primavera,
quando todos os sonhos dormem,
e todas as mulheres são virgens,
e todos os homens são imaculados,
quando os doentes têm medo de morrer,
quando o ranger dos velhos carros,
nos caminhos da quinta, me ressuscita a infância,
a saudade da Primavera que há-de vir
e que, depois da chegada, nunca será aquela que sonhei,
cola-me na vidraça esta fronte sem estrelas,
- tão pequena, tão só, como podia eu tê-las?
Ergue-me o peito vasto,
desnuda-me sem luta...

Eu não escuto o silêncio,
e já ninguém me escuta.
Ao fundo, a Primavera
- que atónita ela vinha! -,
acenou-me de manso
na tardinha...

Mas fugiu da mulher
com olhos de adivinha...

(de Anel de Sete Pedras, 1952)

11.1.06

[no dia em que, na Terra, passam todos para o mesmo dia]

PABLO NERUDA

Ode à alegria


Alegria
folha verde
caída da janela,
minúscula
claridade
recém-nascida,
elefante sonoro,
rutilante
moeda,
às vezes
pequena faísca,
mas
sempre melhor do que isso:
o pão diário,
a esperança satisfeita,
o dever cumprido.
Alegria,
porque fui mal aconselhado,
desprezei-te.
A lua
desencaminhou-me.
Os antigos poetas
vendaram-me os olhos
e junto de cada coisa
um halo sombrio
deixei.
Sobre a flor como coroa negra,
sobre a boca amada
um triste beijo.
Mas ainda não é tarde.
Deixa que me arrependa.
Pensei apenas
que se queimava
o meu coração
na sarça do tormento,
se a chuva molhava
as minhas vestes
na comarca roxa do luto,
se fechava
os olhos à rosa
e bulia na ferida,
se partilhava todas as dores,
eu ajudava, assim, os homens.
Não fui correcto.
Enganei-me no caminho,
mas hoje chamo por ti, alegria.

És
necessária
como a terra.

És pura
como o pão.

Como a água dum rio
és sonora.

Voando repartes o mel
como uma abelha.

Alegria,
eu fui um jovem taciturno,
achei que a tua cabeleira
era escandalosa.

Mas não era verdade, soube-o
quando no meu peito
a sua torrente rebentou.

Hoje, alegria,
encontrada na rua,
longe de qualquer livro,
acompanha-me:

contigo
quero ir de casa em casa,
de aldeia em aldeia,
de bandeira em bandeira.
Tu não és só para mim.
Iremos às ilhas
e aos mares.
Iremos às minas
e aos bosques.

E nem só os solitários lenhadores
as pobres lavadeiras
ou os agrestes, veneráveis
canteiros,
me hão-de receber com os teus frutos,
mas também os congregados,
os reunidos,
o sindicatos marítimos ou madeireiros,
os valentes rapazes
em luta.

Ir pelo mundo contigo!
Com o meu canto!
Com o voo entreaberto
da estrela,
e com o júbilo
da espuma!

Com todos cumprirei
o prometido
porque a todos
devo a minha alegria.
E ninguém fique surpreendido por eu querer
entregar aos homens
os bens da terra
pois lutando aprendi
que é meu dever terrestre
propagar a alegria.

Assim, cumpro o meu destino
com o meu canto.

(de Odes Elementares, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1977; 2ª ed.: 1998)

21.12.05

[já é Inverno na Terra]

NUNO HIGINO


As minhas mãos sabem a terra
das minhas mãos nascem gardénias
e neva nas minhas mãos
quando é inverno

(de Onde correm as águas, Campo das Letras, 2003)

14.12.05

[da Alegria]

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES

estamos dentro dos dias eu: na cidade do mar hoje é Dezembro
quase Natal quase partilha conheço alguns que têm contribuído
para a construção da terra (oh peço perdão desculpe mas:)

nunca trago trocado comigo. edificamos barreiras nos dias
(a nossa pequena história) reconhecemos nossos passos
desejamos o corpo dos amigos por entre mesas de taberna

entre a sangria e o mimo. na hora de todas as coisas: para
onde vamos? alguém nos irá julgar? talvez não seja esse o
momento final (as partidas foram feitas para se poder
regressar). vivemos para o efémero tentando convencer um

deus mas deuses assim têm um tempo de humanos. passamos
ao lado dos barcos (o tempo avança por sílabas) pode parecer
estranho escrever assim mas é quase manhã e ninguém
confessou ainda quem foi que deu o desfalque no meu coração

(encontrado na antologia Natal... Natais, de Vasco Graça Moura, Público, 2005)

7.12.05

[Porque a Terra]

SILVINA RODRIGUES LOPES

  • O princípio e o fim confundiam-se. Nem o canto das cigarras deixava que o dia fosse. só dia, nem a claridade da noite impedia o grito.
    Era o vento nos ramos da figueira. Chuva, fogo, zangas de Deus e a alegria como relâmpagos. Concreto era tudo, porque ardia nos olhos, nas feridas de tantas quedas.


