13.10.11

JOAN MIRÓ



Le soleil rouge ronge l'araignée, 1948
óleo sobre tela
Nahmad Collection, Suiça

RAUL DE CARVALHO


(Joan Miró, Le soleil rouge ronge l'araignée)


Foi Deus que me disse
que existe uma aranha
que existe o sol
que existe um pintor
e que Deus deu a alma a esse pintor
para que ele com estes quatro elementos
a aranha o sol e a vontade de Deus
pudesse fazer com uma teia de aranha
uma constelação
semear dentro dela
sementes de alegria
a alegria que está nascendo
no sol na aranha na alma nos olhos

Foi Deus que me disse
que a alegria tem olhos!

Constantemente me salvo!
Mas é sempre à minha custa

Fico sempre com um pouco
mais de sombra no olhar

Quando julgo que chegou
enfim a minha vez

Ouvir um coração a bater
é o bastante para

Saltar ao eixo apanhar amoras
acreditar que em minhas mãos
o suor é mais brilhante do que o sol

E dizer-te —
Amor o teu sorriso
neste momento é eterno!


(de Mesa da Solidão, 1955)


12.10.11

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE


PRIMEIRAS MORADAS
3


rir não sossega, a terra
só pouco a pouco dura. não existe
coisa nenhuma que se não visite;
a pastilha do ar dá-nos o grito
certo no som, no gosto, no ruído;
já as coisas visíveis aborrecem.

inverno a mais ou menos vou viver
uma arte cheiínha de razões
numa casa de viscos permanentes. hoje
é manhã cedo no célebre paquete
desembrulhado a meio pelo cais
e doces serpentinas, apetece

mascarar-nos tamanho natural,
a pele contra a pele, que surpresa
sentir a fina, fria porcelana!
tão pouca graça achamos
nas palavras, a vazia
conversa dos postigos.


(de As Moradas, 1987)

11.10.11



JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


TIMOR

Talvez não seja suficientemente bom poeta
para uns versos, sequer, sobre Timor.
Timor, lembro-me como todos os outros do Ruy
Cinatti e de um mapa antigo que fecha um
dos seus livros sobre botânica timorense. O mapa, a negro,
traz nomes escritos a vermelho e regista o
avanço dos portugueses pelo interior da ilha.
Mostra-nos pequenas e altas casas de estacaria
que eu próprio desenhei num mapa de Timor
quando na escola nos ensinaram as províncias do
ultramar mais distante.
Timor era uma ilha que colori a amarelo. Havia
um enclave — Ocussi
Ambeno tinha sobre mim a sedução
das coisas mais que longínquas, perdidas. Ocussi e
Ambeno que soube resistir aos holandeses
nomes que persistem com as ilhas de Ataúro e Jaco
de mistura o lagarto-voador Draco, Solor
sândalo e o pico mais elevado das montanhas do
Ramelau. Coisas assim tão altas e distantes,
assim perdidas.

Lembro-me hoje, ainda e cada vez mais de Timor
do Timor de Ruy Cinatti, do Timor do irmão do Manuel
Gusmão que lá morreu e tinha os olhos cor
das gencianas azuis. Escrevi
o nome das povoações com uma estreita caneta
de tinta da china. É correcto que escreva sempre
no passado, porque poucos timorenses irão
sobreviver e o Ruy Cinatti volta a cruzar os meus
olhos. Sustenta aquela dança de paz e guerra
que bailou na noite em que nos conhecemos. «O corpo é
sempre o corpo de Cristo. Uma pequena superfície que
recebe todas as feridas do mundo. Qual-
quer corpo não é mais do que
corpo de Cristo.» Lembro-me dele na cama do hospital: a
dor, a rede de soro e sangue. À sua volta, os amigos. E
de todos dizia serem «maiores poetas». Talvez
fossem, sejam, e isso que importância tem?
Por entre ciganos e nevoeiro e tendas de pano
velho como se estivessem cobertas de lepra, vejo-
-o no distante dia em que me visitou
pelos começos de oitenta. Fotografia
que sofreu o abandono no fundo de uma gaveta. Vejo-
-o com aquele sorriso de leve troça a que prendia
verdades de profeta e junto a si o meu pai,
talvez da sua idade, talvez um pouco mais velho.
(A minha mãe não quis a prisão dessa imagem. Pensou
que eu não gostava dele. Não percebeu
que se fiquei inquieto com a sua chegada
foi porque supondo-o santo, um santo é
naturalmente uma coisa incómoda.) E lá estão a
Ana, o Manuel Rosa, a Ilda e aqueles a quem chamava
«os meus anjos-da-guarda». Há ainda umas crianças
com espadas de plástico. Não sei como apareceram,
mas os santos trazem muitas vezes consigo putti. E
ele disse, quando o levei
pelos caminhos da aldeia que perdem sobre o mar
até à casa onde vivera o Ruy Belo; pelas ruas
sob o nevoeiro dessa manhã de agosto, por
entre vendedores de quinquilharia, camionetas e
tractores embrulhados em serapiheiras e cordas,
onde pernoitavam camponeses e gente vinda dos bairros
periféricos de Lisboa, ele disse
«é a idade média. Chega nestes dias do verão,
um tempo de necessidade em que tudo apodrece.»

