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14.9.17

ALBERTO PIMENTA


Pode um poema, para além do chamado efeito estético, que não se sabe muito bem o que seja (para especialistas é simplesmente a qualidade que o torna diferente do discurso pragmático, facto quase sempre enigmático também para eles, e quanto ao que isso provoca é questão do leitor), pode, perguntava eu, criar algum alívio no leitor que se encontra em profundo estado de tristeza, ou então refrear a sua alegria efusiva levando-o a reflexões pesadas, dado que isso não se considere em si o tal efeito estético?


(primeiro parágrafo da nota final do tradutor a A Rima do Velho Marinheiro, de S. T. COLERIDGE, Edições do Saguão, 2017)

23.1.15

ALBERTO PIMENTA


uma arte de «crueldade»

Efectivamente, nos últimos decénios, a evolução e o aperfeiçoamento da «metafísica tecnológica» e o consequente descrédito da ideologia, o seu carácter profundamente 'kitsch', derivado da sua falta de autenticidade, também do abismo entre realidade humana e teoria humana (e humanitária), a interferência crescente da informação (totalitária) na liberdade de conhecer, não deixaram à razão estética outra solução além da recusa cada vez mais obstinada e intransigente de aceitar os seus sistemas simbólicos, com a consequente luta aberta de princípios: uma luta perdida a priori, é certo, mas ainda não terminada e que não pode senão encarniçar-se de ambas as partes, recrudescendo apenas de crueldade e violência. Uma crueldade, da parte da poesia, como a entende Sanguineti:
«A crueldade indica, nesta situação, o grau de cinismo violento com que a palavra é capaz de propor uma nova dimensão classificatória, no acto de experimentar e criticar, dentro do horizonte da literatura, o nexo real das próprias coisas.»
Adorno usa uma terminologia semelhante:
«Quanto mais pura a forma, maior é a autonomia das obras e maior a sua crueldade.»
A crueldade reside ainda, e talvez sobretudo, no recusar-se a servir de objecto de prazer, de conciliação com a realidade. E assim que este tipo de arte esteticamente emancipada (acima de tudo esta chamada 'poesia moderna') não funciona como representação «clara e pouco usual» da realidade, nem como hipóstase de um mundo imaginado ou como ersatz para a frustração existencial, nem como mito: funciona como recusa de colaborar com a totalidade na sua lenta e constante destruição do indivíduo e da sua livre e autónoma consciência. Para esse maravilhoso, infelizmente mal conhecido Oswald Wiener, «cada frase é um ponto arquimédico para reduzir este mundo a escombros». E só assim pode ser. E Nanni Balestrini declara:
«Uma poesia portanto como oposição. Oposição ao dogma e ao conformismo que ameaça o nosso caminho, que solidifica as pegadas atrás de nós, que nos ata os pés, tentando imobilizar-nos os passos. Hoje mais que nunca é esta a razão de escrever poesia.»


(in O Silêncio dos Poetas, Livros Cotovia, 2003 / 1.ª edição: 1978)

25.10.10

ALBERTO PIMENTA


civilidade


não tussa madame
reprima a tosse

não espirre madame
reprima a espirro

não soluce madame
reprima a soluço

não cante madame
reprima a canto

não arrote madame
reprima o arroto

não cague madame
reprima a merda

e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?

ok, monsieur.


(de Ascensão de Dez Gostos à Boca, 1977)

13.9.09

ALBERTO PIMENTA


jardim zoológico


dum lado da jaula
os que vêem
do outro
os que são vistos

e vice-versa



No dia 31 de Julho de 1977, Alberto Pimenta, cidadão nacional n.º 0727697, esteve exposto entre as 16 e as 18 horas numa jaula do Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico de Lisboa.
Em Abril de 1981, o Rádio-teatro de Estocolmo emitiu uma adaptação radiofónica do acto, da autoria de Margareta Ahlberg. Na sequência disso, Per-Eric Gustavsson repetiu o acto no Zoo de Estocolmo, e o actor espanhol Alberto Vilar encenou-o em vários Jardins Zoológicos.





