AUGUSTO OLIVEIRA MENDES
«grandeza de homem: falhar o encontro e não perder o humor. grandeza de pássaro: estudar a migração das tartarugas. grandeza de poeta: serenar, quando no cockpit da morte o telemóvel nos falha.» - António Cabrita
Nasceu no Tramagal (Abrantes), em 1959. Publicou quatro livros, sendo que o quinto foi já póstumo. Dirigiu os 6 números da revista de literatura ibérica Canal.
Xúlio L. Valcárcel fala de um “rigoroso caminho emprendido na procura dunha voz auténtica, com tono e modulación proprios.” E José-Alberto Marques diz-nos que “o Augusto era um andarilho de estradas largas e horizontes longos. Não admitia o rectângulo como figura geométrica. Isso era apenas do tamanho dum pé.”
O facto é que a Biblioteca Nacional não o conhece de lado nenhum e algumas livrarias só por acaso.
Morreu em Dezembro de 2000.
Identificar a escrita majestosa e subtil, apontar obra, é falar de heroicidade num mundo poderoso e elitista. Arriscar falhar elegendo falsos grandes autores enquanto inevitáveis manchas negras salpicam imagens intocáveis, não é do agrado de quem faz da literatura um modo de vida com sobejos interesses de vaidade. Pois, diga-se que urge essa tarefa, complemento da tímida criação quase sempre nascida no receio de se perder em silêncios paladinos, quem usufrui de meios e poder revela-se incapaz de sacudir a poeira das mostras literárias promissoras. Dar a cara, colocar as mão no fogo pelo que crêem agora. Enfim, apenas evitar que tardem os escritores. Mas, o medo, a cobardia, a chacota egoísta e silenciosa dos literatos ajudam-nos a ser mais pobres e privam-nos da verdade.
[texto integral do Editorial do nº 6 de Canal - Verão de 1999]
Pela centésima pedra caída entre bicicletas novas
Nós éramos
Entre os cantos mais longos, um outro inverno
já crescido, os cantos centésimos de raposas
espreitando o olhar húmido já como argolas prisioneiras
Não vamos ficar por aqui
Vamo-nos aperceber da virtude que dança
com os cantos centésimos de raposas que
espreitam o olhar húmido da aldeia do declive
Vamo-nos aperceber da virtude que tarda
(de raposas que, publicações O Camelo e o Cachimbo, 1996)
O ânimo sediado, forte, no poema que não este
escrito talvez ontem num barco na Mancha
Poderia falar das águas que batiam, ferozes
ou das faces inquietas dos passageiros
Porém preferi escutar os trovões no mar
e quedar-me mudo sob a chuva gélida
Deitei borda fora néctares de rimas velhas
para me alimentar do verde bolor, insonso
E fugi quando a velha carcaça se afundou
perante o olhar cretino de um deus devasso
sentado e bêbedo nas nuvens sujas
(de Campesinos, publicações O Camelo e o Cachimbo, 1996)
Soam dedos, benignos E inteiros
Soam dedos, benignos E inteiros
No soturno eco dos sentidos Teus, mulher
Agora que respiras E amas essa náusea navegante
Como quem colhe pequenos frutos
de uma árvore fingida
E se acerca de angústias
crescidas ao acaso
numa terra sem nome, dó, desejo
(in Canal nº 1, Março de 1998)
Poema do amor entre rosas e outras
(Retrato de um olhar)
Ouvi uma vos de encantar
na menina crescida na areia de outros mares
para abençoar o beijo e um silêncio feliz
entre penas leves e flores perdidas
No chão, elevei o tom da tua memória
E sorri os teus momentos de ardor
O testemunho do olhar
A carícia apelou pelo teu nome
enquanto as mãos te falavam ao ouvido
sobre cores e perfumes de lugares bondosos
e as rosas do céu caíam, docemente
sobre os corpos estendidos no orvalho
de uma manhã que nascia
(de Emily e os Blues, Luz Lunar editora, 1999)
JANIS JOPLIN, I REMEMBER YOU
A voz, a doce voz cavada
reeleita na penumbra de um carrocel dourado
E nos lindos laranjais da terra vermelha
ei-la ali à espera de sinal
E de transe desesperado e sábio
(de Poemas dos Aranhiços nos Olivais do Sul, Black Sun editores, 2001)
5.7.03
4.7.03
2.7.03
PAULO PAIS
Não sei nada dele, a não ser que é o nome que subscreve um livro intenssíssimo, publicado na colecção Aprendiz de Feiticeiro (é o nº 26) em 1997, com o título Gravador de Chamadas. A obra está dividida em três partes (3 livros??).
IDANHA-A-VELHA
Após todos os vultos as mulheres
ficam sempre arrumando tudo
limpam o pó dos homens
abrem-lhes o caminho de volta
dão destino às coisas
encarreiram a vida
sentam-se rente aos sulcos da terra
prenhes de segredos
regam a paciência com o esperma que lhes cabe
aprendem com os gatos a desprezar em silêncio
velhas cúmplices da vida
tudo aprenderam para lá dos mortos
(de Notas de Campo)
III
Os anjos preocupam-se com a desordem do mundo
pressentem os fungos nos ossos dos que se deitam com frio
a densidade salina das lágrimas
o volume do medo das bestas na hora do abate
por vezes definem com astúcia a tensão do sangue
seguram a mão na pressão exacta controlam a voz com
aptidão exemplar
pai, gosto muito de ti
e a infância escorre pelo rosto da memória
entretidos os homens com os recados da inocência
(de Figuras de Apego)
Pôde ver por momentos na goela da terra o que
a terra faz nas entranhas
viu lá onde tudo se passa o nítido seio da terra
o grande silo do sangue
os rostos lésmicos dos mortos
o rasto factual da morte
esperou que algo de surpreendente acontecesse
talvez um verme gigante numa pápula vegetal
talvez um anjo finalmente vingador
uma luz
súbito a mão de deus cobriu-lhe os olhos ou era
o vidro limpo da rotina dos dias?
uma buzina lembrou-lhe que o mandavam avançar
(de Gravador de Chamadas)
Não sei nada dele, a não ser que é o nome que subscreve um livro intenssíssimo, publicado na colecção Aprendiz de Feiticeiro (é o nº 26) em 1997, com o título Gravador de Chamadas. A obra está dividida em três partes (3 livros??).