Senhores da palavra Timor,
memória,
canção em teia-de-lavor.

Quando fiz a quarta classe
Timor era uma língua de terra
cuja largura só dava para uma estrada
limitada pela água do mar.
Timor. Não sei o que possa escrever. Um
só verso que valha Timor. Só me lembro do Pedro
Brazão à porta do pavilhão de queimados de Santa
Maria: «Aqui, a vida é uma luta perpétua,
pequenos avanços contra um enorme desastre».
«Malhas que
o Império tece» por entre dedos de anéis e que ofereceram
um punho cerrado. Por isso, hoje, os timorenses que restam
olham o lugar vazio do nada-
dor-salvador, Portugal, alguém que julga ter já
vivido o suficiente para merecer o privilégio de recordar
e deixa que Timor desapareça do ecrã,
como quem cancela a última série
sobre o Império, reconhecido olhar de
antiga posse e de história
um silêncio povoado de ruídos no outro extremo da vida.


(de O Barco Vazio, editorial Presença, 1994 - colecção forma)


6.10.11

TOMAS TRANSTRÖMER


UM HOMEM DO BENIM

(sobre uma foto de um baixo-relevo em bronze do século XVI do reino negro do Benim, mostrando um Judeu Português)

Quando a escuridão caiu eu estava tranquilo
mas a minha sombra esmagada
contra a pele do tambor do desespero.
Quando as batidas começaram a morrer ao longe
eu vi a imagem de uma imagem
de um homem chegando apressado
à página da futilidade
que permanecia aberta.
Como se caminhasse diante de uma casa
abandonada há muito tempo
e alguém aparecesse à janela.
Um estranho. Ele era o navegador.
Ele parecia atento.
Aproximou-se sem caminhar.
Com um chapéu que se moldou
para imitar o nosso hemisfério
com uma aba no equador.
O cabelo dividido em duas partes.
A barba pendendo ondulada
como a retórica na sua boca.
Agarrou o braço direito dobrado.
Era magro como uma criança.
O falcão, que outrora permanecera
no seu braço, cresceu
nas feições do seu rosto.
Ele era o embaixador.
Interrompido a meio de um discurso
que continuou no silêncio
com um vigor ainda maior.
Três tribos estavam silenciosas nele.
Ele era a imagem de três pessoas.
Um judeu de Portugal,
que navegou com os outros,
à deriva e a fazer tempo,
o revirado bando
na caravela que foi
a mãe dos seus baloiços de madeira.
Desembarcou numa estranha fragrância
que tornou o ar velado.
Observado no mercado
pelo conjurador negro.
Por muito tempo na quarentena dos seus olhos.
Renascido na corrida ao metal:
«Vim para conhecer
aquele que eleva a sua lâmpada
para se ver em mim.»

