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29.4.09

[Quis o acaso que eu lesse este poema a bordo do autocarro suburbano, quando subia (ronceiramente) do viaduto Duarte Pacheco para Monsanto. Nunca tinha sentido tão explicitamente que ler um texto é, também (sempre?), fazer o percurso inverso àquele que o Autor fez.]

JOSÉ MÁRIO SILVA

citröen 2 cv


Para o João Almeida

Na descida de Monsanto
para o viaduto Duarte
Pacheco, o ponteiro
da velocidade desaparecia
completam ente, perdido
para lá da marca laranja
dos 120 quilómetros por hora.
O carro trepidava e tudo à nossa
volta – o motor em alta rotação,
as estrelas através da capota aberta,
a silhueta de Lisboa, as infinitas
bifurcações da juventude - tudo
à nossa volta era uma vertigem.

(de Luz Indecisa, Oceanos, 2009)

28.4.09

8.8.08

JOSÉ MÁRIO SILVA


A MARGEM DA MELANCOLIA
(excertos)

(...) Foi tanta a água, Ruy, que passou debaixo das pontes. E agora, assim de repente, vejo-me a escrever esta prosa que não sei o que é, nem para onde vai, vejo-me a enviar uma carta sem destinatário a alguém que não conheci, a uma figura que sempre se materializou, para mim, em dez livros e umas quantas fotografias. Escrevo sobre o fio da navalha, é bom que saibas, arriscando a queda no ridículo, abrindo o peito à confissão e deixando de lado as cautelas que é costume exigir ao jornalista. Corro o risco, e assumo esse risco, de escrever à procura de uma intimidade que nunca existiu, que muitos dirão ser falsa e a que provavelmente não tenho direito. Mas ainda assim escrevo e avanço linha a linha, à beirinha do abismo, procurando não olhar para baixo, pensando apenas que de certa forma sou teu amigo próximo desde sempre, desde que me feriste com um verso que falava da solidão e da morte. Por isso escrevo ainda, sem saber em que direcção, porque repito para mim mesmo que sou teu amigo desde sempre e que os amigos tratam-se por tu, os amigos olham-se nos olhos, os amigos sabem perdoar os desvarios feitos em nome da amizade.
Passou muito tempo, 20 anos. E confesso-te desde logo que ignorei a tua morte na inocência dos meus seis anos. Era Agosto e eu brincava certamente na praia, em luta contra as ondas da Caparica, procurando pequenas conchas e correndo sobre a areia. Era verão e eu ainda não sabia ler (só entrei para a escola em Outubro). Era verão e eu não podia imaginar que as notícias do dia seguinte explicavam mal a causa da tua morte (estou convencido que se alguém abrisse aquele coração destroçado, numa imaginaria autopsia, não encontraria lá dentro uma única gota de sangue, mas sim milhões de minúsculas sílabas: puras, brilhantes, perfeitas).

(...)

