23.1.12


JOSÉ BENTO


76
MANUEL HERMÍNIO, JANEIRO, 2001

Na manhã de luz a sujar-se nos vidros
e a prolongar ruas no interior de lojas
opacas e atraentes como pântanos,
que receamos ao acusar nosso reflexo,
vou caminhando como se fosse imóvel,
sem indagar para onde: adormento-me
a dissipar-me passo a passo no torpor
de uma ausência,
sem fulgor para uma fuga
ou assomo a um dia íngreme.

Súbito, fende-me um golpe
(onde?, de quê?, de quem?)
até à testa e à nuca,
ao grito, à palavra única, à orbita cavada
que rege o coração, oprime o sangue
para compor seu dito ao rubro
a crestar-nos os lábios,
não grito mas sufoco, urgência
de me acolher numa brecha que me aceite:

avisto-te num algures ferido, fracturado
pelo sopro que te corrói sem te queimar os olhos
donde a luz emerge até eu escutá-la,
como se os atravessasse a derradeira vez
para nos reconhecermos
no tempo sorvido num cálice comum,
— aprendizagem do precipício
mais sem fundo: ossos, vazio e negro, ossos.

Estou só, ninguém pode ouvir
o que digo, não digo:
nada me é dado fazer por ti,
as palavras que me restam são rasteiras,
mais quando as abandono escritas como estas
para que não me firam mais.

Onde outro cordeiro para o sacrifício?,
qual o astro cálido mais próximo?
Tem de haver um meio menos bárbaro
de te ser dito o que sabes por vivê-lo.

Por exemplo, esqueceres tua casa,
os rostos suspenso do teu rosto,
o teu lugar à mesa,
e vagueares disperso num marulho
de poros arquejantes, espinheiros de um mar
minado por sereias a engodar-te
num canto em que te demandarias
para o retorno a um relâmpago, à infância;

ou buscares o centro do lugar
de uma outra lenda tão límpida como essa:
nos morosos anos de uma tarde ou de um mês breve
afluíres a um horizonte de íman:
seres absorvido e tudo absorveres
até vestires a nudez de teu nome,
sem a pancada que em ti cravou a choupa,
a dissonância que esmaga, insidiosa.

Esta hora contrai-se até estilhaçar-se
num relâmpago obscuro:
ignoro se continuo aqui e onde irei
unificar as porções desirmanadas
de que fui, estou a ser feito;
ignorar queria
que um vórtice te consome, e prossigo
a decifrar o apelo que de longe me tolhe:

jogo a magia de tornar-me visível
na vertigem em que avanço:
                                                  estas letras

para ninguém mais tanger,
uns braços podendo só abrigar nada, uma montanha.


(de Sítios, Assírio & Alvim, 2011)

21.1.12


PHILIP LARKIN


Inverno

No campo dois cavalos,
Dois cisnes no rio,
E o vento fustiga
Um baldio onde os cardos
Se juntam como gente;
E de novo os meus pensamentos
São crianças
De rostos inquietos,
Acordam em túmulos
Ocultos e soerguem-se
Sob céus velozes.

O rasto diagonal
Dum cisne na água
É o frio do inverno;
E os cavalos, como paixões
Há muito derrotadas,
Descaem as cabeças
E ai, como me invadem
A mente amortalhada
E resgatam da memória
Os rostos aprisionados —
Aluviões do passado.

Então a charneca inteira
Silva em golpes de vento
E a gente transida
Junta-se como cardos
Num lugar estéril;
E mesmo assim os milagres
Exumam de cada rosto
Fortes sementes sedosas
Que lançam para o estático
Sol de ouro do inverno
Um orgulho sem fim nem sombra.


(in Uma Antologia, tradução de Maria Teresa Caeiro, Fora do Texto, 1989 – Poesia Nosso Tempo / original de The North Ship, 1945)

20.1.12


W. S. MERWIN


The Stranger

After a Guarani legend recorded by Ernesto Morales


One day in the forest there was somebody
who had never been there before
it was somebody like the monkeys but taller
and without a tail and without so much hair
standing up and walking on only two feet
and as he went he heard a voice calling Save me
as the stranger looked he could see a snake
a very big snake with a circle of fire
that was dancing all around it
and the snake was trying to get out
but every way it turned the fire was there
so the stranger bent the trunk of a young tree
and climbed out over the fire until he
could hold a branch down to the snake
and the snake wrapped himself around the branch
and the stranger pulled the snake up out of the fire
and as soon as the snake saw that he was free
he twined himself around the stranger
and started to crush the life out of him
but the stranger shouted No No
I am the one who has just saved your life
and you pay me back by trying to kill me
but the snake said I am keeping the law
it is the law that whoever does good
receives evil in return
and he drew his coils tight around the stranger
but the stranger kept on saying No No
I do not believe that is the law
so the snake said I will show you
I will show you three times and you will see
and he kept his coils tight around the stranger's neck
and all around his arms and body
but he let go of the stranger's legs
Now walk he said to the stranger Keep going
so they started out that way and they came
to a river and the river said to them
I do good to everyone and look what they
do to me I save them from dying of thirst
and all they do is stir up the mud
and fill my water with dead things
the snake said One
the stranger said Let us go on and they did
and they came to a caranda-i palm
there were wounds running with sap on its trunk
and the palm tree was moaning I do good
to everyone and look what they do to me
I give them my fruit and my shade and they cut me
and drink from my body until I die
the snake said Two
the stranger said Let us go on and they did
and came to a place where they heard whimpering
and saw a dog with his paw in a basket
and the dog said I did a good thing
and this is what came of it
I found a jaguar who had been hurt
and I took care of him and he got better
and as soon as he had his strength again
he sprang at me wanting to eat me up
I managed to get away but he tore my paw
I hid in a cave until he was gone
and here in this basket I have
a calabash full of milk for my wound
but now I have pushed it too far down to reach
will you help me he said to the snake
and the snake liked milk better than anything
so he slid off the stranger and into the basket
and when he was inside the dog snapped it shut
and swung it against a tree with all his might
again and again until the snake was dead
and after the snake was dead in there
the dog said to the stranger Friend
I have saved your life
and the stranger took the dog home with him
and treated him the way the stranger would treat a dog

