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5.4.11

JOSÉ AFONSO


Não é meu bem


A cama é boa para dormir
- Não é meu bem
A corda é boa para subir
- Não é meu bem
A morte é santa para cumprir
- Não é meu bem
A louça é cara para partir
- Não é meu bem
A cal é branca para encobrir
- Não é meu bem
A banca é boa para falir
- Não é meu bem
A vida é dura para resistir
- Não é meu bem
A porta é boa para se abrir
- Não é meu bem


(do álbum Fura Fura, 1979)

9.11.09

[nos 20 anos da queda do Muro de Berlim]


(voz de João Afonso)

JOSÉ AFONSO

UTOPIA


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

(do álbum Como Se Fora Seu Filho, 1983)

25.4.09

"para se ser cidadão era necessário mais alguma coisa do que meter um voto numa urna"

JOSÉ AFONSO






Papuça

Olha enfia a carapuça
Mas não compres o velho fato
De ananás
O estilo não se empresta
E nada tem sentido
A tua falta, meu papuça
Se podes ou não podes
Tanto faz

Experimenta sair
Um pouco, está bom tempo
Na Arrábida para os ninhos
Meu rapaz
Amanhã é feriado em Paio Pires
Aguça
O teu ouvido rouco-mouco
Em aguarrás

A multidão na rua
- É Zé!
Ouve-se a banda tocando
O M. F. A.
Vai o Borges, o Pina, o Xaimite e a Bibas
Balouçando
A revolução é p'ra já

A bota trocada
O canto na varanda
De rota batida
Para Luanda
Só menos um furo
No cinto apertado
É já Primavera
Amar não é pecado
Na fímbria da saia
A lagartixa verde
E um dia alegre
À nossa espera, bebe

Estamos na seca
A paz é pouca
Dorme uma soneca
A tia louca
Limpa os sovacos
Com esse spray
Amanhã é dia
De «Dancing Days»

Põe nessa boca
Uma chupeta
Amanhá é dia
De Dona Xepa

(do álbum Como se fora seu filho, 1983 - no vídeo: ao vivo, no Coliseu de Lisboa, em 29 de Janeiro de 1983)

23.2.07

Neste dia em que se completam 20 anos sobre a morte de José Afonso só me ocorre remeter para o que postei aqui há dois anos. (e, já agora, para as canções e poemas dele que por aqui têm passado)

19.12.05

JOSÉ AFONSO

De não saber o que me espera


De não saber o que me espera
Tirei a sorte à minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia

Vítima de só haver vaga
Entre uma mó e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda

Viemos pelo sol nascente
Vingámos a madrugada
Mas não encontramos nada
Sol e água

De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta

(do álbum Fura Fura, 1979)

10.4.05

JOSÉ AFONSO

Que amor não me engana

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?

E as vozes embargam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junta de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia

(do álbum Venham mais cinco, 1973)

23.2.05

JOSÉ AFONSO

ALEGRIA DA CRIAÇÃO

Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado

A palavra rompeu
Cresceu como a baleia
No silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar estações soprar a ventania
Brilhar de novo o sol sobre a baía

Fui um bom engenheiro um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida
Me ensinou a cantar esta cantiga

Feiticeira
Mãe de todos nós
Flor da espiga
Maldita para tiranos
Amorosa te louvamos
tens mais de um milhão de anos
Rapariga

Quando o lume nos aquece
No grande frio de Inverno
Vem até nós uma prece
Que assim de longe parece
Uma cantiga

Magistrada Nossa natural
Vitoriosa
Curandeira dos aflitos
Amante de mil maridos
Há mais de um milhão de idos
tormentosa

Quando a fera encarcerada
Que dentro de nós suplanta
Quebra a gaiola sozinha
Voa voa endiabrada
Uma andorinha

(do álbum Galinhas do Mato, 1985)

2.8.04

JOSÉ AFONSO

Por Trás Daquela Janela


Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei

Se a minha faca cortasse
Se aquela parede andasse
E grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer

Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar

Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Na noite que segue o dia
Na noite que segue o dia
O meu amigo lá dorme
De pé

E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

(do álbum Eu vou ser como a toupeira, 1972)

24.2.04

ALGUMAS MODAS DO ENTRUDO

Ó entrudo, ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
As mocinhas ao soalheiro

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é que eu estou bem
Que no monte é que eu estou bem

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém,
Que no monte é que eu estou bem

Estas casas são caiadas
Estas casas são caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira
Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com o ramo de laranjeira,
Quem seria a caiadeira