(tradução minha, a partir da tradução de Robert Bly, in Micromegas – Vol IV, No. 1 [s. d.])
[mais poemas em português do Nobel de 2011, na Poesia & Limitada, na revista brasileira online Agulha e no blog do Nuno Dempster; reacções ao prémio, no DN, de Nuno Júdice, Jorge Sousa Braga e Pedro Mexia]

TOMAS TRANSTRÖMER


As pedras

As pedras que lançámos, ouço-as
cair claras como o vidro pelos anos fora. No vale
voam agitados os gestos do momento
gritando de copa para copa, calando-se
ao fino ar desse momento, deslizando
como andorinhas de cume
para cume até alcançarem
os planaltos extremos
ao longo da fronteira da existência. Aí caem
claros como o vidro
os nossos actos
ao encontro apenas do chão
que nós próprios somos.

(Tradução de Teresa Salema)


Aquele que acordou com o canto sobre os telhados

Manhã, chuva de Maio. A cidade esta calma
como uma cabana. Ruas tranquilas. No céu
troa azul-verde um motor de avião — a janela está aberta,
O sonho onde se dorme de membros estendidos
torna-se transparente. Move-se, tateia
pelos instrumentos da visão — quase no espaço.

(Tradução de Teresa Salema)


Kyrie

A minha vida às vezes abria os olhos no escuro. 
Uma sensação de multidões arrastando-se por ruas, 
cegas e sem descanço, no caminho para um milagre, 
enquanto eu fico aqui, invisível.

Como uma criança que adormece aterrorizada 
à escuta dos passos pesados do coração, 

até que a manhã ponha o seu raio de luz nos fechos 
e as portas da escuridão se abram.

(Tradução de Vasco Graça Moura)


Allegro

Toco Haydn depois de um dia sombrio 
e sinto um calor simples nas mãos

Há um querer nas teclas. Brandos martelos batem. 
O som é verde, tranquilo e animado.

O som afirma que a liberdade existe
e que alguém não paga a César os impostos

Enfio as mãos nas minhas algibeiras de Haydn
imito alguém a olhar o mundo calmamente.

Iço a bandeira de Haydn — quer dizer:
Nós cá não nos rendemos. Mas queremos paz.

A música é uma casa de vidro no declive 
por onde pedras voam, pedras rolam.

E as pedras atravessam as vidraças 
mas cada vidro vai ficando intacto.

(Tradução de Vasco Graça Moura)


Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões. 
Acenavam através das grades. 
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

«Mas aqui», disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
«aqui estão políticos». Vi a fachada, a fachada, a fachada 
e lá no cimo um homem à janela, 
tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
«será verdade ou só um sonho meu?»

(Tradução de Vasco Graça Moura)


O casal

Apagam a luz e o vidro branco da lâmpada cintila
um momento até se dissolver
como uma aspirina num copo de breu. Então elevam-se.
As paredes do hotel deslizam para o céu escuro.
Os gestos de amor esbateram-se e eles dormem
mas os seus pensamentos mais secretos encontram-se
como duas cores que se encontram e penetram
no papel molhado de um desenho infantil.
Está calmo e escuro. Mas esta noite a cidade
aproximou-se. Com janelas apagadas. As casas vieram.
Uma multidão de rosto inexpressivo
mantém suspensa a sua vigilância.


(Tradução de Teresa Salema) 


Quando a neve derreteu 66

Queda precipício de água ruído velha hipnose.
O rio inunda o cemitério de automóveis, brilha
atrás das máscaras.
Seguro-me ao parapeito da ponte.
A ponte: um grande pássaro de ferro que veleja pela morte

(Tradução de Teresa Salema)


Citoyens

Na noite depois do acidente sonhei com um homem bexigoso
que caminhava nas vielas cantando.
Danton!
Não o outro — Robespierre não faz passeios desses,
Robespierre faz a sua meticulosa toilette urna hora
cada manhã. O resto do dia devota-o ao Povo.
No paraíso dos panfletos, entre as máquinas da virtude.
Danton —
ou aquele que trazia a sua máscara —
parecia alçado em andas.
Vi a sua face desde baixo.
Lua bexigosa, metade luz, metade luto.
Eu queria dizer qualquer coisa.
Um peso no peito, peso
que faz avançar os relógios,
rodar os ponteiros: ano 1, ano 2...
Um cheiro intenso como serradura na jaula dos tigres.
E — como sempre no sonho — nenhum sol.
Mas os muros brilhavam
nas vielas que viravam
descendo para a sala de espera, a sala curva,
a sala de espera onde todos nós...

