1.1.06

Disparates do Mundo é o nome de um livro de G. K. Chesterton (entre nós traduzido pelo sábio e meteorologista José Blanc de Portugal) e, desde há umas semanas, de um blog.
Poesia & Lda. é um novo blog, de autoria do poeta João Luís Barreto Guimarães.

A propósito, recupero aqui um excerto duma carta de Fernando Pessoa que postei no dia do aniversário da sua morte:
Quando vi que o Orpheu era dado como propriedade de «Orpheu Ltda.» observei ao Sá-Carneiro que era preferivel dizer «Empreza do Orpheu» ou coisa parecida, e não empregar uma designação de sociedade por quotas. «E se alguem se lembrar de pedir a certidão de registo no Tribunal do Commercio?» «Você crê?» disse o Sá-Carneiro. «Deixe ir assim. Gosto tanto, tanto da palavra limitada».
J. Camilo é como se identifica o autor de Blue Everest, um blog com mais de um ano, mas que só há umas três semanas encontrei.

De poesia, predominantemente em inglês, mas também em português e imagens.

31.12.05

Deixo aqui a minha escolha dos melhores livros de poesia que li durante 2005 e que enviei para a lista do Livro Aberto, de Francisco José Viegas:

Ana Luísa Amaral, Poesia Reunida: 1990-2005 (Quási)
Armando Silva Carvalho, Sol a Sol (Assírio & Alvim)
Isabel de Sá, Repetir o Poema (Quási)
João Almeida, A Formiga Argentina (Averno)
José Tolentino Mendonça, Estrada Branca (Assírio & Alvim)
Manuel de Freitas, A Flor dos Terramotos (Averno)
Paulo Teixeira
, Orbe (Caminho)
Pedro Sena-Lino, deste lado da morte ninguém responde (Quási)
Rui Coias, A Ordem do Mundo (Quási)
Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia (Averno)

[sem ainda conhecer o conteúdo, apostaria nos dois de José Emílio-Nelson que ainda não apareceram nas livrarias: A Festa do Asno e Gag Dag (Canto Escuro)]

Ezra Pound, Os Cantos (Assírio & Alvim)
Konstandinos Kavafis, Os Poemas (Relógio d'Água)
T. S. Eliot, Prufrock e Outras Observações (Assírio & Alvim)
William Blake, Sete Livros Iluminados (Antígona)

[entre os meus livros de poesia de 2005 está também um ainda inédito, que o Autor, Ruy Ventura, teve a amabilidade de me enviar e do qual postei aqui um poema: Habitação do Tempo]

26.12.05

DYLAN THOMAS

The Hand that Signed the Paper


The hand that signed the paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.

The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as a hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.

(publicado pela primeira vez em 25 Poems, 1936)


A MÃO ASSINOU O PAPEL

A mão assinou o papel e abateu uma cidade;
Cinco dedos soberanos colectaram a respiração,
Dobraram o globo de mortos e desertaram meio país;
Estes cinco reis fizeram morrer um rei.

A mão poderosa leva a um ombro curvado,
Os nós dos dedos crispam-se com cal;
Uma pena de ganso pôs fim ao assassínio
Que pôs fim às falas.

A mão assinou o tratado e gerou uma febre,
E cresceu a fome e vieram os gafanhotos;
Grande é a mão que tem domínio sobre
Os homens por um nome garatujado.

Os cinco reis contam os mortos sem suavizar
A crosta da ferida, sem acariciar o rosto;
Mão que governa a mágoa qual a mão que governa o céu;
As mãos não têm lágrimas para chorar.

(tradução de Joaquim Manuel Magalhães, in Dylan Thomas - consequência da literatura e do real na sua poesia, Assírio & Alvim, 1981 - Cadernos Peninsulares / ensaio)


A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

(tradução de Fernando Guimarães, in A mão ao assinar este papel, Assírio & Alvim, 1990 - Gato Maltês)


A MÃO QUE ASSINOU O PAPEL...

A mão que assinou o papel destruiu uma cidade;
cinco soberanos dedos tributaram a respiração,
de mortos duplicaram o mundo, a meio cortaram um país:
estes cinco reis provocaram a morte de um rei.

A poderosa mão conduz a um ombro descaído;
sofrem de cãibras as junturas dos dedos engessados.
Uma pena de pato pôs fim ao morticínio
que tinha posto fim às negociações.

A mão que assinou o tratado engendrou febre,
e aumentou a fome, e vieram gafanhotos:
grande é a mão que sobre todos impera
com o gatafunho de um nome.

Os cinco reis contam os mortos, mas não acalmam
a crosta das f'ridas nem a fronte afagam.
Há mãos que regem a piedade, outras o céu:
só não as há que vertam lágrimas.

