30.12.10

FERNANDO LEMOS


Ambições
não tenho
mas alguém corre sòzinho
nos meus sonhos

amargo medíocre
esta mensagem
torpedos
que alcanço
garantias não tenho
mas alguém
se encontra sòzinho
nos meus sonhos

e é tudo


(de Teclado Universal e outros poemas, 1953; in Cá & Lá, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985 - Biblioteca de Autores Portugueses)

27.12.10

GRAÇA MORAIS

A Festa da Abundância I, 2005(?)
120x160 cm
Carvão e pastel sobre papel
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés

A Festa da Abundância II, 2005(?)
Carvão e pastel sobre papel
160x120 cm
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés



RUI ALMEIDA


A Festa da Abundância (díptico de Graça Morais)


[cf. Mt 6, 26 e Lc 12, 24]

Olhai as gaivotas que se alimentam
Dos restos da fast-food e dos detritos,
Olhai-as na sua avidez,
Apartando-se umas às outras,
Ferindo-se entre si,
Para acumular mais do que podem conter
Em seus escassos corpos.

E contudo,
Não ocupam altos cargos
Em conselhos de administração
Ou direcções partidárias,
Nem traficam influências
Nos corredores da hipocrisia.

Porventura sereis vós menos do que elas?


(in Nada Onde Pousar o Sonho, coordenação e edição de João Tomaz Parreira, Desafio Miqueias, 2010)

Foi lançada recentemente a antologia poética Nada onde pousar o sonho, com edição de João Tomaz Parreira. Esta obra conta, além de um texto de Fernando Pessoa, com poemas inéditos do próprio coordenador e de Clélia Mendes, Brissos Lino, Lurdes Saramago Chappell, João de Mancelos, Júlia Lemos, Rui Almeida, Rui Miguel Duarte, Florbela Ribeiro, Helena Branco e João Pedro Martins.
Os autores, que o prefaciador Rui Miguel Duarte apresenta como «poetas e cidadãos que não entendem as injustiças nem se resignam com uma sociedade e com um mundo liberal, de poderes políticos e económicos antropófagos», ofereceram os seus direitos sobre os textos deste livro, cuja venda reverte a favor do Projecto Miqueias.

O livro pode ser adquirido através de pedido para: desafio.miqueias@gmail.com com indicação do nome e morada para envio.

O Desafio MIQUEIAS é uma campanha internacional para mobilizar os cristãos a favor das comunidades pobres e socialmente excluídas e para influenciar os líderes das nações a cumprir as promessas públicas, de forma a alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e reduzir a pobreza extrema para metade até 2015.

20.12.10

[ao cuidado do Professor Cavaco]

PAI AMÉRICO

ERA de uma vez num hotel de categoria, em certo lugar da nossa Pátria muito amada. Corria o verão. Na terra havia mais hotéis; muitos hotéis, todos povoados – muito que falar e pouco que fazer. Nestes sítios a que chamam termas, o que mais custa é matar o tempo. Já assim era com os romanos. Lança-se mão de tudo. Cada dia vem com seu programa e todos com infinitos números. Eis um. Naquele hotel e naquele dia foi assim.

Um grupo de senhoras da nossa melhor sociedade, como a Imprensa costuma pôr e elas gostam, levanta-se e vai em roda colher donativos, para um almoço aos farrapõezitos da localidade. Contaram o dinheiro, hilariantes e entregaram à Gerência, com instruções do almoço. No dia seguinte aparece o aviso pregado no lugar deles, a comunicar que as Ex.mas Senhoras Donas Fulana, Sicrana e Beltrana, não se pouparam a trabalhos e que vão oferecer hoje, às tantas, um almoço a doze crianças pobrezinhas. Tudo está à espera. Imediatamente após o serviço dos hóspedes, a Gerência manda armar a mesa em uma sala do dito hotel com quatro janelas para a rua, escancaradas, para que se veja bem. A mesa apresenta-se com tudo; absolutamente tudo quanto diz respeito a um almoço de circunstância. Estão doze talheres. Um terceto, coloca-se em posição. Os criados aprumam-se. As pequeninas vítimas entram na sala. Vai começar o sacrifício. A seguir à sopa vem o primeiro prato, vem o segundo, vem sobremesa; – tormentos que as crianças não merecem a ninguém. Elas não saboreiam. Não sabem estar. Nada lhes aproveita. É um triste suplício, como os pequeninos semblantes dizem.

A sinfonia toca. Os creados rodopiam. As senhoras da comissão miram-se, extasiadas; e dezenas de outros farrapõezitos do lugar, que não foram convidados, espreitam pelas janelas, em bicos-de-pé, esfaimados!

Terminou. Os pequeninos torturados estão amarrados às cadeiras, cada um à sua, até passar a hora dos discursos. Em regra, as senhoras destas comissões, levam muito a mal que não se lhes diga nada, e um senhor da assistência exaltou o acto.

Novo aviso elucidou os hóspedes de quanto se houvera gasto e assim acabou o dia ao qual, no meu entender, não se pode chamar perfeito. Ora muito bem. Estamos em frente de uma das inúmeras paradas de caridade que os olhos dos nossos tempos andam afeitos a ver, e ninguém dá fé do mal que se pratica no mundo, com esta espécie de bem-fazer.

Nenhum de entre a assistência era analfabeto; tudo gente de certa responsabilidade. Mais. O senhor do discurso foi, até, buscar à doutrina de S. Paulo dois pontos que tratam da esmola e com eles, enalteceu a cerimónia! Ninguém viu o mal.

Tudo fez coro, acharam muito certo.

Eu estava. Assisti a tudo quanto se fez e quanto se disse, dum cantinho da sala, muito triste por me encontrar só; – tão perto e tão distante.

Se me tivessem dado o dinheiro e a liberdade de agir, havia de chamar todas as crianças pobres do povoado – todas, porque todas necessitavam, e dar-lhes uma refeição quente, à maneira do povo, só que um nadinha mais abundante e melhor adubada; – era dia de festa. Havia de os colocar em sítio onde estivessem absolutamente livres; comentassem a seu modo o sabor do caldo e do pão; falassem uns para os outros; rissem a bandeiras despregadas, pois seria verdadeiramente uma festa deles e não festança dos mais.

Havia de mandar os criados mai-la sinfonia para os seus respectivos lugares, que ele não há no mundo música mais bela do que a feita com as notas alegres da criança pobre, diante dum prato de sopa quente, servido com muito amor. Assim havia de fazer. Mais. Enquanto perguntasse a cada um o nome que tem, havia de perguntar ao mundo do nosso tempo, quando é que chega a hora em que cada criança tenha dentro da sua casa e em cima da sua lareira, uma tijela de caldo e um bocado de pão. Então, sim, poderíamos fazer festas, que a Caridade folga com a justiça, como ensina a verdade eterna.

Salvo melhor opinião dos mestres, afigura-se-me que não se devia jamais mostrar à criança pobre um mundo a que não poderá honestamente chegar, nem possuir. As orgias desmoralizam; são fontes de revolta e fazem revoltados. Fica-nos bem ser pobres e ensinar a criança a amar e a respeitar o seu estado de pobreza, não venha ela amanhã a cair na miséria e a fazer um mundo de miseráveis.


(de Doutrina, gráficas da Casa do Gaiato, 1956)

29.11.10

ÁLVARO RIBEIRO


[...]
Ler um livro é difícil; ler até ao ponto, ou até à ponta, em que se passa das afirmações comprovadas para as verdades ocultas. Ler é pensar, ou repensar, o que o autor escreveu. Faz-se mister, para isso, ler com o auxílio de um questionário, registar no manuscrito a distinção exacta entre as questões insolutas e os problemas resolvidos; mas como só um ou outro estudioso se dispõe a tal interrogatório, para avaliar o que conseguiu saber, prevalece a discussão superficial dos argumentos que exemplarmente emergem aqui ou além, e a crítica literária dá por julgado um livro qualquer ao fim de uma rápida e fácil leitura.
O escritor desanima ao verificar que o seu pensamento corre minorado ou adulterado nas vozes anónimas que formam a opinião pública. Nenhuma escola, nenhum partido, nenhuma seita manifestará benevolência para com o homem extravagante que pensa de modo diferente dos outros, nem quererá atraí-lo para o seu grémio. Esta verdade reflecte-se no conhecido provérbio: O saber não ocupa lugar. De aí a tendência, para negar justiça àquele que for sincero no falar e no escrever. A liberdade de pensamento é assim diariamente limitada pela crítica moral, política e religiosa, num processo que só terminará pelo nivelamento final das inteligências.
Diz-se que a história fará justiça, mas a lição da história não produz efeito de reconforto sentimental. Os mesmos erros perduram, depois de reconhecidos, e reproduzem-se por uma necessidade que a vontade humana não consegue travar. Corrigir o erro seria, para muitos estudiosos, regressar ao passado e revogar o presente; corrigir o erro seria, para outros, proceder a um desmentido; preferem todos avançar sempre para um futuro imaginado, levados talvez por inconscientes motivos de opção.
Esperam aqueles que não agem. Esperando assimilam doutrinas que os verdadeiros e os falsos profetas vão propagando de geração em geração. Transferir o messianismo é a lei mental da cultura portuguesa.
[...]


