Mostrar mensagens com a etiqueta Neruda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Neruda. Mostrar todas as mensagens

20.6.14

PABLO NERUDA


XVIII

Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas
que arderam de doçura ou enfureceram
o aguilhão: o certame continua,
vão e vêm as viagens do mel à dor.
Não, não se desfia a rede dos anos: não há rede.
Não caem gota a gota de um rio: não há rio.
O sonho não divide a vida em duas metades,
nem a ação, nem o silêncio, nem a virtude:
a vida foi como uma pedra, um só movimento,
uma única fogueira que reverberou na folhagem,
uma flecha, uma só, lenta ou ativa, um metal
que subiu e desceu queimando-se em teus ossos.


(de Ainda, trad. de Olga Savary, José Olympio Editora, 1995)

17.7.11

[há dias, assinalando o aniversário de nascimento de Neruda, coloquei aqui poemas seus traduzidos por vários Poetas portugueses. Escapou-me a tradução que Couto Viana fez de As Pedras do Céu, de que fica aqui um poema.]

PABLO NERUDA


XX


É áspera a americana cordilheira,
nevada, hirsuta e dura,
planetária:
o azul dos azuis é ali que jaz,
o azul solidão, azul secreto,
o ninho do azul, o lápis-lazúli,
o esqueleto azul da minha pátria.

A mecha arde, cresce o estalido
e esmigalha-se então o peito à pedra:
depois do dinamite é ténue o fumo
e sob o fumo o ossamento azul
e os terrões de pedra ultramarina.

Oh catedral dos azuis enterrados,
pequeno abalo de cristal azul,
olho do mar coberto pela neve
uma outra vez à luz voltas da água,
ao dia, à pele clara
do espaço,
ao céu azul volta o terrestre azul.


(de As Pedras do Céu, in Por Outras Palavras, traduções de António Manuel Couto Viana, Vega, 1997 / original: Las piedras del cielo, 1970)

12.7.11

PABLO NERUDA


BAIRRO SEM LUZ


Vai-se embora das coisas a poesia
ou não a pode a vida condensar?
Ontem – olhando o último crepúsculo –
eu era mancha de musgo entre ruínas.

As cidades – fuligens e vinganças –,
a porcaria cinzenta dos subúrbios,
a oficina que verga as espaldas,
o patrão de olhos túrbidos.

Sangue púrpura sobre as colinas,
sangue sobre as ruas e as praças,
dor de quebrados corações,
podre de fastios e lágrimas.

Um rio abraça o subúrbio
com mão gelada que procura nas trevas:
sobre as suas águas
olham-se as estrelas com vergonha.

E as casas que escondem os desejos
por trás de luminosas janelas,
enquanto lá fora o vento
a cada rosa leva um pouco de lama.

Ao longe... a bruma do esquecimento
– espessos fogos, desfeitos quebra-mares –
e o campo, o verde campo! onde ofegam
os bois e os homens melancólicos.

Eu vou crescendo por entre as ruínas,
a sós remoendo toda a tristeza,
como se o pranto fosse uma semente
e eu o único sulco da terra.


(de Crepusculário, tradução e prefácio de Rui Lage, edições Quasi, 2005 / original: Crepusculario, 1923)


EU FUI MARCANDO...

Eu fui marcando com cruzes de fogo
o atlas branco do teu corpo.
A boca era uma aranha que corria a esconder-se.
Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta.

Histórias para contar-te à beira do crepúsculo
boneca triste e meiga, para que não estivesses triste.
Um cisne, uma árvore, algo longínquo e alegre.
O tempo da vindima, o tempo maduro e frutífero.

Eu que vivi num porto que era de onde te amava.
A solidão percorrida de sonho e de silêncio.
Encurralado entre o mar e a tristeza.
Calado, delirante, entre dois gondoleiros imóveis.

