28.3.04

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Voz entre árvores


Ouço a tua voz de mil murmúrios e de um só espaço,
de uma só visão silenciosa.
Tu já começaste há muito com o sol e com os pássaros.
A tua voz ilumina as folhas e as pedras.
Eu sou o que começa, o que quer começar
para estar contigo entre as árvores e a água.
Aspiro a luz com o hálito de uma criança.
Estou enraizado numa pedra junto a um ribeiro.
Tu cantas e é o espaço que canta, um só desejo
que principia e adormece e no sono principia.

(de O Não e o Sim, Quetzal editores, 1990 - Graffiti)
Poesia é...

...um tipo cheio de piercings, num autocarro suburbano na A5, pegar no telemóvel para tirar uma fotografia ao pôr-do-sol num dia chuvoso.

27.3.04

[AUTOR ÁRABE DESCONHECIDO]

Um galo que canta, um cavalo que relincha,
um gato que volteia: a aurora.
Um lírio que se inclina, um limão que cai,
uma árvore que estala: meio dia.
As areias que azulecem, os fumos que sobem,
os amantes que se encontram: a noite.

(da colectânea O Jardim das Carícias - traduzido por Joaquim Pessoa, in Os Herdeiros do Vento - Antologia Apócrifa, Litexa, 1984)

26.3.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

TOMÁS ANTÓNIO GONZAGA


Marília, chega, que Dirceu t'espera
Sobre as cândidas asas da alegria:
Chega, querido bem, trazes o dia,
Em que a inveja ferina s'exaspera.

Apenas no horizonte amanhecera,
E Febo os louros raios repartia;
Já dentro desta aldeia se sabia,
Que a causa deste bem Marília era.

Tu já vês como salta o cordeirinho
Alegre atrás da mão no vede prado:
Ouves cantar o alado passarinho:

Pisas a inveja rindo-te do fado:
É mais puro que o leite o teu carinho,
É mais doce que o mel teu terno agrado.


FILINTO ELÍSIO

Estende o manto, estende, ó noite escura,
Enluta de horror feio o alegre prado;
Molda-o bem c'o pesar dum desgraçado
A quem nem feições lembram da ventura.

Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
em que se agora ceva o meu cuidado,
gostará de ver tudo assim trajado
da nega cor da minha desventura.

Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
rebente o mar em vão n'ocos rochedos,
solte-se o céu em grossas lanças de água.

Consolar-me só podem já pesares;
quero nutrir-me de arriscados medos,
quero sacia de mágoa a minha mágoa!


BOCAGE

Olha, Marília, as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! olha: não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!

Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelhinha pára.
Ora nos ares, sussurrando gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a noite me causara.


ALMEIDA GARRETT

PORFIA DE AMOR


Demtorno à arvorinha que murchara
Se afadiga o cultor esperançoso;
Envisca as varas caçador teimoso,
Armando ao passarinho que escapara;

Porfiado rompe com destra avara
As entranhas da terra o cobiçoso;
Sua co'a bomba o nauta pressuroso
Por estancar a nau que lhe arrombara.

Mas larga cada qual desesperado,
Quebra furioso o inútil instrumento
Se o contínuo trabalho vê baldado.

Só eu, com desenganos cento e cento,
Só eu, por Délia sempre desprezado,
Teimo cada vez mais no meu tormento

Angra - 1814
Como se Ângelo de Lima percebesse de html.

25.3.04

Ecce ancilla Domini

[hoje, nove meses antes do Natal, a Igreja celebra a solenidade da Anunciação]
CLARICE LISPECTOR

então do ventre mesmo, como um estremecimento longínquo de terra que mal se soubesse ser sinal do terremoto, do útero, do coração contraído veio o tremor gigantesco duma forte dor abalada, do corpo todo o abalo - e em subtis caretas de rosto e de corpo afinal com a dificuldade de um pet´roleo rasgando a terra - veio afinal o grande choro seco, choro mudo sem som algum até para ela mesma, aquele que ela não havia adivinhado, aquele que não quisera jamais e não previra - sacudida como a árvore forte que é mais profundamente abalada que a árvore frágil - afinal rebentados canos e veias, então

(excerto de Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, Relógio d'Água, 1999 - Ficções)
...e dizemos amor sem saber o que seja

Espreito o DN do senhor que vai ao meu lado no Metro.
A falta de esperança e o pessimismo de Saramago provam que é um ateu honesto e consequente.