IDANHA-A-VELHA
Após todos os vultos as mulheres
ficam sempre arrumando tudo
limpam o pó dos homens
abrem-lhes o caminho de volta
dão destino às coisas
encarreiram a vida
sentam-se rente aos sulcos da terra
prenhes de segredos
regam a paciência com o esperma que lhes cabe
aprendem com os gatos a desprezar em silêncio
velhas cúmplices da vida
tudo aprenderam para lá dos mortos
(de Notas de Campo)
III
Os anjos preocupam-se com a desordem do mundo
pressentem os fungos nos ossos dos que se deitam com frio
a densidade salina das lágrimas
o volume do medo das bestas na hora do abate
por vezes definem com astúcia a tensão do sangue
seguram a mão na pressão exacta controlam a voz com
aptidão exemplar
pai, gosto muito de ti
e a infância escorre pelo rosto da memória
entretidos os homens com os recados da inocência
(de Figuras de Apego)
Pôde ver por momentos na goela da terra o que
a terra faz nas entranhas
viu lá onde tudo se passa o nítido seio da terra
o grande silo do sangue
os rostos lésmicos dos mortos
o rasto factual da morte
esperou que algo de surpreendente acontecesse
talvez um verme gigante numa pápula vegetal
talvez um anjo finalmente vingador
uma luz
súbito a mão de deus cobriu-lhe os olhos ou era
o vidro limpo da rotina dos dias?
uma buzina lembrou-lhe que o mandavam avançar
(de Gravador de Chamadas)
HORA DE ALMOÇO NA CULTURGEST
Duas belas exposições.
Uma: A Arte dos Artistas . As colecções privadas dos artistas. Começa logo com um Duchamp pertencente a Julião Sarmento, que aliás poderia ser confundida com uma obra sua. Vamos por aí fora, num ambiente de variedade e diversidade fascinante. Jorge Martins tem um anagrama do seu nome feito por Maria Helena Vieira da Silva. Michael Biberstein uma colecção de 9 gravuras de Turner (excelentes para quem ainda tem a exposição da Gulbenkian fresca na memória). Paula Rego aparece nas colecções de Graça Morais e de Ruth Rosengarten.
Com peças de novos e consagrados, podemos redundar dizendo que os artistas têm bom gosto.
[Já agora: está lá uma obra pertencente a Pedro Portugal, cujo autor é de certeza um famoso anónimo bloguista que toda a gente anda a tentar descobrir quem é].
Outra: Viagens Fotográficas de Carlos Afonso Dias. Um fotógrafo que eu não conhecia. A mesma perspicácia e sensibilidade a fotografar pessoas na Nazaré e nos bairros antigos de Lisboa, nos anos 50, a Angola profundamente negra e as ruas de Hollywood, nos anos 60, ou as novas paisagens da nova Lisboa dos anos 90.
Estão as duas até Agosto: vou lá voltar.
Duas belas exposições.
Uma: A Arte dos Artistas . As colecções privadas dos artistas. Começa logo com um Duchamp pertencente a Julião Sarmento, que aliás poderia ser confundida com uma obra sua. Vamos por aí fora, num ambiente de variedade e diversidade fascinante. Jorge Martins tem um anagrama do seu nome feito por Maria Helena Vieira da Silva. Michael Biberstein uma colecção de 9 gravuras de Turner (excelentes para quem ainda tem a exposição da Gulbenkian fresca na memória). Paula Rego aparece nas colecções de Graça Morais e de Ruth Rosengarten.
Com peças de novos e consagrados, podemos redundar dizendo que os artistas têm bom gosto.
[Já agora: está lá uma obra pertencente a Pedro Portugal, cujo autor é de certeza um famoso anónimo bloguista que toda a gente anda a tentar descobrir quem é].
Outra: Viagens Fotográficas de Carlos Afonso Dias. Um fotógrafo que eu não conhecia. A mesma perspicácia e sensibilidade a fotografar pessoas na Nazaré e nos bairros antigos de Lisboa, nos anos 50, a Angola profundamente negra e as ruas de Hollywood, nos anos 60, ou as novas paisagens da nova Lisboa dos anos 90.
Estão as duas até Agosto: vou lá voltar.
1.7.03
MÁRIO CLÁUDIO
«Descemos desamparados, pois Mário Cláudio teve o cuidado de retirar todos os andaimes» - Eduardo Lourenço
Nasceu no Porto em 1941. Tem livros editados desde 1969. Duas entrevistas recentes: uma com Ana Sousa Dias na RTP2 e outra com Miguel Sousa Tavares na Revista Ler deste Verão.
Acerca de “Um Verão Assim” diz Jorge de Sena: «Há uma contida violência nesta obra, que não tem nada de invisível, e que transparece no fluir das linhas dela, como um impulso constante, no próprio jogo de uma serenidade ambígua. Creio que Baudelaire, se fosse vivo, e não apenas o glorioso clássico desta linhagem, gostaria muito de a ler.»