Entre os lábios e a voz, algo vai já morrendo.
Algo com asas de pássaro, algo de angústia e de olvido.
Da mesma forma que as redes não retêm a água.
Boneca minha, quase nem ficam gotas tremendo.
Mesmo assim algo canta entre estas palavras fugazes.
Algo canta, algo sobe até à minha ávida boca.
Oh poder celebrar-te com todas as palavras de alegria.
Cantar, arder, fugir, como um campanário nas mãos de um louco.
Triste ternura minha, mudas-te em quê de repente ?
Quando eu cheguei ao vértice mais atrevido e frio
fecha-se o meu coração como uma flor nocturna.


(de Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, tradução de Fernando Assis Pacheco, publicações Dom Quixote, 1971 / original: Veinte poemas de amor y una canción desesperada, 1924)


WALKING AROUND

Acontece que me canso de ser homem.
Acontece que entro nas alfaiatarias, nos cinemas,
flácido, impenetrável, como um cisne de feltro
que navega numa água de origem e de cinza.

O odor das barbearias faz-me chorar aos gritos.
Quero apenas um descanso de pedras ou de lã,
quero não ver estabelecimentos nem jardins,
nem mercadorias, lunetas, ascensores.

Acontece que me canso de meus pés e minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e a dar gritos até morrer de frio.

Não quero continuar a ser raiz nas trevas,
vacilante, estendido, a tiritar de sono,
descendo, nas cercas molhadas da terra,
absorvendo e pensando, a comer dia após dia.

Não quero para mim tantas desgraças.
Não quero fazer mais de raiz e de túmulo,
de subterrâneo só, de adega com defuntos,
inteiriçados, e a morrer de angústia.

Por isso a segunda-feira arde como petróleo
quando me vê chegar com cara de prisão,
e uiva no seu decurso qual uma roda ferida,
e dá passos de sangue ardente rumo à noite.

E empurra-me para certos recantos, para certas casas húmidas,
para hospitais onde os ossos saem pela janela,
para certas sapatarias com odor a vinagre,
para ruas espantosas como fendas.

Há pássaros cor de enxofre e horríveis intestinos
pendurados nas portas das casas que eu odeio,
há dentaduras esquecidas numa cafeteira,
há espelhos
que deveriam ter chorado de vergonha e espanto,
há guarda-chuvas em toda a parte, e venenos, e umbigos.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.


(in Antologia de Pablo Neruda, selecção e tradução de José Bento, editorial Inova sarl, 1973 / original de Residencia en la tierra, 1935)


HINO E REGRESSO

Pátria, pátria minha, a ti regressa meu sangue.
Mas peço-te, como o filho cheio de pranto
pede à mãe:
…………...……Acolhe
esta guitarra cega
e esta fronte perdida.
Saí a procurar-te filhos pela terra,
saí a erguer vencidos com teu nome de neve,
saí a erguer uma casa de madeira pura
e a levar a tua estrela aos heróis feridos.

Agora quero dormir na tua substância.
Dá-me uma clara noite de cordas penetrantes,
a tua noite de navio, altura de estrelas.

Pátria minha: quero mudar de sombra.
Pátria minha: quero trocar de rosa.
Quero pôr o braço na tua frágil cintura
e sentar-me nas tuas pedras calcinadas pelo mar
para deter o trigo e olhá-lo por dentro.
Vou escolher a flora delgada do nitrato,
vou fiar o estambre glacial do sino
e olhando a tua ilustre e solitária espuma
tecerei à tua beleza um ramo litoral.

Pátria, pátria minha,
rodeada de água combatente
e neve combatida,
em ti a águia junta-se ao enxofre
e na tua antártica mão de arminho e de safira
uma gota de pura luz humana
brilha incendiando o céu inimigo.

Guarda a tua luz, oh pátria!, mantém
a dura espiga de esperança no meio
do cego ar temível.
Na tua remota terra caiu toda esta luz difícil,
este destino de homens,
que te faz defender uma flor misteriosa,
só, na imensidade da América adormecida.