(de Sobretudo as vozes, edições Vendaval, 2004)

16.11.05

Referência bibliográfica

O debate entre o Cardeal Martini e Umberto Eco a que o Tim se refere hoje, na Terra da Alegria, foi traduzido e publicado em português:
Em que crê quem não crê?: um diálogo sobre ética no final do milénio / Umberto Eco e Carlo Maria Martini, tradução de Valentim Marques e António Maia da Rocha - Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2000
[da Alegria]

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO

MANHÃ ETERNA


Terra, mas terra extensa, de longes baços
terra de além
que se alonga e se despedaça em ondas
mas ondas de verdura
nos horizontes.
Terra sem fim, a desfazer-se em fumos.
Além que se desfaz em odores
e em névoas.
Terra, mas terra forte e luminosa
capaz de germinar no seio astros.
Planície que se evapora na altura
enxuta em sol.
Terra de corredores internos
subterrâneos cheios de luz.
Ouro potável, castanho e solar.
Searas extensas como céus.
Grãos luminosos e ardentes, sementes
que se espalham pela terra como cometas.
Terra celeste, flor astral
onde a noite acorda pelo Abril do dia.
Terra de luz, cheia de ouro
que estremece como uma estrela.

(de Estrela Subterrânea, Limiar, 1993 - colecção Os Olhos e a Memória)

9.11.05

[hoje, na Terra, o Tim e o Fernando falam duma ciência ameaçada]

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Furtivos lírios


Contemplava a própria vida
na sorte desses instantes
que tanto se assemelham a furtivos lírios
à chegada da noite
mas dizia: um coração é sempre um pássaro
evadido à censura da penumbra

nenhum sofrimento conseguia desfazer
as muitas exaltações que mantinha
e mesmo à beira do abismo
exibia uma facilidade talvez sem razão


quando a arte das chamas se tornou
nas cidades uma ciência ameaçada
percebemos que há muito nos falava
do interior das florestas


(de Baldios, 1999)

8.11.05

A propósito dos acontecimentos destes dias em Paris, merece destaque a declaração do presidente da Conferência Episcopal Francesa, reproduzida ontem na Terra da Alegria pelo Zé Filipe.
Coisas que já sabemos, mas que é importante serem repetidas e lembradas.

2.11.05

HÖLDERLIN

TERRA NATAL


Alegre regressa o marujo ao rio tranquilo,
De longínquas ilhas, quando colheu seu lucro;
Também eu voltaria assim à terra natal, tivesse eu
Tantos bens colhido como dores colhi.

Ribeiras queridas, que outrora me criastes,
Acalmais vós as dores do amor? Prometeis-me vós,
Bosques da minha juventude, se eu
Voltar, mais uma vez repouso?

Junto ao regato fresco, onde vi brincar as ondas,
Junto ao rio, onde vi singrar os barcos,
Em breve eu estarei; a vós, montes amigos
Que outrora me abrigastes, da minha terra

Seguras fronteiras veneradas, à casa materna
E aos abraços dos irmãos amado,
A todos saúdo em breve, e vós me envolvereis,
Que, como em faixas, o coração me sare,

Ó meus fiéis! Mas eu sei, eu sei,
A dor do amor, essa não cura tão breve,
Essa não me afasta do peito
Nenhuma canção de embalo, que mortais cantem.

Porque aqueles que nos dão o fogo celeste,
Os deuses, também nos dão a dor sagrada.
Por isso esta fique. Filho da terra
Pareço eu: feito para amar, para sofrer.

(tradução de Paulo Quintela, in Obras Completas II, Fundação Calouste Gulbenkian, 1997)

26.10.05

[da Terra]

DANIEL FARIA

JUNTO DOS RIOS DA BABILÓNIA [sl 136 (137)]


Nas margens dos rios imaginando pontes
Quando já só no nosso pensamento deslizavam
Debaixo da sombra das nossas liras
Ali nos pediam - em solo alheio -
Que cantássemos canções da nossa terra.
Como poderíamos cantar a nossa infância
Tão longe, num país estranho?

Os salgueiros têm folha persistente

Sob a sombra persistente a mudez
Junto dos rios da Babilónia
Foi a única das nossas alegrias

(de Homens que são como Lugares mal Situados, Fundação Manuel Leão, 1994)

19.10.05

[dia da Terra]

VASCO MIRANDA


DEMISSÃO


Se pudesse escrevia um poema sem palavras.
As palavras não existem. Já nada dizem
Do que antes era. Antes
Quando o medo era sombra inexistente
E era possível aos homens falar de amor.
Agora há só o espantalho do medo,
As bocas negras, a fome negra,
E o uivo dos cães mudos nas noites desertas e distantes.
Antes havia feras e cristão para as feras.
Agora, ou porque tudo são feras,
Ou porque já não há cristãos
(E há só o medo, o pavor, a fome,
As cumplicidades carnais ao topo dos ventos,
E o ridículo de se ter medo: o pasto das trevas)
A semente de Deus anda à deriva sem leira onde se acoite.

- Espuma, sonho, aurora, canto? - palavras ausentes.
No galeão da vida, haverá de novo bodas de sangue
Para que do Mar volte para a Terra
O viço e a alegria das novas sementes.

(de A Vida Suspensa, 1953)