Notícias do Advento V
passas despercebida do amor do sono dos sonhos que não te conheço porque os esqueces sempre porisso acreditas que nunca sonhaste; agora a diligência que punhas no teunosso corpo arrumou-se com a mala com que viemos do sul um corpo inventa-se nunca renasce das cinzas em que o mergulhou o olhar mais atento; pode porém procurar-se um corpo quando dorme a si próprio se ignora no voo do seu torpor; nestes meses que constroem o advento do filho acordo debruçado sobre ti a mão direita dormente sob tua nuca investigo a ruga que te atravessa a testa digo-te tudo quase nada durmo outro sono contra ti entre o desejo que é o único filho meu o medo de te despertar sem sentido;
[princípio do “Capítulo Terceiro” de Um Verão Assim, 1974]
«Descemos desamparados, pois Mário Cláudio teve o cuidado de retirar todos os andaimes» - Eduardo Lourenço
Nasceu no Porto em 1941. Tem livros editados desde 1969. Duas entrevistas recentes: uma com Ana Sousa Dias na RTP2 e outra com Miguel Sousa Tavares na Revista Ler deste Verão.
Acerca de “Um Verão Assim” diz Jorge de Sena: «Há uma contida violência nesta obra, que não tem nada de invisível, e que transparece no fluir das linhas dela, como um impulso constante, no próprio jogo de uma serenidade ambígua. Creio que Baudelaire, se fosse vivo, e não apenas o glorioso clássico desta linhagem, gostaria muito de a ler.»
Notícias do Advento V
passas despercebida do amor do sono dos sonhos que não te conheço porque os esqueces sempre porisso acreditas que nunca sonhaste; agora a diligência que punhas no teunosso corpo arrumou-se com a mala com que viemos do sul um corpo inventa-se nunca renasce das cinzas em que o mergulhou o olhar mais atento; pode porém procurar-se um corpo quando dorme a si próprio se ignora no voo do seu torpor; nestes meses que constroem o advento do filho acordo debruçado sobre ti a mão direita dormente sob tua nuca investigo a ruga que te atravessa a testa digo-te tudo quase nada durmo outro sono contra ti entre o desejo que é o único filho meu o medo de te despertar sem sentido;
[princípio do “Capítulo Terceiro” de Um Verão Assim, 1974]
30.6.03
continuo a ouvir atentamente os GNR: "estou-me borrifando p'ra opiniões sempre banais de quem aprendeu tudo e só pelos jornais..."
29.6.03
IRENE LISBOA
«Irene Lisboa é uma dessas figuras da nossa cultura cujo nome já ouviram, mas que muito poucos sabem quem é.» - Paula Morão
«PARA MIM É A MAIOR ESCRITORA DE TODOS OS TEMPOS PORTUGUESES. LEIAM-NA» - José Gomes Ferreira
Nasceu a 25 de Dezembro de 1892, perto de Arruda dos Vinhos.
Fez o Magistério Primário e distingue-se em estudos de Pedagogia, tendo estudado na Bélgica e na Suiça.
Entretanto, a partir de 1926, escreveu dispersa, mas regularmente em muitas publicações importantes da altura (presença, O Diabo, Sol Nascente, Seara Nova, etc.).
Apesar de bem acolhida pela crítica, teve grandes dificuldades em editar.
Morreu em Lisboa, em Novembro de 1958.
A sua Obra tem vindo a ser editada desde 1991 pela editorial Presença, com a coordenação de Paula Morão, que tem sido a sua grande divulgadora.
fins de junho
Sinto-me olhada a furto.
Olham-me,
espiam-me
com modo céptico
e meio terno.
Entra em mim,
torna-me inteira
um estranho retraimento,
desdém,
ou indiferença.
A minha vontade é de fugir,
de me libertar,
de me recuperar...
Depois, fora,
oprimida
e entristecida,
desejo reconstituir,
sem saber bem como,
o fio trémulo da vida...
Desejo sentir-me apreciada,
enobrecida!
[de um dia e outro dia... (diário de uma mulher), Seara Nova, 1936 - com o pseudónimo João Falco]
Os pássaros
Fico-me a olhar os pássaros.
É o mole, longo, estirado desenho dos voos, a
linha bamba dos voos, ora cortada, sacada, ora
retrocedida e inversa, oposta e repetida... ou a
figura negra e viva dos pássaros que mais nos
interessa?
Que olhamos com mais gosto?
Que se fixa mais impressionante no plasma da
Nossa mente?
Pintores e poetas, que escolher?
Formas ou linhas?
Linhas, tremor, movimento, agitação do espírito?
Formas, corpos, envasamentos?
Os pássaros indiferentes não param...
Amigos!
Ondeiam, sobem, vão e retrocedem, infatigavel-
Mente retrocedem...
[de Outono Havias de Vir (Latente Triste), Seara Nova, 1937 - com o pseudónimo João Falco]
Coisas da Terra
A Engrácia e a mãe
chegaram numa tarde de domingo.
A Engrácia é minha sobrinha
E a mãe,
Que eu ainda só vira duas vezes,
minha irmã.
Minha irmã...
uma pobre mulher,
uma simpática desconhecida
que vem ao hospital
ver o seu marido.
Esta é a minha gente.
Penso da mulher:
Parecemo-nos.
Temos os mesmos olhos e boca,
o mesmo nascimento de cabelos.
Oito filhos teve já a minha irmã.
Uma filha que lhe morreu
levou o seu nome.
Este mistério que eu sou!
Filha de outro pai,
noutra terra criada,
lá vivida!
Dou pão com manteiga à Engrácia,
Que não diz nada.
A mãe fala.