(excerto do Propósito, in Escola Formal - tópicos de pedagogia, Guimarães editores, [1958])

23.11.10

ANTÓNIO RAMOS ROSA


VERTENTES


a Herberto Helder



As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo

(de Voz inicial, 1961)

21.11.10

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


TEMPO DE NÃO


Exausta fujo as arenas do puro intolerável
Os deuses da destruição sentaram-se ao meu lado
A cidade onde habito é rica de desastres
Embora exista a praia lisa que sonhei


(de Ilhas, 1989)


JOSÉ BLANC DE PORTUGAL


VI. 5
«TEMPO DA HISTÓRIA»*
TEM PODA? HISTÓRIA...

Claro que tem poda...
A poesia é arborícola
O poeta um silvícola
E tem que andar na moda...
Mas quanto à glória...
História...

11.2.66


*Título de Exercícios Temporais de Tomaz Kim


(de Enéadas / 9 novenas, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989 - Biblioteca de Autores Portugueses)


ADÍLIA LOPES


Tempo de não
tem pó de não?*


*Sophia e José Blanc de Portugal


(de Apanhar Ar, Assírio& Alvim, 2010 - poesia inédita portuguesa)
TOMAZ KIM


TEMPO DA HISTÓRIA


Ao princípio, o viril desflorar do medo,
Lúcida loucura e cobiça e fé e garbo
A rematar uma nação quatro séculos alfim,
Sem medir quantas lanças, quanto sangue.

Declamaram-se versos de epopeia
Espontânea e sem freio.
Amaram-se corpos de sol e canela
E de sal e tufões, o leito.

Desfolhada a rosa-dos-ventos,
Ficou ainda a memória viva
A reter, donairoso, o sonho.

Da rosa-dos-ventos, agora,
Suas pétalas e a loucura e o garbo
Que lábaro, que labéu, que lamúria?


(de Exercícios Temporais, 1966)

20.11.10

VASCO GATO


IMPREVISTO NO MAPA


Que estranho
estar a visitar-te onde não estás
recuar de repente para que passes
e tudo tão imóvel
tudo tão estreito
tão repreensível

e porém uma figura se desembaraça
da treva
e é o magneto
o grito avermelhado que fica
a rodar no anfiteatro
em que eu sou o louco
e tu a vírgula que não me deixa
terminar

(abriu-se a gaveta
as sombras têm o mesmo tamanho
os nervos andam à solta)

agora que te vejo
até onde não te vejo
e essa é a extensão dos meus sentidos
agora que me esquivo
do golpe silencioso dos teus braços
descubro que me coube
a parte mais terrível da aurora
aquele minuto que se comprime
e sangra pelos cabelos
aquele erguer-se a rua
pela rosácea
da expectativa

um espectáculo existiu
e cada um sabia o seu papel
funâmbulos ou piruetas ao acaso
não importa
eu tinha os teus lábios
tu encontravas-me como um velho relógio
de parede
ao entrar no mar
os grandes olhos do nosso entendimento
verdes olhos de vagabundo ao sol
para unicamente
esta noite

para unicamente esta noite
para unicamente esta noite te dizer
que eu sou o homem no escuro
eu sou o sol a aquecer-se nos teus bolsos
eu trago a minha canção aberta
à radiação dos últimos vestígios
do corpo
sessenta mil velas
para unicamente esta noite
para unicamente esta noite te dizer

os holofotes acenderam-se
os holofotes acenderam-se

as minhas mãos viram as tuas mãos


(de Prisão e paixão de Egon Schiele, &etc, 2005)

15.11.10

LUIS PIGNATELLI


já foram neve sinos as portas desta casa em sombra


já foram neve sinos as portas desta casa em sombra
que a pútrida folhagem do outono abandonou
agora movem-se no sono dágua dos meus olhos
que a luz da tarde tão cegadora evaporou

pequenos bichos larvas começam a lavrá-las
finas poeiras já se amontoam na pedra das soleiras
fulvas rosáceas tessituras delicadas rendas
com que se vestem as aves pólen das madeiras

as portas que foram desta casa tão olorosa outrora
na purga do salitre é que se expurgam cinzas
mais as gramíneas da noite constelações azedas
só restam lousas o oiro velho que há nas cornijas

mas na memória hão-de restar ventos alíseos facas
com que as lavercas as suas patas vão escarvar
lameiros negros hei-de encontrar as suas tocas
onde meus olhos os destas portas se irão deitar

mas não tão cedo acres que ainda estão mortas
suas resinas alguém virá com lumes dágatas
dentro de casa erguer as portas varandas altas
que já rolam rolas nos seus casulos pratas

de águas soltas pérolas vastas encherei as arcas
neve sonora a destas portas sombrias naves
hão-de queimá-las as tuas asas? alguém virá com suas brasas?
meus olhos folhas hão-de levá-las na seda magra destas aves


(de Polaroides, in Obra Poética, &etc, 1999)

13.11.10

CARLOS EDMUNDO DE ORY


EXAME DE POESIA


Quando só na escuridão da noite urino
penso quieta a dúvida numa vida antiga
Porquê de noite tenho tanto medo na alma?
O céu fita-nos a andar e estamos na vida.

Vem loucura às minhas pupilas vem loucura
Febre de exílio nas margens de meus olhos
Põe o manto escarlate na minha alma
despedaça o meu tímpano o meu tórax
corta-me a jugular.

Espero-te com os punhos com os dentes
com os olhos cerrados:
loucura peristilo divino
ângulo facial de actor de morte
anfisbena demónio sem sentido
É teu sentido uma delícia extrema.

Nesta noite de ouro neste inverno
Nesta noite dura e fria ponho
minhas mãos de diamante e minhas pernas
sobre a almofada e sobre a colcha
chamo chamo
Não ao sonho nem à eterna escuridão
mas à porta em que morre minha mãe

Quero dobrar a espinha
tristíssima e divina.


(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)

11.11.10

HAN SHAN




Humana vida estar na poeira agitação

Exactamente como bacia meio insecto

Todo o dia avançar girar girar

Não deixar sua bacia meio

Imortais não poder obter

Preocupações planos sem esgotado

Anos meses como corrente água

Num instante estar velho




A vida humana situa-se na agitação da poeira
Exactamente como um insecto no meio de uma bacia

O dia todo avança girando girando
Não sai do meio da bacia

Os imortais não podem ter
Preocupações planos sem fim

Anos meses são como água que corre:
De repente está-se velho


(in O vagabundo do Dharma / 25 poemas de Han-Shan, Caligrafias de Li Kwok-Wing; Tradução do chinês de Jacques Pimpaneau; Versões poéticas de Ana Hatherly, Cavalo de Ferro, 2003)


Vive o homem a vida numa tigela de poeira
É como bichinhos dentro de um jarro
Todo o dia andando à volta
Nunca sai lá de dentro.
Não nos calha a ventura
Só temos em sorte desgraças
O tempo parece um rio
Que corre. Um dia, acordamos velhos.


(in Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 1989 e 2010 - Assíria)

7.11.10

(foto daqui)


JOSÉ SANTIAGO NAUD



BARCELONA


Sagrada Família

Aqui de movo se recupera o Cristo
e nova a natureza se redime.
Abstracção, a reta
cede passo à espiral
mas são os montes que descem o foco de luz
centrado entre os picos e o espaço.
Tudo quanto — familiar
ou altivo — homem pode conter
aqui se inicia. Tanto génio em preconceito
vencido torna o tempo possível e faz
com que a origem reverta. Depois dessa
força é mudar de vida.


(de Conhecimento a Oeste, Moraes editores, 1974 - Círculo de Poesia)

1.11.10

ILDÁSIO TAVARES


Canção dos Hipocampos


Somente a menina cega
foi quem viu os hipocampos
passeando pelos campos,
verdes campos, verdes mares
bravios de minha terra
onde mais nada gorgeia
nas frondes das carnaúbas,
lá em cima das palmeiras,
debaixo dos laranjais.

El-rei decretou agora
que toda a ave canora
que cantar, morre na hora;
e para mor segurança
chamou feras estrangeiras
para poluir palmeiras,
nossos bosques, nossas várzeas
onde não tem mais flores
nem tampouco sabiás.