(in Trocar de Rosa, traduções de Eugénio de Andrade, Na Regra do Jogo, 1980 / original de Canto general, 1950)


III
OLHAR SOBRE A GRÉCIA

Oh lágrimas, ainda não é tempo
de acudirdes aos meus olhos,
de acudirdes aos olhos dos homens,
pálpebras, erguei-vos
da escuridão do sono, claras
ou sombrias pupilas,
olhos sem lágrimas, olhai a Grécia
crucificada em seu madeiro.
Olhai-a toda
a noite, todo o ano, todo o dia,
vertendo o sangue do seu povo,
ferindo as fontes
em seu terrível capitel de espinhos.
Vede, olhos do mundo,
o que a Grécia, a pura,
suporta, a chicotada
do mercador de escravos,
e assim de noite e ano e mês e dia
vede como se levanta a cabeça
do seu povo orgulhoso.
De cada gota
caída do martírio
cresce de novo o homem,
o pensamento tece as suas bandeiras,
a acção confirma pedra a pedra
e mão a mão
a altura do castelo.

Oh Grécia clara,
se em ti a escuridão despejou o seu saco
de estrelas negras, sabes
que em ti própria
está a claridade, que tu recebes
a noite inteira em teu regaço
até que das tuas mãos
a aurora se levante,
voo branco molhado de orvalho.
À sua luz ver-te-emos,
antiga e clara mãe dos homens,
sorrir, vitoriosa,
mostrando-nos outra vez a tua
…………………………………..........…brancura
de estátua, entre os montes.


(de As uvas e o vento, tradução de Albano Martins, Campo das Letras, 2007 / original: Las uvas y el viento, 1954)


Ode à vida

Toda a noite
com um machado
a dor me feriu,
mas o sonho
passando lavou como uma escura água
ensanguentadas pedras.
Hoje estou vivo novamente.
De novo
te levanto,
vida,
sobre os meus ombros.

Ó vida,
taça cristalina,
de súbito
enches-te
de água suja,
de vinho morto,
de agonia, de desgraças,
de pegajosas teias de aranha,
e muitos crêem
que guardarás para sempre
essa cor infernal.

Não é verdade.

Uma noite lenta passa,
passa um só minuto
e tudo muda.
Enche-se
de transparência
a taça da vida.
Um longo trabalho
nos espera.
De um só golpe nascem as pombas.
Se engendra a luz sobre a terra.
Vida, os pobres
poetas
julgaram-te amarga,
não saíram da cama
contigo
com o vento do mundo.

Sofreram os amargores
sem te procurar,
barricaram-se
num negro tugúrio
e foram-se atolando
no luto
dum solitário poço.
Não é verdade, vida,
és
bela
como a minha amada
e tens entre os seios
odor a menta.

Vida
és uma máquina plena,
felicidade, rumor
de tempestade, ternura
de delicado azeite.

Vida,
és como uma vinha:
amealhas a luz e reparte-la
em cacho transformada.

Aquele que te renega
que espere
um minuto, uma noite,
um ano curto ou longo,
que saia
da sua mentirosa solidão,
que indague e lute, junte
as suas mãos a outras mãos,
que não adopte nem proclame
a má-sorte,
que a estilhace dando-lhe
forma de muro,
como à pedra fazem os canteiros,
que a corte
e dela faça
umas calças.
A vida espera
todos aqueles
que amam
o selvagem
odor a mar e a menta
que ela tem entre os seios.


(de Odes Elementares, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1977 / original: Odas elementales, 1954)


PARA TODOS

De repente não posso dizer-te
o que te deveria dizer,
homem, perdoa-me, saberás
ainda que não escutes as minhas palavras
que não me pus a chorar nem a dormir
e que estou contigo sem te ver
desde há muito e até ao fim.

