28.8.06

[outros melros XLI e XLII]

ANA HATHERLY

Tisana 76


Era uma vez um melro de oiro mas pintado de preto. Do seu bico jorrava uma fonte em que se banhavam as grandes cadeiras de sessenta. Quando as filhas das cadeiras cresceram mandaram plantar árvores onde colocaram águias de prata de cujas axilas saíam cabeças de chumbo. Desde esse dia nunca mais pintaram o melro de preto.

(de 463 Tisanas, Quimera editores, 2006)


NUM HOTEL DE CINCO ESTRELAS - I

Em frente à minha varanda
um melro salta pelo jardim
e quando pára, alça a cauda
evitando o viés da instabilidade

Flâneur jovial
seu canto
enche de encanto o meu dia

Preciosa ilusão de alegria
como a criança saltando à corda
brinca
com as leis do fim

(de Itinerários, edições Quasi, 2003)

27.8.06

[Monumento a Antero de Quental - Jardim Antero de Quental, Ponta Delgada / 16 de Agosto de 2006]

ANTERO DE QUENTAL

SOLEMNIA VERBA

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.


CONTEMPLAÇÃO

Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre ideias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das cousas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentido...

(de Sonetos Completos, 1886)

15.8.06

[outros melros XL]

JOÃO MAIA


O Melro


Falaremos só do de bico amarelo? E a mélroa? Ora falemos de todos sem discriminação. Quando os homens, referindo-se ao parceiro, dizem «Que melro!», referem-se a algum desconfiadão que em primeiro termo trata de si e não dá passo em falso. Persuadiram-se de que o melro - lá porque de manhã, ao ir tomar o desenjoadouro, vistoria primeiro, com olho sagaz, se a gataria por ali espreita - era a fina flor da finura.
O que ele é, é um cantor que só canta com a barriga cheia. Logo de manhã vai aos pomares, para debaixo dos arbustos húmidos, e põe-se a esgaravatar. Envia para o estreito meia dúzia de bifes ingleses - ou seja, minhocas gordíssimas - e sobe de seguida para um ramo alto, onde se põe a assobiar como se a vida fosse uma festa preparativa de capitoso jantar.
Assobia, fechando os olhos e repetindo o trinado e virando-se à direita e à esquerda.
No tempo dos ninhos, escolhe a pernada a jeito; e não mostra subtileza a esconder-se. Em linha recta, transporta raízes e matana até que bonda. Em seguida, a mélroa vai buscar uns fios de penugem, e não tarda que cinco ovos a céu aberto garantam a continuidade da família. Nos silvedos próceres ou nas árvores de pomar mais copadas é que instauram a camarata.
Durante a criação, cinco bicos vorazes dão um trabalho que não pode afroixar. Carretos pesados de toda a bicharia, esgaravatada com consciência, cruzam os ares indiscretos. O bichano, cá em baixo assiste ao transporte, cofia os bigodes e programa uma caçada. Se lhe passa da ideia, em poucos dias os cinco comilões, crescendo em galão, vestem-se - e ala! De gorra com os pais, desabam nas hortas das cercanias e, com breves lições de cozinha, pegam a engordar e a ensaiar a solfa.
O pior é se o gato trepa pela árvore e dá com o berço a transbordar. Saúda-os, mesureiro, pega no mais gordo, e desce de novo todo contente. Um almoço que nem o rei da Inglaterra abicha em toda a roda do ano! No outro dia, ligeiro e sorrindo, volta a trepar e volta a descer. Alarmados, os melros induzem os restantes a tentarem o voo. Ao terceiro dia o bichano embatuca - e chama-se nomes por não ter sido mais previdente.
Melros com arroz é iguaria de deitar o santo a perder. Daí armarem-lhes laços e granizarem-nos de chumbo, não falando já na decapitação dos ninhos. Sabem-no eles muito bem; por isso ralham e fogem com voos em flecha, mal se sentem espiados. À noite, antes da deita, vê-los-eis queixumentos de ramo para ramo, pois todas as sombras se lhes afiguram malteses emboscados de clavina pronta.
Os homens, em geral, metem-nos na panela, não os metem nos livros. Mas em Portugal, além de Junqueiro, foi Ramalho Ortigão quem melhor deu guarida, na sua prosa cheia de boscagens e balseiros, a este vivaz passarolo, não obstante a pretidão da jaleca. O assobio são, viril, descontraído de todo, coadunava-se com a escrita lavada, matinal e rija. Um melro de Peso da Régua meteu-se-lhe numa página de prosa soberba - e ainda hoje lá está a assobiar e a infundir-nos o júbilo das coisas naturais.
O melro é, de facto, uma ave salubre. Gosta de comer bem e de subir ao coreto, disposto a partituras que não tenham de ser interrompidas por ventre a dar horas. A sua hora favorita é ao quebrar da manhã, na luz e na frescura. Perde a inspiração com os calores e gosta de se acompanhar sempre com a sombra de ramada, com o docel arbustivo onde, enquanto muda a página, possa retemperar-se com alguma sanduíche de boa fêvera.
As suas manhas não são escuras. Todos as sabem, só que nem todos as põem em acção. Da mesma forma, os homens, quando apodam o vizinho de «melro de bico amarelo», não lhe atribuem vigarices singulares: sublinham apenas que esse tal vela por si, não dá ponto sem nó, nunca escorrega a um puro desprendimento, e é firma para dar ouvidos às paredes e olhos às trevas da meia-noite. Por isso, embora seja apodo um nadinha depreciativo, vai adubado de certa simpatia sorridente - e até a amigos nossos muito conhecidos o damos de quando em vez.
É que o egoísmo dos melros não é agressivo. O que eles não querem é sacrificar um bom almoço a idealismos desmiolados. Tocar música em jejum não lhes quadra, por mais amor que tenham à arte. Psicologia um tanto epicurista, mas não destoa muito da alma humana, porque isenta de crueldade. E até nos arrebata involuntária complacência.

