9.11.09

[nos 20 anos da queda do Muro de Berlim]


(voz de João Afonso)

JOSÉ AFONSO

UTOPIA


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

(do álbum Como Se Fora Seu Filho, 1983)

28.10.09

RUY CINATTI


XIII


Quando vier da minha terra que é no mundo
prá minha terra que é do coração,
usarei as minhas ferramentas
para arrazar vulcões estéreis
e conhecer os frutos que nos são negados.

Furos, nascentes, pás e picaretas,
agrónomos, hidráulicos, correcção, levadas,
estas serão as minhas ferramentas
para combater as secas prolongadas
e colher os frutos que nos são negados.

O resto, é história antiga: não interessa
senão para ilustrar a condição
que moveu os braços musculados
e aos filhos futuros nossos consentiu
colher os frutos que nos são negados.

(de Crónica Cabo-Verdiana, 1967)
FILINTO ELÍSIO

9.


sabe o poeta que a hora é plácida
pedestal caindo
estrela cadente
estrelas do mar
algas da sorte
(retornando à ida)
timbre de voz
que o poeta pressente...

(de Do lado de cá da rosa, Instituto Caboverdeano do Livro e do Disco, 1995)


7.

Perdoa-me mas não me ocorre a Atlântida de Platão
As ilhas têm uma só raiz: o amor!
O resto é ínsula língua do mar coxas d’areia

Macaronésia só de mamas arquipélago de gemidos
Barlaventos de braços sotaventos de pernas
A Vénus sai das águas e o Caliban da terra é fome

São as ilhas o reverso do Paraíso sem molduras
Mangas cocos tâmaras musgos seixos espumas
Serpentes sem pecado sem veneno sem Bíblia!

(de O Inferno do Riso, Instituto da Biblioteca Nacional, 2001)


3

As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.

Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Sílabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.

De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémenes, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.

Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.

(de Das Frutas Serenadas, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2007)

27.10.09

(Ilha de Santiago, Outubro de 2009)


SÉRGIO GODINHO

Chuvas de Cabo Verde


Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
não se vê do avião
país que é novo tem sede
do que faz fazer o pão
este socalco foi milho
e aquelas pedras, feijão
ensinava a mãe ao filho
repete o filho ao irmão

Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
está na maneira de olhar
árvore que tinha sede
foi-se também emigrar
nela encostado, o emigrante
trinca do fruto da morna
não há nenhum que não cante
a vez em que à terra torna

Beleza de Cabo Verde
está na razão de cantar
música não mata a sede
mas se pudesse matar
com água por melodia
e por batuque irrigado

(do álbum Aos Amores, 1989)



(vozes de Sérgio Godinho e Tito Paris, no álbum O Irmão do Meio, 2003)

26.10.09

ANTÓNIO PEDRO

I

Ai árvores ali
e duras!,… ai!:
e aqui
terra queimada
só.

Bé!,
o pó
da ventania
sufoca!
…Lá na baía
ou doca
ou o que é,
lá do vapor
parecia
melhor,
embora fosse careca
a terra seca,
e o sol queimasse
e adormentasse
já.


há mais do que calor,
há dor
do sol!

…e a preta
De lenço branco
Lá no barranco
Da achada
Tem o ar de um sobressalto

…E andam sombras
pelas sombras
como havia no mar alto…

No entanto,
de não estar
habituado a encontrar
estas sombras aqui,
ainda não consegui
o meu encanto:
pasmar
- Paisagem, quem me adivinha? –

E andam sombras pelas sombras
enquanto a noite caminha,
dês que o luar dealbou…

Que tentaram ensombrar-me
- Mas quem foi que me assombrou?

Quem me ensombra
não me assombra!
…Apenas me sobressalta
não ver os mortos da sombra
que me fazem tanta falta!...

(de Diário, 1929)

25.10.09

MANUEL LOPES

MAR-ALTO


E porque teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
- tua ilha é grande...

E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
- tua ilha é grande...

E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
- tua ilha é grande...

E porque no teu sangue se deu o encontro de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações
dores alegrias e desgraças
- tua ilha é grande...

E porque a tua vida marca cada hora
como a onda dominadora
na alegria que chora
ou na tristeza que ri,
tua divisa ora
- em cada hora nasci...

(de Crioulo e outros poemas, 1964)



LEANDRO
(Os Flagelados do Vento Leste)


Querias que os montes fossem gentes
e as gentes montes.
Que se misturassem
confundissem
e falassem
e depois tivessem a magia
de distinguir os montes das gentes
até chegar à humana conclusão
de que eram iguais
com a mesma linguagem
as mesmas lutas e ódios
e em cada despedida
a mesma esperança desesperada
a mesma saudade mentida a mesma ilusão
as mesmas ameaças ou o mesmo perdão
a mesma indiferença
a mesma sorte
desmentida

sob os escombros da vida
que se recusa na morte...

(in Falucho Ancorado, edições Cosmos, 1997)

19.10.09

[outros melros LVI]

RUI PEDRO GONÇALVES


Desta vez não houve lezírias em pano de fundo.
Deixei as searas sossegadas
Imaginando o orvalho acordando os melros e as folhas da videira.

Imaginei demasiadas coisas (penso),
Enquanto os dedos da costureira nada consertam: nem o riso,
Nem a casa fechada na penumbra de uma rua qualquer.

Por acaso, abri um armário e li
Nitratos do Chile
E pensei – o mundo está bem adubado,
Bem temperado de sal, pimenta, picantes corpos.

E não encontrei nitratos no amor (erro meu, má sorte).


(in Telhados de Vidro - N.º 12 * Maio * 2009)

18.10.09

[a propósito desta passagem do livro que a Catarina anda a ler]


JORGE DE SENA

"La Cathédrale engloutie", de Debussy


Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles:
alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas
do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.

Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.

Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.

Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.

Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.

Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.

Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!

Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?

(de Arte de Música, 1968 - o poema pode ser ouvido aqui, na voz de Luís Lucas)

30.9.09

[em face dos últimos acontecimentos...]

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS


Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo o que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreenderam, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?

(de Brejo das Almas, 1934)

28.9.09

[não, não me enganei… o livro é mesmo de 1966]

MENDES DE CARVALHO

CANTIGA DO POBREDIABISMO DE CAFÉ


Intelectuais reconhecidos pelo notário
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tacteia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel

e se houvesse justiça tinham pena capital

(de Cantigas de Amor & Maldizer, 1966)

27.9.09

[em dia de eleições]

PAULO DA COSTA DOMINGOS

De mal'a pior, julgam estar bem
e vão votar. O trânsito para
a época seguinte nem requer
certo teor dinâmico de vivência
interior, a surda tendência ou a mesma
ciente aspiração à mudança
na postura da mente, tal
como a forma e o perfume das flores
resultam da natureza da seiva
e do cuidado com as raízes. Uma
intuição, porém, logrou emergir
e ficar: pressaga, divinatória, sombra
de uma encoberta sombra... –
apenas rasgada pelo assalto policial.
De mal’aviada, julgam estar bem
e vão viajar. Dizendo que é a «vida
livre» um bem precioso.

(de Nas Alturas, frenesi, 2006)

26.9.09

NUNO DEMPSTER

O COMBOIO



Digamos no final deste sábado que
a novidade foi nada se ter passado,
que tudo cada vez se volve mais eterno,
profundamente chato e sem contornos,
e que não é possível um pássaro de fogo
entrar-me no escritório, vulgo biblioteca.
Sei tão bem as cidades por onde caminhei
que bocejo somente em pensar ir
até ao aeroporto. Todas essas cidades
se resumem à estrada que vai por aqui
não me interessa aonde.
Mesmo a rapariga que achei bela,
a semana passada desfeou-se
e as árvores, porque é Outono,
perderam todo o brilho que tiveram,
e nada disto é digno de citar-se.
Portanto regressemos ao princípio.
Nada sucede, e o meu coração lança
a crédito outro dia que jamais
poderei reaver. E quantos dias
assim hão-de somar-se em anos idos?
Oxalá não me ponha a fazer contas
a esse tempo que vou perdendo
nem escute o comboio em que, miúdo,
pensei fugir de casa para sempre.