(tradução de David Mourão-Ferreira, in Vozes da Poesia Europeia - III / Colóquio Letras número 165 - Setembro-Dezembro 2003)

24.12.05

ADÉLIA PRADO

Noite feliz


Dói tanto que se pudesse diria:
me fere de lepra.
Mas que importa a Deus o monte de carne podre?
Tem piedade de mim, Vós, cujo filho duas vezes gritou,
apesar de ser Deus. Me dá um sonho.
É como se meu pai não me amasse
e não tivesse dado a vida por mim.
Só belos versos, não.
Uma linha depois da outra,
tão finamente escritas,
com tão primoroso fecho
- e o que sinto é cansaço.
Basta a beleza própria
da estocada das coisas no meu peito.
Comer, sonhar, talvez morrer, quem sabe?
A morte existe, ô pai?
Sei que na Polônia católica
ninguém escreveu com estas mesmas palavras
na carrocinha de doces:
'Para todos e sua família desejo um feliz natal.'
No Brasil sim, na minha rua,
usando uma língua pobre e uma caneta de cor,
alguém sentiu o inefável.
Não se perderá o fermento, ó comadre.
Bebem? Não pagam as contas?
- Vamos fazer um teatro.
Tem a máscara do boi, do burro,
as vestes de José e Maria,
tem a roupa do homem que negou hospedagem
mas que veio depois, depois da estrela,
dos anjos, depois dos pobres pastores, e que mais recebeu.
Porque não merecia.
Sou miserável.
Um monte de palha seca
é obra de minhas mãos.
Tem piedade de mim,
desce, orvalho do céu,
desce sobre nós,
restabelece o fio das conversas saudáveis.
Traze a fresca manhã.

(de Terra de Santa Cruz, 1981)
FERNANDO SYLVAN

MENINO JESUS DA MINHA COR


Meu Natal Timor,
Meu primeiro Natal.

Quantos anos tinha?!
Nunca o soube ao certo.

Minha Mãe-Menina
Fez-me o seu presépio:
Uma encosta arrancada ao Ramelau
Com uma gruta ausente
Cheia de Maromak
E perfume de coco,
Um búfalo e um kuda
E o bafo quente dos seus pulmões.

E um menino sobre a palha de arroz
E folhas de cafeeiro.

Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.
- Ínan, quem é?
- É o Maromak-Filho e teu Irmão!

E eu recuei, porque via no berço
Um menino rosado,
Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é, mais do que todos, teu Irmão...
- Mas como pode ser um meu irmão?
- É teu Irmão: Firma-lhe bem teus olhos, meu Amor!

E eu, obedecendo,
Firmei-me todo nEle.
E vejo-O desde então
Também da minha cor!

(de 7 poemas de Timor, 1965)


Ínan = mãe
Kuda = Pequeno cavalo
Maromak = Deus
JOÃO PEDRO GRABATO DIAS

Natal a 40 graus de beatitude leste


Ninguém é mais Rei do que eu.
Nem os 3 de Belém.
Eles iam ver o Seu
Rei meu só ou ninguém!

Falando de Realezas:
- O Rei vai nu!
- O menino não diga subtilezas
Cale a boca qu'inda é pequeniiinooooo...!

(de uma meditação 21 LAURENTINAS e dois fabulírios falhados, edição do Autor, 1971)

23.12.05

A propósito disto:


Isto:

Camauro: Cobertura para a cabeça, exclusiva do Papa, maior que o solidéu, de forma a cobrir as orelhas. É de veludo vermelho, guarnecido a cetim da mesma cor, debruado com plumas de cisne e forrado a arminho; durante a semana "in albis", o camauro é branco.

(in Thesaurus - vocabulário de objectos do culto católico, coordenação de Natália Correia Guedes, Fundação Casa de Bragança, 2004)

21.12.05

[já é Inverno na Terra]

NUNO HIGINO


As minhas mãos sabem a terra
das minhas mãos nascem gardénias
e neva nas minhas mãos
quando é inverno

(de Onde correm as águas, Campo das Letras, 2003)

20.12.05

RUI KNOPFLI

O POETA É UM FINGIDOR


Entreteço palavras
na malha áspera destes versos
e a tessitura triste que faço
mais esmorece no azul baço
do papel. Entristeço então
a alma numa renda miúda
e apertada de ponto incerto
e complicado. Estabeleço assim
dois mundos convergentes:
A textura entristecida dos versos
e a tristeza entretecida da alma.
E logo esqueço onde tudo isto
teve começo:
Se de entristecer palavras,
se de entretecer sentimentos,
se de constrangera alma,
se de contristar palavras:
se me contristei constrangendo,
se me constrangi contristando.

Sei que me contristo entretecendo
e me entreteço de tristeza.

(de Mangas Verde com Sal, 1969)

19.12.05

Dá gosto uma Terra assim, como a de hoje, da Alegria.
Um texto com ilustrações, de um ilustre/ilustrado Autor.
JOSÉ AFONSO

De não saber o que me espera


De não saber o que me espera
Tirei a sorte à minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia

Vítima de só haver vaga
Entre uma mó e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda

Viemos pelo sol nascente
Vingámos a madrugada
Mas não encontramos nada
Sol e água

De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta

(do álbum Fura Fura, 1979)

18.12.05

NUNO JÚDICE

ARTE DO POEMA


Eu pensava que escrever era uma escolha rigorosa de temas determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas «poéticas», eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou «arte do poema».

(de O Pavão Sonoro, 1972)