É o campo toda ela,
o seu cheiro até
e a sua resignação.
Conta coisas do António,
o meu sobrinho mais velho,
com o seu exame feito
e tão amigo de ler...
Mãe! coitada, penso.
Oiço-a,
esquecida do nosso parentesco.
As duas ali estão:
a criança vestidinha à cidade,
a mulher humilde e amável.
Tudo tão natural e pobre!
[de Folhas Soltas da Seara Nova, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986 - originalmente publicado em 1940 com o pseudónimo João Falco]
«Irene Lisboa é uma dessas figuras da nossa cultura cujo nome já ouviram, mas que muito poucos sabem quem é.» - Paula Morão
«PARA MIM É A MAIOR ESCRITORA DE TODOS OS TEMPOS PORTUGUESES. LEIAM-NA» - José Gomes Ferreira
Nasceu a 25 de Dezembro de 1892, perto de Arruda dos Vinhos.
Fez o Magistério Primário e distingue-se em estudos de Pedagogia, tendo estudado na Bélgica e na Suiça.
Entretanto, a partir de 1926, escreveu dispersa, mas regularmente em muitas publicações importantes da altura (presença, O Diabo, Sol Nascente, Seara Nova, etc.).
Apesar de bem acolhida pela crítica, teve grandes dificuldades em editar.
Morreu em Lisboa, em Novembro de 1958.
A sua Obra tem vindo a ser editada desde 1991 pela editorial Presença, com a coordenação de Paula Morão, que tem sido a sua grande divulgadora.
fins de junho
Sinto-me olhada a furto.
Olham-me,
espiam-me
com modo céptico
e meio terno.
Entra em mim,
torna-me inteira
um estranho retraimento,
desdém,
ou indiferença.
A minha vontade é de fugir,
de me libertar,
de me recuperar...
Depois, fora,
oprimida
e entristecida,
desejo reconstituir,
sem saber bem como,
o fio trémulo da vida...
Desejo sentir-me apreciada,
enobrecida!
[de um dia e outro dia... (diário de uma mulher), Seara Nova, 1936 - com o pseudónimo João Falco]
Os pássaros
Fico-me a olhar os pássaros.
É o mole, longo, estirado desenho dos voos, a
linha bamba dos voos, ora cortada, sacada, ora
retrocedida e inversa, oposta e repetida... ou a
figura negra e viva dos pássaros que mais nos
interessa?
Que olhamos com mais gosto?
Que se fixa mais impressionante no plasma da
Nossa mente?
Pintores e poetas, que escolher?
Formas ou linhas?
Linhas, tremor, movimento, agitação do espírito?
Formas, corpos, envasamentos?
Os pássaros indiferentes não param...
Amigos!
Ondeiam, sobem, vão e retrocedem, infatigavel-
Mente retrocedem...
[de Outono Havias de Vir (Latente Triste), Seara Nova, 1937 - com o pseudónimo João Falco]
Coisas da Terra
A Engrácia e a mãe
chegaram numa tarde de domingo.
A Engrácia é minha sobrinha
E a mãe,
Que eu ainda só vira duas vezes,
minha irmã.
Minha irmã...
uma pobre mulher,
uma simpática desconhecida
que vem ao hospital
ver o seu marido.
Esta é a minha gente.
Penso da mulher:
Parecemo-nos.
Temos os mesmos olhos e boca,
o mesmo nascimento de cabelos.
Oito filhos teve já a minha irmã.
Uma filha que lhe morreu
levou o seu nome.
Este mistério que eu sou!
Filha de outro pai,
noutra terra criada,
lá vivida!
Dou pão com manteiga à Engrácia,
Que não diz nada.
A mãe fala.
É o campo toda ela,
o seu cheiro até
e a sua resignação.
Conta coisas do António,
o meu sobrinho mais velho,
com o seu exame feito
e tão amigo de ler...
Mãe! coitada, penso.
Oiço-a,
esquecida do nosso parentesco.
As duas ali estão:
a criança vestidinha à cidade,
a mulher humilde e amável.
Tudo tão natural e pobre!
[de Folhas Soltas da Seara Nova, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986 - originalmente publicado em 1940 com o pseudónimo João Falco]
28.6.03
esquecer o sal e os dias
o vento distante
e o rosto de alguém
*
que bom o inverno
de já ser quase primavera
e árvores ainda sem folhas
*
poeta de voz irregular
as palavras que semeias
restos de cinzas
*
olhar logo por dentro
um rio profundamente navegável
algas e peixes
Rui Almeida
o vento distante
e o rosto de alguém
*
que bom o inverno
de já ser quase primavera
e árvores ainda sem folhas
*
poeta de voz irregular
as palavras que semeias
restos de cinzas
*
olhar logo por dentro
um rio profundamente navegável
algas e peixes
Rui Almeida
DOIS POETAS ÁRABES QUE FALAM FRANCÊS
TAHAR BEN JELLOUN
nasceu em Fez, em 1944
Crianças apaixonadas pela terra
caminham pé descalço sobre a húmida greda
o destino delineado
na asa do pássaro migrante
Ao longe
o dia debruça-se para apagar a pobreza
e amontoar os figos secos da morte
*
O muro
vestido de cal
conta os dias retidos na pedra
envergonhado
esconde a miséria e a mão que se ergue
(de Arzila / Estação de Espuma – Hiena Editora, 1987 – Colecção Águas Doidas, Trad. de Al Berto)
SALAH STÉTIÉ
nasceu em Beirute, capital do Líbano, em 1929. Apesar de a sua língua materna ser o árabe, escolheu o francês para se exprimir na poesia. Ocupou cargos diplomáticos em várias cidades do mundo. Recebeu em 1995 o Grand Prix de la Francophonie.