Volto ao tema da morte, mais uma vez,. e se pudesse estar contigo agora, face a face, gostaria que me explicasses se foi por causa desse enigma paralisador, dessa definitiva suspensão do tempo, que começaste a escrever poemas tão longos. Posso estar enganado, mas vejo nesses poemas que se estendem por páginas e páginas, acumulando detalhes e repetindo palavras («Nada sei de emoções manipulo morfemas», disseste algures), vejo nessas intermináveis sucessões de versos uma espécie de fuga para a frente, como se temesses o vazio que fica depois da última palavra. Enquanto escrevias, o mundo e as suas torturas mantinham-se à distância e tu sentias-te isolado numa esfera de silêncio, sentias-te salvo no único paraíso possível, não era?
Continuo a olhar para ti. Ou antes, para a imagem que do teu rosto no meu pensamento. E digo-te, sem hesitar, que não alinho com os críticos que veneram a tua obra por inteiro. Mentiria se não dissesse que há versos frágeis, metáforas infelizes, poemas inúteis, rimas escusadas e cacofonias incómodas. Ter consciência de que existem – apontá-las a dedo se for preciso – não diminui em nada a tua grandeza poética nem belisca a admiração que tanta gente nutre por ti. Aliás, sabes tão bem quanto eu que a perfeição é própria dos deuses. E a imperfeição só te torna humano, ainda mais humano.
Afirmei no princípio que ignorava para onde se dirigia esta prosa. Era a mais pura das verdades. Escrevi de um jacto, sem plano nem estrutura, aqui e ali à flor da pele. Reparo agora que me aproximo do limite. Estou próximo do fim da página, tão próximo como do tal abismo que se abre aos pés de quem escreve sem rede. E ainda não disse metade do que queria dizer. Ainda não falei desse refúgio que era para ti a praia da Consolação; ainda não falei da fotografia em que apareces a olhar o horizonte como se o «bateau îvre» do Rimbaud estivesse a passar ao largo; e ainda não falei de todas as coisas que às vezes as palavras (as tuas e as minhas) não conseguem exprimir.
Morreste há 20 anos. Vinte anos exactos, contados dia a dia. Mas fica a saber que deixaste neste lado do rio, nesta margem melancólica (melancólica porque te sabe ausente), marcas que não se apagam. E sabes porquê? Porque foram deixadas por um homem lúcido que olhou a morte de frente. E soube fazer de cada verso uma despedida.

(in DNa Nº 89 – 8 de Agosto de 1998)

20.1.08



Amadeu Baptista ganhou, com o original "Sobre as imagens", o Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica. Este é o seu quarto prémio em menos de um ano e o nono em 25 anos de publicação de livros, colaboração em revistas e antologias e tradução e divulgação de outros poetas.
A esse propósito, o Poeta prestou declarações à Agência Lusa e deu uma significativa entrevista a José Mário Silva, no Bibliotecário de Babel. Bom sinal, sobretudo tratando-se de um Poeta que, não as recusando (mas também não andando atrás delas), quase nunca deu entrevistas. E certamente tem muito para dizer.


Aproveito para destacar o valoroso trabalho do José Mário Silva, que mais uma vez se revela pioneiro da blogosfera ao criar um "blogue literário por excelência, (...) literário no sentido em que deviam sê-lo as revistas literárias que não temos", como afirmou Eduardo Pitta.

6.3.06

[faz hoje treze anos que morreu Vieira da Silva]

MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA



La lutte avec l'ange I, 1992
43,3 x 27,3 cm
Col. particular, Paris



La lutte avec l'ange II, 1992
43,3 x 27,3 cm
Col. particular, Paris


La lutte avec l'ange III, 1992
43,3 x 27,3 cm
Col. particular, Paris


La lutte avec l'ange IV, 1992
43,3 x 27,3 cm
Col. particular, Paris


(imagens reproduzidas a partir do catálogo da exposição Vieira da Silva nas Colecções Internacionais, Assírio & Alvim / Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, 2004)



JOSÉ MÁRIO SILVA

«A LUTA COM O ANJO»

[M. H. VIEIRA DA SILVA]


I

Já não há nenhum segredo, nenhuma sombra,
só o cansaço do corpo perdido na brancura, a
voz luminosa deslizando sobre as coisas, como
este vulto a que ainda podemos dar um rosto.


II

Para trás ficou tudo: a infância fechada sobre
si mesma, os pequenos fulgores do tempo, a
memória tecendo a sua teia sobre o cavalete.
As mãos vazias, agora. E o olhar da morte.


III

É este o espaço inominável, a última porta.
Alguma vez haveria de chegar aqui: ao ponto
de fuga, lugar do adeus, centro do labirinto.


IV

O anjo também capitulou. Derrubado pela
mesma luz. Como se fôssemos iguais.

(de Nuvens & Labirintos, Gótica, 2001)

2.3.04

[Nuvens...]


JOHANN WOLFGANG GOETHE

Domingo, 30 de Abril, Karlsbad

O velho jogo das nuvens a dissipar-se e a engrossar, mas sem resultados visíveis.