Sorrindo, a menina cega,
no desprimor desta praia,
desenhou uma jandaia,
rabiscou um sabiá,
enxergando na cegueira
mais que a humanidade inteira
pelos campos hipocampos
como uma turba de vândalos
desembuçados dos céus.

El-rei cauteloso dita
do alto do trono asfáltico,
o século que viu a pomba
viu um Pablo e sua pomba
e mais dois Pablos safados;
por isso, no meu reinado,
nenhum passarinho canta,
se cantar, a morte é certa
na mira do meu fuzil.

Somente a menina cega
percebeu que os hipocampos
comiam cravos, crisântemos
e douradas borboletas.
Em cismar sozinha à tarde,
naquela tarde fagueira,
ela viu como pastavam
e vomitavam lirismo
pelas ventas de metal.

El-rei, vigilante e esperto,
bradou, “Me tragam poetas!”
principalmente os românticos,
e cozinhem suas barbas
em molho de água e sal;
e se forem tão imberbes
que não engrossem a sopa,
tragam-me as neves de antanho
que os anos não trazem mais.

Pouco a pouco os hipocampos
avançavam pelos campos,
e a meiga menina cega
nada podia fazer
senão vê-los e temê-los
aguardando sua hora
e a hora de todo o mundo
neste reino à beira mar.


(de Cantigas e Canções 1977-1993 / in Poemas Seletos, Fundação Casa de Jorge Amado, 1996 - Casa de Palavras)

28.10.10

NUNO GUIMARÃES


Pax aeternis. A língua
te soletra. Ó longos canaviais,
vias bravias! Os da morte liter-
ária, sob a chuva. Assim invocas
um sentido ao teu excesso
diário. Á previsível
morte literal.

Litoral! Litoral! Manchado
em cristalino, sentimento. De
paisagem madura. Perdurável
no vasto mecanismo visual.
Ó longas vias de canal. Por onde a
vida, a letra, lite-

ratura, se consomem.
Requiescat. Em ti penso o
movimento ausente (desvio,
então, a retina para os longos
campos: roído de verdura
e vento, em movimento). Assim te
esqueço, contrito, em rigidez.
So-

letro o que me é dado ver enquanto
vivo - o objecto — enquanto vivo.
E como pensarás res-
existir a essa língua? Uma
cultura que a prepara, uma morte
entre claustros, requeimada?
Litor-

ais que a letra não domina, que
são lentos, semelhantes
ao teu cego labor: paisagem hirta,
avista, imaculada.
Como pode, sem luz, ser
já tão lúcida? Tão
claramente negativa? Inquieto,
o esquece. E só habita
sobre as árduas costas, litorais.


(de Os Campos Visuais, 1973)

27.10.10

[outros melros LIX]

ROGER WOLFE



A ULTIMA NOITE DA TERRA


O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.


(tradução de Luís Filipe Parrado, in Criatura N.º 5 – Outubro 2010)

26.10.10

HUGO MILHANAS MACHADO


ESTRANHAMENTO


Esta árvore mexe mal
dá impressão que o almoço
não cai bem ou será hora
de encostar à sombra e ficar

É um segredo tautológico
mas a palavra arrepende
como arrepende o tempo mal ganho
nesta estranheza de processos
se o coração arranha
quando o que mal mexe
é a mão e é o braço
que te roubam de abraço
o papel e o mar
postos em vigilância
ao lado das letras

É que choramos


(de As Junções, artefacto, 2010)

25.10.10

ALBERTO PIMENTA


civilidade


não tussa madame
reprima a tosse

não espirre madame
reprima a espirro

não soluce madame
reprima a soluço

não cante madame
reprima a canto

não arrote madame
reprima o arroto

não cague madame
reprima a merda

e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?

ok, monsieur.


(de Ascensão de Dez Gostos à Boca, 1977)

24.10.10

MARIA DE LOURDES BELCHIOR


POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA: A «GERAÇÃO DE 40»
[excerto]

(…)
Comece-se por uma delimitação de campo. A que limites corresponde a imprópria, mas já quase clássica, designação «geração de 40».
Em princípio, dado que o segundo modernismo — o da Presença — se fixa, lato sensu, entre 1927 e 1940, há-de pressupor-se que a chamada «geração de 40» se configura, geneticamente, entre 1936 e 1940 e depois prossegue, por caminhos seus, o rumo ou rumos que escolheu.
Reconheça-se pela precaridade de tais marcos cronológicos que a periodização literária é método, embora legítimo, pobre e falível. Para com mais rigor delimitar o campo abrangido pela designação «geração de 40», talvez fosse conveniente, seguindo o método usado por H. Truyre em Les générátions tittéraires; seriar, por anos de nascimento, os poetas, de modo a obter uma espécie de nomina poetica que sirva de base à caracterização geracional. Insisto: a designação decimal de «geração de 40» é um artifício e só como convenção serve. É que se o conceito de geração implica uma comum tábua de valores para agir e reagir perante as circunstâncias epocais, não se adeqúe o conceito — geração de 40 — aos dados históricos. E se concebermos, como necessária, para a real existência de uma geração literária, uma plataforma de obras que, apesar de divergentes nas intenções e nos propósitos, possuam como resultado uma significação homogénea, dificilmente se aceitará a fórmula «geração de 40».
(…)

(in Os Homens e os Livros II – séculos XIX e XX, editorial Verbo, 1980 – colecção Presenças)



DAVID MOURÃO-FERREIRA


DEPOIMENTO SOBRE A POESIA DA GERAÇÃO DE 50
[excerto]

Em princípio, uma geração literária só será digna deste nome na medida em que possa exibir um conjunto de obras que, embora diversificadas entre si, se mostrem, no plano temporal, portadoras de homogénea significação. Não é isso, porém, o que, até agora, se verifica na chamada geração de 50; e certo é que nela se nos depara, em lugar de nítidos contornos, a fluidez da perífrase; em lugar do sólido edifício, a construção avulsa; em lugar do patente significado, o testemunho da procura, da desorientação, do logro, da fuga reticente, do combate alusivo. E, com estas palavras, acabo, segundo me parece, de sumariamente caracterizar algumas das atitudes típicas da geração de 50 — que é, em suma, a minha geração.
Trata-se, como já se vê, de uma geração bastante dividida.
Negá-lo será tentar estupidamente alçapremar um grupo em prejuízo dos demais; iluminar tão-só meia-dúzia de personalidades para deixar na sombra os restantes comparsas. O processo tem sido muito utilizado; todos o sabemos. Com ele, ocasionalmente apenas pode lucrar a vaidade de uma ou outra vedeta, a propaganda de uma ou outra capelinha. No entanto, de forma alguma se obterá assim a visão clara dos problemas; nem tão-pouco se contribuirá, de modo positivo, para o futuro esclarecimento da história literária que, bem ou mal a nosso grado, todos estamos realizando. Porque a verdade é esta: todos, pelo simples facto de vivermos, e pelas constantes opções que viver implica, fazemos história; e nós, os que escrevemos, pelo simples facto de escrevermos, e pelas constantes opções que escrever implica, simultaneamente fazemos história, lato sensu, e história literária. Não importa sequer que ao futuro não chegue a maior parte dos nossos nomes. Tal circunstância em nada diminui o involuntário papel histórico que nos coube em sorte (pelo simples motivo de termos nascido em determinado lugar e em determinado tempo) e o voluntário papel histórico que pudemos escolher, que quisemos ou não quisemos assumir. A historicidade do ser humano revela-se, portanto, em dois planos: no que lhe é outorgado pelas circunstâncias e no que resulta da tomada de posição — da escolha — perante essas mesmas circunstâncias.
A minha geração fugiu à guerra,
Por isso a paz que traz não tem sentido
— diz António Manuel Couto Viana, num poema do seu livro Mancha Solar. E estes dois versos — não os restantes, mas estes dois — poderiam ser subscritos por qualquer outro poeta da minha geração, na medida em que definem uma situação prévia que é afinal comum. (…)

(in Motim Literário, editorial Verbo, 1962 – colecção Presenças)



M. ALBERTA MENÉRES / E. M. DE MELO E CASTRO

INTRODUÇÃO
[excerto]