Agulha
Estrangeiros conversando sem palavras em todas as varandas da noite
A morte espera no buraco das agulhas
Mas as rosas prudentes abandonaram este círculo
Na sua longa verdade
Pensamento sem anjos
Onde surjo de costas moídas, aparafusadas às cadeiras
De olho faminto na cabeça estilhaçada
Rosto e corpo sob os duros ditames da chuva
Densidade
Atrás das cortinas de árvores
Fica a densidade da lâmpada
Sustentada pela fragilidade
E os homens de sonho
Levam a lâmpada trabalhada pelas suas lágrimas
Por um bosque de poeira
Seus dedos subitamente prudentes
Sobre uma estrela de sombra
Onde corre uma fonte vazia.
Água – 2
É preciso dormir minha cabeça que te acostumes
Aos ramos da noite cruzados sobre o teu destino
À própria ansiedade de sucumbir no mar
Alumiado por veleiros grandes e selvagens
É preciso dormir e desancorar o coração
Ele em traje de mar e tu profunda
Com os teus degraus ainda alegres
Instrumentos de sangrenta festa
É preciso dormir e que os teus degraus
Derramem a sua carga na água nocturna
E regressar com o coração ao seio
De uma festa sem instrumentos ou veleiros
(de Falando só com a pedra – Tradução colectiva revista e prefaciada por Fernando Guimarães, no âmbito de um “seminário de tradução colectiva” da Fundação Casa de Mateus, em Abril de 1999, Quetzal editores, 2000)
TAHAR BEN JELLOUN
nasceu em Fez, em 1944
Crianças apaixonadas pela terra
caminham pé descalço sobre a húmida greda
o destino delineado
na asa do pássaro migrante
Ao longe
o dia debruça-se para apagar a pobreza
e amontoar os figos secos da morte
*
O muro
vestido de cal
conta os dias retidos na pedra
envergonhado
esconde a miséria e a mão que se ergue
(de Arzila / Estação de Espuma – Hiena Editora, 1987 – Colecção Águas Doidas, Trad. de Al Berto)
SALAH STÉTIÉ
nasceu em Beirute, capital do Líbano, em 1929. Apesar de a sua língua materna ser o árabe, escolheu o francês para se exprimir na poesia. Ocupou cargos diplomáticos em várias cidades do mundo. Recebeu em 1995 o Grand Prix de la Francophonie.
Agulha
Estrangeiros conversando sem palavras em todas as varandas da noite
A morte espera no buraco das agulhas
Mas as rosas prudentes abandonaram este círculo
Na sua longa verdade
Pensamento sem anjos
Onde surjo de costas moídas, aparafusadas às cadeiras
De olho faminto na cabeça estilhaçada
Rosto e corpo sob os duros ditames da chuva
Densidade
Atrás das cortinas de árvores
Fica a densidade da lâmpada
Sustentada pela fragilidade
E os homens de sonho
Levam a lâmpada trabalhada pelas suas lágrimas
Por um bosque de poeira
Seus dedos subitamente prudentes
Sobre uma estrela de sombra
Onde corre uma fonte vazia.
Água – 2
É preciso dormir minha cabeça que te acostumes
Aos ramos da noite cruzados sobre o teu destino
À própria ansiedade de sucumbir no mar
Alumiado por veleiros grandes e selvagens
É preciso dormir e desancorar o coração
Ele em traje de mar e tu profunda
Com os teus degraus ainda alegres
Instrumentos de sangrenta festa
É preciso dormir e que os teus degraus
Derramem a sua carga na água nocturna
E regressar com o coração ao seio
De uma festa sem instrumentos ou veleiros
(de Falando só com a pedra – Tradução colectiva revista e prefaciada por Fernando Guimarães, no âmbito de um “seminário de tradução colectiva” da Fundação Casa de Mateus, em Abril de 1999, Quetzal editores, 2000)
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Árabe,
Salah Stétié,
Tahar Ben Jelloun
JOSÉ BAÇÃO LEAL
(Lisboa - 01-07-1942 / Nampula - 01-09-1965)
Noite
Se tivesses boca e fosses mulher
conheceria o morrer de amor
*
Absoluta e contente
vem ao encontro dos meus gestos
e dos meus silêncios de pedra
as nuvens
morrem nas fendas do vento
e eu morro nos gritos da terra.
*
Amor... um dia
terei de beijar o vidro rasgado
terei de moldar um passado.
Mas nesse dia não chores
espera que eu surja entre a bruma
com o corpo envolto em espuma.
Transforma as certezas
em flores murchas na madrugada
em gritos de sangue numa evasão
Depois para teu bem
e enquanto esperas que chegue alguém
vai falando de mim
como se eu continuasse a viver
e o morrer não fosse o fim
*
Ah vazio! eterno vazio!
vais-me matando aos poucos
estou farto de não viver
não tarda estarei louco
ou morto sem morrer
[poemas retirados de um livro de 1966, sem título, compilado por amigos do autor que referem: "Estas poesias foram-nos cedidas pela Mãe do Zé que carinhosamente as recolheu de rascunhos que ele deitava fora"]
(Lisboa - 01-07-1942 / Nampula - 01-09-1965)
Noite
Se tivesses boca e fosses mulher
conheceria o morrer de amor
*
Absoluta e contente
vem ao encontro dos meus gestos
e dos meus silêncios de pedra
as nuvens
morrem nas fendas do vento
e eu morro nos gritos da terra.
*
Amor... um dia
terei de beijar o vidro rasgado
terei de moldar um passado.
Mas nesse dia não chores
espera que eu surja entre a bruma
com o corpo envolto em espuma.
