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7.5.12


ANA PAULA INÁCIO


como se o vento trouxesse
recados
que pudesse abandonar
ao serviço do mensageiro

como se o vento te pudesse
levar e as palavras transformar
no milagre da cerejeira

não descuides o vento
que quem uiva
é lobo faminto

rodeia-te antes do essencial
faz-te cozinheira, semeia o teu quintal

o que por natureza rola
há-de rolar
e tu sozinha
o que podes contra o vento?


(de Vago pressentimento azul por cima, ILHAS, 2000)

12.6.11

ADÍLIA LOPES


COPIADO DE SOPHIA


Creio
na nudez
da minha vida

E
não me peçam
cartão de identidade
que nenhum outro
senão o mundo
tenho


(de César a César, 2003)


BÉNÉDICTE HOUART


sophia de ti
disseram-me que
recitavas poemas
em voz alta nos eléctricos
que cantavas nas ruas de lisboa
enquanto os teus filhos te procuravam
(viram a mãe, aquela que troca tudo e não confunde nada)
e dançavas frente ao espelho dos teus olhos
sempre sempre ao desafio

ah sophia
sophia eras
sophia és

(passeei pelo teu jardim
tão abandonado estava
deu-me vontade de chorar)


(de aluimentos, edições Cotovia, 2009)


ANA PAULA INÁCIO


Querida Sophia,


Afinal as mónicas continuam
são as de sempre.
Fazem psicanálise e ioga,
cabeleireiro aos sábados e depilação 2 vezes por mês.
Não têm filhos mas adoptam-nos
como dão guarida aos cães
têm-nos de toda a qualidade
e para qualquer situação:
de cego para quando acordam cedo
e o excesso de luz as perturba;
da pradaria se pretendem preciosidades
raridades escondidas;
de água quando temerariamente mergulham
Quelques centimètres plusfond;
Briard
quando precisam de inteligentes
e corajosos ou de pelagem abundante e
algo ondulado como os define
o dicionário Houaiss;
e finalmente de guarda ou de
fila não venha a coisa tornar-se pior.
Por vezes, estes últimos, podem tornar-se pegajosos,
inoportunos, indesejáveis
pelo que recebem o nome de miúdo ou
tinhoso, como o do rabo comprido, o
que também as enfeitiça
por fugir à norma, ao vulgo, ao
tremoço.
São de sempre as mónicas
e quando falam ao telemóvel
usam uma voz recortada
como as mitenes da avó
e nunca amanham peixe
ou se amanham é para utilizar
as escamas em quadros florais
dispostos corredor acima.
Ao peixe comem-no cru,
para experimentar outras culturas.


(de 2010-2011, Averno, 2011)

18.8.09

ANA PAULA INÁCIO

transporto material muito fino
vidro assoprado
por ares assassinos
vitrais doloridos
no ventre macerado
de Santa Bárbara
como um trovão

o amor alongado
por malhas largas
onde erramos a pescaria
e encontramos os corpos
dos nossos próprios pés
atados por limos


(da As vinhas de meu pai, Quasi edições, 2000 - biblioteca "uma existência de papel")



(imagem obtida através do Google Earth)