2.°) — A segunda baliza que surgiu pela força das circunstâncias, foi a que define as condições de admissão na Antologia. O critério de um limite de idade não nos pareceu válido perante o carácter específico da Novíssima Poesia de 1945 a 1971, porque nela encontramos lado a lado, como estreantes igualmente válidos, perante uma problemática idêntica e com simultaneidade de vivência. Poetas de mais de 60 anos e de menos de 25. Só isto bastaria para inutilizar as artificiais barreiras de idade, pois nem sequer podemos demonstrar ou afirmar perante as respectivas qualidades das obras poéticas que formam esta Antologia, que um Poeta de 40 ou 50 anos tenha mais experiência humana ou literária que um de 20 ou 30, sem nos colocarmos numa situação conselheiral e pseudo-académica, cujo ridículo é evidente. Além disso, tal critério tende a fomentar falsas distinções e barreiras a que nenhuma base crítica preside. Ante o enorme volume de Poetas possivelmente candidatos, julgámos que o que poderia conferir uma certa experiência literária e também humana, seria a publicação de pelo menos um livro de criação poética que se tenha mostrado válido e activo perante o nosso trabalho de recolha e compilação, e tenha manifestado qualidades suficientes para que o seu Autor valha no conjunto da Antologia. Portanto uma condição indispensável para a inclusão nesta terceira edição foi, sem uma única excepção, a publicação de um livro de criação poética. Conhecemos perfeitamente o óbice deste critério, que se encontra no seguinte: poder deixar-se na sombra algum bom Poeta que ainda não tenha publicado nenhum livro e só tenha colaborado em revista, etc. A isto diremos que esta Antologia se estende por mais de 25 anos de revelações de Poetas, e que a grande época de revistas literárias já passou: ela foi 1950, 1951, 1952, como se verá mais adiante. De então para cá, mercê de circunstâncias alheias ao próprio fenómeno poético, parece mais fácil a publicação de livros individuais, que de revistas e periódicos literários, e por isso talvez a enorme quantidade de livros publicados, além de um natural e crescente interesse pela Poesia, da parte de um público que, embora sempre limitado, está em expansão. E o facto é que os Poetas dispõem actualmente de muitos recursos de publicação, quer em colecções comerciais e particulares, quer em edições de Autor. E podemos dizer que só não publica os seus poemas, o Poeta de mérito que realmente não está interessado nisso. Por outro lado, uma Antologia panorâmica só se pode fazer de forças vivas e culturalmente actuantes, e por isso só pode ter em conta Poetas que entrem realmente na polémica da existência e da acção cultural.

(in Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, livraria Moraes editora, 3ª edição, revista actualizada e com uma nova introdução: 1971 – Círculo de Poesia)

18.10.10

Foi apresentada, no passado dia 9, a antologia O Prisma das Muitas Cores, com poemas de amor de 135 autores de Portugal e do Brasil. Foi organizada pelo Victor Oliveira Mateus e tem prefácio de António Carlos Cortez. A ilustração da capa é de Júlio Cunha e tem a chancela da Editora Labirinto. Nela consta um poema meu, que transcrevo.



Os teus olhos abertos são do tamanho dos meus dedos
E não falam de silêncios nem de sombras
Nem de coisas de sonhar.

Os teus olhos lembram segredos de riso,
Pequenas palavras que se dizem poucas vezes.
É nos teus olhos que sei o rumor da minha história –
Olhos de quem cresce a olhar.

(sei que enquanto me olhas respiras)

Só eu desejo a tua boca,
Pedaço antigo de sede e confronto
Por onde entra a luz jubilosa que respiras.
Da tua boca sei que traz gestos de nomes ditos
Enquanto tudo à volta acontecia.

E com os dedos percorres o sibilar da língua,
Tocas objectos que são a pele do mundo
Com a delicadeza própria de lábios.
E os teus dedos são do tamanho dos meus olhos abertos.

4.10.10

GWENAËLLE STUBBE


47


Não passa de uma história de dentes. Esta cidade!
De dentes fixados sobre mim com toda a rapidez. Que no último segundo
recuperam a sua trajectória.
De todo o modo - Guardai os vossos dentes não preciso deles!
Todos nós somos apanhados nesta cidade, desde que lá estamos postos
pelo mínimo passo. No entanto não vereis aí nenhuma - junção do tipo -
O vosso ar agrada-me. Com vossa licença, vou ficar com ele.
Também esta semana, tenho esta sorte de me estar nas tintas e de passear por

sem laços.
Mesmo que isso circule pelo dobro em cada pedaço de passeio.
E pelo meu único laço, acho que sou livre e conservo com graça nesta grande
cidade, o uso perdido da minha costela.


(tradução de Nuno Júdice, in Encontros de Talábriga - 4º Festival Internacional de Poesia de Aveiro, Limiar, 2003)

3.10.10

ANTERO DE QUENTAL


Tese e Antítese


I

Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia...

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz...

Mas a ideia é num mundo inalterável,
N'um cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que a fecunde o sangue dos heróis!


(de Sonetos, 1886 - conforme edição de 2002 da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, da responsabilidade de Nuno Júdice)
ARMANDO SILVA CARVALHO


OS PORTUGUESES


Todo eu sou alemão no pensamento, e antes de o saber
O francês não me deixava mentir
Com palavras de sol cinzento nesta boca insular
Dum condenado à cabeça.

Temos na língua um gosto pelo patético
Que nasce da insuficiência.
Morremos duma glória plasmada na distância,
Dirão os que não morrem para poderem
Contar.

Os que mirram, definham de goela aberta
E deixam no ar a dança gestual
De pequenos fantoches, olhos pasmados numa vida
De Europa entreaberta.

Oh, tomai por mau conselho
A minha fala doendo pelas ruas de Coimbra,
Pelas salas espessas de fumo em Lisboa
Pelas areias e dunas dessa boa Vila do Conde
Adormecida.

Um jovem irrequieto, um doente louco,
Uma cabeça virgem para recados maiores dos outros
Mundos,
Uns olhos magoados pelo sol da solidão.
Dizei-me, camaradas da luz,
Que mais vos posso dar, sem ser canção ou roubo
Do meu corpo,
Incandescente, eléctrico, lucífero?


(de Anthero Areia & Água, Assírio & Alvim, 2010)

2.10.10

GREGORY CORSO


POETAS PEDINDO BOLEIA NA AUTO-ESTRADA


Claro que tentei dizer-lhe
mas ele virou a cara
_____sem uma desculpa.
Disse-lhe que o céu persegue
_____o sol
E ele sorriu e disse:
_____«Para que serve isso.»
Eu sentia-me como um demónio
_____de novo
Por isso disse: «Mas o oceano persegue
_____os peixes.»
Desta vez riu-se
_____e disse: «Suponho que
__________os morangos foram
_______________empurrados para uma montanha.»
Depois disso vi que a
_____guerra estava declarada...
Então lutámos:
Ele disse: «A carroça das maçãs como um
____________________anjo numa vassoura
_______________racha & lasca
____________________velhos tamancos holandeses.»
Eu disse: «O relâmpago vai cair no velho carvalho
_______________e libertar os fumos!»
Ele disse: «Rua louca sem nome.»
Eu disse: «Assassino careca! Assassino careca! Assassino careca!»
Ele disse, perdendo mesmo a cabeça,
__________«Fogões! Gasolina! Divã!»
Eu disse, sorrindo apenas:
__________«Sei que Deus voltaria a cabeça
__________se me sentasse calado e pensasse.»
Acabámos por evaporar-nos,
_____odiando o ar!


(in Antologia da Novíssima Poesia Norte Americana, selecção, tradução, prefácio e notas de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1973)
SANDOR CSOÓRI


CARTA AO POETA AMERICANO GREGORY CORSO


Percorreria todo o mundo contigo,
Corso,
descarrilador do tempo,
valentão do século vinte.
A tua camisola de riscas lembra uma farda de prisioneiro,
de presidiário que desertou da poesia,
apóstolo do adultério.

Vamos, anda, calça de um tiro o teu sapato de desporto
rumo à Lua,
ao deserto do Sahara
e à capital da nossa alegria: Spoleto!

Na praça da Catedral é noite.
Cubos de mármore nadam no copo da escuridão,
como os cubos de gelo
num whisky um pouco amargo.

Esvaziemos a cidade de um trago.

Menotti não compõe hoje música,
convida para um serão,
no seu jardim, rameiras milionárias
esperam os sátiros
com forcados de poesia -
Corso,
a tua mão é um forcado,
a tua boca é um lança-chamas,
Sabes! És mais capaz de praguejar
Do que o papa capaz de rezar,
vem, armemos um escândalo esta noite.

*

Pode ser bom roubar um carro
já que não se pode roubar a imortalidade,

e tocar os sinos com latas de conserva
já que não se pode fazê-lo com a perna do Cristo.

*

Joguemos - Tu gostas de jogar:
Furemos os olhos um ao outro,
talvez assim sejamos mais amáveis
do que os que sorriem.
Estilhacemos as tuas bombas para estrelar ovos
e a Europa pode entusiasmar-se com uma nova arte culinária.

