9.11.05

[hoje, na Terra, o Tim e o Fernando falam duma ciência ameaçada]

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Furtivos lírios


Contemplava a própria vida
na sorte desses instantes
que tanto se assemelham a furtivos lírios
à chegada da noite
mas dizia: um coração é sempre um pássaro
evadido à censura da penumbra

nenhum sofrimento conseguia desfazer
as muitas exaltações que mantinha
e mesmo à beira do abismo
exibia uma facilidade talvez sem razão


quando a arte das chamas se tornou
nas cidades uma ciência ameaçada
percebemos que há muito nos falava
do interior das florestas


(de Baldios, 1999)

2 comentários:

Maria do Céu Costa disse...

Boa postagem este trabalho do Jose Tolentino. Beijinhos.

Salomé disse...

"Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate"

José Tolentino Mendonça in 'A Noite Abre Meus Olhos

É esmagador de tão bom.