Transforma as certezas
em flores murchas na madrugada
em gritos de sangue numa evasão
Depois para teu bem
e enquanto esperas que chegue alguém
vai falando de mim
como se eu continuasse a viver
e o morrer não fosse o fim
*
Ah vazio! eterno vazio!
vais-me matando aos poucos
estou farto de não viver
não tarda estarei louco
ou morto sem morrer
[poemas retirados de um livro de 1966, sem título, compilado por amigos do autor que referem: "Estas poesias foram-nos cedidas pela Mãe do Zé que carinhosamente as recolheu de rascunhos que ele deitava fora"]
CLÃ
[uma banda fantástica na música, nas letras, nos instrumentos e sobretudo na Voz da Manuela Azevedo. Há uma página não oficial. Ficam dois exemplos da sua imaginação delirante.]
DO MESMO CLÃ (versão alternativa)
Letra: Luís G. Claro / Hélder Gonçalves
Nós somos do mesmo clã
(...)
Nós queremos ser citados por uma fonte luminosa
Tomar banho nas margens do erro
Flutuar na banheira de Arquimedes
Meter a ironia do destino na carta para Garcia
E se ele não estiver, esquecê-la num marco histórico
Nós queremos curar o calcanhar de Aquiles
Atingir o princípio de Peter do lado do poente
Subir a escala de Richter numa gôndola
Tocar na buzina do Harpo Marx
Soltar a risada de Bugs Bunny
Conduzir a locomotiva de Pamplinas em direcção ao Futuro
Nós queremos a bengala de Charlot,
O passaporte de Fernão Mendes Pinto,
Comprar cigarros na mesma tabacaria de Fernando Pessoa,
Fugir de uma Fuga de Bach,
Ouvir a voz de Salomão propôr uma amnistia
Para o Otelo de Shakespeare
Nós queremos saber onde param os violinos de Chopin
Nós exigimos saber o porquê do sorriso de Gioconda
Não queremos saber quem são os dois amores
De Marco Polo do Oriente
Muito menos quem matou Laura Palmer
Porque nós não temos medo do SIS
Muito menos de Virginia Woolf
CONCURSO DO MÉTODO
Letra: Carlos Tê
Bem-vindos ao estúdio
onde vai ter lugar
mais uma sessão do concurso do método
mas antes do prelúdio
um breve interlúdio
para a publicidade
Caro telespectador não faça zap
porque nós vamos saber
o olho do grande irmão que em sua casa o vigia
toda a noite, todo o dia
e arrisca-se a perder
o direito de concorrer
ao grande concurso do método
e a pergunta é:
qual é o método que usa para consumir?
sonha por catálogo da t.v. shop
ou prefere atendimento personalizado
faça uma frase, uma prosa, um poema
e você, aí em casa, basta 1 telefonema
e ganha um 1 viagem ao pais dos iglôs,
a Guadalupe, Bermudas e Barbados,
à Lapónia, ao Alaska, aos eternos congelados
e ganha ainda a fantástica
máquina de descascar desejos
... e eis a brilhante vencedora
a D. Berta da Amadora!!!
(O Concurso do Método tem o patrocínio dos
electrodomésticos GRUNFT. Dirija-se a qualquer loja
GRUNFT e adquira já qualquer um dos magníficos
electrodomésticos da gama GRUNFT. GRUNFT com
GRUNFT porque grunfta melhor. GRUNFT!!)
quando passo numa montra onde tudo é tão bonito
entro logo, faço a compra
vejo logo necessito
eu sinto a falta do tudo
ao que é novo não resisto
só estou bem a consumir e se consumo logo existo
é assim quando consumo
o Visa corre entre carris
sinto-me assim não sei como, a modos que leve e feliz
prazer puro, entusiasmo
dura pouco, vai para o lixo
muito perto do orgasmo
muito além do capricho
(E leve ainda 101 contos para pôr no seu porquinho
mealheiro. Mais uma magnífica e inultraprassável oferta
das lojas GRUNFT!)
[uma banda fantástica na música, nas letras, nos instrumentos e sobretudo na Voz da Manuela Azevedo. Há uma página não oficial. Ficam dois exemplos da sua imaginação delirante.]
DO MESMO CLÃ (versão alternativa)
Letra: Luís G. Claro / Hélder Gonçalves
Nós somos do mesmo clã
(...)
Nós queremos ser citados por uma fonte luminosa
Tomar banho nas margens do erro
Flutuar na banheira de Arquimedes
Meter a ironia do destino na carta para Garcia
E se ele não estiver, esquecê-la num marco histórico
Nós queremos curar o calcanhar de Aquiles
Atingir o princípio de Peter do lado do poente
Subir a escala de Richter numa gôndola
Tocar na buzina do Harpo Marx
Soltar a risada de Bugs Bunny
Conduzir a locomotiva de Pamplinas em direcção ao Futuro
Nós queremos a bengala de Charlot,
O passaporte de Fernão Mendes Pinto,
Comprar cigarros na mesma tabacaria de Fernando Pessoa,
Fugir de uma Fuga de Bach,
Ouvir a voz de Salomão propôr uma amnistia
Para o Otelo de Shakespeare
Nós queremos saber onde param os violinos de Chopin
Nós exigimos saber o porquê do sorriso de Gioconda
Não queremos saber quem são os dois amores
De Marco Polo do Oriente
Muito menos quem matou Laura Palmer
Porque nós não temos medo do SIS
Muito menos de Virginia Woolf
CONCURSO DO MÉTODO
Letra: Carlos Tê
Bem-vindos ao estúdio
onde vai ter lugar
mais uma sessão do concurso do método
mas antes do prelúdio
um breve interlúdio
para a publicidade
Caro telespectador não faça zap
porque nós vamos saber
o olho do grande irmão que em sua casa o vigia
toda a noite, todo o dia
e arrisca-se a perder
o direito de concorrer
ao grande concurso do método
e a pergunta é:
qual é o método que usa para consumir?
sonha por catálogo da t.v. shop
ou prefere atendimento personalizado
faça uma frase, uma prosa, um poema
e você, aí em casa, basta 1 telefonema
e ganha um 1 viagem ao pais dos iglôs,
a Guadalupe, Bermudas e Barbados,
à Lapónia, ao Alaska, aos eternos congelados
e ganha ainda a fantástica
máquina de descascar desejos
... e eis a brilhante vencedora
a D. Berta da Amadora!!!