*

Imbecil! Imbecil! - gritemos ao
Senador-Urso Polar,
aos chefes do governo que passam o fim-de-semana
num cano de canhão.
oh, fins-de-semana!
oh, domingos!
oh, Casas Brancas! Parlamentos!
das vossas conchas de caracol por toda a parte
deslizam tanques
e na sua trilha mucosa caem de costas os poetas.
Imbecis! Imbecis - gritemos aos poetas
que caíram de costas,
eles não merecem o pão,
não merecem as mulheres,
não merecem a morte.

*

Já balbuciamos tantas vezes
majestosamente
que a nossa boca está inchada.
Corso, afundemos as nossas línguas
como um porta-aviões.
Sejam outros a fazer estrondear
as harpas celestes que voam,
e sejam os marcianos a tocar os tambores de Saturno.

Tudo pode acontecer-nos,
se ficarmos aqui;
tudo o que já nos aconteceu.
Vamos,
sejamos nós a marcha
que vagabundeia por toda parte,
muda de pátria para amar a do outro,
assina o mar, como um postal,
e descansa nas cidades,
para que também as cidades descansem
e não pede perdão
se for processado por aquela marcha
que chegou a amar no sétimo dia.


(de Com cisnes sob o fogo do canhão, versões de Egito Gonçalves, sobre tradução literal de Pál Ferenc e revisão de Mária Demeter, Limiar, 1997 - os olhos e a memória)

26.9.10

LUIS MANUEL GASPAR



IBN ABDUN DE ÉVORA


JOGO DO DESTINO


Aflige o Destino, depois do olhar, com marcas.
Porquê chorar agora por sombras e quimeras?

Cuidado! Tem cuidado! Nunca é demais lembrar-te:
Entre o dente e a garra do leão não adormeças!

Não deixes que a vida te iluda e entorpeça,
Se o condão dos seus olhos é vigiar sem trégua.

Oh, noites! Queira Deus afastar-nos do seu ócio,
Noites que a Sorte muda, com mão traiçoeira.

O seu prazer engana: é flor que traz no seio
A víbora que ágil se atira a quem a colhe.

De tanta dinastia que Deus favorecera
O que ficou? Há rastos? Pergunta à tua memória!


(ilustração e poema in O Selo - Revista de Cultura Islâmica e Universal, nº 2, 11 de Julho 1993/21 de Muharram 1414, «magistralmente transcriada do original por Doina Zugravesco, em estreita colaboração com o Prof. Adel Sidarus» - original in Estudos Árabes n.º 1-1982, Publicações "Universidade de Évora")

25.9.10

ANTONIO BENEYTO


6

Existe algo naquele homem. Parece que não deseja ver-me e transforma-se numa mesa. Sabe que escrevo sobre uma coisa plana e quer que o faça sobre ele. E não sabe ou não compreende que escrevo a carta a Genoveva no local onde me encontro: por vezes, em cima de uma flor; ou sobre o ramo de uma árvore, fazendo equilíbrio. Que formosura. Quando o outro homem, o que está vestido de azul, me chamar já serei muito velho. Por onde ou com quem estiver nesse preciso momento. Faz tempo que não rezo e o Natal está aí, nas patas da mesa. Penso que rezar é caminhar pela vida; movendo o corpo e fazendo com que o teu sapato se desgaste de imediato. E também a mesa onde se escreve e que as unhas da alma já não cresçam, e que ninguém, absolutamente ninguém, te recorde. E ver a regra, e a carteira cheia de envelopes, e de papéis, e pisa-papéis, e Pisamorena*, e papéis escritos, e use esta papeleira, e pegadas desconhecidas. Existe tanto silêncio quando se quer rezar, quando se quer fazer o amor à fêmea que brutalmente, desconcertadamente, se abre e se fecha como o camião do lixo. Ela coseu-me com beijos depois de me coser o forro do casaco. Agora descanso.



* Bar em Barcelona onde se dança Flamenco.

(tradução minha - original de Textos para leer dentro de un espejo morado, 1975)

22.9.10

VINDEIRINHO


g_


de repente ganha vida uma angústia de pedra milen
ar da falta de memória -

grandes espingardas abandonadas em disposição quase gráfica
num salão enorme de pianos de
cauda - uma grinalda de televisões de ecran panorâmico e
uma aparelhagem
dvd

visão de baratas, uma casa abandonada no
edifício do

vento. viemos todos ver o filme, ouvir a
rajada de tiros, os vasos de flores
partidos, andas pela casa ou
vindo a voz das sombras, de

repente e passas a mão pelos meus cabelos - esqueci
me do teu nome, do teu ritmo drum n'
bass. dormes

durante a madrugada, dormes um
milénio deitada no sofá, cansada, com um gato ao colo e a
imagem fica des
focada - olhas pela varanda a paisagem
amanhã poderei acender um cigarro, não fumar um
cigarro, enquanto se conduz o automóvel pela
alameda e hoje é um dia um pouco mais ou
menos como os
outros e as imagens desvanecem como arco-íris fugazes,
apenas o alcatrão de uma estrada em numa viatura seguindo pela
chuva -
um dia um pouco mais ou
menos como os outros
o decreto de lei, os cidadãos virtuais, um
ficheiro em branco que de re

pente

ganha vida a


(de Domésticos, Black Sun editores, 2001)

21.9.10

PEDRO PROENÇA



ANTÓNIO POCINHO


O Polvo é que andava muito deprimido. Então não é que, em Terra, o consideravam um peixe mafioso, em virtude dos seus tentáculos?... Ele que nunca tinha estado minimamente ligado à Mafia. Era uma grande injustiça, uma calúnia pela qual ia pedir uma indemnização em tribunal. O seu advogado, o Pargo Legítimo, pedia ainda uma pena de dois meses de conserva em momo de tomate para todos aqueles que fossem apanhados a cbamar "polvo" a qualquer associação de malfeitores. Quanto a este processo, estou convencido de que o polvo vencerá, porque um polvo unido jamais será vencido.
Ainda por cima, o Polvo é conhecido no mar alto precisamente por ser o oposto do mafioso. Está certo que se serve dos seus tentáculos para almoçar, mas, fora das refeições, cada um daqueles oito braços são o instrumento da gentileza, da bondade e da dedicação ao trabalho. Eles servem sobretudo para cumprimentar, acariciar, dar, distribuir, fazer coisas, para o que não tem mãos a medir. No mar alto, chamar polvo a alguém é um elogio. Ser um polvo significa ser uma jóia de pessoa. Trabalhar que nem um polvo significa trabalhar muito.
Como devem calcular, o Polvo é muito solicitado para todo o tipo de trabalhos manuais, especialmente reparações e mudanças. Com os seus oito braços, ele consegue executar simultaneamente várias tarefas. A última vez que o tive cá em casa, arranjou-me ao mesmo tempo o esquentador e a televisão, enquanto atendia o telemóvel e fumava dois cigarros. Sim, imaginem, dois cigarros. Um deles era um daqueles cigarros medicinais para deixar de fumar.


(ilustração e excerto de texto de Quanto custa criar uma sardinha, edições Fenda, 1999)

20.9.10

IVAN LAUCIK


ATÉ ÀS GRUTAS


Respirar
nos socalcos dos rochedos,
à noite.
No átrio de ar frio,
fosforescente de brilho intocável.

Entrámos pelos portões desfeitos.
É mais do que um toque,
mais do que um rito.

Tremor
de si próprio?
No silêncio do espaço da chuva
a luz desnuda-se até ao fio
e esfuma-se na claridade.

Descemos pelos filamentos de vidro
que se ramificavam como as asas das crónicas.

Êxtase puro, profundo.
Polpa de silêncio invernal
explodindo na camada de movimento
através de sons.
Noite plena de imagens
no fluir do olhar.

Levámo-las connosco?
Essas estrelas negras que rodam?
A dolorosa persistência da língua?
Fendas de calor nas paredes,
bocas cheias de terra.
E na luz frágil: vermes?
Chama branca e violácea?

Movimento
solto de si próprio.
Simples fios
capazes de florir na noite.


(de Mobilis in mobile , tradução colectiva (Outubro 1997) revista e apresentada por Pedro Mexia, Quetzal editores, 1999)

19.9.10

FRANCISCO BRINES


O ESTRANHO HABITUAL


A casa, branca e grande, vazia do seu dono,
permanece. Silvam os pássaros; os muros, um olor.
Quem volta sofre com o desterro da casa.
Aqui descobriu o mundo; lugar para morrer.
Andou por cidades inóspitas; nelas só aprendeu
desprendimento; e até a si mesmo se estranhou.
Reflecte: terá amado a vida?
Supôs amar o instante e só amou sua carne
solitária, ou amou talvez a carne que o amou.
Por certo tudo fora desejo insatisfeito,
e sua esperança foi apenas nostalgia
do que viria depois; assim foi o futuro
como a lembrança: um fantasma de luz; e o outro,
sombra. A casa está vazia do seu dono
e ele chega desamado. O horto é aroma
de flor de laranjeira. Sobe as escadas e na sala
vê o mar escurecer, a inquieta lonjura.

