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21.1.12


PHILIP LARKIN


Inverno

No campo dois cavalos,
Dois cisnes no rio,
E o vento fustiga
Um baldio onde os cardos
Se juntam como gente;
E de novo os meus pensamentos
São crianças
De rostos inquietos,
Acordam em túmulos
Ocultos e soerguem-se
Sob céus velozes.

O rasto diagonal
Dum cisne na água
É o frio do inverno;
E os cavalos, como paixões
Há muito derrotadas,
Descaem as cabeças
E ai, como me invadem
A mente amortalhada
E resgatam da memória
Os rostos aprisionados —
Aluviões do passado.

Então a charneca inteira
Silva em golpes de vento
E a gente transida
Junta-se como cardos
Num lugar estéril;
E mesmo assim os milagres
Exumam de cada rosto
Fortes sementes sedosas
Que lançam para o estático
Sol de ouro do inverno
Um orgulho sem fim nem sombra.


(in Uma Antologia, tradução de Maria Teresa Caeiro, Fora do Texto, 1989 – Poesia Nosso Tempo / original de The North Ship, 1945)

24.5.10

PHILIP LARKIN


As árvores

As folhas rebentam nas árvores
Como algo que quase se diz;
Os novos botões espreguiçam-se,
O verde é uma forma de mágoa.

Será que renascem, e nós
A envelhecer? Não, também morrem.
O truque que as faz parecer novas
Está escrito no grão dos anéis.

Porém os castelos inquietos
Adensam e crescem com o Maio.
Dizem: "passou, morreu o ano —
Recomecem, recomecem..."


(de High windows / Janelas altas, tradução de Rui Carvalho Homem, edições Cotovia, 2004)

23.2.06

ADRIAEN BROUWER

Os jogadores de cartas
Óleo sobre madeira, 25 x 39 cm - séc. XVII
Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, Antuérpia


PHILIP LARKIN


Os jogadores de cartas


Jan van Swinovomit cambaleia para a porta
E mija para a escuridão. Lá fora, a chuva
Corre pelos trilhos das carroças na lama funda.
Lá dentro, Dirk Kagaljan enche mais um copo
E com tenazes chega mais uma brasa ao cachimbo,
Arrotando fumo. O velho Karaljeuw ronca com a tormenta,
E abre mexilhões, e grasna passos de cantigas
De amor para as vigas de onde pendem presuntos.
Dirk dá as cartas. Árvores com a largura de séculos
Entrechocam-se, húmidas, no céu sem estrelas por cima
Desta gruta alumiada, onde Jan se peida mal volta,
Escarra para a lareira e puxa a dama de copas.

Chuva, vento e fogo! A paz secreta e animal!

(de High windows / Janelas altas, tradução de Rui Carvalho Homem, edições Cotovia, 2004)
No mesmo dia em que vejo o post em que Pedro Mexia diz:
«Larkin (bem como o seu mestre Thomas Hardy) é um dos meus poetas favoritos e uma das influências mais notórias naquilo que escrevo, sobretudo numa visão do mundo (e da poesia) eminentemente disfórica»

leio no texto de Rui Carvalho Homem que acompanha a sua tradução de Janelas Altas, de Philip Larkin (edições Cotovia, 2004):
«(...) E desenham-se perante o leitor os traços reconhecíveis de uma persona masculina que, entre o conformismo e uma amargura mal escondida, retrata como inépcia ou como inadequação a sua não-excepcionalidade (social, sexual, nas demandas económicas) (...)»