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31.5.06

[quarta-feira, da Alegria]

NATÉRCIA FREIRE

TERRA


Da Verde rua parada
Ao verde campo das sombras
Vai pouco mais do que nada.

Vai uma lua redonda
Vai o silêncio da estrada.

Vai um perfume sem nome
De raízes e de terra
Da terra que é fome e come.

Do meu corpo sob a lua
Ao teu leito sob o vento
Vai um quadrante de amor
Sonolento...

Terra, terra que me queres...
Como os homens à mulheres...

(de A Segunda Imagem, 1969)

1.2.06

[com a força da Alegria]

NATÉRCIA FREIRE

PRIMAVERA DE JANEIRO


A Primavera anda longe,
mas eu a sinto nos dedos
da noite que se aproxima:
murmúrio de olivais
e a relva verde-fresca;
sol retardado, a pôr-se, embrulhado em mistério;
rumor de agua a correr, na Terra gigantesca.

E eu tão pequena, tão solitária, tão imensa,
no silêncio acordado desta casa da estrada!
Eu a perder-me nas adivinhações do Mundo;
a esconder-me entre os troncos tristes das oliveiras;
a debruçar-me no espelho das correntes
que irão banhar, talvez, os continentes
do meu exílio, em pátrias prisioneiras...

Ninguém me fale de beleza na Primavera!
É no Inverno que ela sempre me chega,
a erguer nos meus olhos a visão de bosques azuis...

Eu podia ser cega,
eu podia não ter tido nunca mocidade,
eu podia ignorar o cântico dos pássaros
nas madrugadas felizes,
que, ao avistar no espaço a Primavera,
quando todos os sonhos dormem,
e todas as mulheres são virgens,
e todos os homens são imaculados,
quando os doentes têm medo de morrer,
quando o ranger dos velhos carros,
nos caminhos da quinta, me ressuscita a infância,
a saudade da Primavera que há-de vir
e que, depois da chegada, nunca será aquela que sonhei,
cola-me na vidraça esta fronte sem estrelas,
- tão pequena, tão só, como podia eu tê-las?
Ergue-me o peito vasto,
desnuda-me sem luta...

Eu não escuto o silêncio,
e já ninguém me escuta.
Ao fundo, a Primavera
- que atónita ela vinha! -,
acenou-me de manso
na tardinha...

Mas fugiu da mulher
com olhos de adivinha...

(de Anel de Sete Pedras, 1952)

24.6.05

NATÉRCIA FREIRE

FANTASMAS

Mesmo que vós me toqueis,
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos do vento...

Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barco sem rumo,
e ouvidos nos temporais.

Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.

Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há-de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.

Tudo em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
É que o aço nos irmana.

Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato,
no movimento sem acto
que o destino me destina.

(de Poemas, 1957)

24.1.05

NATÉRCIA FREIRE

O ÚLTIMO DIA


Haverá penas, lágrimas, adeuses
no sótão velho da abafada Lua.
Para os ouvidos lentos dos malteses
um realejo tocará na rua.

Sob o capricho em onda, do Milagre,
fulge o Anjo de cílios descaídos.
Das mãos lhe escorre um rio cor de almagre
que inunda a Lua de astros pervertidos.

Qual um quadro já baço, de cem anos,
a luz do gás desenha, mansa e triste,
uma orquestra de tímidos ciganos,
para a canção do amor que não existe.

(À janela da Lua, debruçados,
são os maltese puros e alados.)

Ressoa em lume, a velha carruagem,
pela calçada que conduz à vida.
Os maltese suspeitam da viagem;
mas têm a mão suapensa e distraída.

Quando o último dia começar
no sótão velho da abafada Lua,
haverá penas, lágrimas, adeuses,
e para os ouvidos lentos dos malteses
um realejo tocará na rua.

(de Poemas, 1957)

19.5.04

NATÉRCIA FREIRE

OS SUSPEITOS


Quem descobrir alguém
suspeito de ser cristão
informe a autoridade
O Massacre de Shimabara em 1638


Quem suspeitar do amor
Com filiformes sedas
E veias incorruptas
E prolongadas fontes
Quem suspeitar da luz
Na doce obscuridade
Informe a autoridade.

Quem suspeitar da fome
À mesa reluzente.
Quem suspeitar da Cruz
Entre a família ausente
Quem suspeitar da sede
Por dentro da amizade
Informe a autoridade.

Quem suspeitar que há laços
De bíblicas imagens.
Lázaro ao nosso lado.
Novas ressurreições.
E Cristo no pecado
E romanas miragens

Nos circos, nos algozes,
Coroados de louros.

Quem suspeitar da esperança,
No átrio da memória
Da imensa liberdade
Que o suicídio evade,
Informe a autoridade.

E o mais suspeito vem
Bater à noite morta.
Traz nos dedos de garras
Sangrando, um coração.
Gota, a gota, nos lábios
O futuro da Vida
Canta no espaço humano
A enorme transfusão.
Na eterna leucemia
Do renovado dia
Apavora o suspeito
A paz do hospital.

Branco, branco o elemento
Que embala o pensamento.
- Mas sonho sonolento.
Mas subtil caridade -
Ao vampiro do Tempo
Impõe a edilidade
Que o conselho dos velhos
Informe a autoridade...

A multidão das sombras
As hostes das visões
Computadores cruéis
Mais os homens robots
Instalaram nos lares
Ouvidos e espiões.
Em corações de corda
Em frios corações
Deitaram a paixão.
- Trituraram as paixões.

Mas o massacre aguarda
As ordens implacáveis.

Quem suspeitar do amor
Em filiformes sedas.
Quem suspeitar da sede
Por dentro da amizade.
Quem suspeitar da esperança
No átrio da memória,
Da imensa liberdade
Que o suicídio evade.

Quem suspeitar de Cristo
Em sóis quotidianos
No peito lacerado
Aberto ao companheiro,
E quem quiser dizer
O que dizer não há-de,
Avise a autoridade

(de Os Intrusos, 1971)