(de Osmose; in Dispersão – Poesia Reunida, edições Sempre-Em-Pé, 2008)

25.9.09




JOSÉ MIGUEL SILVA

MORANGOS SILVESTRES — INGMAR BERGMAN (1957)


Para a Berta Neto

Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.

(de Movimentos no Escuro, Relógio d’Água editores, 2005)

24.9.09

ARMANDO FREITAS FILHO

A linha da vitória
é a do horizonte.
Com principício e fim
e o que conta
não é a duração da pista
da pegada: é a do desejo
para acabar cruzando
antes do tempo
e com a corda toda
um instante depois
o espelho vazio de chegada.

(de 3x4, editora Nova Fronteira, 1985)

23.9.09

[olha se ela por acaso fosse escritora...]

RITA F.

Uma ficção eleitoral

Se eu por acaso fosse escritora, escreveria sobre um homem que vai votar, no dia das eleições, e está até ao último minuto para se decidir, de tal modo que está já com o boletim de voto na mão e mesmo assim não sabe, a decidir, a decidir, e depois põe a cruz no partido X, vai à urna, o papel escorrega lá para dentro a muito custo, e de repente o homem muda de ideias e quer à força que abram a urna para sacar o seu papelinho, que com certeza será fácil de identificar porque foi o último a cair para o monte, mas não o deixam, e ele lá vai para casa muito agastado, e depois vem a descobrir que o partido vencedor venceu por um único voto apenas, um simples e insignificante votinho. O homem sente-se muito mal, cheio de remorsos, afinal devia ter votado no partido Y, e agora se alguma coisa acontecer a culpa é dele, a culpa é toda dele, de tal forma que os meios de comunicação social passam a entrevistá-lo de cada vez que algo nefasto acontece no país, os impostos, os escândalos, a corrupção, tudo por sua culpa exclusiva, o homem a arranjar justificação atrás de justificação, mas sem nada que o justifique, o remorso a crescer, a culpa, o homem já cheio de olheiras e sem dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, se não fosse o seu voto eram outros no lugar do Governo a endireitar o país, mas ele votou e estragou tudo, e continua no seu sofrimento até que vêm outras eleições. E o homem vota no partido Y. E descobre que o partido X voltou a ganhar, mas apenas por um voto, um único e mísero voto, que não foi o seu, e é a completa redenção. Os meios de comunicação social passam a entrevistar um outro homem, outro qualquer, outro que podia ser ele, outro homem que também não consegue dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, os escândalos, a corrupção, tudo por causa do seu insignificante voto. O primeiro homem dorme descansado. O segundo homem morre de remorsos.
E vêm novamente as eleições. O partido X volta a ganhar por um voto. O segundo homem dorme descansado. O terceiro homem morre de remorsos.
E assim sucessivamente.


(daqui)

22.9.09

GONÇALO M. TAVARES

Poesia


Construíram uma prisão cujos limites exteriores eram redes onde, através da torção dos arames, se encontravam escritos alguns dos mais belos poemas dos principais poetas do país.
Essa rede de versos que contornava toda a prisão era eléctrica: quem a tocasse apanharia um choque mortal.

(de Senhor Brecht, editorial Caminho, 2004)

21.9.09

LUÍS AMARO

CONQUISTA


a Murilo Mendes

Na miséria mais funda
cintila uma estrela
a dizer que a vida
é bela.

No silêncio aflito
da noite (naufrágio
dos tristes)
alguém sonha e canta
virgens alegrias.

A manhã nascente
para ser merecida
tem que ser sangrada
com a própria vida.

(de Dádiva, 1949)
(Sintra, Julho de 2009)


MURILO MENDES


SINTRA


A Luís Amaro

A paisagem redonda (claro que considerável), a mata (com ou sem aspidistras, palavra que encontrei num texto de José Rodrigues Miguéis, e que pressupõe uma áspida — talvez de cabeleira — na aliás planta), etc.



Obrigatoriamente, a figuração retórica de Byron, personagem da linha grande reverência.



O Castelo da Pena, caleidoscópico, e que poderia resultar da paranóia de Luís II da Baviera aliada à de Salvador Dali.



“O mistério da estrada de Sintra.”



As queijadas de Sintra, monumento nacional. Categoria!



O encontro com Ferreira de Castro, que há vários anos escapa ao verão num hotel de Sintra; suas janelas disparam ar e verde. Depois do seu já remoto sejur no Brasil, que lhe fornecera a matéria dum livro marcante, deu a volta ao mundo. Regressando-se, viu que tudo cresce e se transforma; conforme o Padre Vieira, neste mundo só o céu não cresce. O escritor persiste idêntico a si mesmo, bom, amigo das nossas coisas; não estranha mais a espantosa bagunça brasileira. Continua a se interessar pelos problemas do homem, o que o torna atual; mesmo porque a maior volta que se pode dar ainda é mesmo dentro do homem. Montaigne dixit.



Desloca-se a grafia da Cintra para Sintra; com vantagem, pois letra S é sinuosa tal os caminhos de Sintra; serpentina; e ninguém ignora que Veneza toma a forma dum S. Claro que Sintra não tem relação com Veneza; mas vimo-lo, a letra S, de Sintra, sim.



Nenhum quadro alusivo a Sintra; duas ou três fotografias; um futuro documentário cinematográfico, televisivo ou de ou de outra técnica então mais perfeita, a ser transmitido por satélite aos habitantes de Vénus e Marte, boquiabertos; mas temo que estes não existam.

(de Janelas Verdes, edições Quasi, 2003 – biblioteca arranjos para assobio)

20.9.09

DIOGO VAZ PINTO

Pelo meu relógio são horas de matar,
de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.

António José Forte


I.

Tenho sonhos tão mal frequentados, clichés
de toda a ordem, corações mal iniciados
ou com tão podres usos, e no entanto,
por vezes ainda te vejo num café,
uma água com gás e um livro do tempo
em que eu não sabia ler. Aproximo-me,
e perco depressa a iniciativa de se passar
tudo isto apenas na minha cabeça.
Apesar de tudo
continuo a não contrariar a realidade
e o que de nós ali fica são duas bocas
a comerem o mesmo silêncio,
nas horas, nos mostradores,
na não correspondência que mais me magoou.

Enfim, o meu mundo também
foi começando e acabando à volta de um perfume
de mulher. Das poucas que não se deixam
escrever ou glosar, nem estão dispostas
a ficar de helenas para algum estupro literário.
É ela quem ainda concebe no ventre os meus
únicos filhos,
mas nunca os deixa partir, como nunca
me deixou tocar-lhe em nove dos anos sentados
na escola, na carteira logo atrás dela,
com a respiração
obedecendo a cada gesto que fazia.

Existe mesmo e pode ser vista. Levou daqui a elegância
a outros olhos, mas visita-me entre perturbações
do sono, passeando tão devagar
com uma serpente enrolada nos tornozelos,
abocanhando-lhe, mais acima, o sexo.
Tem envolvido no pescoço um colar de dentes arrancados
às noivas que até hoje fui entretendo com conversas
sobre o futuro, antes de lhe perder todo o interesse.

Assim me explico e a tantos versos. Naturalmente,
a rejeição é de longe o meu tema preferido.
Daí o sangue nos joelhos, na mesa
de cabeceira o revólver em cima do livro
que estiver a ler, balas das que assobiam para
o lado e veneno dos que matam com extrema
doçura. Os meus crimes até para mim estão a ficar
sem importância. Não durmo para seguir madrugadas,
espremo leite das sombras que me trazem, tenho
as pálpebras humedecidas de assaltos, sirenes,
fúrias venéreas e pássaros que contra elas se esmagam.
Tenho nos bolsos listas de palavras
para as quais procuro significado, artigos
de higiene e outros, além dos hotéis
com as melhores vistas
para o sórdido vazio que vai ajardinando
a minha relativa indisposição para a vida.


II.

Sei que acredito em alguma coisa,
qualquer coisa – que se pode começar
a escrever por uma mulher, esquecê-la noite após
noite e de dia não pensar em mais nada além
do que hão-de ser as epopeias do século XXI.
Imaginar o que pode nascer dos estilhaços mitológicos
cravados nas nossas deambulações e voos rasos
de uma livraria para um bar, num táxi
que nos devolve a cidade às quatro da manhã,
do quarto à cozinha, passando pela casa-de-banho
onde os olhos escorrem no espelho
e se desequilibram como frutos negros
na gaguez absurda que ali arvora.