(Tradução de Almeida Faria)


Montes negros

Na curva seguinte saltou da sombra fria da montanha
o focinho virou contra o sol e rugindo rastejou para cima.
Íamos apertados no autocarro. Também lá estava o busto do ditador
envolto em papel de jornal. De boca para boca ia uma garrafa.
O sinal de morte crescia em todos a diferentes velocidades.
No cimo das montanhas o mar azul agarrou-se ao céu.

 (Tradução de Almeida Faria)


(in 21 Poetas Suecos, antologia coordenada por Ana Hatherly e Vasco Graça Moura, Vega, [1987])



5.10.11

PAUL CELAN


Resposta a um inquérito da Librairie Flinker, Paris (1958)

A poesia alemã segue, julgo eu, caminhos diferentes dos da francesa. Trazendo na memória o que há de mais sombrio, tendo à sua volta o que há de mais problemático, por mais que actualize a tradição em que se insere, ela já não consegue falar a linguagem que alguns ouvidos benevolentes parecem ainda esperar dela. A sua linguagem tornou-se mais sóbria, mais factual, desconfia do "belo", tenta ser verdadeira. É portanto —  se me é permitido procurar a minha expressão no campo do visual, não perdendo de vista a policromia de uma pretensa actualidade — uma linguagem "mais cinzenta", uma linguagem que, entre outras coisas, também quer ver a sua "musicalidade" situada num lugar onde ela já não tenha nada em comum com aquela "harmonia" que, mais ou menos despreocupadamente, se ouviu com o que há de mais terrível, ou ecoou a seu lado.

Apesar de não prescindir de uma plurivalência da expressão, o objectivo dessa linguagem é o do rigor. Não transfigura, não "poetiza": nomeia e postula, procura delimitar o campo do que é dado e do que é possível. É claro que o motor nunca é aqui a própria linguagem, mas sempre e somente um eu que fala a partir do ângulo particular da sua existência, para o qual é importante definir um perfil e uma orientação. A realidade não é, a realidade vai ser procurada e conquistada.
Mas não estou eu já a fugir à vossa pergunta? Estes poetas! Chega-se ao ponto de esperar deles que um dia ponham no papel um romance a sério!


(in Arte Poética - O Meridiano e outros textos, tradução de João Barrento e Vanessa Milheiro, edições Cotovia, 1996 / publicado originalmente no Almanach 1958, da Librairie Française et Étrangère Flinker, Paris, 1958 e depois reproduzido no jornal Die Welt (Hamburgo), de 22 de Novembro de 1970)


4.10.11

ANTÓNIO ARAGÃO 


SONETO

Olha o espelho: a minha boca arde.
Trago o corpo à beira de todos os perigos.
Já não ouço os passos, já não tenho amigos.
Meu coração parou mesmo ao cair da tarde.

Faço com as mãos o tamanho do medo.
Pago bilhete. Dão-me um lugar sentado.
Mas quero ir para qualquer lado
embora me digam que ainda seja cedo.

A alma suja deixo-a como está.
Limpo-me apenas por baixo dos sovacos
e não visto afinal nenhum dos casacos

exactamente porque talvez não vá
para nenhuma parte e sem nenhum sentido,
como um cão já farto de andar perdido.


(Do livro 30 Sonetos, in O escritor N.º 4, Associação Portuguesa de Escritores, Dezembro de 1994)

2.10.11

CESÁRIO VERDE


[Carta a Bettencourt Rodrigues]