E de novo surpreende, no jardim, quem o olha
e o que nunca lhe fala,
esse veloz ancião de cabelos brancos,
constante companhia de seus últimos anos,
esse ancião demente que o segue, ligeiro dia e noite,
presente como areia de um relógio,
agora hóspede estranho da casa, distante e sem convite,
recluso no jardim, sem nunca se deter,
e sempre que o olha aquele olha-o,
sem sorriso e expressão,
pois é cego e é surdo, e tão-pouco é mortal.


(tradução de José Bento, in Ensaio de uma Despedida - Antologia (1960-86), Assírio & Alvim, 1987 - documenta poetica / original de Insistencias en Luzbel, 1977, com dedicatória "A Manolo Borrás")



ÀLEX SUSANNA


A ÚLTIMA LUZ


La casa, blanca y grande, vacia de su dueno,
permanece. Silban los pájaros; las tapias, un olor.
Quien regresa se duele del destierro de la casa.

...........................................................F. Brines

Não passa o tempo, passam as coisas.
Homens, mulheres, árvores, crianças
que se aproximam, se afastam e se esquecem,
e descobrimos que tudo foi sucedendo
de um modo similar desde um remoto início.
Mas o tempo não, esse não passa;
passam as coisas e a dor cresce dentro de nós
e também nós passamos, e outros chegam
e trazem o prazer e depois levam-no.
Assim tudo passa - e a vida e a morte,
e aquilo que mais queremos
(só passa aquilo que se ama).
Por isso nada passa, fora de nós,
de ti, de mim, tornamo-nos velhos e preguiçosos
e queríamos acreditar que tudo se mantém
mas o corpo é mais débil cada dia,
a memória mais frágil,
e parece que tudo, inevitavelmente,
conhece o seu outono e o seu último inverno.
E afinal nada passa, ou quase nada:
só nós passamos
e em vez disso continuarão as casas,
os quartos onde vivemos tantas horas
a ler e a falar, a beber, a rir,
amando-nos, dormindo...
Perdurarão os objectos, sempre tão dóceis
ao nosso olhar - uma cadeira, um jarrão,
uma antiga gravura, a lareira, uma fotografia -,
e as esquinas, as praças,
as ruas tortuosas do bairro antigo
onde tão frequentemente vagueámos
em busca da última luz, a pedra dourada,
o jardim escondido,
...........................e perdurarão, finalmente,
os caminhos entre as cepas e as praias,
onde soubemos esquecer-nos de nós mesmos
e fomos felizes de tanto esquecimento.
Perdurará tudo, ou quase tudo:
só nós passaremos,
sombras incertas de alva enevoada,
longínquas chamas de um fogo provocado,
seixos lançados no fundo de um negro poço
que ninguém poderá fazer sair da sombra.


(de Palácio de Inverno / Palau d'hivern, 1987, in Os Anéis do Tempo, tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1995 - Os Olhos e a Memória)

18.9.10

MANUEL DE FREITAS


TRISTES TROPOS


para o Fernando Luís Sampaio

Diabo. Fugiu-me pela janela
que não estava aberta
um oxímoro em forma de tambor.
Como percuti-lo agora,
a braços (catacrese vossa) com
um gelo trincado e 40 graus de sono?

Distracção não foi, nem modo
de sucumbir que se resolva assim,
nas dobras frouxas e cansadas
de um anacoluto reles.
Falemos, oh sim, do corpo,
quando se repara e não faz mal sequer
que já nada espera — de si ou dos outros.

Meras contingências, acasos de acaso
feitos que outrora fulguravam
por obrigação ou medo
na pressa metonímica de um beijo
cor da morte. Habituamo-nos
a perder, vereis, como células desfocadas
que odeiam resignadamente
o relâmpago da manhã.

Era uma metáfora, eu sei,
senti melhor do que vocês
a sua baba quente e desajustada
sobre os ombros onde um cancro sonha,
trazendo aliterações tristes
àquele que findando fica.

Podia ser eu, não podia?, a
genuflectir quiasmos em tempo
de musas e de vírus complacentes
que se nos não matarem
a morte o fará, descansem.

Leram decerto Montaigne, João Paulo
Segundo, Laura Ashley, e não
se repetem souvent estes dias
de entranhas calcinadas
e de enxofre disfarçando cinzas.

Por isso me calo, imaginando
uma palinódia em zinco pós-moderno
mais propícia, enfim, aos vossos zeugmas morais.


(de Game Over, &etc, 2002)

11.9.10

WISLAWA SZYMBORSKA


FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO


Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida,
preservou-os
sobre a terra ruMo à terra.

Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.


(de Instante, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio d'Água, 2006)

6.9.10

DORA RIBEIRO


um poeta se faz no silêncio
em bocas sem palavras
onde as horas são becos escuros
e os lábios difíceis marcas do tempo

um poeta se faz no oco do mundo
em lugares expostos e secretos
minúsculos
mas incendiáveis


(de Outros Poemas, 1997 - in o poeta não existe, Angelus Novus / Cotovia, 2005 - Colecção Inimigo Rumor)

1.9.10

Olhar à volta é a tua função
E, entretanto,
Colocar as mãos sobre o alimento
E contar do sonho e da esperança.

Após as solenidades,
Hás de ir ao encontro
Dos que estão sentados olhando as mãos.

29.8.10

IRENE LISBOA


Escrever


Se eu pudesse havia de transformar as palavras
em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas
do espírito...
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da
pedrada, do tal ataque às coisas certas e negadas...
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.

Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre
vós passaria, transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?


(de Outono havias de vir, 1937)

27.8.10

[recuperando séries antigas - gatos mortos]

RUI MANUEL AMARAL


O gato morto


Um homem batia num gato morto. Batia-lhe com toda a força, ventilando ao mesmo tempo os seus sentimentos de desprezo por meio dos piores insultos que jamais foram dirigidos a um gato. Ora, estando morto, o bicho evidentemente não reagia. Mas nem por isso o homem parecia disposto a parar. Pelo contrário: cada vez mais encarniçado, batia-lhe umas vezes nas costas, outras nas patas, outras no focinho, puxando-lhe outras vezes a cauda e os bigodes. Numa palavra, assentava-lhe bem as costuras. Isto prolongou-se durante longos minutos, só abrandando quando se sentiu fatigado e quando já não havia no corpo do bicho um lugar sequer que não estivesse macerado. Foi então que de repente o gato se lançou furiosamente sobre o homem e lhe esgadanhou a cara com tal ímpeto que só por um incrível rasgo de sorte lhe não arrancou o nariz e as orelhas.

(daqui)
[recuperando séries antigas - gatos mortos]

INÊS LOURENÇO


FELINUS


A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não logramos enviar
para a nova morada.


(de Coisas que nunca, &etc, 2010 - originalmente publicado aqui / mais sobre a gata Tobias aqui)

26.8.10

[recuperando séries antigas - gatos mortos]

BOHUMIL HRABAL

[...] O tio Pepin ficava sentado toda a noite, junto do aparador, completamente imóvel, atrás dele sentava-se o velho gato Celestino, roído pelo tempo do mesmo modo que a cara do tio; aquele gato, quando era novo, dormia sempre debaixo das roseiras e das peónias do jardim, sozinho, ele tinha tratado de quase todas as gatas dos arredores... bastava-lhe ficar fora de casa quinze dias. Ao regressar das suas escapadelas, gritava durante todo o caminho: «Abram a porta, vou para casa! Preparem o melhor que têm para me oferecer!...», e tinha tudo o que queria, como o tio Pepin... arisco, não deixava que lhe fizessem festas e, se tal acontecia, o Celestino atacava imediatamente e vencia sempre, como o soldado austríaco, chegou até a atacar o pai, saltando-lhe para as costas, quando este o repreendia com a vassoura na mão. Tinha a cara tão marcada das brigas como o tio Pepin tinha a cara cheia de rugas por causa das vadiagens nocturnas e do levantar de manhã cedo, do trabalho pesado na lavagem dos tonéis, nas caldeiras, nos frigoríficos e nos esgotos. Agora lá estavam sentados lado a lado, o tio Pepin apalpou a cabeça do gato e perguntou baixinho: «Estás aqui?», e o gato ronronava e rezingava, sentado, encostado atrás do tio, como um mocho nos ombros de uma vidente, o gato estava feliz e o tio também. Todas as noites se sentavam assim, sozinhos, falavam apenas um com o outro, já não conseguiam comunicar com mais ninguém. Depois aconteceu que, por duas vezes seguidas, o tio não conseguiu encontrar, às apalpadelas, a cabeça do Celestino e, por duas vezes, ninguém respondeu grunhindo à pergunta: «Estás cá?». Então o tio Pepin deixou definitivamente de andar, já nem se levantava da cama, exactamente como o Celestino, o velho gato, que já não voltou a casa, porque os velhos gatos não morrem em casa.