Qualquer coisa me serve.
Acredito no dia seguinte – em sair da cama
feio como quem nasce de um pesadelo, mas
com uma vaidade
que podia dar vida a cem bibliotecas.
Acredito no que me apetecer.

Acredito que estamos juntos nisto. Logo
pela manhã os clássicos, com calma, vão uns
a seguir aos outros ao pequeno-almoço. Ao meio-dia
já demos conta dos românticos, parnasianos,
simbolistas e dentro de momentos seguem
os modernistas, este ou aquele surrealista menos
empenhado com aquilo,
e alguns dissidentes. Já almoçamos
com os beatnicks que de um abraço nos levam
para dar uma volta, lubrificar o espírito
e dançarmos descalços ao som de ventos marados,
nalgum jardim público. À tarde, para o lanche,
passamos num drive-in e vimos de lá
com sacos cheios desse fast food lírico
que engorda os nossos dias.

Só mais para a frente, com a noite,
vão chegando os convidados para jantar.
Uns trazem aperitivos e refrigerantes, saladas
e umas coisas mais light. Alguém
fez um arroz de pato à maneira, abrimos
uns tintos, falamos mais alto, zangamo-nos,
comemos a sobremesa em silêncio, depois vêm
os digestivos, whisky, brandy, e volta a ficar
tudo bem. Há um momento em que damos
por gastas as piadas e disparates, só então
começa a falar um de cada vez.
Tiramos umas notas, comparamos ideias,
vamos avançando com as primeiras noções
para pôr esta porra a mexer.

No fim, com as sobras, enchem-se uns tupperwares
e ainda redigimos uma acta. Aí começa por ler-se:
Outros sacudiram daqui o peso da rima e
o das sílabas contadas, talvez nos cumpra a nós
tirar de vez o açaime à besta, largá-la nas ruas
e deixar que morda, rasgue, estrafegue e fôda
tudo o que cheire a mijo, hesitação e medo.

(in Criatura, N.º 3 - Abril de 2009)

19.9.09

MIGUEL MARTINS


De vez em quando, do outro lado da linha,
há um silêncio, um choro emudecido,
uma canção que queremos tua e minha,
e, ao chegar ao fim, há um estampido.
A garganta rebenta, o coração implode,
e, no silêncio triste, fica a esperança
do que parece não poder mas pode
ressuscitar, ser de novo criança.
Todos os dias, todo o dia morro,
há meses, anos, que estou pensando em ti,
rogando o teu regresso em meu socorro,
como naquele dia em que te vi.


***


semente de luz fechada entre teus seios
como uma madrugada sempre à espera
que eu fosse quem queria mas não era
capaz de fazer teus os meus enleios
cujos nós somos nós e quem me dera
fossem outros e como os crês alheios

para que em tua ausência não sangrasse
a cada esquina de alma num assombro
que cada umbral me parece o teu ombro
e um beco sem saída um desenlace
pois o amor descobre no seu escombro
outro modo de dar a mesma face

já que melhor não sou nem me adivinho
posto em sossego podando o teu jardim
a ver se o meio me justifica o fim
eis-me lavrando canções de verde pinho
eis-me morrendo suspenso do teu sim
eis-me aqui suplicando pelo teu linho

nestas linhas cerzidas a saliva
esfriada nas manhãs de mãos vazias
que são as minhas mãos todos os dias
perdidas e achadas à deriva
tacteando-te o ventre em pedras frias
matéria morta em que te sei tão viva

(daqui e daqui, respectivamente)

18.9.09

JOSEFA DE AYALA

Retrato do Beneficiado Faustino das Neves, c. 1670
Igreja de Santa Maria de Óbidos


(reproduzido a partir de Linha do Oeste - Óbidos e Momentos Artísticos Circundantes, coordenação de Benedita Pestana, Assírio & Alvim, 1998 - volume adquirido ao Henrique, na companhia do José do Carmo Francisco)