Linda-a-Pastora, 16 de Novembro de 1879

Meu amigo - Tem chovido bastante e há dias que temos as comunicações cortadas com Lisboa, como numa ilha por um mar bravo. De modo que talvez tu me escrevesses alguma carta, que esteja lá em cima e a que não respondo agora por conseguinte.
Por aqui e por todo o país, naturalmente, continua tudo na mesma, isto é, tudo está parado. Dizer mal disto parece uma coisa pedante do Visconde Reinaldo, mas não é
[...]
Eu não faço nada, falto de estímulos, aborrecido contra esta gente da cidade a que tenho raiva como a um marreco. Ao menos, pelo campo ainda há coisas primitivas, sinceras, de uma boa paz regular; e embora a existência não apresente alterações nenhumas, o caminhar da estação, a mudança quase insensível no aspecto da natureza todo o ano, é admirável, sugestivo. Chega o Inverno; e hoje, que é Domingo, sabes em que me entretenho? Em partir pinhões com uma pedra à porta de casa. Compram-se aos salamins no padeiro do lugar, um brutamontes de mangas arregaçadas e braços peludos, e cheios de pasta de farinha, que nos diz: - Viva! - com mau modo. No enfastiamento domingueiro, o que se pode fazer senão isto? No Verão, comíamos tremoços que nos despertavam uma grande sede, apetitosos, escorregadiços; depois foi-se o Outono nos arraiais pelos lugarejos próximos. Agora os rapazes deitam o pião nos largozitos, e quando chove muito, e a cheia alaga as baixas e os caminhos, apupam-se monte para monte com buzinas de chavelho. Lembra a Idade Média, Rolando, Roncesvalles, não sei o quê.
[...]


(in Obra Poética e Epistolografia, edição organizada por Ângela Marques, Lello editores, 1999)

29.9.11

(Alcobaça, 25 de Setembro de 2011)

NUNO DEMPSTER


Se esse amor mitológico os tornasse
mais felizes, se acaso lhes dissesse
caminhem na cidade e hão-de encontrar
Inês ou Pedro vivos no café,
o lado vulgar do amor não se poria.
Mas isso não sucede àqueles que
procuram no mosteiro de Alcobaça
a sua salvação, com a esperança
redutível a um lar e, como Inês,
aos filhos por que o amor se vai movendo.
Hão-de dizer se lerem estes versos:
«Mas que desencantados pensamentos
o fazem escrever coisas vulgares.
Pedro e Inês são o exemplo de que só
um grande amor exige amor maior,
e assim a perfeição da vida humana,
não o quotidiano que nos rouba
a existência de modo tão anónimo.»
«Pois», respondo. «Percorram a cidade
e entrem em um dos prédios suburbanos
à hora do jantar. O cheiro a fritos
é coisa que não liga com amor
de príncipes. Se tanto, Pedro e Inês
são um casal de amantes sem história
que chegou de autocarro e ninguém viu.»


(de Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sem em Pé, 2011)

22.9.11

PAULA REGO / ANA MARQUES GASTÃO



Sit, 1994


SIT

Sou, na economia das coisas, um paradoxo
— da verdade não há visão ou consciência.
Sento-me. A cronologia de um corpo cumpre
o horário do paraíso num tempo incompatível,
mas sei: propagar-me é propagar o terror.
A dor, como a alegria, tem os seus locais
de transporte, arruma-se no espaço de uma estrofe
débil, cidade contígua na ambiguidade sacrificial.
Dizer: movo-me, mas não; estou aqui, cérebro colado
aos pés como uma polaroid translúcida.
Partiram-se as mãos e a cabeça jaz esquartejada no espelho
estilhaçado. Fica: não falarei do amor enquanto a luz
transpuser as trevas, ainda que ao som de uma ópera
menor. Prefiro a pródiga imagem do que me falta,
a imprecisão dos mortos. Fosse esse o regresso
a um pensamento nítido, de que reconheço o traço
no papel, caligrafia de um tudo anterior, e eu seria
a definição da noite. Mas não: tenho algo de mim
pregado a uma estúpida elipse, o útero é paisagem
sem fruto ou fatigada casa e a memória, rugosa
e mínima, desmembra-se como um breve sinal
de vida extinta na passagem do dia.



Baying, 1994


LATINDO

Este o amor que não foste
nem nunca serás
de tanto o amar
esgotaste-o
olhando a frio
o teu delírio.

Este o amor que não foste
nem nunca serás
de tanto o tocar
apagaste-o
em contrário, inusitado
caminho.

Este o amor que não foste
nem nunca serás
de tanto o escreveres
gastou-se,
no labor
de uma gélida surdez.

