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19.7.10

GOETHE

O mundo é tão grande e tão rico, e a vida tão cheia de variedade, que nunca faltarão motivações para poemas. Mas hão-de ser sempre poemas circunstanciais, quer dizer, a realidade terá de proporcionar-lhes o motivo e a matéria.

(em Conversações de Goethe com Eckermann - 18 de Setembro de 1823 / citado por Jorge de Sena, como epígrafe à secção Circunstância, in Pedra Filosofal, 1950)

12.2.08

[Pretendo continuar #3. Novena de desagravo.]

GOETHE

V


Amantes piedosos somos, em silêncio veneramos todos os demónios,
Desejamos cada deus, cada deusa como amigos.
E assim nos assemelhamos a vós, ó Romanos triunfadores!,
Que aos Deuses de todo o mundo ofereceis domicílio –
Esculpidos pelo Egípcio em escuro e sóbrio granito
Ou pelo Grego em mármore branco e gracioso.
Mas não se zanguem os Eternos se vertemos
O precioso incenso a uma das Divinas em especial.
Sim, confessamos oferecer as nossas preces
E o nosso rito diário em particular a uma delas.
Jocosos, alegres e dedicados, celebramos secretas festas
E o silêncio convém a todos os iniciados.
Antes desafiar de perto as Erínias com feitos medonhos,
Antes arriscar sofrer o duro julgamento
De Zeus, as suas rodas e rochedos,
Do que privar o nosso espírito do rito delicioso.
Ocasião se chama deusa! Conhecei-a,
E amiúde vos surgirá ela com variadas feições.
Podia ser filha de Proteu, gerada por Tétis,
Cuja astúcia muitos heróis enganou.
Assim engana agora a filha o inexperiente e o tímido,
Troça do sonolento, esquiva-se ao vigilante.
Com prazer se entrega ao ousado,
Que a encontra mansa, brincalhona, terna e dedicada.
Certa vez também a mim apareceu: Uma rapariga morena,
Cabelos longos e escuros cobriam-lhe a testa,
Pequenos caracóis o gracioso pescoço
E as madeixas soltavam-se frisadas na nuca.
Não a ignorei, agarrei a fugitiva, e docilmente
Logo ela me devolveu o terno beijo e o abraço.
Oh, como me senti feliz! Mas silêncio, o tempo passou,
Agora sois vós, loiras tranças, que como correias romanas me prendeis.

(de Erotica romana, tradução de Manuel Malzbender, Cavalo de Ferro editores, 2005)

2.3.04

[Nuvens...]


JOHANN WOLFGANG GOETHE

Domingo, 30 de Abril, Karlsbad

O velho jogo das nuvens a dissipar-se e a engrossar, mas sem resultados visíveis.

(de O Jogo das Nuvens, selecção, tradução, prefácio e notas de João Barrento, Assírio & Alvim, 2003 - Gato Maltês)



JOSÉ MÁRIO SILVA

curriculum vitae

Maternidade de Port-Royal, dois de março de mil novecentos e setenta e dois, dez e vinte da manhã. O primeiro grito, o primeiro choro, a primeira luz nos olhos, o primeiro ar nos pulmões. Depois, o leite quente da mãe. Depois, fraldas, pó de talco, colheres de papa, banhos com bonecos de borracha. Depois, as primeiras letras, a tabuada, o quadro negro, o recreio, joelhos rasgados, as férias infinitas. Depois, o corpo a crescer, o mundo a aumentar, as coisas a ganharem outra espessura. Depois, uma teia de alegrias e dúvidas e escolhas e decepções e incertezas e recomeços e júbilos e esperanças, constelação que não desenha - ainda - qualquer figura.

(de Curriculum Vitae & Outros Poemas, incluído em A Semiologia Segundo Tarzan Taborda - Colectânea de textos de Jovens Criadores 2002, Clube Português de Artes e Ideias e Íman edições, 2003)



[...& labirintos]


JORGE LUÍS BORGES

O fio da fábula


O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.
As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.

Cnossos, 1984.

(de Os Conjurados - tradução de Fernando Pinto do Amaral)