RUY BELO

O BENEFICIADO FAUSTINO DAS NEVES


Quem seria o beneficiado faustino das neves
que vê de viés quem o visita alguma vez?
Pergunto e não quero que ninguém me responda
perguntar por perguntar pode ser a mais alta forma de saber
A pergunta ondula no ar ou na alma como uma nuvem
será talvez um til num texto uma ruga na testa
um gesto de quem contesta uma leve crispação da crista
Não importa talvez o que se pergunta mas como se pergunta
a ânsia na voz o brilho nos olhos um movimento de pés
Que me importa a mim faustino das neves mero pretexto para isolar
da boca cariada do tempo um simples olhar?
Que importa um olhar a análise dos tecidos orgânicos
dos olhos das células vivas de súbito impressionadas
e das fotografias logo reveladas na câmara escura do cérebro?
Um olhar interroga um olhar duvida talvez um olhar é coisa de tempo
é a mais funda fala de quem num momento se sente bem
se despede de si mesmo de todos se isola cortante como uma proa na vida
Olhar é talvez como que pensar como sentir como dissimular que se sente
e às vezes dar vida a casas costumes coisas ao vento
ao vento que varre todos os gestos que desenhamos nos dias
é lutar corpo a corpo com corpos provisoriamente opostos ao nada
é uma sala de estar onde os amigos podem entrar de chapéu na cabeça
tuna sala onde a luz levanta a manta de velhas coisas inúteis envoltas em volta
Nos olhos começa às vezes o mar os olhos animam nas coisas o vento
nascem nos olhos as nuvens que arrastam consigo a tristeza para o lado sul
Faustino das neves não é homem de anjos
repele discretamente as mãos coercivas do transcendente
joga tudo na vida volta-se de uma vez para sempre para estes dias
emerge da sombra para os mais leves sintomas do sol
sai das mãos de josefa pra uma tela sombria do século dezassete
abandona na ponta dos pés a igreja da santa casa da misericórdia
pisa na noite as pedras da vila de óbidos
Faustino das neves muda de roupa põe o breviário de lado
actualiza certos aspectos antiquados do seu português
submete-se às leis da fonética embora saiba que há quem negue que sejam leis
responde aos inquéritos linguísticos por correspondência do doutor paiva boleo
enriquece o léxico com nomes de coisas do novo mundo com termos técnicos
com construções colhidas nas páginas de aquilino ribeiro ou guimarães rosa
maneja também para isso os modernos meios audio-visuais
anda a par das novas conquistas do estruturalismo evita os vários suplementos literários
embora tenha ouvido falar de fernando luso soares e alberto ferreira
acompanha mesmo as novas correntes do pensamento
Faustino das neves caminha por óbidos mas é um homem do nosso tempo
sensível aos slogans ao chamamento luminoso das montras
recorre ao crédito contribui irresistivelmente para a inflação
que um governo em guerra prometeu combater não sabe bem como
não tem precisão de emigrar mas intervém nos problemas do nosso tempo
assina o seu nome em listas apresenta-se como intelectual responsável
é até dos homens mais à esquerda do nosso país
pensa talvez promover ortodoxamente em portugal
exactamente a revolução russa de mil novecentos e dezassete
Faustino das neves olha através dos séculos
coloca o pé pisa as pedras as nuvens com elegância
conspira diz mal calcula caminha na vida
O beneficiado não crê na promessa do dia nem na verde alegria
de banhar o rosto num instante na própria fonte
de ver sequer de passagem mais que a sua simples imagem
esse núcleo de luz ardente que agora tenho na minha frente
essa fuga feliz a um mundo onde dia a dia me afundo
talvez a única sombra que a mim me deslumbra
sonhada morada nunca conseguida
sensível e audível e palpável mas inconcebível
desmedido portal onde poderá começar o ignoto mundo do mal
onde uma coisa logo que nomeada é coisa realizada
Josefa foi a submissa foi decerto a pintora mas foi também
doméstica e simples e amiga e mãe
Josefa de óbidos não pinta há muito anda assustada
o seu cliente beneficiado fugiu-lhe ingratamente das mãos
não a respeita não reconhece que só graças a ela chegou até hoje
e a pintora tem o seu nome uma reputação nacional e até
internacional devida talvez a josé augusto frança
começa a recear as consequências de ter criado tal criatura
Josefa de óbidos ficou no seu tempo pintou metafisicamente um olhar
meteu-o na cara de um homem enquadrou esse homem numa classe
ficou descansada tinha a imortalidade assegurada
mas agora até pensa deixar talvez de pintar
Josefa de óbidos noutro país talvez tivesse pintado
essas bolas de sabão que manet continua a soprar até nós de um longínquo verão
como imagem do tempo da vida da terra em breve desaparecida
ou aquele menino togado mas truncado
que jaz no prado irremediavelmente ameaçado
pelo perene fado essa mensagem do passado
transmitida ao presente eternamente
ou aquela dama romana donde intermitentemente mana
o mar de recordar esse insistente soluçar
de quem tem no olhar uma forma garantida de passar
a vida indiferentemente recordada esquecida
mais tarde também josefa se fosse um homem
ou enfim defendesse a liberdade sexual da mulher
talvez decerto com a sua dose de sorte se chamasse goya
assistisse a touradas pusesse saber e sabor em pintar aquele picador
que pica um touro castigado nalgum domingo do século passado
ou se não mais na sua linha um cardeal de goya frio fixo como uma jóia
que um homem depois de ver de boamente consente em morrer
ou as perfeitas santas justa e rufina onde se afina e refina
a mão que por vezes guia a loucura através do pretexto da pintura
Mão que não sentiu a pouco e pouco gastar os dedos do autor a pintar
que pintou noite e dia sem sentir que se desfazia
para para sempre ficar num grupo álacre que a dançar
envolve na roda a distância do requinte e da elegância
de quem num instante ímpar se desenha no ar
para tudo e todos imolar ou pelo menos diminuir
Josefa não pode parar talvez quem saiba consiga pintar
a maja desnuda ou a maja vestida
os velhos vorazes que no comer põem a mais viva forma de morrer
essa romaria de santo isidro onde há gente que deve os olhos de vidro
ao vinho e à mais triste alegria que num madrid há muito passado se construía
ou o cão já meio afogado só salvo depois de pintado
com a raiva de quem assassinasse talvez a própria mãe
ou a si mesmo se houvesse matado ao deixar-se auto-retratado
A pintora de óbidos desconhece a finura o donaire o sorriso dessa figura
helena fourment modelo de rubens uma criatura da terra que até hoje perdura
não viu uma velha de duas igrejas fiar e de fuso na mão para sempre ficar
com o tempo todo na face mãos fechadas sobre a velhice
ou a usurária de ribera mulher que é hoje na tela mais que no tempo era
mulher mumificada na mão levemente destacada
território de rugas talvez onde se intensifica a luz
rosto rijo e rigoroso onde o boletim meteorológico anuncia sempre tempo invernoso
olhos que no campo circunscrito da parecença
distinguem a distância que existe entre quem começa
e quem a vida já vela com um véu de névoa
Josefa pinta como quem pensa ou considera e só assim recupera
esse passado mais que no nome na realidade inexoravelmente passado
por ser a mesma mulher e serem freiras e serem viúvas ou outras quaisquer
ou esse santo por heredia pintado e depois disso irremediavelmente degolado
e não menos que o anterior cão deixado nas águas do tempo afogado
Josefa na arte comprometida passaria o pincel pela vida
pelo baile campestre alegre e triste
onde é visível o vento que apenas dura nesse momento
em que se dança intensamente e alguém vai e vence
com a decisão inabalável das marés do mar o bailarino mais exímio a dançar
casamento campestre conjunto de gestos urbanos num meio agreste
neptuno do olhar velado neste mesmo instante emerso do mar do passado
objecto de gesto jamais talvez ultrapassado apesar do desígnio sempre esboçado
por quem um dia nalguma parte deu o que tinha e não tinha pela arte
Josefa de óbidos assustou-se porém pois podiam dizer a alguém
que pintar implica ao fim e ao cabo ter um pacto com o diabo
pois o diabo vivia nos dias de então vestia a toga da inquisição
e a pintora pensou deixar a pintura com medo da alma e da censura
Não existe decerto censura mas o gesto foi sábio porquanto existe o exame prévio
e se formos a pensar um bocado é realmente perigoso pintar um beneficiado
pois bem vistas as coisas o homem às vezes é vário muda de roupa deixa o breviário
sopram os ventos da história e modificam a forma de toda a matéria
e talvez tenha sido assim que faustino se pôs a pensar josefa que foste tu fazer

(de Toda a Terra, 1976)

17.9.09

VASCO MIRANDA

3


Rios de sombra e ciúme
Cavalgando a antemanhã
E nas esporas de meu canto
Velas de barcos aportando
Velas de todos os ventos
Velas de todos os cais
Velas de todas as lotações
Poeta e navio singrando
Nas ondas submergidas
As moídas canções de regresso
Tatuagens a cobardia e silêncio
Nas gargantas enrouquecidas
De vermes encadernados
Rios de sombra e ciúme
Como de inúteis distâncias
Poeira de ventos apenas
Dispersas mortes errando


(de Invenção da Manhã, 1963)

16.9.09

LARS FORSSELL



Eu queria escrever mas
porque é que se tem de organizar tudo

tão exactamente

As coisas não são tão rigorosas

A estrada do tinteiro à página
é comprida demais e além disso
é preciso segurar a pena de uma
maneira especial como eu fazia quando tinha seis anos e
a língua pousava no — era o canto esquerdo
da boca? e eu aprendi tudo o que
quer que foi
que eu aprendi

Agora aprendi algo diferente

Despejo o tinteiro no papel
Dá uma imagem do que eu quero dizer
Dá uma imagem perfeitamente clara
de tudo o que aprendi

(tradução de Vasco Graça Moura, in 21 Poetas Suecos, Vega, s. d.)

15.9.09

FILINTO ELÍSIO


ODE

Em 23 de Dezembro de 1805, dia dos meus anos

Vate, que mandar quer à eternidade
Seu nome e seus escritos
Talhe os seus pensamentos, talhe as vozes
Pelos moldes de Píndaro.
Imprima na memória que, sentado
Coas Musas, com Horácio,
O vê num tribunal severo, augusto,
Onde condena e risca
Quanto mingua da lírica sublime,
Que em seus cantos ressoa.
Assim moldava Elpino as suas odes,
E com nobre ousadia
Ia ao conclave douto apresentá-las.
De Elpino ao lado, Alfeno
Cantatas e sonetos e altos hinos
Também lá modulava.
Ambos louvor das Musas conseguiam.
Pobre de mim, coitado,
Que nunca irei, coa minha ensossa prosa,
Causticar os ouvidos
Das Musas, nem de Horácio, nem de Píndaro,
Quando mormente a idade
Com mão avara me murchou na mente
Toda a flor, todo o brilho
De ingenhosas ficções, de altivo canto!
Muito há que é já volvido
O tempo em que eu cantei Gama, Albuquerque,
Cantei Delmiras, Márcias,
Com sons que eu escutava à minha Clio,
Essa Clio, que, olhando
Minhas cãs, me deixou ao desemparo,
Para ir folgar mui pronta
Cos alunos, que inspira lá na Elísia.
Traz mágoas mil consigo
A velhice; e não é a menor delas
Quebrantar os impulsos
Com que o génio ao sublime se arremessa.
Hoje mesmo, que esforços
Mais que sobejos fiz por dar um salto
Às margens do Permesso,
Exausto o corpo, os pés enfraquecidos
Negaram obediência.
Fiz promessas a Febo, invoquei Musas;
Contei-lhes que era o ano
Sobreposto ao meu lustro quatorzeno;
Inculquei-lhes, com súplica,
Que dois leais amigos, que Delmira
Em dia tal esperam
Divinos toques de canoro plectro
Que celebrem o assunto.
Inútil foi o esforço, o rogo inútil,
Fiquei aquém das margens
Lastimando meus fados desvalidos.
Apenas lá de um eco
Respirou uma voz fraca e mesquinha,
Com este desconsolo:
— És velho, e um velho só com sons caducos
Desentoa ruins trovas.