Este o amor que não foste
nem nunca serás
de tanto o contemplares
fugiu-te
incapaz de suportar
a página
e o seu branco uivo.



Up the Tree, 2002


UP THE TREE

O voo do poeta
traduz
uma obsessão
projecta-o para fora de si
é nevralgia
de uma pátria em exílio.

Céptico 
das palavras 
o poeta
constrói voando 
a voluptuosa 
fúnebre    alegoria.

Nada mais lhe importa
no turbilhão
da sua trágica
misteriosa
ilusão: aprender
a derrota.

Enfermo de si próprio
o poeta
profetiza a catástrofe
é um subversivo
do delírio
ave do desespero.

Sobre a sua mão
desfeita
anda tão tão    devagar
ou então veloz
brinca
com o irremediável.


(de Nós / Nudos, Gótica, 2004)

21.9.11

JÚLIO RESENDE

(imagem daqui)




ANTÓNIO OSÓRIO


OS MENINOS DE JÚLIO RESENDE

Os meninos de Júlio Resende ignoram a morte? Jogam, divertem-se, voam. E voam tão alto que Resende exara a palavra perfeita: «Os meninos no voo das estrelas.» Crianças, no Nordeste do Brasil, pobres e gloriosas.

Revejo-me nelas de modo diferente. Igualmente ágil e exultante, dentro de um baloiço, também eu voava. E pareceu-me que esse júbilo chegava ao ponto de tocar no próprio tempo, irremediável erro, porque o tempo é de todas as nossas personagens a mais acompanhante e a mais indiferente.

Vendo os meninos, recordo outras coisas, que me davam o mesmo sentido da alegria. Tocar na areia da praia, escorrê-la pelo corpo; ver a chegada firme, longa, majestosa das ondas na praia de Tróia, que foi a primeira praia; ouvir a Odisseia e os sonetos de Camões; o prazer inacabável da leitura. Eis os instrumentos de voo, que me fizeram como sou, reconhecido e atormentado.

Os meninos de Júlio Resende continuam vivos. O contentamento deles acompanha-nos. Num pedaço de papel, colocado sobre leve armação, uma cruzeta de cana, soltam ao vento o papagaio, e sabiamente brincam com o voo das aves, porque tudo isso os conduz perto das estrelas. O mundo da natureza e o mundo dos homens inspiram os jogos das crianças, mas a si próprias voltam, livres de mágoa.


(de Libertação da Peste, Gótica, 2002)
ANA MARQUES GASTÃO



Perante a absoluta morte

o ínfimo dia


--//--

O mundo - metáfora incompleta
do desequilíbrio.
E eu a escassa palavra.


--//--

Subimos 
pelo silêncio 
quando a chuva 
cria incerta 
o poema 
de cal e água.

O amor
é então
ar e peso
incapaz
de conter
a precisa forma.

Nada 
é coeso. 
A sombra 
súbita e nítida 
traz a memória 
separada.

E teu sono 
impõe um corpo 
em frémito
ou voo 
quando 
baixa o sol.


--//--

A paisagem é lenta
e descai em tuas pálpebras.
A vida é isso.
Coisas nossas
buscam connosco
destruição quando
se dissolvem na paciência
de um final exacto.


(de Nocturnos, Gótica, 2002)

20.9.11

ANA MARQUES GASTÃO


G


Água incerta somos
na incompleta odisseia
ou no escasso júbilo.
Todo o cristal sombrio
é menor que a agonia.

Eloi, Eloi,
os homens separam-me dos homens
e Tu, elegia ininterrupta, estás só
como um cisne envenenado pelo sangue.


O


Os justos - esquartejados
por uma cidade distante
condenados a espargir
o suor em terra morta.

Perdidos e sobrevivos
no tormento, não são
mais do que atletas
na senda de deus.


Z

No princípio eras Tu, no fim Tu serás 
e no meio dormem os homens um longo, 
longo sono onde o tormento se faz carne 
e habita entre nós. Porque ninguém jamais 
Te viu. Outros virão, outros, outros e outros 
para consumar o círculo da vida, os que chegam 
depois de Ti e nunca antes, ou não fosses Tu 
o princípio, ordem e silêncio de todas as coisas.