(excerto de A Terra onde o Tempo Parou, tradução de Ludmila Dismánova e Mário Gomes, edições Afrontamento, 1990 - fixões)

25.8.10

RAFAEL DIONÍSIO


ESTE É O MAR DE ANTEONTEM


este é o mar de anteontem
assim, plano, pleno, em respirar
já houve assim antes quando a cabeça para baixo
quando a impulsão da água faz da vertical
do mergulho para estar noventa graus é
essa espécie de descorporização

ou a alucinação ou a miragem
ou a suspensão num jardim de xisto
ou as cores míopes das algas

com os sentidos se me dizes desligados
dos olhos que dissolver na água,
num movimento inabitual que nós,
as criaturas da gravidade, assim,
para o fundo é aquático, o corpo
todo em desaparece anteontem,
com essa desencarnação da mente,
da mente corpo, isto assim é exacto:
é a sublimação

(in Ópio, vol. 2.1 - Inverno 2000/1)

24.8.10

[recuperando séries antigas - cebolas e Prémio Nobel]

HAROLD PINTER

[...]

- Que é que tens aqui? - perguntou Len, abrindo o armário. Tens alguns pickles? Sabes o que eu fiz no outro dia? Mostrei a um gajo que trabalha comigo, um estudante de Oxford, um dos teus poemas. Tínhamos estado à espera do Irish Mail e recebemos cada um uma gorjeta. E então mostrei-lhe um dos teus poemas.
- O que é que ele achou? - perguntou Mark.
- Olhou para o relógio. Disse que era melhor atravessarmos para a linha sete. O problema com este tipo de pessoas é que quando lêem um poema nunca abrem a porta e entram. Contentam-se em inclinar-se e espreitar pela fechadura. Não fazem mais nada.
- São as pessoas inteligentes - disse Mark.
- Pois. Também vi as coisas deles. E lúcido, está bem. Ninguém o nega. Mas quando se quer palpar a qualidade, não há ali nada. Pegas naquilo como num pedaço de pano e vê-se através dele.
Não consigo falar com essa gente. Como podia dizer àquele gajo que uma frase no teu poema não era em inglês, mas em chinês. É chinês. Aquela frase é chinês. Como lhe ia dizer isso?
- Que frase?
- Não interessa. Agora não me lembro.
Beberam.
- O problema - disse Len - é que não consigo seguir as referências deles. Sou um estrangeiro. Estás a ver, a minha reacção à poesia é como aquelas velhas a comer cebolas e a fazer tricot enquanto a guilhotina cai. É o que é. Que queres dizer? Não gosto da palavra estilo. Não sei o que significa. Não gosto da palavra estilo nem gosto da palavra função.
- Esta gente - disse Mark - quer que tudo encaixe na grelha de palavras cruzadas deles e não gostam quando alguma peça não encaixa, é tudo. Que vão para o diabo. As cabeças deles são como retretes de quintal, mesmo que a merda deles saia embrulhada em seda e cetim.
Pegou numa beata do cinzeiro e agitou-a no ar.
- É isto que vale esse tipo de gente.
- Disso, não percebo nada.
- De que vale reprimir o nosso descontentamento? - disse Mark. - Tens de estar preparado para condenar e desprezar, Len. É assim que se limpam os pratos.
- Não acredito.
- Bem, como vai esse negócio da poesia? A tua, quero eu dizer.
- Acabou.
- Bancarrota? Nem sequer uns trocos no cofre?
- Sim, mas sem valor. Também mostrei a esse tipo um dos meus poemas. Desde essa altura, nunca mais olhou para mim. Tomou como um insulto pessoal o eu ter-lhe sequer mostrado aquilo. Sabes como é que eu escrevo um poema? Sento-me na sala e ponho-me a olhar para os cantos. Às tantas levanto-me e espremo um limão, sai uma gota de sumo, e aí está o poema. Que valor tem isso?
- Não há regras imutáveis.
- Não.
Mark afastou uma cortina e olhou para a escuridão da noite.
- Sabes o que faz essa gente? - disse Len. - Saltam de palavra em palavra, como se fossem alpondras de vau.
Deu uns passos pela sala, a demonstrar.
- Como alpondras de vau. Mas diz-me uma coisa. Que fazem eles quando chegam a uma linha sem nenhuma palavra? És capaz de me responder? Que fazem eles quando chegam a uma linha sem nenhuma palavra? Podes-me dizer?
Mark acabou de beber a cerveja.
- Quanto a ti - disse Len - vou-te dizer o que tu fazes quando escreves um poema. Carregas no botão B e recebes o teu dinheiro de volta.

(excerto de Os Anões, tradução de José Lima, publicações Dom Quixote, 2006 - Ficção Universal)

30.7.10

HERBERTO HELDER


III


O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura, monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humanidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia,
corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é a transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gasifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
O actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral

O actor em estado geral de graça.


(de Poemacto, in Ofício Cantante, Assírio & Alvim, 2009)

25.7.10

VITORINO NEMÉSIO


O AFILHADO


O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
Veio verme.
Verme não é. E, se fosse, isso que tinha?
os anelídeos têm os seus anéis elásticos,
Num começo de élan superior, bem soldado,
A blocos de controle e direcção,
Enquanto que ele a perde em centros altamente sinápticos
E fica pobre e triste entre os apáticos.

O meu afilhado epiléptico
Veio ver-me,
Veio verme,
Veio ecléctico,
Entre os que sim e os que não,
Quase empastado e céptico
Num sorriso de vã resignação.
Fosse ele verme, o pobrinho, e até crustáceo!
Teria o sistema nervoso ao longo da barriga,
Táctico nas antenas de precisão, como a formiga.
Mas tem espinha dorsal e cabos de nervo de alto diâmetro,
Mas deviam ser rápidos e senhoris na opção,
Mas às vezes não são...
O meu pobre afilhado epiléptico,
Eterno aprendiz de sapateiro,
Aplicando serol a fibras de coiro para botas
E fazendo virolas
De meias solas
Rotas.

- E ganhas...? – lhe pergunto.
- Vinte paus, meu Padrinho,
«E não posso beber vinho:
«Nem um copinho,
«Meu Padrinho!»

O meu afilhado epiléptico veio ver-me,
E pensei no Pessanha:
«Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
»
Vinte paus é o que ganha
O meu afilhado epiléptico,
Com os dedos no unto.

Patético, hein?
Mas – mudemos de assunto.

28 de Junho de 1971.


(de Limite de Idade, 1972)

24.7.10

HENRIQUE MANUEL BENTO FIALHO


O ENTALADO


O entalado estava bucho do gasganete. Tinha novelos de pasta colados à gargantilha, enrolados entre o estômago e o esófago, tão recheado de explosivo que, mais uma bolachinha de água e sal, e não haveria contentor que o retivesse.
O entalado estava carrapito da vida, ruborescendo bochecha a bochecha uma acutilante adjectivação. Não ponham o entalado ao mesmo nível da mordedura, não confundam o dente com a placa.
O entalado estava seriamente sério, levando-se a si para lá de tudo o que pudesse pô-lo em causa.
O entalado estava engasgado. Bem lhe queriam bater nas costas, bem lhe queriam, mas o pobre coitado, já com a úlcera a sair-lhe pelo nariz, não tinha costas. Ele era uma curvatura com as badanas no lugar dos pulmões. Não confundam corcunda com isto, ele era mesmo badanas no lugar dos pulmões.
O entalado estava engasgado e explodiu seriamente toda a sua seriedade, apontou o dedo mindinho tremendo de fúria, parecia um engalanado, parecia um engarrafamento na festa do chocolate, parecia um chocolate dietético, parecia um perlimpimpim suburbano, parecia uma infância arrependida, parecia uma coisa que não se parece com nada.
É preciso postar gravidade, sisudez e rectidão no inútil. É preciso levar na vida a sério o que se leva a brincar no poema. É preciso vida para o poema, isto é, é preciso poema para a vida, ou seja, é preciso mandar o poema à vida, não obstante também ser preciso mandar a vida ao poema.
Nenhum atacador surrealista poderá embelezar as botas salpicadas do entalado. Nenhum abraço, nenhum beijinho nas fauces, nenhuma simpática paciência. A verdade é que enquanto o inchaço não passar ao entalado, não passará a dor pelo crivo da vergonha. E quando a dor não passa pelo crivo da vergonha só duas possibilidades nos restam: pica-se a dor, alarga-se o crivo.
A grande dúvida é: com que mão limpará o cu o entalado? Com a mão ferida ou com a mão suja?