(in Poesias, livraria Sá da Costa, 1941)

13.9.09

ALBERTO PIMENTA


jardim zoológico


dum lado da jaula
os que vêem
do outro
os que são vistos

e vice-versa



No dia 31 de Julho de 1977, Alberto Pimenta, cidadão nacional n.º 0727697, esteve exposto entre as 16 e as 18 horas numa jaula do Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico de Lisboa.
Em Abril de 1981, o Rádio-teatro de Estocolmo emitiu uma adaptação radiofónica do acto, da autoria de Margareta Ahlberg. Na sequência disso, Per-Eric Gustavsson repetiu o acto no Zoo de Estocolmo, e o actor espanhol Alberto Vilar encenou-o em vários Jardins Zoológicos.





APÊNDICE

MATERIAIS PARA A ELABORAÇÃO DUM DE PAUS E OUTRO DE COPAS

VOX POPULI

– Ó homem, não te vás, anda pràqui ver.
– Ver o quê? É algum strip-tease?
– Não, parece que vão cantar o fado.
– É para fazer algum exercício.
– Olha, ele aí vem, há espectáculo. Eu vou ver isto.
– Aí vem ele, meu Deus, vamos embora.
– Olha o homem, olha! Que vem a ser isto?
– Se calhar não tem casa. É a primeira vez que vejo isto.
– Aquilo ali é um homem, estás a ver?
– Espera aí que já vai dar. – Dar o quê?
– Ó pá, anda cá ver isto! Aqui o macaco é um homem.
– Ó pá, isto é um festival do caraças. Vamos embora, que isto é para nos tramar.
– Já me estão a lixar, o gajo está ali a fazer a caricatura da malta.
– Tem cara de parvo, deve ser anormal.
– Tem um tipo esquisito.
– Se calhar é tarado sexual. – Não, ele é racional. – Mas não fala.
– Vamos mas é embora daqui.
– Ele é português? – Deve ser estrangeiro.
– Ele que ali está, é porque alguma fez.
– Ai que impressão isto faz, na quarta-feira ainda não estava cá nada.
– Ainda há bocado cá passei e quem estava era o gorila.
– Não percebo o que ele quer! Que é que quer dizer «homo sapiens»?
– Então, é uma espécie de macaco. É um animal como os outros.
– Pois, ele parece um homem em tudo... está vestido.
– Então havia de estar nu? – Sei lá!
– É um reclame qualquer, é só um reclame.
– É um homem, mas deve ser uma espécie rara.
– Isto não havia antes. São estes tempos, anda tudo maluco.
– Eu tenho a impressão que é um homem normal.
– Não, normal não pode ser, senão não estava ali. É maluco, anda à solta.
– Ou tarado sexual.
– Ora, isto é tudo preparado.
– Ele que está ali tem que ter um significado.
– Então, é uma ideia nova.
– Quem vai reagir mal são os católicos: isto quer dizer que o homem descende do macaco.
– O raio do homem é muito habilitado a estas coisas, mas não há-de ser mais nada.
– Que horror isto!
– O aspecto dele é que me confunde. Se tivesse ar andrajoso, ainda estava bem. Mas assim...
– Já há portugueses enjaulados? Já não servem as cadeias?
– Ele não é português.
– Isto deve ter um mistério qualquer.
– Devem-lhe ter pago, ou então gosta. – Está ali, está a ganhar bem.
– Na minha, ele fez alguma coisa.
– Se ele fala, por que é que não diz por que é que está ali?
– Então, a gente diverte-se a olhar para ele, e ele diverte-se a olhar para a gente.
– Como é que é permitido isto é que a gente não percebe.
– É uma vergonha para o país.
– Ele é estrangeiro.
– Por que é que não fax isto na terra dele?
– Ele está a olhar para nós com aquele olhar fixo...
– Os macacos às vezes também é assim.
– Está ali um senhor dentro da jaula. O que é, paizinho?
– Não sei, filho, não sei. Não gosto de ver isto, meu Deus, vamos embora.
– Será parvo? Aquilo é lugar para um homem?
– Se calhar é para ver a reacção do público.
– Não, ele não sabe fazer nada, tem aquele ar imóvel.
– Fez alguma coisa má, e prenderam-no ali.
– A vergonha é para os outros, é para nós. – Sim, que é que a gente está aqui parado a fazer? Homens não faltam, não é preciso vir cá vê-lo.
– Pois é, mas os que estão presos, a gente não vê.
– Se calhar é isso que ele quer dizer.
– Isto é muito raro num jardim zoológico.
– É preciso ser chanfrado.
– É preciso é ter uma coragem do caraças.
– Então, não somos também animais?
– É o homem-macaco. Caçaram-no por lá na selva.
– Eu já ouvi falar. – É, é conhecido. – É o homem sapiens, é o homem da selva.
– E ele faz ali as necessidades?
– Isso acho que não. Ainda não se viu.
– Olha, filho, olha um mono igual a ti.
– Está o macaco, está o homem.
– É gente parva. Que espectáculo!
– Olha, uma coisa que eu não esperava. Já viste?
– Isto é novo aqui.
– Ai que rico espectáculo, um homem na jaula. E de borla. Ai que macacão!
– Eu até gosto de ver isto. Deviam era estar lá mais como ele.
– Que escândalo, meu Deus! Se o pusessem noutro sítio, ao pé das aves, ainda vá, mas aqui ao pé dos macacos!
– Então a polícia já não serve para estas coisas? Que é que ele está a fazer lá dentro?
– Ele não tem medo de estar ali? – Por que é que havia de ter?
– Vocês vão andando, eu fico; quero ver o que isto dá até ao fim.
– É o homem da nossa época.
– Não se entende!
– Aquilo é qualquer coisa.
– É o mundo em que vivemos.
– Faz impressão.
etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc

(de IV de Ouros, Fenda edições, 1992 – foto de Jacques Minassian)

12.9.09

JOEL HENRIQUES

PASSOS


Os passos despertam o ser desconhecido
no fim da procura.

Se alguém me levasse
sobre a terra sem descanso,
talvez pouco descobrisse.
A viagem continuaria insaciável.

Repito os passos sem limite
para que a linguagem me pertença

Só assim encontrarei a claridade
no instante vivo da aurora.

(de A Claridade, editora Casa do Sul, 2008)

11.9.09

Um poema a propósito e com a devida temperatura seniana:

Trasladação dos Ossos de Jorge de Sena,

inédito de Amadeu Baptista,

a ler no Porosidade etérea

[Em face dos últimos acontecimentos]

JORGE DE SENA

[JORGE DE SENA] DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

(de Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena, 1963 - a alteração do título é da minha responsabilidade)


MÉCIA DE SENA

(excerto de) Alguns «Flashes»

(...) No dia em que o Jorge chegava com o ordenado eu fazia montinhos do dinheiro para os pagamentos mais urgentes, contava e recontava, para concluir sempre que. nem sequer chegava para pagar tudo, quanto mais para sobreviver trinta dias!
A primeira vez que tive com que viver até o mês acabar foi em Junho de 1978. Essa tranquilidade minha a pagaste com a tua vida. Preferia passar fome.

(in As Escadas não têm Degraus 1, livros Cotovia, Janeiro de 1989)

[a imagem foi reproduzida a partir da capa de Sobre Cinema, concebida graficamente por Luís Miguel Castro, numa edição da Cinemateca Portuguesa de 1988]

10.9.09

RUY CINATTI

A MARGEM DO PÂNTANO


Para Jorge de Sena

Tudo me dói como se fora medo
ou ânsia de ficar aquém da morte
brincando na ilusão de estar vivendo
medos perdidos, pélagos selados.
Sonhos não chegam para tamanha sorte
ou chegam, mas são fúria lá no centro
de um mundo onde não vivo, iluminado
por mão intemerata já sem norte.
Acaso quebro lages, desço fundo,
laços desfaço de invisível corda.
Ao centro que me foge e que não quero
logo deslizo como quem se avilta
no lixo temporal muro fechado.
Enquanto o dia não chega a febre aumenta.
Vozes insistem pela madrugada.
Lanço de mim o grito inesperado:
eu vivo, sou, e sonho, ou desespero!
realidade és medo, a dor é nada!