Eu percebo que muitos pensem,
e Pablo o que faz? Estou aqui.
Se me procurares nesta rua
encontrar-me-ás com o meu violino
preparado para cantar
e para morrer.

Não é por querer deixar alguém
nem aos outros, nem a ti,
e se escutares com atenção, na chuva,
poderás ouvir
que vou e venho e me demoro.
E sabes que devo partir.

Se não se entendem as minhas palavras
não julgues que sou o que outrora fui.
Não há silêncio que não se acabe.
Quando chegar o momento, espera-me,
e que saibam todos que saio
à rua, com o meu violino.


(de Plenos Poderes, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1975 / original: Plenos poderes, 1962)


Começo por invocar Walt Whitman

É por acção de amor ao meu país
que te reclamo, ó necessário irmão,
velho Whitman da cinzenta mão,

para que, com teu apoio extraordinário,
verso a verso, matemos de raiz
Níxon, o presidente sanguinário.

Sobre a terra não há homem feliz,
ninguém trabalha bem no planeta
se em Washington respira o seu nariz.

Pedindo ao velho bardo que me invista,
os meus deveres assumo de poeta
armado do soneto terrorista,

porque devo ditar sem pena alguma
a sentença até agora nunca vista
de fuzilar um criminoso ingente

que apesar das suas viagens para a lua
já matou na terra tanta gente,
que até foge o papel e a pena se alevanta

ao escrever o nome do maldito,
do genocida, o da Casa Branca.


(de Incitamento ao Nixonicídio e louvor da Revolução Chilena, tradução de Alexandre O’Neill, Agência Portuguesa de Revistas, 1975 / original: Incitación al nixonicidio y alabanza de la revolución chilena, 1973)

3.1.11

PABLO NERUDA


NÃO HÁ ESQUECIMENTO

(SONATA)

Se me perguntais onde estive,
devo dizer «Acontece».
Devo falar do chão que as pedras escurecem,
do rio que permanecendo se destrói:
não sei senão as coisas que os pássaros perdem,
o mar que ficou para trás ou minha irmã chorando.
Porquê tantas regiões, porquê um dia
se junta a outro dia? Porquê uma negra noite
se acumula na boca? Porquê mortos?
Se me perguntais de onde venho, tenho que conversar com coisas gastas,
com utensílios demasiado amargos,
com grandes animais muitas vezes já podres
e com meu angustiado coração.

Não são as lembranças que se atravessaram,
nem é a pomba amarelenta que no esquecimento dorme,
mas sim faces com lágrimas,
dedos na garganta, e o que se desmorona das folhas:
a escuridão de um dia decorrido,
de um dia alimentado com o nosso triste sangue.

Eis aqui violetas, andorinhas,
tudo o que nos agrada e aparece
nos doces cartões de visita de longa cauda
onde passeiam o tempo e a doçura.
Mas não penetremos para além desses dentes,
não mordamos as cascas que o silêncio acumula,
pois não sei que responder:
há tantos mortos,
e tantos molhes que o sol rubro partia,
e tantas cabeças que batem nos navios,
e tantas mãos que encerraram já beijos,
e tantas coisas que desejo esquecer.


(tradução de José Bento, in Antologia de Pablo Neruda, editorial INOVA, 1973 - original de Residencia en la tierra, 1933)

16.7.08

PABLO NERUDA

XVI


Eis a árvore aqui na pura pedra,
na evidencia, na dura formosura
por cem milhões de anos construída.

Ágata e cornalina e luminária
substituíram seivas e madeira
até que o tronco do gigante
recusou a molhada podridão
e moldou uma estatua paralela:
a folhagem vivente
se desfez
e quando o vertical foi derrubado,
queimado o bosque, a ígnea poeirada,
a celestial cinza o envolveu
até que tempo e lava lhe outorgaram
um galardão de pedra transparente.

