24.2.05

VERLAINE

CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne,
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,

Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure;

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà
Pareil à la
Feuille morte

(de Poèmes Saturniens, 1866)


JAMES JOYCE

TRANSLATION OF VERLAINE'S "CHANSON D'AUTOMNE"

A voice sings
Like viol strings
Through the wane
Of the pale year
Lulleth me here
With its strain.

My soul is faint
At the bell's plaint
Ringing deep;

I think upon
A day bygone
And I weep.

Away! Away!
I must obey
Thid drear wind,
Like a dead leaf
In aimless grief
Drifting blind

(datado de "1900-1902")


CANÇÃO DE OUTONO

O pranto longo
Dos violinos
Do Outono
Fere-me a alma
Com um langor fino
Sempre igual

Já sufocando,
Pálido, quando
Bate a hora

Ainda me lembro
De antigos tempos
E então choro;

E vou-me embora
Por um mau vento
Que me leva
Sem rumo, lento,
Tal como leve
Folha morta

(tradução de Fernando Pinto do Amaral, in Poemas Saturnianos e Outros, Assírio & Alvim,1994 - documenta poetica)

23.2.05

JOSÉ AFONSO

ALEGRIA DA CRIAÇÃO

Plantei a semente da palavra
Antes da cheia matar o meu gado
Ensinei ao meu filho a lavra e a colheita
num terreno ao lado

A palavra rompeu
Cresceu como a baleia
No silêncio da noite à lua cheia
Vi mudar estações soprar a ventania
Brilhar de novo o sol sobre a baía

Fui um bom engenheiro um bom castor
Amei a minha amada com amor
De nada me arrependo só a vida
Me ensinou a cantar esta cantiga

Feiticeira
Mãe de todos nós
Flor da espiga
Maldita para tiranos
Amorosa te louvamos
tens mais de um milhão de anos
Rapariga

Quando o lume nos aquece
No grande frio de Inverno
Vem até nós uma prece
Que assim de longe parece
Uma cantiga

Magistrada Nossa natural
Vitoriosa
Curandeira dos aflitos
Amante de mil maridos
Há mais de um milhão de idos
tormentosa

Quando a fera encarcerada
Que dentro de nós suplanta
Quebra a gaiola sozinha
Voa voa endiabrada
Uma andorinha

(do álbum Galinhas do Mato, 1985)

21.2.05

[só para demonstrar o equívoco de umas certas afirmações]

RUI MANUEL AMARAL

Eléctrico n.º 18


Tarde cinzenta de domingo. Chuva a bater nos vidros,
pouco trânsito desaparecendo nas ruas quase desertas do fim-de-semana.
Lembra-me as antigas tardes de Inverno
em que descíamos de eléctrico a avenida da Boavista
entre as pequenas histórias do dia e o vento frio
que crescia nas janelas.
Vagaroso como um caracol, o velho eléctrico seguia pela tarde,
por dentro da sua fina concha de sal.
Cinco mil metros de solidão até ao mar
e o meu amor a desaparecer sob uma nuvem de espuma.

Imenso o céu, intocado pelo brilhos das vastas ondas,
o mar tão branco enrolando nos cabelos,
a invadir os muros, a ecoar nas fachadas.
Homens e gaivotas remoinhando no vento,
os dedos claros como grãos de areia.
Por entre as árvores baixas da foz
o mar espalhava as suas sementes misteriosas.

Há muito que o eléctrico não desce a longa avenida.
Hoje lembrei-me de ti. A tarde caía para sempre
no coração sombrio deste longo Inverno.
Um resto de morte invadiu-me antes ainda de a noite nascer.

(in Diário de Notícias de 7 de Fevereiro de 1999 - secção DN Jovem)


CEUTA

Café Ceuta. Anoitecer. À minha volta as mesas estão vazias. Dois
empregados conversam ociosamente encostados ao balcão. A porta abre-se
(vento frio). Um homem entra. Senta-se do outro lado da sala. Um
empregado aproxima-se. O homem pede um café. O empregado afasta-se.
O homem tira um livro da mala preta e pousa-o sobre a mesa. Acende um
cigarro. Lê a primeira página. O empregado traz o café. O homem bebe um
pouco. Depois arranca a página e come-a. Lê a página seguinte. Acaba de
beber o café. Arranca essa página e come-a também. Apaga o cigarro.
Fecha o livro e guarda-o na mala preta. Levanta-se. Aproxima-se da porta
(vento frio).

Noite. As mesas continuam vazias. lá fora as árvores na praça falam entre si,
na sua linguagem nublada de anjos da distância.

(de Quartzo, Feldspato e Mica, incluído em Com faca e garfo - colectânea de Jovens Criadores 2001, Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2002)


You Are Here

Meia-noite no porto a um domingo de tarde.
O sol avança sem vontade, como um gato ensonado,
pelas amenas ruas de Fevereiro.
Os cafés rangem cheios de gente
acendendo e apagando eternos cigarros
impregnados de Inverno.
Os velhos cruzam a cidade,
aos pares nos autocarros,
de lá para cá e de cá para lá,
dormindo profundamente.
E os pássaros quase se deixam apanhar,
Flutuando como borboletas pesadas
Sobre os canteiros indolentes das praças.
Tudo isto se pode ver em plena penumbra.
E tudo isto Fevereiro arruma,
lenta e meticulosamente,
ao longo de uma interminável tarde de domingo.
E pronto. Mais nada.

(de Bronze, incluído em A Semiologia Segundo Tarzan Taborda - colectânea de Jovens Criadores 2002, Íman edições e Clube Português de Artes e Ideias, 2003)
MÁRIO DE CARVALHO

Um homem quis ir até ao fim do mundo e foi.
Era uma grande falésia que dava para um abismo.
- Mas onde é que fica mesmo o fim do mundo? - duvidou o homem.
- Aqui ou lá em baixo?

(de Fabulário, &etc, 1984)

20.2.05

CLIVE BRANSON

DOMINGO À TARDE


Aragem delicada que basta para agitar
poeira leve, pequena folha, pela asa de um insecto

música de dança na telefonia; entre o prisioneiro
e a rapariga vestida como rosa, um sorriso.

Uma folha, uma rã, uma sombra, um pedaço de papel,
um gotejar de água, ler, escrever,

coisas que numa calma mais funda do que tudo
levaram toda a tarde à deriva no canal.

(tradução de João Ferreira Duarte, in Leituras - poemas do inglês, Relógio d'Água, 1993)