(de Conversa de Rotina, 1973)

9.9.09

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL

IX.9
FILIORUMQUE


Eles cantam e tocam nas suas violas
Eles rasgam os seus corações
Não os seus vestidos
Como disse o Senhor ao seu Profeta
Que fizessem e o lembram
Aos cristãos na Quarta de Cinzas...

Nós seguimos inanes caranguejolas
Disfarçando muito bem os tropeções
Com o falso cismar dos distraídos
E fumaça de falsas mofetas
E falso lembrar de se quebrarem
P'ra sempre as urnas doutras cinzas
Pó dos tempos a esconder-me o tempo.

Eles cantam e tocam as suas violas...
Rasgai os corações e não vossos vestidos
Disse o Profeta do Senhor. . .
Eles não tocam para os já vencidos
Eles não cantam para os sem-amor.

Tanto quanto os há na terra, deuses é que eles são…
Tocam e cantam e assim vão criando
Mundos que não são nada ilusões
Mundos em que o som outros sons cria
Em que essa união constante
É a ponte única que liga
Aqui e o lugar distante
Onde pode ser que ainda exista

O que me fez escrever sem que razão
Aparente p'ra fazê-lo subsista...
Bem sei que não são versos para ouvidos finos
Bem sei; mas eu, sinceramente, meus meninos,
Não creio que o sejam — finos os ouvidos, quero eu dizer… –
Pois se o fossem
Era p'ra eles que serviam estes versos. . .

8/9.2.67

(de Enéadas – 9 Novenas, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1989 – Biblioteca de Autores Portugueses)

8.9.09

HERBERTO HELDER

TEORIA SENTADA



I

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a humidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.

O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o álcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.

Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo
da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.

Alguém se debruça para gritar e ouvir em meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim — a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.

Alguém se procura dentro de meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.

Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.

(de Lugar, 1962, in Ofício Cantante – poesia completa, Assírio & Alvim, 2009 – documenta poetica)

7.9.09


ANTÓNIO CUNHA RIBEIRO

Nasceu em 1957 em Angra do Heroísmo. No seu primeiro livro, escrito aos 13 anos, Emanuel Félix interpela-o com estas palavras:
«Há gente tranquila. Há gente sossegada. Há gente tranquilamente sossegada. E um rapaz com um búzio pode quebrar a espessura da sua noite ou espantar o medo da sua vigília.
Ora acontece que tu, aos treze anos, és o rapaz com um búzio. E o búzio a figuração da poesia. Forma, significado, melodia. A receita do poema.»

Foi jornalista na Reuters e colaborou nos jornais Le Monde, Le Figaro e Daily Telegraph, além de outros órgãos de comunicação nacionais e regionais dos Açores. Foi também funcionário político da OLP (Organização para a Libertação da Palestina).
Além dos aqui referidos, publicou ainda, em 1985, Raiz Renovada, em edição da Câmara Municipal do Montijo. De entre os seus inéditos, encontram-se traduções de poemas de autores árabes contemporâneos.
Morreu em 1994.



PREFÁCIO

O poeta consome a dor
da desigualdade
nas palavras

O poeta desperta os outros
da fome calada

O poeta sente pelos outros
por eles vive
e fala


NOITE CERRADA

Ainda é noite
cerrada.

Agitam-se os braços
em vagarosos gestos de saudade
do dia que nunca virá.

Fantasmas espreitam
por entre as árvores
impedindo a nossa evasão.

De longe chegam gritos abafados
pelo rumorejar
da vegetação.

Uma única esperança nos resta,
camarada:
que o fogo nos ilumine
para que não nos percamos
na floresta.

E um desejo:
de que o dia claro
seja em breve
uma realidade.

(de Rapaz com um Búzio, Edição do Autor, 1971 – Colecção Gávea/Glacial)


Ritual

Provavelmente nunca iremos ver-nos, tocar a face um do outro, fecundar os lençóis brancos de uma cama. Mas se puder prefiro encontrar-te à saída cansada da usina, na tasca ou na rua. Aí melhor enfrentaremos o Sol e o Sal.
O sonho é o meu lugar e escrevo para que existas. Pelo caminho da escrita sofro longos orgasmos, e sei que tu também, qualquer que seja o teu rosto e o teu sonho. Qualquer que seja o teu caminho.
Por vezes cansa-me o halo dos mortais. É a distância que nos faz irmãos. Da mesma partida ao retorno, a mesma viagem de que nada fica. No fim foi só a vertigem, e só a vertigem nos acompanha.


Canto animal

Deixem o poema ser homem
e poisar na carne do homem

Deixem o poema ter saliva e ter medo
e sangue e braços que abracem
longamente em cada gesto cada gesto
o gesto do animal cio

até à exaustão que branca se derrama
e no branco se tinge de vida

o sal o musgo a fímbria dos corpos
que um no outro se completam


Bilhete para Tawfik az’Zayyad

Todas as celas fechadas
todos os pulsos sangrando urgência

Talvez amanhã
rasgaremos a pedra da noite
Talvez

(de Esta palavra escrita, Signo, 1985 - colecção Palco no Vento)


O SANGUE

Escrevo estes versos de grãos de terra na mão: eis a prova.
Tenho a certeza dos passos. Todos temos. Só no mais diferimos.
Era uma longa subida. Era a certeza
da nossa própria emigração. A mais bela,
a mais funda companhia. A perfeita igualdade do transporte
foi amassada em três quedas. Um braço, outro braço, um corpo
e a longa subida.

E agora: a tua pele
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos
e no côncavo das mãos o sol nascia.

(inédito, gentilmente cedido por Luísa Ribeiro, irmã do Autor)
LUÍSA RIBEIRO

A memória é a gaveta com as palavras eternizadas.

O incêndio alastra-se nas veias
seduz o esmagado sol das manhãs
e purifica as ideias.
Gosto dele
como do veludo e da cor dos pêssegos.
Ele fecha a porta
e desce as escadas da rua
com a lentidão sorridente da volúpia.
Fala-me num tom severo que me inutiliza…

Uma noite contou-me os poemas da mãe
e prendeu-me aí.

(À beira-mar em recanto de festa, gostei de te escutar)


(de Fogo Branco, Direcção Regional dos Assuntos Culturais / Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1986 – Colecção Gaivota)

6.9.09

GRAÇA PIRES


Todos me falam de ti
com palavras ambíguas.
Fui, eu sei, uma suspeita
de luz em teu olhar.
Virados a levante,
os meus cabelos
eram labaredas em teus dedos.
Na hora do combate
me nomeavas,
como se rezasses.
Pinto-a na minha imaginação
como a desejo, tanto na beleza
como na nobreza
, disseste.
E vejo a minha expressão
na cor dos teus olhos.
Tão cúmplice, eu,
de tamanho assombro.

(de Uma extensa mancha de sonhos, editora Labirinto, 2008)

5.9.09

LUÍS BRITO PEDROSO

MANHÃ


Caminho pelo granito de mil cidades e pergunto-me:
será que a manhã acabou?
Durante a manhã não importa em que cidade estamos.
Apenas aquela que vemos

Durante a manhã não sabemos sequer que existimos
Vivemos uma extensão do sonho
do sono
Mas parece que a manhã está a findar

Ao pisar essa pedra pensei:
preciso de um lugar onde me possa esconder do fim
da manhã
Onde não possa ser detectado pelo meio-dia
e tudo o resto demore mais a chegar

Espero pela noite mas vou visitando a madrugada.

(de O Meu Nome e a Noite, Papiro editora, 2007)

4.9.09

ISABEL FRAGA

O LAGO


Os remos afundaram-se
No olhar do lago

Levando ao longo
Das raízes líquidas
O peito estreito e fundo
Onde cabíamos

Perdi o tempo
 beira da consciência
Onde fiquei
Rocha, frágil, areia
Tocando aquele olhar
Doído e claro
Que o sol tornava
O espaço
De todos os sons

Por muitos meses
Busquei os pássaros
E os peixes

Para reconhecer
Um pouco de alma
Na imagem fria
E alongada
Que bebiam

Quando por vezes
No corpo
Do céu líquido
Se olhavam estranhos
Parecendo conhecer-se.

(de Face, Gota de Água / Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984 – colecção Plural)

3.9.09

VICENTE ALEIXANDRE

O MAR LIGEIRO


O mar fustiga asperamente o ruído das botas
que passam sem receio de pisar os rostos
daqueles que ao beijarem-se sobre a areia lisa
tomam a forma de conchas bivalves.