(de O Livro dos Animais, Apostolado da Imprensa, 1982)

14.8.06

[para uma antologia de bicicletas - 10]

FERNANDO PINTO DO AMARAL


Onde estás, minha vida em câmara lenta,
janela toda aberta onde procuro
o vento, a luz da noite? Onde estarás,
melodia cantada a soluçar
numa cama de grades? Onde estás,
olhar dessas visões em sobressalto,
Casal da Bela Vista, velho pátio
ao som da bicicleta? Onde ficaste,
infinito terraço da Alameda,
varanda cor-de-rosa da Parede
com o sol a morrer sobre Cascais?
Onde estás, corredor de São FIlipe
praia do Monte Branco onde outro eu
se lançava da prancha? Onde estarão
os risos desses primos transparentes,
as lágrimas acesas transparentes,
as lágrimas acesas que brilhavam
como arco-íris de seda no meu rosto?
Onde ficou a última pergunta
em véspera de viagem? Onde estás
o mapa dessa alma que foi espuma,
o nó dessa garganta submersa?

(de Pena Suspensa, Dom Quixote, 2004)

10.8.06

ROSA ALICE BRANCO

DISSONÂNCIAS


O olhar não vê, se visse
da folha o mínimo detalhe era seiva e mão que acaricia
entre inúmeros corpos invisíveis
como dentes de água

o olhar não vê
por isso sou nome de árvore ou nome vegetal
na violência com que me olhas
de um centro vazio
ou do rubor imaculado da sombra
mas é com essa distância
que me aproximo das coisas
envoltas numa respiração verde

se visse, o olhar seria a perfeição
do imperfeito e doce
como vir do extremo de mim mesma
ou de uma linha que se estenda perto
e a harmonia fosse esse desajuste
que só se vê por dentro
olhos que se cerram contra os olhos
sem exterior.