(de Estranhas Criaturas, Deriva editores, 2010)

23.7.10

JÚLIO POLIDORO


eu sei, mas por saber, sei que sou parco,
tudo que não tenho é o que perco:
a morte se aproxima e fecha o cerco,
descreve uma espiral, desenha um arco.

sou para o oceano menos que um barco,
me sinto sobre a terra qual esterco;
fecundo esse fogo de que me acerco
com o ar que se sufoca sob o charco.

eu sei e por saber sei que sou pouco,
perdido, navegando como louco,
procuro por um cais que não conheço.

eu sei, pois por saber sei que pressinto:
no gesto de perder, que não consinto,
me enleia alguma teia que não teço.


(in Oiro de Minas a nova poesia das Gerais, selecção de Prisca Agustoni, Ardósia associação cultural, 2007)

22.7.10

HÉCTOR ROSALES


GAIVOTAS


Esse longo cachecol de areia
que aquece o meu andar, estendido
junto aos líquidos umbrais,
tem asas.

Elas levam as mágoas
sonolentas que o Verão reuniu
em sua casa. Anónima
então a alma, livre,
mais leve. Que ficou
de mim nesta franja?

Quando as ondas começaram
a vestir de luto as chegadas
– quietos o céu, os seus vidros
iniciais, candeeiros, focos, faróis –
uma dor recém-nascida
(a pequena plumagem
hirta entre algas)
fez-me voltar
ao que fui antes.


(in O Mar na Poesia da América Latina, selecção de textos e ensaio de Isabel Aguiar Barcelos, tradução dos poemas de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, 1999 – documenta poetica / original de Visiones y Agonías, 1979)

21.7.10

REINA MARÍA RODRÍGUES


AS ILHAS


veja e não descuide delas
as ilhas são mundos aparentes
cortadas no mar
transcorrem em sua solidão de terras sem raiz
no silêncio da água uma mancha
de haver ancorado só aquela vez
e colocar os despojos da tempestade e as rajadas
sobre as ondas
aqui os cemitérios são lindos e pequenos
e estão além das cerimónias
me banhei para sentar-me na grama
é a zona de sombra
onde acontecem os espelhismos
e volto a sorrir
não sei se estás aqui ou é o perigo
começo a ser livre entre esses limites que se
intercambiam:
certamente amanhecerá.

As ilhas são mundos aparentes
coberturas do cansaço nos iniciadores da
calma
sei que a realidade só esteve em mim aquela vez
um intervalo entre dois tempos
cortadas no mar
sou lançada até um lugar mais tênue
as meninas que serão jovens uma vez mais
contra a sabedoria e a rigidez dos que
envelheceram
sem os movimentos e as contorsões do mar
as ilhas são mundos aparentes manchas de sal
outra mulher lançada para cima de mim que não conheço
só a vida menor
a gratidão sem pressa das ilhas em mim.


(tradução de Claudio Daniel, in Jardim de camaleões: a poesia neobarroca na América Latina, organização, seleção e notas de Claudio Daniel, editora Iluminuras, 2004)

20.7.10

[outros melros LVIII]

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO



ER


Por fora do coração voa a asa
negra do melro. O mesmo que
vive na minha vida. O que tem
um assobio tranquilo e eterno.
Segue-me com o seu amor ocul
to. Une o olhar do solo raso
ao olhar sobre a altura. Muda
e depois é igual. Por vezes ve
mo-nos nas brenhas junto ao mar.
Noutro tempo foi numa aresta verde.

Vem da viagem de Ulisses. Um
cantor. Nas figueiras de Ogygia
cantando. Sobre um fio da er
va. Oiço-o com a mesma penetra
ção com que já foi ouvido na
Natureza. Por Er. Além os
pequenos pardais negam-no.
Não os contemplo. Todos os anos
estou atenta. Este poema
afirma e recorda. Esta ave
chama por mim como eu.


(de Âmago I (Nova Arte), 1985)

19.7.10

JORGE DE SENA


POST-SCRIPTUM


Não sou daqueles cujos ossos se guardam,
nem sou sequer dos que os vindouros lamentam
não hajam sido guardados a tempo de ser ossos.

Igualmente não sou dos que serão estandartes
em lutas de sangue ou de palavras,
por uns odiado quanto me amem outros.

Não sou sequer dos que são voz de encanto,
ciciando na penumbra ao jovem solitário,
a beleza vaga que em seus sonhos houver.

Nem serei ao menos consolação dos tristes,
dos humilhados, dos que fervem raivas
de uma vida inteira a pouco e pouco traída.

Não, não serei nada do que fica ou serve,
e morrerei, quando morrer, comigo.

Só muito a medo, a horas mortas, me lerá,
de todos e de si se disfarçando,
curioso, aquel' que aceita suspeitar
quanto mesmo a poesia ainda é disfarce da vida.

27/5/54


(de As Evidências, 1955)
GOETHE

O mundo é tão grande e tão rico, e a vida tão cheia de variedade, que nunca faltarão motivações para poemas. Mas hão-de ser sempre poemas circunstanciais, quer dizer, a realidade terá de proporcionar-lhes o motivo e a matéria.

(em Conversações de Goethe com Eckermann - 18 de Setembro de 1823 / citado por Jorge de Sena, como epígrafe à secção Circunstância, in Pedra Filosofal, 1950)

18.7.10

[no Dia Mundial de Nelson Mandela]

MONGANE WALLY SEROTE



Expresso do Terceiro Mundo

[...]
De que é que precisamos
de partilhar um pensamento
de uma canção
o que é que nós queremos?
se temos olhos para ver
e ouvidos para ouvir
se somos capazes de tocar
se somos capazes de olhar, de ver e de tocar
de que é que precisamos
de uma canção
de um pensamento
do pão
de que é que precisamos
no crepúsculo da vida
no barulho
na sua canção
pois é a sério e honestamente que pergunto
a África
à Ásia
à América Latina
como
como se perdeu a vida
quando se vive em minas
em cidades do mundo
no coração deste tempo
onde jovens
homens e mulheres
em delírio
em demência
rodopiam e tornam a rodopiar
vendo o mundo rodar rodar à volta
para cima
e para baixo e de pernas para o ar
onde os velhos esperam
esperam sós
e morrem sós deixando um fedor na nossa memória.

No meu país
os jovens lutaram oh África
lutaram
caíram
eram esplêndidos homens e mulheres
recordo-me de alguns
que já se foram
para quê
África diz-me para quê?
eu espero
espero nunca me esquecer de lhes dizer
que não são a geração perdida
espero
espero lembrar-me de lhes dizer
que se viverem outra vez
devem fazer como fizeram
com a voz do apito do comboio
com o clamor do clarão da lua cheia
com o silvo de uma estrela cintilante
com o grito de um carro em velocidade
devem dizer que
não são alicates
não são postes nem pás nem picaretas
devem dizer que
não são rocha nem são barra
devem
como o barulho de onde vieram
querer
erguer-se e rolar
rugir
esperar e rolar
subir e fluir
refluir e esperar
erguer-se e rolar
rugir
no fácil e difícil
na distância
nas entranhas
no barulho e no sussurro
no murmúrio
no destino
na mescla e no brilho e no rumor
no quebrar da cor e do barulho
África
Ásia
América Latina e guetos das cidades poderosa:
no olho de uma cabra
na graça de uma vaca a pastar
no abraço de uma paisagem que se alonga
devem dizer
na respiração do céu
no rolar e refluir do vento
na velocidade de um comboio
na altitude do avião
em África
na Ásia
na África do Sul
que o barulho começa e se interrompe
é um murmúrio
dos jovens frescos e esplêndidos
é o sussurro
é o silvo do bloco de Leste a ruir
é o bramido de setenta anos de traição
é um murmúrio
é um sussurro
é um barulho
é esperança
como um remendo
sobre filas e filas de fios de telefone
é esse vento
é essa voz que zumbe
é o silvar e o sussurrar nos fios
milhas após milhas após milhas
nos fios ao vento
na linha férrea
na rua que rola
no mato não silencioso
é o rumor do ruído
o barulho
aqui vem ele
o Expresso do Terceiro Mundo
devem dizer, cá vamos nós outra vez.


(excerto final de Expresso do Terceiro Mundo, tradução de João Ferreira Duarte, editorial Caminho, 1994 - da badana: «O Expresso do Terceiro Mundo é um longo poema de sabor épico. Embora no passado a crítica tivesse destacado a «visão apocalíptica» de Serote sobre o futuro da África do Sul, esta obra, publicada em 1992, não confirma essa caracterização. Há nela, de facto, a visão de uma humanidade — o Terceiro Mundo — em destruição. Mas há também o reflexo dos sinais já visíveis de reconstrução do homem na sua integridade.»)