(de O Jogo das Nuvens, selecção, tradução, prefácio e notas de João Barrento, Assírio & Alvim, 2003 - Gato Maltês)



JOSÉ MÁRIO SILVA

curriculum vitae

Maternidade de Port-Royal, dois de março de mil novecentos e setenta e dois, dez e vinte da manhã. O primeiro grito, o primeiro choro, a primeira luz nos olhos, o primeiro ar nos pulmões. Depois, o leite quente da mãe. Depois, fraldas, pó de talco, colheres de papa, banhos com bonecos de borracha. Depois, as primeiras letras, a tabuada, o quadro negro, o recreio, joelhos rasgados, as férias infinitas. Depois, o corpo a crescer, o mundo a aumentar, as coisas a ganharem outra espessura. Depois, uma teia de alegrias e dúvidas e escolhas e decepções e incertezas e recomeços e júbilos e esperanças, constelação que não desenha - ainda - qualquer figura.

(de Curriculum Vitae & Outros Poemas, incluído em A Semiologia Segundo Tarzan Taborda - Colectânea de textos de Jovens Criadores 2002, Clube Português de Artes e Ideias e Íman edições, 2003)



[...& labirintos]


JORGE LUÍS BORGES

O fio da fábula


O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.

Cnossos, 1984.

(de Os Conjurados - tradução de Fernando Pinto do Amaral)

7.9.03

[gosto muito de inventários XI]

JOSÉ MÁRIO SILVA

AINDA UM OUTRO POEMA DOS DONS

Tal como tu, Jorge Luis Borges,
graças quero dar ao insondável
labirinto dos efeitos e das causas,
pelo cosmos infinito, espaço
vazio onde brilham galáxias,
pela luz, que é ao mesmo tempo
onda, partícula e sete cores
através de um prisma,
pela vida, esse acaso fabuloso,
pela evolução das espécies, trama
subtil que une bactérias, leopardos,
acácias, fungos e homens,
pelas noites antigas em que as estrelas
pareciam grandes fogueiras acesas no céu,
por Atenas, em cujas ruas nasceu a
democracia e o pensamento,
por Eratóstenes, que calculou a dimensão
da Terra, medindo sombras,
pela inteligência, a mais eficaz de todas
as armas e também a mais traiçoeira,
por Heraclito, frente ao rio eterno
que nunca se repete,
pelo negro basalto e a brancura da neve,
pela beleza de um corpo nu,
pelo trigo, o alabastro e a cidra,
pelos gestos heróicos que mudam o
frágil rumo da História,
por Galileu,
de luneta apontada aos astros,
lendo a matemática com que se
escreve o livro do universo,
pela utopia, esse lugar impossível
mas absolutamente necessário,
por certa noite de 1993,
pela melancolia, doce forma de tristeza,
por tudo o que foi dito mas ficou por escrever,
pela torre de Babel, esse prodígio que Deus não permitiu,
pela música de Bach,
precisa, perene, perfeita como um cristal,
pelas madrugadas em Paris, à beira do Sena,
pelo amor, luminosa e indizível
união entre dois seres,
pelos albatrozes que pairam sobre falésias,
pelo Maditerrâneo, o vinho e o mel,
pela alegria de estar entre amigos
ouvindo Schubert e lendo poesia,
pelo cinema, lugar escuro onde o
mundo pode ser reinventado,
pelos poentes de Turner e os gelos de Friedrich,
por James Joyce, hábil construtor de
uma Dublin feita de palavras,
por Signac e a sua Auxerre pontilhista,
pelo génio de Alekhine,
sacrificando dama e torre num jogo às cegas,
pelo sonho de Marx, que acreditou num
homem novo e melhor,
pelo sabor dos alperces no verão,
por Hector Hug Munro, que escrevia com
elegância e era subtil como um gato persa,
pelos 4 minutos e 33 segundos
de John Cage,
pela liberdade, último reduto do indivíduo,
pelo Grand Canyon, que nos reduz
a quase nada,
pelas iluminuras medievais,
com anjos dentro das letras góticas,
pela paciência que esmorece com o
passar dos anos,
pelos jornais, o cheiro da tinta e
o estrépito das rotativas,
pela geometria de Riemann,
com que Einstein imaginou o espaço-tempo,
pela inocência das crianças e a imagem
serena de um bebé dormindo,
pela noite em que vi uma lua vermelha
sobre o Báltico,
pela escrita, caminho árduo mas exaltante,
pelo poema de que este é espelho,
por todos os dons que também calaste,
por ti, Borges, poeta cego como Milton e Homero,
minotauro perdido num labirinto de versos.