(de Monadologia Breve, 1991)

9.8.06

JOSÉ JORGE LETRIA

COISAS DESMEDIDAS

De coisas desmedidas falo,
não de apocalipses nem de estrelas,
tão pouco do seu jogo mágico e incontrolável,
porque para tanto me não chega
o engenho das mãos nem a enganadora
sabedoria do olhar; estou como se estivesse
em estado precário perante as luzes
e a ilusão de espuma das marés

Os cânticos que me cercam
são os da água e do delírio das algas
rente aos segredos mansos da profundidade

Desmedido me torno a falar disto
e é assim que quero ficar

(de Corso e Partilha, Centro Cultural do Alto Minho, 1989)

8.8.06

Ah, e não esquecer também os poemas de Leopoldo Maria Panero que têm aparecido nos Dias Felizes, aparentemente também com tradução local da Cristina.
A ler (em tradução que calculo seja do próprio Luís) os poemas de Amalia Bautista, que estão a aparecer na Natureza do Mal (além de tudo o mais que por lá surge).

PEDRO SENA-LINO

[arte poética]

I.
o fundo avesso da pele
ritmo disperso das visões bebidas

o ponto inexpressivo do mistério
antes de sulcadas as costas da palavra
prosódia do cais ante o naufrágio

(há cordas que matam ao longo do corpo
e podem tanger os sortilégios brancos)


II.
as coisas pesam altura


III.
percorrer demais o ciclo quadrangular
e ver a encarnação do improvável


o espaço teclado de Deus

(tarde revelada além
Quando os lagos alunem)


Paço de Arcos, 6 de Junho de 1999


(de constelação dos antípodas, Litera Pura, 2000)

7.8.06

JOSÉ MATTOSO

(...)
Há quem pense que a investigação científica exclui a devoção e a piedade. Pela minha parte, nada me entusiasma mais do que descobrir alguém capaz de aliar a investigação objectiva, competente e metódica com a sensibilidade poética, o sentido do gratuito e do calor humano, o uso da intuição ou o encantamento pelas manifestações irracionais do homem. Custa-me admitir que tenha de se renunciar a uma coisa para ceder à outra. Não acredito numa efectiva descoberta do sentido do mundo e da vida, senão numa perspectiva de apreensão da totalidade, isto é, do dizível e do indizível, da claridade e das trevas, do crer e do saber, do ser e do estar, do viver e do morrer. Portanto, também do masculino e do feminino, do humano e do divino, do compreender e do rezar.
(...)

(excerto do texto Apresentação de uma Exposição, in Exposição Imagens de Nossa Senhora no Mosteiro dos Jerónimos, 1988)

4.8.06

MANUEL TEIXEIRA-GOMES

(...) De resto o estilo não é e talvez nunca fosse mais do que a tendência constante para a perfeição pessoal, a exclusiva maneira, rude ou elegante, de exprimir que satisfaça o escritor...; e quem nada tem que dizer também não tem estilo algum... Por isso eu nunca pregaria revoluções artísticas - tão conforme estou com todos os géneros, ainda os mais contraditórios ou heterodoxos, quando me sensibilizem, como se diz no já ferrugento chavão -, além de me parecer que pregar «estética» será pregar desesperadamente em deserto inóspito...; mas o assunto é encantador para íntimas palestras! E muito à puridade lhe direi quanto se me afigura condenável que as regras ponham estorvo ou apreço de qualquer talento... Cuido até que um talento pouco literário pode ser mais proveitoso à riqueza da língua do que o mais ponderoso e versado humanista. Não faltam exemplos históricos de línguas empobrecidas por excesso de claridade e ressecadas à inclemência dos preceitos infrangíveis, que necessitaram de muita «corrupção» para desferir na íntegra a gama dos meios-tons, onde a cor se conjuga ao sentimento, e, despegada a ideia da rigorosa propriedade dos termos, fermentaram em frases iriadas que, alargando a vida, sugerem sensações inefáveis... Em geral a «corrupção» não vai além dos alisados rebocos, e severas escaiolas mercê das quais os espíritos gregários sequiosos da disciplina grata à pânria ousaram mascarar as formas libérrimas, ou tentaram empecer os movimentos do organismo activíssimo que uma língua viva constitui...
(...)