22.3.04

EUCANAÃ FERRAZ

O poeta insiste:
brune, lava, escoda.

Mas já não sonha
o perfeito.

Verruma
porque o canto é isso mesmo.

Isso:
toda palavra é defeito.

(de Desassombro, edições Quasi, 2001 - Arranjos para assobio)
JEJUM SECRETO

Não hei de mostrar a túnica branca
enquanto o inverno não se sujeitar
ao verde que renasce do cansaço
e da morte faz o vento que respira.
Não voltarei a sentir os abraços
até à vinda da alegria inteira
cheia do riso que liberta a fome
e sangra da prisão os cativos.
Vou a pé enquanto durar a noite:
recuso o lucro fácil das acções.

21.3.04

[deste dia da poesia fica um soneto feito em colaboração]

Reparo nas tuas mãos profundas de violência
em contraste com as superfícies frias dos teus versos
lembro os dias lúcidos da sabedoria e a penumbra
o assombro depois dos silêncios mais tardios

Reparo no som das ondas quando chegam às rochas
em como as palavras não evitam a paisagem
ao desfazerem-se em dispersão líquida
(se me atingem os lábios os hábitos do desassossego)

Reparo no sono dourado dos que passam de noite
e na distância intacta que levamos entre os quatro pés
porque se repetem fluidos pela calçada os nomes
das estátuas e das flores que matas pela primavera

Durmo devagar nos terrenos da solidão repetida
mas adivinhas gumes e medos como na primeira vez

(Sandra Costa e Rui Almeida)
A par das lutas de machos e acasalamento de hipopótamos na SIC à hora do almoço, a melhor evocação deste dia da poesia é a de um tal Repórter Lírico, frequentador de uma certa Janela Indiscreta.
Refira-se a vaga de comentários esclarecidos motivados pela solidez qualitativa de tão eloquentes versos.
Bem hajas Repórter!
Dos últimos dias chegam novíssimas perspectivas para signos do zodíaco e sabores de gelado alternativos.
Definitivamente, estamos numa era de transformações. A tradição renova-se.

20.3.04



Na Fundação Gulbenkian (galeria do piso 0, escadas, hall, galeria do piso 01, casa de banho das senhoras e parte do jardim) pode ser revisitada (ou descoberta) a obra de Antony Gormley.
Numa das instalações deparamo-nos com a figuração de "uma dor apocalíptica e devastadora".
A entrada é gratuita e vale a pena ir ver.
[outros melros XVI]

OLIVIER BRAMANTI

Ça ne vous dérange jamais ?

A ce compte-là, je devrais dessiner des fleurs ! Le monde n'est pas comme ça, il est plein de violence, il ne faut pas se le cacher... L'histoire est pratiquement liée à la guerre. Il y a toujours eu des morts, ça a toujours été représenté. Pendant des siècles, on dessinait Jésus pendant la descente de croix, c'est quand même une représentation qui est forte et même violente. Picasso a bien fait Guernica. Si l'on a quelque chose à dire, il faut l'exprimer. Là, il y avait cette violence exercée sur des villageois par un pouvoir qui avait pour lui l'armée, les milices. La violence, on la trouve partout, même en France.

(de uma entrevista)


Des merles volent vers le sud. «Oiseaux de malheur, ô oiseaux maudits, conduisez-moi sur la plaine!»

(Le Chemin des Merles, amok éditions, 2001)

(Vd. comentário esclarecido aqui)