(O Concurso do Método tem o patrocínio dos
electrodomésticos GRUNFT. Dirija-se a qualquer loja
GRUNFT e adquira já qualquer um dos magníficos
electrodomésticos da gama GRUNFT. GRUNFT com
GRUNFT porque grunfta melhor. GRUNFT!!)
quando passo numa montra onde tudo é tão bonito
entro logo, faço a compra
vejo logo necessito
eu sinto a falta do tudo
ao que é novo não resisto
só estou bem a consumir e se consumo logo existo
é assim quando consumo
o Visa corre entre carris
sinto-me assim não sei como, a modos que leve e feliz
prazer puro, entusiasmo
dura pouco, vai para o lixo
muito perto do orgasmo
muito além do capricho
(E leve ainda 101 contos para pôr no seu porquinho
mealheiro. Mais uma magnífica e inultraprassável oferta
das lojas GRUNFT!)
SEBASTIÃO UCHOA LEITE
«A poesia é necessária
Um dos mais importantes poetas brasileiros contemporâneos, o pernambucano Sebastião Uchoa Leite nasceu em 1935, na pequena cidade de Timbaúba. Cresceu no Recife e transferiu-se para o Rio (onde vive até hoje) em 1965, cinco anos depois de estrear na poesia, com Dez sonetos sem matéria. Desde então, já publicou 10 livros. O último, A regra secreta, recém-lançado pela editora Landy. Uchoa Leite publicou ainda Obra em dobras (Editora Duas Cidades), que engloba seus seis primeiros livros, A uma incógnita (Iluminuras), A ficção vida (Editora 34) e A espreita (Perspectiva). O poeta já recebeu dois prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro: um pelo livro de poemas Antilogia e outro pela tradução de Poesia, de François Villon. Sua poesia mistura universos como quadrinhos, cinema, jornal diário, música erudita e popular, literatura sofisticada e romance policial, numa linguagem ao mesmo tempo coloquial e rigorosa. A mistura, temperada por boa dose de auto-ironia, resulta personalíssima. Tradutor de mais de 20 livros, publicou também os ensaios Participação da palavra poética, Crítica clandestina e Jogos e enganos».
memória das sensações 4: vertigo 3
A
VER
TI
GEM
É
UMA
LIN
GUA
GEM
DA
MAR
GEM
OU
UMA
FOR
MA
DE
NÃO
PO
DER
DA
LIN
GUA
GEM
DO
COR
PO
antimétodo 2
Pouco a pouco
Embaralho tudo e nada
Sou meu próprio
Espantalho
Fujo
De mim mesmo
Finjo-me
Da minha própria
Esfinge
Perdido em meu próprio
Labirinto
Sou o que sou
Ou minto? Será isso
Uma regra secreta?
[21/DEZ/2002]
[ficam aqui estes textos que eu retirei (talvez em Janeiro...) da edição on-line de um jornal brasileiro, mas não me lembro qual, nem sequer do nome do autor da apresentação]
«A poesia é necessária
Um dos mais importantes poetas brasileiros contemporâneos, o pernambucano Sebastião Uchoa Leite nasceu em 1935, na pequena cidade de Timbaúba. Cresceu no Recife e transferiu-se para o Rio (onde vive até hoje) em 1965, cinco anos depois de estrear na poesia, com Dez sonetos sem matéria. Desde então, já publicou 10 livros. O último, A regra secreta, recém-lançado pela editora Landy. Uchoa Leite publicou ainda Obra em dobras (Editora Duas Cidades), que engloba seus seis primeiros livros, A uma incógnita (Iluminuras), A ficção vida (Editora 34) e A espreita (Perspectiva). O poeta já recebeu dois prêmios Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro: um pelo livro de poemas Antilogia e outro pela tradução de Poesia, de François Villon. Sua poesia mistura universos como quadrinhos, cinema, jornal diário, música erudita e popular, literatura sofisticada e romance policial, numa linguagem ao mesmo tempo coloquial e rigorosa. A mistura, temperada por boa dose de auto-ironia, resulta personalíssima. Tradutor de mais de 20 livros, publicou também os ensaios Participação da palavra poética, Crítica clandestina e Jogos e enganos».
memória das sensações 4: vertigo 3
A
VER
TI
GEM
É
UMA
LIN
GUA
GEM
DA
MAR
GEM
OU
UMA
FOR
MA
DE
NÃO
PO
DER
DA
LIN
GUA
GEM
DO
COR
PO
antimétodo 2
Pouco a pouco
Embaralho tudo e nada
Sou meu próprio
Espantalho
Fujo
De mim mesmo
Finjo-me
Da minha própria
Esfinge
Perdido em meu próprio
Labirinto
Sou o que sou
Ou minto? Será isso
Uma regra secreta?