(tradução de António Manuel Couto Viana, in Por Outras Palavras, Vega, 1997 - original de Las piedras del cielo, 1970)

11.1.06

[no dia em que, na Terra, passam todos para o mesmo dia]

PABLO NERUDA

Ode à alegria


Alegria
folha verde
caída da janela,
minúscula
claridade
recém-nascida,
elefante sonoro,
rutilante
moeda,
às vezes
pequena faísca,
mas
sempre melhor do que isso:
o pão diário,
a esperança satisfeita,
o dever cumprido.
Alegria,
porque fui mal aconselhado,
desprezei-te.
A lua
desencaminhou-me.
Os antigos poetas
vendaram-me os olhos
e junto de cada coisa
um halo sombrio
deixei.
Sobre a flor como coroa negra,
sobre a boca amada
um triste beijo.
Mas ainda não é tarde.
Deixa que me arrependa.
Pensei apenas
que se queimava
o meu coração
na sarça do tormento,
se a chuva molhava
as minhas vestes
na comarca roxa do luto,
se fechava
os olhos à rosa
e bulia na ferida,
se partilhava todas as dores,
eu ajudava, assim, os homens.
Não fui correcto.
Enganei-me no caminho,
mas hoje chamo por ti, alegria.

És
necessária
como a terra.

És pura
como o pão.

Como a água dum rio
és sonora.

Voando repartes o mel
como uma abelha.

Alegria,
eu fui um jovem taciturno,
achei que a tua cabeleira
era escandalosa.

Mas não era verdade, soube-o
quando no meu peito
a sua torrente rebentou.

Hoje, alegria,
encontrada na rua,
longe de qualquer livro,
acompanha-me:

contigo
quero ir de casa em casa,
de aldeia em aldeia,
de bandeira em bandeira.
Tu não és só para mim.
Iremos às ilhas
e aos mares.
Iremos às minas
e aos bosques.

E nem só os solitários lenhadores
as pobres lavadeiras
ou os agrestes, veneráveis
canteiros,
me hão-de receber com os teus frutos,
mas também os congregados,
os reunidos,
o sindicatos marítimos ou madeireiros,
os valentes rapazes
em luta.

Ir pelo mundo contigo!
Com o meu canto!
Com o voo entreaberto
da estrela,
e com o júbilo
da espuma!

Com todos cumprirei
o prometido
porque a todos
devo a minha alegria.
E ninguém fique surpreendido por eu querer
entregar aos homens
os bens da terra
pois lutando aprendi
que é meu dever terrestre
propagar a alegria.

Assim, cumpro o meu destino
com o meu canto.

(de Odes Elementares, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1977; 2ª ed.: 1998)

12.7.04

PABLO NERUDA

O MAR


Um único ser, mas não existe sangue.
Uma carícia apenas, morte ou rosa.
Vem o mar e reúne as nossas vidas,
sozinho ataca e reparte-se e canta
em noite e dia e criatura e homem.
A essência: fogo e frio: movimento.

(de Plenos Poderes, tradução de José Bento, in Antologia de Pablo Neruda, editorial Inova SARL, 1973 - colecção as Mãos e os Frutos)

2.5.04

[cebolas e Prémio Nobel]

PABLO NERUDA

ODE À CEBOLA


Cebola,
luminosa redoma,
pétala a pétala
formou-se a tua formosura,
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra sombria
arredondou-se o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
deu-se o milagre
e quando apareceu
teu rude caule verde,
e nasceram
as tuas folhas como espadas no horto
a terra acumulou seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar distante
duplicou a magnólia
levantando-lhe os seios,
a terra
fez-te assim,
cebola,
clara como um planeta,
e destinada
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
dos pobres.

Generosa
desfazes
teu globo de frescura
na consumação
fervente do cozido,
e o girão de cristal
ao calor inflamado do azeite
transforma-se em ondulada pluma de ouro.