No princípio eras Tu, no fim Tu serás 
e no meio conhecem os homens a dor 
e a devastação, a fome e a ruína, a solidão 
e a injustiça. Porque ninguém jamais Te 
viu. Nem os que choram, nem os que riem 
nem os aflitos, nem os doentes, nem os que 
envelhecem nem os que, fatigados, morrem.

Eloi, Eloi
quem te ama chora.

No princípio eras Tu, no fim Tu serás.




(de O Silêncio de Deus, in Três Vezes Deus, Assírio & Alvim, 2001 - documenta poetica)

19.9.11


ANA MARQUES GASTÃO


Como dizer o teu nome
se teu nome é sombra
e nem te oiço
no Outono final.

Como dizer o teu nome
se nem nos sonhos te encontro
estrela em fuga
num reino crepuscular.

Como dizer o teu nome
se esta é uma terra morta
sem mães vivas
nem espaço para mim.

Como dizer o teu nome
neste vale vazio
último lugar do encontro.

--//--


Regular recordação de mim.
Os pais são filhos da memória
e um negro e estático insecto
destrói suas eternas asas
enquanto a terra te corrói.
Nunca mais seremos completos.

Uvas amargas as da maturidade
pouco a pouco o sol fica cego.
Guardiões do quotidiano, sem vós
o coração devolve-se a si mesmo
como um órfão numa macabra marcha
à semelhança dos primeiros deuses.

--//--

Nas tuas mãos
os segredos
a rosa
na sua durável
paciência.

Nesta segunda 
vida-morta 
sei-te a pré-história 
de Deus.

Mataram-te,
mas não no meu poema.


(de Terra Sem Mãe, Gótica, 2001)


18.9.11

[a propósito da saída do mais recente, entre hoje e o próximo sábado, irei aqui publicar poemas de cada um dos sete livros de Ana Marques Gastão]


ANA MARQUES GASTÃO


Nem os velhos mestres o entenderam.

Quando o sofrimento irrompe, cipreste,
as crianças sabem: o silêncio estilhaça-se.

Na terra batemos, os mortos desenganados.
Ficamos inquietos à espera que o sangue naufrague.
Inocentes como cordeiros, projectos sem construção.

Carne mutilada, nada te altera.
Nem a palavra porque também haverá a sua morte.

Sem paraíso dorme a criança no seu berço-caixão.
Vida molesta que nem os seus moribundos reclama.

Entre o teu corpo, o dia, a ausência,
a viúva, a órfã, o pai e a mãe...
O lamento lacónico, o mundo sem júbilo.

Entre o teu corpo e o dia, o grito desamparado
de um futuro rebelde que já não volta
e a esperança, minha ténue esperança
de ter visto um rapaz caído do céu.


--//--

Dou-te um nome, Ulisses, 
és fragmento do que encontraste. 
Salvam-se as horas pela estrada que se segue 
pelos astros que governam os céus.

O tempo é frágil, conheces tu o cantar de outrora? 
Teme o olhar que te fita, vigilante, 
ele não vê a mesma árvore do que tu. 
A natureza é estéril sem o Homem.

Verme doente, tem o teu cérebro forma? 
Átila, amei-te um dia... 
No dia em que me separei de mim própria 
conheci a verdade negra. Desacato.

Sonhei com um velho que se desmembrava. 
Veio a palavra e destruiu o exílio. 
O transporte diz~se místico e leva-me para longe. 
Vê: a saudade casta dobra a melancolia.


--//--

Delírios confusos, absurdo. 
Vai pálido o anjo, ri o demónio.

Hoje o meu deus não se vê.
Sou sombra num paraíso perdido.

A terra consome meus olhos azulados. 
Criatura frágil, ouvem-se teus gritos.

Voz de espinhos, 
máscara morta.

Noite cerrada, danúbio sem sol,
tempos houve em que fui cor resplandecente.

Tu, da estirpe dos que tecem o cabelo de aço, 
encheste a casa de trevas róseas.

Livro ensaguentado, cortejo de horrores. 
Deixa-me as insondáveis delícias do Homem livre. 
E a glória de se estar só.


(de Tempo de Morrer Tempo para Viver, Universitária editora, 1998)