(de Nuvens & Labirintos, Gótica, 2001)

26.7.03

POESIA E BLOGS (III)

JOSÉ MÁRIO SILVA

Nasceu em paris, em 1972. Recordista de prémios no DNJovem, leitor compulsivo (de tal maneira que deu reportagem na Ler no Inverno de 1997). Licenciou-se em biologia. É jornalista, editor-adjunto do DNA. Publicou este ano uma sequência de poemas incluído em Malcata 7 Geografias da editora Alma Azul. [convém também destacar os excelentes contos curtíssimos que tem publicados nas revistas v-ludo e 365 e na colectânea de jovens criadores Blémias, Ciápodes e Licornes - co-edição da Íman editores e do Clube Português de Artes e Ideias, em 2001]
Além disso, dirige com o irmão Manuel uma pequena empresa familiar, que deixam à guarda do pai durante as férias.


RUÍNAS

De súbito tudo faz sentido, a casa em
ruínas, o apito do comboio ao longe,
a noite densa rasgada pelos pirilampos,
ainda a Primavera debruçada nas águas
do rio, em reflexos de dálias e açucenas
enquanto outras flores ardem num
punho que se fecha; adeus, tudo faz
sentido, a estrada por onde já não
chega o autocarro verde, o Outono
descendo sobre as árvores e as colinas,
o comboio a apitar, o aceno através
da bruma; adeus, as ruínas ficam
mas eu não.

(in Dez, livro colectivo em edição dos autores,1995)


BESTIÁRIO MÍNIMO

I. corvos

Vírgulas suspensas
entre ciprestes.

II. grilos

Já se calaram há muito
mas o seu canto ficou a pairar
sobre a seara, dentro da cabeça.

III. salmões

O rio original, espécie de útero,
chama por eles. E eles voltam.

IV. rãs

Vivem na margem do lago,
à espera de uma fábula ou
de um verso japonês.


«O SONHO DE JOSÉ» [PAULA REGO]

Há um velho adormecido (ou morto) numa
cadeira de braços e uma rapariga que o desenha,
atenta. Não interessa saber mais nada: ela desenha,
ele dorme (ou está morto). O anjo vem de outro quadro
e não interfere na história, é um anjo apenas, intangível
como todos os anjos. Para lá das paredes talvez dentro
do sonho, duas raparigas brincam, um cão morde com
raiva o tornozelo de uma mulher e há o rinoceronte que
nos faz pensar em Dürer. Não interessa saber mais nada.

(de Nuvens & Labirintos, Gótica, 2001)

«ICH HABE GENUG» (BWV 82)

Para o Manel

Não é uma questão de lógica.
O milagre é o que está para além
da pauta, a lenta melodia do oboé
desenhando a sua arquitectura aérea.
Agora vejo a poeira suspensa na luz,
o apogeu do outono numa cidade
que se recusou a ser minha, as
armas serenas da tristeza. A voz
de Hans Hotter – tão escura, tão
resignada – traz-me ainda, do Velho
Testamento, uma capitulação feliz.


NO CIMO DAS ESCADAS

Foi a meio de um sonho turvo.
Vi-o à porta de casa, o corpo
tremendo, a pele eriçada por
um frio antigo. Era Primo Levi
no cimo das escadas, sozinho
– um segundo antes da queda.

O sonho era turvo. Ele não.
Continuava de pé, já morto.
Os olhos magoados, as mãos
abertas em concha, como se
nelas ainda houvesse restos
do que não disse. E cinzas.

(in Um poema de vez em quando, n.º 3 - outono de 2002, revista on-line de editora Elefante)