(versão interpretada por José Afonso no seu álbum Traz outro amigo também, de 1970)

Eu quero ir para o monte
Quero ir para o monte
Que no monte é que eu estou bem
Que no monte é que eu estou bem

Eu quero ir para o monte
Quero ir para o monte
Que no monte é que eu estou bem
Onde não tenha ninguém

Estas casas estão caiadas
As casas estão caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira

Foi o noivo mais a noiva
O noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira
_________________________

Ó entrudo, ó entrudo, ó entrudo chocalheiro
Ó entrudo chocalheiro
Não deixas parar as moças sentadas ao soalheiro
Sentadas ao soalheiro

Moleirinha dá-me um homem se ele não fora velhaco
Se ele não fora velhaco
Quando vai para o Inferno, leva-me aqui ele no saco
Leva-me aqui ele no saco

Moleirinha dá-me um homem se ele não fora ladrão
Se ele não fora ladrão
Quando vai para o Inferno, leva-me aqui ele na mão
Leva-me aqui ele na mão

Meus senhores vai o entrudo, cachopas deixai-o i
Cachopas deixai-o ir
Daqui a sete semanas o entrudo torna a vir
O entrudo torna a vir

(versões interpretadas por Zeca Medeiros e pelo coro Cramol, no CD Cantigas de Amigos, projecto colectivo de 1999, acompanhadas da seguinte nota:
"Duas versões acopladas desta famosa moda (canção) beirã. A segunda versão é bastante desconhecida e contrasta com o ambiente da primeira")

Tónio Sacoto,
Que lá está ao canto, (bis)
Dá-lhe lá um lenço
Que se baba tanto. (bis)

Entre as numerosas letras com que se canta esta cantiga do Entrudo, consignemos, como mais curiosas, as seguintes:

Tónio Sacoto,
Foi ao Ladoeiro, (bis)
A comprar laranjas,
Não tinha dinheiro. (bis)

Chamais ao um velho,
Tôco de oliveira (bis)
Cheio de formigas,
Não há quem o queira. (bis)

O velho m disse
Que fosse com ele (bis)
A levar as vacas
Junto ao Valverde. (bis)

Tónio Sacoto,
Tem umas cuecas, (bis)
Que as ganhou ele
A guardar marrecas. (bis)

(recolha de Michel Giacometti e de Fernando Lopes-Graça, incluída no disco relativo às Beiras da colecção Portuguese Folk Music, editada em CD pela Strauss, em 1998, integrado no "Projecto discográfico do Ministério da Cultura")

O TEMPO DO ENTRUDO

O tempo do entrudo
É um tempo louco
Faz sair as velhas
Fora dos "atoucos"

E não sei se é por ser
As voltas do entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo
Demudado em nada;
Não sei se é por ser
Voltas d'entruda(da).

Algum dia era eu
E agora já não,
Da tua roseira
(E) o melhor botão.

E não sei se é por ser
As voltas do entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo
Demudado em nada;
Não sei se é por ser
Voltas d'entruda(da).

(Granja de Mourão)

(recolha de Michel Giacometti e de Fernando Lopes-Graça, incluída no disco relativo ao Alentejo da colecção atrás referida)

Lá em baixo está o entrudo
De gordo não pode andar
De gordo não pode andar
Que comeu um burro morto
Entre o almoço e o jantar
De gordo não pode andar

Ó entrudo, ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
As mocinhas ao soalheiro
Ó entrudo chocalheiro

Estas casas são caiadas
Estas casas são caiadas
Quem seria a caiadeira
Foi o noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira

Cá em baixo vai o entrudo
Em farrapos pelo chão
Que comeu um burro morto
Entre o Inverno e o Verão
Em farrapos pelo chão

O entrudo foi á vila
Já não quer de lá sair
Caiu dentro duma pipa
Dá-lhe a mão que quer subir
Já não quer de lá sair

(incluída no álbum de José Afonso, Galinhas do Mato, de 1985 - interpretada por Janita Salomé)

23.2.04

JOSÉ AFONSO

SOU DUMA VAGA PÁTRIA CARINHOSA


Sou duma vaga pátria carinhosa
A de sempre me ver filho das dunas
Molhando os pés no frio das espumas
Carpa mordaça toldo mariposa

Velho litígio rompe das entranhas
(Saí ainda novo das escolas)
Bonzo que me ensinou a ver as horas
À beira rio me contou patranhas

Eu sempre tenho dito tenho dito
Que já não se ouvem pássaros como outrora
A gaivota não vem à luz da aurora
Soltar o seu estranho e agudo grito