[21/DEZ/2002]
[ficam aqui estes textos que eu retirei (talvez em Janeiro...) da edição on-line de um jornal brasileiro, mas não me lembro qual, nem sequer do nome do autor da apresentação]
27.6.03
Este blog corre o risco de ficar conhecido (mas por quem???) como o blog da rã...
Eis mais uma recriação do poema do nosso Bashô, da autoria de Nuno Travanca:
velha rã
que saltas ao tanque
em estrondo aquático
Eis mais uma recriação do poema do nosso Bashô, da autoria de Nuno Travanca:
velha rã
que saltas ao tanque
em estrondo aquático
26.6.03
«17 de Junho – Diário imaginário . … Nada. Ainda hoje esquecemos que somos felizes. Nada. Esquecemos que somos felizes ainda hoje…»
[Selecciono isto do meu blog favorito que não é destes da internet; é em papel de jornal e vem quinzenalmente na última página do Jornal de Letras – chama-se Debate-Papo. Quem o faz é um senhor nascido em Praga, na então Checoslováquia (e que agora é a capital da República Checa), que aprendeu português em seis meses, lendo o Crime do Padre Amaro sem dicionário. Escreve contos, teatro, poesia e é encenador. (aliás publicou recentemente o 1º volume da sua prosa reunida, nas Edições Quasi)
É Jorge Listopad.
É ele também o responsável pelo melhor refúgio dos jornais nacionais: um espaço com 5 cm de largura e altura variável, com fundo negro e um coelhinho branco, onde não se dão informações nem opiniões, não se fala mal nem bem, efémero e sem pretensões estéticas ou filosóficas. Indispensável!!]
[Selecciono isto do meu blog favorito que não é destes da internet; é em papel de jornal e vem quinzenalmente na última página do Jornal de Letras – chama-se Debate-Papo. Quem o faz é um senhor nascido em Praga, na então Checoslováquia (e que agora é a capital da República Checa), que aprendeu português em seis meses, lendo o Crime do Padre Amaro sem dicionário. Escreve contos, teatro, poesia e é encenador. (aliás publicou recentemente o 1º volume da sua prosa reunida, nas Edições Quasi)
É Jorge Listopad.
É ele também o responsável pelo melhor refúgio dos jornais nacionais: um espaço com 5 cm de largura e altura variável, com fundo negro e um coelhinho branco, onde não se dão informações nem opiniões, não se fala mal nem bem, efémero e sem pretensões estéticas ou filosóficas. Indispensável!!]
«RAMÓN GÓMEZ DE LA SERNA,
ou simplesmente Ramón, como toda a Europa e América Latina artísticas o conheceram nos anos 20 e 30, nasceu em Madrid em 1888. (…) Obra imensa – de todos os géneros que existiam e que não existiam (…) Com Chaplin e Pitigrilli, foi o único estrangeiro admitido na Academia de Humor Francesa. E Valéry Larbaud, que poucas vezes se enganou, dele disse: “Com Proust e Joyce é um dos maiores escritores do século XX”. Em 1936, com o deflagrar da Guerra Civil, parte para Buenos Aires onde conhecera Luisa Sofovitch que o acompanhou até à morte em 1963»
GREGUERÍAS
Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores.
*
Sofá-cama: os sonhos ficam em baixo, a conversa em cima
*
Amor é acordar uma mulher e ela não se irritar
*
As palmeiras levantam-se mais cedo do que as outras árvores.
*
Velho actor: deixou uma dentadura que declamava Shakespeare.
*
Os rios não conhecem os seus nomes.
*
A gaivota rema ao voar.
*
O ferro eléctrico parece servir café às camisas
*
O capitalista é um senhor que, quando fala connosco, nos fica com os fósforos
*
Quando temos uma manga descosida e enfiamos o braço entre o forro e o tecido, extraviamo-nos pelo caminho dos manetas
*
A lua é o espelhinho com que o sol se entretém de noite a inquietar os olhos da terra.
[escolha feita a partir da selecção de Jorge Silva Melo, de quem também são a tradução e a introdução de onde tirei os excertos biográficos – Assírio & Alvim, 1998 – Colecção Gato Maltês]
ou simplesmente Ramón, como toda a Europa e América Latina artísticas o conheceram nos anos 20 e 30, nasceu em Madrid em 1888. (…) Obra imensa – de todos os géneros que existiam e que não existiam (…) Com Chaplin e Pitigrilli, foi o único estrangeiro admitido na Academia de Humor Francesa. E Valéry Larbaud, que poucas vezes se enganou, dele disse: “Com Proust e Joyce é um dos maiores escritores do século XX”. Em 1936, com o deflagrar da Guerra Civil, parte para Buenos Aires onde conhecera Luisa Sofovitch que o acompanhou até à morte em 1963»
GREGUERÍAS
Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores.
*
Sofá-cama: os sonhos ficam em baixo, a conversa em cima
*
Amor é acordar uma mulher e ela não se irritar
*
As palmeiras levantam-se mais cedo do que as outras árvores.
*
Velho actor: deixou uma dentadura que declamava Shakespeare.
*
Os rios não conhecem os seus nomes.
*
A gaivota rema ao voar.
*
O ferro eléctrico parece servir café às camisas
*
O capitalista é um senhor que, quando fala connosco, nos fica com os fósforos
*
Quando temos uma manga descosida e enfiamos o braço entre o forro e o tecido, extraviamo-nos pelo caminho dos manetas
*
A lua é o espelhinho com que o sol se entretém de noite a inquietar os olhos da terra.
[escolha feita a partir da selecção de Jorge Silva Melo, de quem também são a tradução e a introdução de onde tirei os excertos biográficos – Assírio & Alvim, 1998 – Colecção Gato Maltês]
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