21.9.09

(Sintra, Julho de 2009)


MURILO MENDES


SINTRA


A Luís Amaro

A paisagem redonda (claro que considerável), a mata (com ou sem aspidistras, palavra que encontrei num texto de José Rodrigues Miguéis, e que pressupõe uma áspida — talvez de cabeleira — na aliás planta), etc.



Obrigatoriamente, a figuração retórica de Byron, personagem da linha grande reverência.



O Castelo da Pena, caleidoscópico, e que poderia resultar da paranóia de Luís II da Baviera aliada à de Salvador Dali.



“O mistério da estrada de Sintra.”



As queijadas de Sintra, monumento nacional. Categoria!



O encontro com Ferreira de Castro, que há vários anos escapa ao verão num hotel de Sintra; suas janelas disparam ar e verde. Depois do seu já remoto sejur no Brasil, que lhe fornecera a matéria dum livro marcante, deu a volta ao mundo. Regressando-se, viu que tudo cresce e se transforma; conforme o Padre Vieira, neste mundo só o céu não cresce. O escritor persiste idêntico a si mesmo, bom, amigo das nossas coisas; não estranha mais a espantosa bagunça brasileira. Continua a se interessar pelos problemas do homem, o que o torna atual; mesmo porque a maior volta que se pode dar ainda é mesmo dentro do homem. Montaigne dixit.



Desloca-se a grafia da Cintra para Sintra; com vantagem, pois letra S é sinuosa tal os caminhos de Sintra; serpentina; e ninguém ignora que Veneza toma a forma dum S. Claro que Sintra não tem relação com Veneza; mas vimo-lo, a letra S, de Sintra, sim.



Nenhum quadro alusivo a Sintra; duas ou três fotografias; um futuro documentário cinematográfico, televisivo ou de ou de outra técnica então mais perfeita, a ser transmitido por satélite aos habitantes de Vénus e Marte, boquiabertos; mas temo que estes não existam.

(de Janelas Verdes, edições Quasi, 2003 – biblioteca arranjos para assobio)

1 comentário:

maria carvalhosa disse...

Interessante, Rui. Obrigada pela partilha.
Beijo.