Tenho uma pátria póstuma de grilos
(Tu descias amor uma alameda)
Caem-me em cima cheiros de alfazema
Duas gotas de chuva nos mamilos

(incluído em Textos e Canções - org. e notas de J. H. Santos Barros, 2ª ed: Assírio & Alvim, 1988)
JOSÉ AFONSO

Sou um homem comum e não quero que me transformem numa vedeta.
(...)
As pessoas estão contaminadas por um gosto que lhes é fornecido, que lhes é imposto e fixa, na verdade, as preferências da maioria. Torna-se urgente reagir, contribuir para uma higienização desse gosto.
(...)
Encaro tudo por um prisma bastante lúdico. Estou sempre a pensar que, em breve, deixarei de cantar para fazer outra coisa qualquer. De resto, dedico-me a música com menos gosto do que, por exemplo, ao desporto.


(excertos de entrevista concedida a Daniel Ricardo e a Cáceres Monteiro, publicada em Cena 7, suplemento de A Capital, em 26 de Dezembro de 1970)

JCV - (...) tu és uma espécie de vedeta antivedeta. Isso é só natural, ou também cultivas um bocado esse ar e certo tipo de atitudes?
JA - Se queres que te diga, já nem sei. Na minha idade achas que existe alguma coisa completamente natural? Quando somos obrigados a reflectir sobre alguma coisa que à partida fazemos, ficamos cheios de dúvidas. A princípio abria as goelas e cantava... Depois começamos a reflectir. Aliás, aqui temos muita tendência para isso. Esta necessidade que temos d nos abastecer teoricamente, julgo que não a encontramos, por exemplo, nos cantores brasileiros - que, se calhar fazem coisas melhores que nós...

JCV - Continuas a não saber música?
JA - Continuo.
JCV - Como consegues então compor as músicas digamos, mais ricas, elaboradas, de certo modo complexas, dos teus últimos discos?
JA - São coisas que em parte estão na minha cabeça e noutra resultam da colaboração de pessoas que têm muito gosto e muito ouvido - uma delas é o Fausto, outra o Júlio Pereira, que tem percebido muito bem o meu trabalho. Faço uma espécie de estruturas mentais primárias e depois vou-as combinando.

(excertos de entrevista concedida a José Carlos Vasconcelos, publicada no jornal Se7e, em 22 de Abril de 1980)
JOSÉ AFONSO

A MINHA VOZ NÃO OUVE A VOZ DO VENTO


A minha voz não ouve a voz do vento
A minha mão não sente a mão que sinto
Os meus olhos não vêem o que eu vejo
Desisto e invejo o que me dá alento

Seduzo-me a tentar mas não me tento
Pretendo-me sem dar-me o pretendido
Se busco perco-me onde não há p'rigo
Nutro de olvido com que me sustento

Se por aqui não venho ali não sigo
O que me traz por cá foi-me esquecendo
Desfaço o feito e faço o presumido
Nada consigo o nisto vou cedendo

Nisto prossigo e nisto me entendendo
(A voz de bronze que me traz consigo)
Ó minha amada vê como estou vendo
Ceia também comigo ó um amigo

(incluído em Textos e Canções - org. e notas de J. H. Santos Barros, 2ª ed: Assírio & Alvim, 1988)

12.12.03

JOSÉ AFONSO

OS FANTOCHES DE KISSINGER


Em toda a parte baqueia
A muralha imperialista
Na ponta duma espingarda
Os povos da Indochina
Varrem da terra sangrenta
Os fantoches de Kissinger

Mas aqui também semeias
No pátio da tua fábrica
No largo da tua aldeia
A fome, a prostituição
São filhas da mesma besta
Que Kissinger tem na mão

Valor à Mulher Primeira
Na luta que nos espera
Só não há vida possível
Na liberdade comprada
Na liberdade vendida
A morte é mais desejada

A NATO não chega a netos
Abaixo o hidrovião
Na ponta duma espingarda
O Povo da Palestina
Mandou a Golda Meir
Uma mensagem divina

Da CIA não tenhas pena
Tem carne viva nas garras
É a pomba de Kissinger
Toda a América Latina
Se lembra das suas farras
A mesma tropa domina

A mesma tropa domina
Só um é embaixador
Mas nada nos abalança
A dormir sobre a calçada
Faz como o trabalhador
Dorme sobre a tua enxada

Faz como o atirador
Dorme sobre a espingarda

(do álbum Com as Minhas Tamanquinhas, 1976)