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3.11.17

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES


O poema é sempre o texto de um autor, duma «vida pessoal». Quanta vegetativa elucubração sobre Pessoa teríamos a possibilidade de não ler e ouvir se se conhecesse melhor a situação do problema onde Pessoa o foi buscar como problema: à tradição do modernismo anglo-saxónico. No âmbito da poesia, felizmente, o caso foi rapidamente ultrapassado, a próprio nível dos modernistas, pela qualidade inescapavelmente pessoal da obra desses autores. Mas o mesmo não se verificou na tradição crítica resultante do tipo de leitura que tais posições de tais poetas pareciam exigir para a sua obra. E hoje um paredão terminológico parece erguer-se obrigatoriamente ante quem queira entender a poesia do seu tempo e partir desta questão que nem precisa de ter saída: quem escreve um poema é a problemática dum autor, o sujeito dum poema é sempre o seu autor seja qual for a retorica usada para se expressar, e esse autor é a totalidade desse discurso. O sujeito dum poema é a globalidade do poema que é a pessoa do seu autor.


(excerto de uma nota de rodapé a «Philip Larkin, um poeta da tristeza e da aceitação», posfácio a Uma Antologia, de PHILIP LARKIN, com tradução de Maria Teresa Guerreiro, Fora do Texto, 1989)

22.7.11

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES


[...]
A aproximação a qualquer poema instaura o caos. Perdida circula a sabedoria dos homens entre esses elementos esfarelando-se e contudo muro sempre a mais avançadas incursões. Por isso, a voz do analisador surge por vezes como salvação. Ele possui os instrumentos que não ordenam o caos, mas que medem os curtos elementos que se dispersam ou amontoam. E fornece essas medidas, e as relações ténues (misteriosa gravidade unindo as palavras) que os elementos entre si mantêm. Deste modo, abre uma pista, e outra, e muitas mais ainda, e vai dizendo que milhares de outras vão ser possíveis mais tarde, que mesmo estas palavras talvez não sejam senão atalhos sem saída que é preciso, apesar de tudo, tentar.
São todos, porém, analisadores de uma obra. Ninguém a documenta melhor em si senão o próprio leitor, e o crítico nem de ajuda serve quando o entendimento já se conseguiu. Porque só didáctica é a função do crítico: ele apenas poderá ajudar quem não entende. Porque desde que o leitor tenha entendido, seja de que maneira for, a obra, essa é que é a obra e não a que outro entendimento lhe oferece. Em literatura não há erro, só a repetição se condena. Porque literatura fá-la quem lê e quem cria, ela não é só pertença de um dos lados desta dualidade. A obra não é literatura, quanto o leitor não é literatura. Literatura é a obra mais o ler a obra. Criação e leitura têm que se juntar para que seja literária a obra.
E daqui que faça o leitor a literatura. E daqui que seja má a literatura se a leitura o for, apesar de a obra ser boa. (Má, porém, não quer dizer errada, pois que erro não existirá nunca nestes campos: má é deficiente, é de nível inferior a).
Digam-me o que disserem, disto não me desconvencem. Nem me livram deste terror em que me alegro quando subitamente me vejo fazendo com a leitura desta obra a sua conversão em literatura; quando descubro no caos que ela é agora para mim um certo caminho, uma certa força orientadora; quando penso na possibilidade de muitos outros lhe assentarem mais completos instrumentos (quer de sensibilidade quer de conhecimento) e assim lhe descobrirem pistas mais claras e seguras.
E humildemente me preparo para avançar. Porque sei que ao fazer, com a obra, a literatura, eu o faço porque primeiramente a obra me criou e me deu uma sua medida; porque sei que lê a obra o leitor antes que o leitor a leia, e será ela própria quem indica ao técnico da leitura qual o instrumento mais certo para a tentativa. Humildemente avanço para a criação de modo a com ela recriar.


(excerto do posfácio a Sob Sobre Voz, de João Miguel Fernandes Jorge, 1971 / reproduzido em Os Dois Crepúsculos - Sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas, A Regra do Jogo, 1981)

25.4.10

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES


25 DE ABRIL DE 1974
[excerto]

O telefone tocou. Tão de noite
e sem sentido que temi acordar-me.
A minha irmã agitava-se do Minho
que Lisboa estava cercada.
Não sabia como nem porquê. Nem o rádio
com marchas. É o Programa da Noite
com folclore de estádio, pensei eu
a caminho de nova campainha.
Era a vez algarvia da Ana. Sublevação,
confiava ela. E de comunicado,
ouvíamos os dois na Emissora
com Hino fora do encerramento.
A confusão adensava mas sempre era
confusão, ao menos isso.

Vesti-me e fomos para a rua
acordar o Palolo. “É uma revolução!”
Foi à janela e viu gente a correr.
“Agora! É a feira cá do bairro.”
Ríamo-nos nesse dia de mais mercado
a uma luz matinal estremunhada
que nunca mais voltaria a haver.
Andámos por todo o lado a ver a tropa
nos blindados de fantasia.