Recordarei também como a tua influência
fecunda o amor da salada
e parece que contribui o céu
dando-te a fina forma do granizo
a celebrar a tua luz picada
sobre os hemisférios de um tomate.
Mas ao alcance
das mãos do povo,
regada com azeite,
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no duro caminho.
Estrela dos pobres,
fada madrinha
envolta
em delicado
papel, tu sais do solo,
eterna, intacta, pura
como semente de astros,
e ao cortar-te
a faca de cozinha
sobe a única lágrima
sem mágoa.
Fizeste-nos chorar mas sem sofrer.
Tudo o que existe celebrei, cebola,
mas para mim és
mais formosa que um pássaro
de plumas ofuscantes,
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina,
baile imóvel
de anémona nevada

e a fragância da terra inteira vive
na tua natureza cristalina.

(tradução de José Bento, in Antologia de Pablo Neruda, editorial Inova, 1973 - As mãos e os frutos)


WISLAWA SZYMBORSKA

Cebola


A cebola é outra coisa.
Planta sem intimidade.
Retintamente cebola
à última cebolidade.
Acebolada por fora,
cebulona no tutano,
poderia entra em si
sem se causar qualquer dano.

Em nós selva e estranhamento,
que uma pele mal sustenta
o nosso inferno uterino,
anatomia violenta,
e, na cebola, cebola,
um lisíssimo intestino.
La muitas vezes nua,
Até ao miolo mais fino.

Cebola ser sem contrários,
cebola bem sucedida,
na maior a mais pequena,
uma na outra metida,
e na seguinte outra ainda,
uma quarta e uma quinta.
Fuga em espiral para o centro,
eco no coro à medida.

Cebola eu bem te compreendo,
mais belo ventre do mundo,
tu própria em tuas auréolas
do teu sucesso profundo.
Em nós gorduras e nervos,
mucos, veias e recessos,
e ao kitch do ser perfeito
é-nos vedado o acesso.

(tradução de Júlio Sousa Gomes, in Paisagem com Grão de Areia, Relógio d'Água, 1998)

7.12.03

[Neruda a fazer inveja a Carlos Tê...]

PABLO NERUDA

A areia


Estas areias de granito amarelo são privativas, insuperáveis. (A areia branca, a areia negra, aderem à pele, ao fato, são impalpáveis e intrusas.) As areias douradas de Isla Negra estão feitas como pequeníssimos penhascos, como se proviessem de um planeta demolido, que ardeu longe, lá em cima, remoto e amarelo.
Toda a gente atravessa a margem arenosa agachando-se, e procurando, remexendo, a tal ponto alguém chamou a esta costa «a Ilha das Coisas Perdidas».
O oceano é incessante fornecedor de pranchas carcomidas, bolas de vidro verde ou bóias de cortiça, fragmentos de garrafa enobrecidos pelas ondas, detritos de caranguejos, búzios, lapas, objectos devorados, envelhecidos pela pressão e pela insistência. Existe espinhas quebradiças ou ouriços minúsculos ou patas de navalheira roxa, o serpentino cochayuyo, alimento dos pobres, alga interminável, e redonda como uma enguia, que resvala e brilha, sacudida ainda na areia pela onda reticente, pelo oceano que a persegue ainda. E já se sabe que esta planta marinha é a mais comprida do planeta, crescendo até quatrocentos metros, presa como um titânico ramo parasita à penedias, sustentando-se como uma divisão de bóias que sustêm a cabeleira da alga macrocristis com milhares de pequenas tetas de âmbar. E como no território andino voa o condor e sobre o mar chileno se reúnem planando todas as famílias do albatroz e como o cachalote ou baleia dentada submergiu nas nossas águas e aqui sobrevive, somos uma pequena pátria de asas muito grandes, de cabeleiras muito longas sacudidas pelo grande oceano, de presenças sombrias nos porões do mar.

(de Una Casa en la Arena, 1966 / Uma Casa na Areia, publicações Dom Quixote, 1998 - tradução de Fernando Assis Pacheco)