Mostrar mensagens com a etiqueta Ruth Fainlight. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruth Fainlight. Mostrar todas as mensagens

11.10.14

RUTH FAINLIGHT


ESSA PRESENÇA

Como um pintor afastando-se do cavalete,
erguendo-se da mesa de trabalho
com o pincel cheio de tinta, para ver melhor
onde é preciso outro toque de vermelho, como
um tapeceiro ponderando se chegou
a altura de mudar o padrão, um escultor
hesitando antes do primeiro e decisivo corte,
medito um poema, repetindo palavra por palavra,
tentando entender onde é preciso alterar uma nota,
testando a respiração, o sentido e a sorte,

como quem fita a superfície de um espelho
através dos insondáveis níveis entre vidro e prata
até às pupilas dessa presença reflectida
que por cima do meu ombro emerge das suas profundezas.


(in Visitação, tradução colectiva em Mateus, Quetzal editores, 1995)

30.3.12


[a propósito da notícia divulgada e desenvolvida pela Joana Lopes neste post]

RUTH FAINLIGHT


Seres Fabulosos

É difícil não pensar no Atlântico
e no Mediterrâneo como dois
seres fabulosos, às vezes guerreando-se,
outras em paz. Tantos mitos
e histórias registam os seus encontros
em Tanger, Tarifa, Gibraltar...

Mas para mim, o encontro dessas águas
é significado não por bandeiras ou estátuas
mas por barcos a meter água atafulhados de pessoas
desesperadas para alcançar a fronteira final
antes de serem apanhadas por uma lancha de alta velocidade
da polícia, ou afogadas numa tempestade...

O que eles sonham: ser acolhidos algures
a norte do Mediterrâneo,
longe do Atlântico, é pouco provável
que aconteça. Aqueles seres fabulosos
que lhes controlam o futuro raramente concedem
boa fortuna - indiferentes como o oceano.


(traduzido por Helena Barbas, in No Cais da Poesia 2, editorial Teorema, 2006)

4.1.08

RUTH FAINLIGHT

A OUTRA


Seja o que for que encontre, se o procuro, está errado.
Preciso de esperar: a mais difícil prova é conter-me,
ficar passiva, receptiva, paciente e vazia
de qualquer exigência ou desejo, até que
a outra, essa que eu nunca teria descoberto
por mais que procurasse toda a vida, emergindo
das sombras, se aproxime como criança arisca e acanhada.

E esta será a mais longa das tarefas: aguardar,
abrir-me. Aquietar a minha energia
é mais difícil que aplicá-la a qualquer causa,
mas a outra só poderá mostrar-se
à revelia da minha ardente natureza
sempre ansiosa por escolher. Isto é doloroso
e violento como um parto sem tréguas.

Tenho que me afastar da tentação de agir
para deixar que ela venha, com um sorriso cauto
e um braço levantado – para me saudar ou para defender-se
(não consigo decifrar o gesto ambíguo).
Chego a ter que respirar mais lentamente
até ela ficar tão perto que eu consiga
captar-lhe o som da voz suave e débil.

E então, como em sonhos, quando se invoca
uma língua não falada desde antes da infância
(quando eu era tímida como ela, minha irmã esquecida
cuja vinda me completa e recompensa),
começo a entender aos poucos a mensagem
que tanto demorou a entregar-me. E amando-a aprenderei
nas palavras que canta o meu próprio segredo.


(de Visitação, tradução colectiva (Poetas em Mateus) revista e completada por Ana Hatherly, Quetzal, 1995)