(excerto de uma das cartas que servem de introdução a Agosto Azul, 1904)

3.8.06

MARTIM DE CASTRO DO RIO

Perdi-me dentro de mim como um deserto
Minha alma está metida em labirinto,
E posto em tal perigo, já me sinto
Cair noutro maior, nele encoberto.

Tenho o socorro longe, a morte perto,
Pois vivo do que temo e do que sinto,
Se alguém me quer valer não lho consinto
Por vir o que receio a ser mais certo.

Nova invenção do mal, novo tormento,
Ser cutelo da Vida a própria Vida
Ser desatino usar do pensamento:

Vingai-vos dor cruel, dor conhecida
Que o vosso pesar sei do entendimento
Que em grande dor, não há vida comprida.

(do Cancioneiro Fernandes Tomás, séc XVI, transcrito por Francisco de Sousa Neves, in Revista da Biblioteca Nacional, Julho - Dezembro de 1989)


MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim

(...)

(início do poema Dispersão, in Dispersão, 1914)

23.7.06

[em face dos últimos acontecimentos]

TROVANTE

Beirute


Quem recordará como foi
Duvido que ainda haja alguém de pé
Que tenha dançado ao som das noites quentes
De Beirute

Será que alguém chora um ausente
Já não há ninguém para ausentar
Já não há ninguém para soluçar
Em Beirute

Em Beirute
Nem o sol nasce
Em Beirute
Como merece
É mais quente que o ar do deserto
É mais escuro que um buraco aberto
Na memória de uma terra ainda morna
Que já não torna
A ser Beirute

Em Beirute há bares fantasma
Onde outrora o amor se acoitou
E a alegria andava lado a lado
Com Beirute

Na terra onde o calor é quem manda
Havia uma cidade que era assim
Dizia nessa altura mais para mim
Do que Beirute

Quando enfim a história virar
Num tempo de arqueólogos errantes
Veremos corpos e ruínas militantes
Por Beirute

Encontraremos gente tão velha
Que nem parece ser da nossa era
Beijaremos os filhos da guerra
E choraremos
Por Beirute

(do álbum Um destes dias, 1990 - Letra de Luís Represas / Música de João Gil)

20.7.06

[em face dos últimos acontecimentos]

ISRAEL ELIRAZ

A ALDEIA

2


Amontoa-se o meio-dia
sobre as folhas carnudas

uma abelha selvagem indica-te a estrada pulverosa.

Demoras-te, examinas as costuras
que estalam sob o impulso.

O verão devasta
o outro lado do verão.

O gavião leva um rato
para o minarete da mesquita

vai uma vaca
para o seu macho.

Passa um homem a vender histórias
que não vos fazem mais novos

(tradução de Pedro Tamen, a partir da versão francesa de Colette Salem, in Poesia no Porto Santo, DRAC, 2002)

18.7.06

[outros melros XXXIX]

EUGENIO MONTALE

AO MEU GRILO


Que diria o meu grilo
disse Gina observando o melro
que debica larvas e lagartas nos vasos
de flores da varanda e suja tudo.
Mas o mais engraçado é que o grilo eras tu
enquanto foste viva e poucos o sabiam.
Tu sem olhinhos de alfinete de que tenho
um duplo, um verdadeiro insecto de celulóide
com duas bolinhas que seriam os olhos,
dois pistilos e nos olha de uma cómoda.
Que diria o grilo de então do seu sósia
e do melro? É por causa dela que aqui estou
diz Gina e enxota com a vassoura o maroto do melro.
Depois sobem-se os primeiros taipais. E é dia.

(tradução de José Manuel de Vasconcelos, in Poesia, Assírio & Alvim, 2004 - original de Diário de 71 e 72, 1973)