APÊNDICE

MATERIAIS PARA A ELABORAÇÃO DUM DE PAUS E OUTRO DE COPAS

VOX POPULI

– Ó homem, não te vás, anda pràqui ver.
– Ver o quê? É algum strip-tease?
– Não, parece que vão cantar o fado.
– É para fazer algum exercício.
– Olha, ele aí vem, há espectáculo. Eu vou ver isto.
– Aí vem ele, meu Deus, vamos embora.
– Olha o homem, olha! Que vem a ser isto?
– Se calhar não tem casa. É a primeira vez que vejo isto.
– Aquilo ali é um homem, estás a ver?
– Espera aí que já vai dar. – Dar o quê?
– Ó pá, anda cá ver isto! Aqui o macaco é um homem.
– Ó pá, isto é um festival do caraças. Vamos embora, que isto é para nos tramar.
– Já me estão a lixar, o gajo está ali a fazer a caricatura da malta.
– Tem cara de parvo, deve ser anormal.
– Tem um tipo esquisito.
– Se calhar é tarado sexual. – Não, ele é racional. – Mas não fala.
– Vamos mas é embora daqui.
– Ele é português? – Deve ser estrangeiro.
– Ele que ali está, é porque alguma fez.
– Ai que impressão isto faz, na quarta-feira ainda não estava cá nada.
– Ainda há bocado cá passei e quem estava era o gorila.
– Não percebo o que ele quer! Que é que quer dizer «homo sapiens»?
– Então, é uma espécie de macaco. É um animal como os outros.
– Pois, ele parece um homem em tudo... está vestido.
– Então havia de estar nu? – Sei lá!
– É um reclame qualquer, é só um reclame.
– É um homem, mas deve ser uma espécie rara.
– Isto não havia antes. São estes tempos, anda tudo maluco.
– Eu tenho a impressão que é um homem normal.
– Não, normal não pode ser, senão não estava ali. É maluco, anda à solta.
– Ou tarado sexual.
– Ora, isto é tudo preparado.
– Ele que está ali tem que ter um significado.
– Então, é uma ideia nova.
– Quem vai reagir mal são os católicos: isto quer dizer que o homem descende do macaco.
– O raio do homem é muito habilitado a estas coisas, mas não há-de ser mais nada.
– Que horror isto!
– O aspecto dele é que me confunde. Se tivesse ar andrajoso, ainda estava bem. Mas assim...
– Já há portugueses enjaulados? Já não servem as cadeias?
– Ele não é português.
– Isto deve ter um mistério qualquer.
– Devem-lhe ter pago, ou então gosta. – Está ali, está a ganhar bem.
– Na minha, ele fez alguma coisa.
– Se ele fala, por que é que não diz por que é que está ali?
– Então, a gente diverte-se a olhar para ele, e ele diverte-se a olhar para a gente.
– Como é que é permitido isto é que a gente não percebe.
– É uma vergonha para o país.
– Ele é estrangeiro.
– Por que é que não fax isto na terra dele?
– Ele está a olhar para nós com aquele olhar fixo...
– Os macacos às vezes também é assim.
– Está ali um senhor dentro da jaula. O que é, paizinho?
– Não sei, filho, não sei. Não gosto de ver isto, meu Deus, vamos embora.
– Será parvo? Aquilo é lugar para um homem?
– Se calhar é para ver a reacção do público.
– Não, ele não sabe fazer nada, tem aquele ar imóvel.
– Fez alguma coisa má, e prenderam-no ali.
– A vergonha é para os outros, é para nós. – Sim, que é que a gente está aqui parado a fazer? Homens não faltam, não é preciso vir cá vê-lo.
– Pois é, mas os que estão presos, a gente não vê.
– Se calhar é isso que ele quer dizer.
– Isto é muito raro num jardim zoológico.
– É preciso ser chanfrado.
– É preciso é ter uma coragem do caraças.
– Então, não somos também animais?
– É o homem-macaco. Caçaram-no por lá na selva.
– Eu já ouvi falar. – É, é conhecido. – É o homem sapiens, é o homem da selva.
– E ele faz ali as necessidades?
– Isso acho que não. Ainda não se viu.
– Olha, filho, olha um mono igual a ti.
– Está o macaco, está o homem.
– É gente parva. Que espectáculo!
– Olha, uma coisa que eu não esperava. Já viste?
– Isto é novo aqui.
– Ai que rico espectáculo, um homem na jaula. E de borla. Ai que macacão!
– Eu até gosto de ver isto. Deviam era estar lá mais como ele.
– Que escândalo, meu Deus! Se o pusessem noutro sítio, ao pé das aves, ainda vá, mas aqui ao pé dos macacos!
– Então a polícia já não serve para estas coisas? Que é que ele está a fazer lá dentro?
– Ele não tem medo de estar ali? – Por que é que havia de ter?
– Vocês vão andando, eu fico; quero ver o que isto dá até ao fim.
– É o homem da nossa época.
– Não se entende!
– Aquilo é qualquer coisa.
– É o mundo em que vivemos.
– Faz impressão.
etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc

(de IV de Ouros, Fenda edições, 1992 – foto de Jacques Minassian)

12.10.03

[gosto muito de inventários XXII]

ALBERTO PIMENTA

DESCRIÇÃO DA MONTRA DUMA LOJA DA ALDEIA DA MOURARIA EM LISBOA
E DESCRIÇÃO DA MONTRA DUMA LOJA DO ROSSIO NA CIDADE DE LISBOA


1.
48 ganchos de plástico e chichis para prender o cabelo, todos em plástico resistente e irisado, desde as formas mais simples de prender um carrapito até aos modelos mais preciosos, em forma de peixes, borboleta, caracol ou tubarão azul; 14 rolos de nastro em duas larguras e sete cores, incluindo o dourado e o prateado; 27 cartões com colchetes simples, alguns brancos, outros pretos; 3 embalagens de fita-cola; um pequeno elefante-relógio, com a tromba levantada para se ver o mostrador; 6 caixas de bolas de borracha com motivos e figuras heróicas como o gato Silvestre; 16 emblemas-isqueiro dos clubes mais conhecidos e em vários tamanhos e para vários efeitos, desde os públicos aos domésticos; 6 macacos de peluche, 4 ursos também de peluche, 2 patos, 3 girafas, 3 tigres, 2 leões e 6 gatos, todos em tamanho pequeno e sem música; dezenas dos mesmos animais maiores e com música; 6 pares de pantufas; peúgas para bébé; 8 caixas com materiais não identificáveis; verniz das unhas em 68 tonalidades disponíveis; caixas de lápis de cor; pilhas eléctricas, bonés e dedais.

2.
14 salvas de prata, algumas segundo motivos decorativos do século XVIII, e 3 com aplicações douradas; 34 anéis de ouro e 12 de prata, dos quais muitos com pedras quadradas ou ovais, topázios, ametistas, esmeraldas e naturalmente brilhantes; anéis com pérolas e diamantes, em tamanhos diversos, num total de 28; broches em forma de pêra, de folha de plátano e roseira silvestre, com decoração de rubis, topázios, esmeraldas, e ainda outros de formatos menos convencionais, num total de 32 peças de grande brilho e representatividade; 16 estojos de veludo azul-escuro com colares de brilhantes, com ou sem brincos; 2 galos e 2 perus de prata maciça, segundo modelos ingleses do século XVIII; 14 pedras preciosas em estado natural: ágata branca e rosa, opala irisada das Índias, safira, rubi, esmeralda e granada.

(in V-Ludo 4, Primavera 2001 - por razões óbvias não é possível reproduzir o grafismo, que permitiria estabelecer uma melhor diferenciação das duas listas)

31.8.03

[gosto muito de inventários X]

ALBERTO PIMENTA

Gostos


1
...........................................................

2
sobras do rancho

3
caldo e toucinho

4
caldo de couves
chouriço com ovos

5
sopa de batata
carne guisada com batatas
vinho tinto

6
sopa de tomate
escalopes
macarrão
fruta
vinho branco

7
sopa primavera
pescada cozida
bife com ovo a cavalo
batatas fritas
esparregado
pudim
vinho branco, vinho tinto
café

8
sopa jeanette
linguado grelhado
tomates ricadona
frango na pucarinha
batatas estufadas
arroz crioulo
azeitonas receadas à moda da dona ema
queijo da serra
fruta
vinhos da região
café. brandy

9
cassolettes robert
anjos a cavalo
croquetes de marisco
salada astória
ganso do périgord
batatas saint fleur
queijos
perfeito de framboesa
montrachet branco. nuits-saint-georges les porets
café
conhaque

10
œufs à la coque truffés
anguilles d’arleux à la maître
civet de langouste au vin de banyuls
chevreau à l’ail vert
haricots à la vigneronne
salade angevine
fromages
navettes aux amandes
petit chablis. chambolle-musigny les amoureuses
les charmes
café
cognac
licores

11
consommé royal
homard à la bordelaise
truffes en cocotte selon colette
œufs pochés au champagne
râble de lièvre à la pirou
fenouil au vin rouge
riz condé
châtaignes limousines
fromages
parfait de chocolat
pomme maria stuart
riesling d’alsace. cheilly-les-maranges. givry.
merleau-ponty
café
liqueurs
cognac

(de Ascensão de Dez Gostos à Boca, 1977 - reproduzido em Obra Quase Incompleta, Fenda, 1990)