O mar rebenta sozinho como um espelho,
como uma ilusão de ar,
esse cristal a prumo onde a secura do deserto
finge uma água ou um rumor de espadas perseguindo-se.

O mar, encerrado num cubo,
desencadeia a sua fúria ou uma gota prisioneira,
coração cujos bordos inundariam o mundo
e que só podem estancar-se com um sorriso ou um limite.

O mar palpita como a flor do cardo,
como essa facilidade de voar aos céus,
aérea ligeireza do que a nada se prende,
leve arfar dum peito juvenil apenas.

O mar ou enfeitiçada pluma,
ou pluma desatada,
ou gracioso descuido,
o mar ou pé veloz
que encerra o abismo e foge de corpo ligeiro.

O mar ou palmas frescas,
as que gostosamente se deixam nas mãos das virgens,
as que repousam nos peitos esquecidos das profundidades,
deliciosa superfície que um suave vento faz ondular

O mar ou talvez o cabelo,
o adorno,
o derradeiro toucado,
a flor que balança numa fita azulada,
da qual, se se desata, voará como pólen.

(de A Destruição ou o Amor, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1977 – poesia século XX)

2.9.09

EGITO GONÇALVES

Que resgato com o poema?

Que amálgama de sóis, sangue,
domínio de cinzas recupero?

Que aniquilo com o poema?

Que sobe em mim ao grito da distância,
ao apelo telefónico dum estribilho,
à gasta, espira dum disco de adeleiro?
Que compro com o poema?

A força de enfrentar a solidão
que ignorava? O desfrute
de abandonar o abismo que me extraiu
o sumo?

Que poema cavalgo?,
ou sento-me no chão?

(de O Fósforo na Palha, publicações Dom Quixote, 1970 – cadernos de poesia)

1.9.09

THOM GUNN

Sempre ao Redor


O mundo do faroleiro é redondo,
os seus haveres erguendo-se num círculo
— Lá dentro tudo o que o homem pode desejar,
Uma mulher, um rádio, pão, geleia, sabão;
Porém, aos poucos a sua esperança fatigada
Irrompe para viver sobre o som
Que as ondas rodopiando fazem ao rebentar
À custa do seu próprio esforço
— O mundo do faroleiro é redondo.

Interroga-se, subindo a escada em caracol
para dirigir a lanterna que ilumina os barcos,
Por que razão aquilo que sempre foi dele se ergue
Com o rosto voltado para o centro;
Dos livros, amontoados nas mesas, aprendeu
Que os mundos do litoral são também redondos, não quadrados,
Mas lá as coisas dançam com os rostos voltados
Para o exterior rostos de medo e dúvida?
Interroga-se, subindo a escada em caracol.

Quando há acalmia, são seguros os rochedos
Para fazer um pouco de exercício,
Mas tudo o que faz é fixar os seus olhos
Sobre aquele totem enorme de onde saiu
E onde os pensamentos dançam em redor do que não mudará
— O seu secreto e silencioso desgosto.
As ondas não têm sol, mas são apanhadas pelos raios
Ao rolarem mais abaixo dos seus pés, perverso sal,
Quando, numa acalmia, são seguros os rochedos.

(in Destruição do Nada e outros poemas, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Relógio d’Água, 1993)

31.8.09

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

JORGE DE SENA E A RÁDIO MACAU


1.

Devagar, registando como tão facilmente poderia
esquecê-lo, fugiu de quê? Não sabe, ou não quer
responder? Favorecido pelo estrondo nocturno
das trovoadas e por urna língua que desconhece,
a sorrir manso, como se quisesse entender.

Foi a sua prática semanal e como se desembaraçou
da leitura! Outros se exilaram por razões
sérias e para cidades menos levianas, sem
preencher formulários e com dietas estreitas.
Renegou de vícios pequenos, supondo atingir a evidência

– uma configuração de alma sem acidentes,
uma vontade como terra de sequeiro e a memória
um filme mudo: poupando o álcool dos nervos,
que a procissão do tempo lhe fosse sendo escrita.

2.

Pudesse surgir da música um sopro deserto
e um destino imprevidente, náufrago que se obstina
em regressar do fundo até se agarrar a um destroço,
segue à deriva, repetindo trambolhões e quedas:
quem se condoeu dessa carta, quem esmolou

medida e regra? Por mais que o pão fosse
de trigo e a mesa trôpega, poderia recordar
quem lhe curou a sede, desprezar quem lhe compôs
cama de giesta? Alguém teria sempre melhor
razão do que a que tinha, ou maior queixa?

Uma história que ignorou auspícios, as dores
pequeninas de quem ficou em terra, por ter pontual
o relógio dos intestinos e a estrela dos navios
e a morada, como qualquer outra, incerta.

(de Mais Tarde, Assírio & Alvim, 2003)

30.8.09

PAUL ÉLUARD

GRITAR


Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam
Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhe destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito

Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco

(in Algumas das palavras, tradução de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, 2ª ed.: publicações Dom Quixote, 1977 – poesia século XX)

29.8.09

RICARDO ÁLVARO

II


Porque estes dedos lambidos na escuridão escrevem o teu nome quando procuro entender a pureza do pão e do barro sobre a mesa, os talheres junto ao sangue, o peso do ar nos pulmões ou o movimento da língua na língua. Estás ao centro, demorada nas minhas noites como o batimento da água interior nas entranhas. Escrevo-te toda, dos filamentos das lâmpadas ao leite morno da manhã. E esta é a obra secreta de quem decifra as profundas raízes do coração, com os joelhos na terra e as mãos na cabeça. E em volta o amor debruçado sobre os pulsos, a entrelaçar o obscuro pavio de uma vida.

(de O Espantador, Apenas livros, 2009 – literatralhas Nobelizáveis)

23.8.09

EDUÍNO DE JESUS

REGRESSO ETERNO


Outra vez o grito
da minha antiguidade:
e eu mesmo repetido
outra vez marinheiro.

Outra vez o grito
da esperança renascida,
e eu mesmo repetido
outra vez afogado.

Outra vez o grito
dos teus olhos esperando o meu regresso:
e eu mesmo repetido
outra vez o mar dando à costa o meu corpo roído dos peixes.

1952


(de O Rei Lua, 1955; in Os Silos do Silêncio – Poesia (1948-2004), Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005 – Biblioteca de Autores Portugueses)

21.8.09

(Oceano Atlântico, ao largo da Ilha Terceira - Agosto de 2009)


JUAN RAMÓN JIMENEZ

DIA ENTRE OS AÇORES

9 da manhã.

O Sol, que se acende, lento, em branca luz, ao apurarem-se as nuvens de água, ilumina de prata verde o azul do mar de chumbo carminoso. Gotas doces de chuvisco varrido e gotas amargas de onda assaltadora chegam-nos confundidas aos lábios e aos olhos. Vamos para o Verão, afundados até às orelhas nas peles de Dezembro.

1 da tarde.

MAR SÓLIDO

Está o mar de pedra, e as ondas baralham-se como cartas ou lascas de ardósia. Aqui e acolá, indefinidas malaquites de imponderáveis verdes, profundos e finos mármores negros que desceram, em escadarias magnetizadas, ao mistério. Em súbitas aparências volúveis, sobre a crista das mudáveis e minúsculas cordilheiras de ondas, remoinhos de gesso. Parece que é pó a brisa. A boca e a alma têm sedes.

2 da tarde.

Ao subirmos da sala de jantar, não há mar. Todos, sem o ver, continuam crendo-o ali. Mas não está. Não, não há mar. O sol contagia toda a atmosfera chuviscosa, e tudo é só luz branca, suave, velada. Na unânime claridade, breves sangues derramados por feridas de alvor, leves grinaldas vivas — de quê? — não sei se pela água se pelo céu.

5 da tarde.

ADEUS!