(de Os dias, pequenos charcos, editorial Presença, 1981)

23.3.10

[outros melros LVIII]


JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES


Cape Cod Evening


Subo no fim da tarde
com os fumos das ervas secas
ao alto donde se vê o mar.
Recolho os cereais cortados.

A hera cresce pelo choupo.
Os plátanos raiam com a luz.
A rã saiu do lodo para a fonte.
Os bugalhos tombam
no barro dos campos.
Cantam os melros no trigo colhido.

Voltei, vê tu, dizem as coisas.

A luz interior acende-se
no poço da voz, mortal
e pronta a não mais findar.


(de Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987)

17.8.09

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

[excerto inicial de] «DAS VIDAS, MORTES DURAS»

O vapor em que Camilo Pessanha seguia para Macau — e por razões que para ele próprio ficaram completamente secretas — teve de parar durante alguns dias no porto de Angra. Falou-se de uma improvável avaria demorada, depois de alguns dias de tempestade, o que não parecia fazer sentido algum. Havia, contudo, maus ventos e o próprio ancoradouro agitava excessivamente o navio. Pessanha resolveu procurar alojamento na ilha, de tal modo lhe era insuportável o quotidiano a bordo, mas foi impossível encontrar sequer um quarto na cidade. Apenas na Praia da Vitória a viúva de um juiz lhe cedeu onde ficar, devido ao súbito acaso da descoberta de o professor de Macau ter sido colega de seu marido em Coimbra.
Camilo Pessanha levou consigo uma pequena mala de couro já muito gasto. O imediato, um holandês de Utrecht chamado Langendorff que também se interessava pela dinastia Ming, avisá-lo-ia de véspera, pois precisava de meio-dia para regressar, embora se sentisse no sorriso alheado do professor que lhe seria indiferente continuar a viagem ou perdê-la. A casa ficava numa zona abrigada da vila e, na noite em que chegou, ouviu ondas dobrarem para lá de um morro.
Na manhã seguinte, a viúva tinha já partido para a missa e a mesa, numa pequena sala perto da cozinha, tinha leite e pão. Uma criada baixinha perguntou-lhe se queria chá, por certo incomodada pelos escarros que juntava num largo lenço já bastante sujo. Uma bola, quase lhe parecera de trapo, bateu na vidraça. Um rapazote saltava do pátio de uma casa com muitas varandas de madeira. "É o menino Vitorino, anda sempre com livros e não tem modos de crescer As tias não têm mão nele, mas devem gostar assim. O senhor quer mais leite?"
A limpeza da casa e o vazio das paredes sem qualquer sentido de acumulação acentuavam-lhe o tédio. Os seus olhos mortos viam no lambril da sala o primeiro sol. Essa hora de luz acordava-lhe nos braços um torpor onde nenhum elixir triunfava da ausência do outro corpo caído, muito longe, sobre qualquer chão nu. Fechava os punhos indecisos entre o guardanapo e os talheres, o pescoço metido nos ombros, os pés como que suspensos do soalho, os olhos vesgos e de cor diferente, abraçado pela memória, pela despedida, pela desrazão.
Diante da janela uma liliácea, sorriu. Uma pseudo-árvore, o dragoeiro, inclinava os seus galhos inúmeros à pressão de antiquíssimos vento. Sangue de drago, ocorreu a Pessanha. A goma tinturial toldou-lhe uma gargalhada, mas enterneceu-o pensar que nos seus dias, o que fora um produto capaz de servir a imaginação da cor não passava de um decorativo elemento de jardim. Os fundos que foram líquidos ferventes, que depois formaram a manta de pedra viva dos polmes, dobravam-se agora na placidez que esquece os cataclismos, como dentro de si os olhos esqueciam enquanto olhava o canto vegetal. A frágil agitação das gingkobilobas, essas árvores ternas onde os raios de ventos e sol soçobram, ligava-o ao mundo dos seres extintos, mas ainda absurdamente sobrevivos.
[...]

(in Do Corvo a Santa Maria, com fotografias de José Sousa Gomes, Relógio D'Água editores, 1993)

27.2.08

[de como um leitor acha não se haver desencontrado com a memória deste poeta #9]

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

«Motivos alheios à sua vontade»

Foram estas cinco, as últimas palavras que escreveu. Nelas interrompeu Ruy Belo o currículo que repetia a pretensão de concorrer a um posto da Faculdade de Letras de Lisboa que vira anunciado num jornal. Mas essas ocasionais palavras atingidas pela despedida absoluta, figuravam o inquietante brazão daquilo em que se haviam tornado os seus últimos anos. Um homem obstinadamente retirado das ribaltas, submetido a uma profissão inadequada, preso ao reduto de um corpo demasiado pesado para a mobilidade da sua mente.
A morte de um poeta torna-se, muitas vezes, um alto momento exemplar. Ela evidencia todas as taras da organização nacional e põe a nu os critérios culturais de um povo. Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar.

(início de um artigo sobre Ruy Belo, in Os dois crepúsculos – sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas, A Regra do Jogo, 1981)