Que distante já a triste cova chorosa, de que acabámos de sair agora mesmo, dos «Açores da chuva permanente»! Saudação alegre da aberta tarde de sol! O mar, prússia outra vez, está como talhado em infinitos planos de escuras cores luminosas, que se complicam em cambiantes inumeráveis, como se cada onda tivera um parto perpétuo de ondinhas. Claridades de nuvens afogueadas deslumbram-no sem repouso, e nas espumas de cada onda desfeita um arco-íris eleva a sua lira de cores. — Assim as Musas celebrando o Génio «mensageiro de luz» de Puvis de Chavannes, femininas ondas brancas de um mar ideal. — O céu é hoje maior que o mundo, e parece que a sua glória desceu ao ocaso, que está aí perto, entre os seus jardins aquáticos. A última ilha, quase de música, suma da ilusão, sai, como uma proa de luz cristalizada, de entre as nuvens baixas, que a abraçam, que a colgam, que a coroam imensamente, na desproporção mágica — pobres de nós! — da sua magnificência apoteótica!

6 da tarde.

A ILHA TRANSFIGURADA

Malva, de ouro e vaga — tal qual um grande barco revirado no mar concentrado e azul-ultramarino —, num ocaso amarelo que ornam mágicas nuvens incolores, gritos complicados de luz, a «Ilha dos Mortos», de Bocklin. Mas os ciprestes estão ardendo esta tarde e os mortos estão ressuscitando. Ouro, fogo, purificação. O mar soa a César Franck.

7 ½ da da tarde.

Transfigurada já e ardida, entre o Sol do ocaso e o seu longo derramamento no mar azul, como uma brasa viva que se apaga rubra, malva e cor-de-cinza — negra em sítios, carvão que permanece — a «Ilha — Adeus, adeus, adeus! — do Juízo Final».

(tradução de Pedro da Silveira, in Mesa de Amigos – versões de poesia, Direcção Regional dos Assuntos Culturais / Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1986 – Colecção Gaivota)

20.8.09

J. H. BORGES MARTINS

escrito no jardim da cidade


senhor que escreveste
em sânscrito no jardim das amendoeiras

que puseste os cegos a ver as maravilhas
da tua criação

e fizeste os coxos andar
pelas ruas desertas de jerusalém

vem visitar os cabarés do ocidente
e ver o pesadelo dos mortos nos rituais
do sétimo dia.

ensina os animais a falar e a sorrir
distante da solidão dos espelhos.

vem apreciar os jogadores triviais
das bolsas de nova iorque e de tóquio

todos querem ver a tua arte de falar
e curar os sifilíticos e impuros

não deixes___senhor___o perfil caótico
das imagens escapar à denúncia
consciente dos olhos.

(de nas barbas de deus, edições Salamandra, 1999 – Colecção Garajau)

19.8.09

(Furna do Enxofre, Ilha Terceira - Agosto de 2009)


JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

A FURNA DO ENXOFRE


A primeira coisa que se conhece é uma longa
escadaria que leva à espessura, a um velório
de vegetação sombria. Ergue-se por entre a
rocha que ladeia os degraus, até ao momento
em que mergulha na golpeada ressonância da
caverna. Não há corpos projectados pelo
fogo, apenas o enxofre se consome e a furna
se transforma num pequeno altar de lama que
sustenta extrema temperatura. Ninguém nomeia
a asa de um morcego e o rasgão de luz
desce a altíssima gruta para que possamos
atribuir uma forma aos objectos reais: a
laguna onde o pequeno barco aguarda a voz da
sombra que se desdobra em múltiplos ecos:
fantasmas, coisas vãs que ficaram fora do
coração da ilha: no líquido exílio, sob a
ilha, está um campo subterrado, bolsa imensa
que sustém a própria ilha: e os olhos vindos
das trevas regressam à plácida luz, como
quem ressuscita, numa súplica, a tristeza das
_______________________coisas.

(de Bellis Azorica, Relógio d’Água editores, 1999)

18.8.09

CARLOS BESSA

o desemprego à janela numa ilha


Um silêncio d'alma nós à janela
Uma janela sobre Angra
Com o seu casario maioritariamente branco.
À janela o território, pão e vigilância
Advém moldura onde se fecha a memória
Com a luz coada de uma folhagem que
Até ao mar cai em íngremes socalcos.
Uma espuma negra e industrial
De restos e contentores
Cheios de gatos vagarosos e cães que rangem
Ao sol, ao tanto sol do pátio da alfândega
Onde, com o salário por um fio
Andam homens e mulheres à deriva
Enquanto nós, sopa pão sumo de laranja
Sorrimos, sorrimos.

(de Em Trânsito, &etc, 2003)
ANA PAULA INÁCIO

transporto material muito fino
vidro assoprado
por ares assassinos
vitrais doloridos
no ventre macerado
de Santa Bárbara
como um trovão

o amor alongado
por malhas largas
onde erramos a pescaria
e encontramos os corpos
dos nossos próprios pés
atados por limos


(da As vinhas de meu pai, Quasi edições, 2000 - biblioteca "uma existência de papel")



(imagem obtida através do Google Earth)



17.8.09

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

[excerto inicial de] «DAS VIDAS, MORTES DURAS»

O vapor em que Camilo Pessanha seguia para Macau — e por razões que para ele próprio ficaram completamente secretas — teve de parar durante alguns dias no porto de Angra. Falou-se de uma improvável avaria demorada, depois de alguns dias de tempestade, o que não parecia fazer sentido algum. Havia, contudo, maus ventos e o próprio ancoradouro agitava excessivamente o navio. Pessanha resolveu procurar alojamento na ilha, de tal modo lhe era insuportável o quotidiano a bordo, mas foi impossível encontrar sequer um quarto na cidade. Apenas na Praia da Vitória a viúva de um juiz lhe cedeu onde ficar, devido ao súbito acaso da descoberta de o professor de Macau ter sido colega de seu marido em Coimbra.
Camilo Pessanha levou consigo uma pequena mala de couro já muito gasto. O imediato, um holandês de Utrecht chamado Langendorff que também se interessava pela dinastia Ming, avisá-lo-ia de véspera, pois precisava de meio-dia para regressar, embora se sentisse no sorriso alheado do professor que lhe seria indiferente continuar a viagem ou perdê-la. A casa ficava numa zona abrigada da vila e, na noite em que chegou, ouviu ondas dobrarem para lá de um morro.
Na manhã seguinte, a viúva tinha já partido para a missa e a mesa, numa pequena sala perto da cozinha, tinha leite e pão. Uma criada baixinha perguntou-lhe se queria chá, por certo incomodada pelos escarros que juntava num largo lenço já bastante sujo. Uma bola, quase lhe parecera de trapo, bateu na vidraça. Um rapazote saltava do pátio de uma casa com muitas varandas de madeira. "É o menino Vitorino, anda sempre com livros e não tem modos de crescer As tias não têm mão nele, mas devem gostar assim. O senhor quer mais leite?"
A limpeza da casa e o vazio das paredes sem qualquer sentido de acumulação acentuavam-lhe o tédio. Os seus olhos mortos viam no lambril da sala o primeiro sol. Essa hora de luz acordava-lhe nos braços um torpor onde nenhum elixir triunfava da ausência do outro corpo caído, muito longe, sobre qualquer chão nu. Fechava os punhos indecisos entre o guardanapo e os talheres, o pescoço metido nos ombros, os pés como que suspensos do soalho, os olhos vesgos e de cor diferente, abraçado pela memória, pela despedida, pela desrazão.
Diante da janela uma liliácea, sorriu. Uma pseudo-árvore, o dragoeiro, inclinava os seus galhos inúmeros à pressão de antiquíssimos vento. Sangue de drago, ocorreu a Pessanha. A goma tinturial toldou-lhe uma gargalhada, mas enterneceu-o pensar que nos seus dias, o que fora um produto capaz de servir a imaginação da cor não passava de um decorativo elemento de jardim. Os fundos que foram líquidos ferventes, que depois formaram a manta de pedra viva dos polmes, dobravam-se agora na placidez que esquece os cataclismos, como dentro de si os olhos esqueciam enquanto olhava o canto vegetal. A frágil agitação das gingkobilobas, essas árvores ternas onde os raios de ventos e sol soçobram, ligava-o ao mundo dos seres extintos, mas ainda absurdamente sobrevivos.
[...]

(in Do Corvo a Santa Maria, com fotografias de José Sousa Gomes, Relógio D'Água editores, 1993)