1993


(recebido, em tempos, por email, sem referências à publicação original)

19.1.12


ANTÓNIO RAMOS ROSA


À Morte dum Poeta

Sem ternura
sem pureza
não grito a tua morte apenas violenta
a tua morte apenas violenta ecoa em mim
e já não existo senão escuro e tremo
um pobre corpo atemorizado um coração de vazio
e a vergonha de não ter lágrimas e a ignorância
Estou mais razo do que tu, poeta, a uma mesa de café
mais morto mais falso mais nojento do que tu
e disfarço o silêncio e naturalmente continuo na vida
e rio e fujo e não consigo enterrar-te
não consigo chorar-te
porque o horror violento me desenha o corpo
Tiraste-me a vida e quase te odeio poeta
a minha morte teria sido muito mais insignificante
a minha morte teria sido mais justa
É esta ideia que te não perdoo, esta ideia horrorosa que bebo
esta ideia de que não mereço a tua morte
porque não mereci a tua vida
O que eu odeio é não te ter amado
o que eu odeio é a minha pobre vida e a minha culpa
o que eu odeio é ter ficado
Deixaste-me a responsabilidade tremenda de sobreviver-te
e por isso te amo e por isso descansa, poeta!

11 de Fevereiro de 1952.


(in Árvore – folhas de poesia, Inverno de 1951-52 / número dedicado «à memória de Sebastião da Gama, ao Poeta e ao Amigo que perdemos»)

18.1.12


Talvez nada.

Tão mais incerta é a vida
Quanto a consciência que dela temos.

Levantarmo-nos é ir, a vaga
Sensação de ter ideias,

Sonhos, medo, um futuro.
Talvez o sem fundo de existir

Obrigue a deixar para os outros
O entretém de continuar a sentir

O vazio.

12.1.12


CESARE PAVESE


LENHA VERDE
(para o Massimo)

O homem imóvel tem à sua frente colinas na escuridão.
Enquanto estas colinas forem feitas de terra,
os camponeses terão de as cavar. Fita-as e não as vê,
como quem na cadeia fecha os olhos, completamente desperto.
O homem imóvel — esteve na cadeia — retoma amanhã
o trabalho com alguns camaradas. Esta noite está sozinho.

As colinas sabem-lhe a chuva: é o odor distante
que às vezes chegava à cadeia com o vento.
Às vezes chovia na cidade: o escancarar
do sangue e dos pulmões à liberdade da rua.
A cadeia absorvia a chuva, na cadeia a vida
não acabava, às vezes também filtrava o sol:
os camaradas esperavam e o futuro esperava.

Agora está sozinho. O odor insólito a terra
parece-lhe saído do seu próprio corpo, e recordações antigas
— ele conhece a terra — puxam-no para o solo,
para aquele solo verdadeiro. Não vale a pena pensar
que a enxada os camponeses enterram-na na terra
como num inimigo e que se odeiam de morte,
como tantos inimigos. Têm também uma alegria
os camponeses: aquele pedaço de terra amanhado.
Que importam os outros? Amanhã as colinas
estender-se-ão ao sol, cada um terá a sua.

Os camaradas não vivem nas colinas,
nasceram na cidade, onde em vez de erva
há carris. Às vezes também ele se esquece.
Mas o odor da terra que chega à cidade
já esqueceu os aldeões. É uma demorada carícia
que faz fechar os olhos e pensar nos camaradas
na cadeia, na longa cadeia que espera.


(de Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, livros Cotovia, 1997)

11.1.12


FERNANDO ECHEVARRÍA



VIVOS ESTÃO. E É DO FUNDO DE ESTAREM
que seu pulso nos vem vivente
estremunhar. Que naufragáramos quase
na compenetração. Estado sempre
imbuído de ausência. A saturar-se
do rasto duma ida tão doente
que o mundo cessa à volta. Ou é arrabalde
que de o ser até se esquece.
Mas, quando de onde estão nos vêm e trazem
pungência tão de pulso renitente
despertar se subleva. Sobe ao auge
de vê-los vir àquela terra estreme
onde a morte perdeu a sua base,
que só há vivos nessa luz vivente.


2

OS VIVOS QUE ALI VIVEM NOS CONVOCAM.
Em nós sublevam esse pulso vivo
que fica dando, com a evidência toda,
para o rasto sugado do seu ímpeto.
A haver fronteira, passa por uma zona
aonde as dimensões cruzam conflitos
e paralisam. Embora
perplexa errância acerte o exercício
e fixe o ponto de onde se abre a folga
que ajuste a dimensão ao novo sítio.
E esse sítio é o de aqui e agora.
Com o agora a exceder-se e vivo
a contundir à volta
do pulso peremptório. E fugidio.


3

MAS QUE SÓ FOGE QUANDO SE OBNUBILA
a atenta gravidade. Rompe então
uma estranheza de alba compassiva
que fica a pairar. E só
a lomba reconhece, tão antiga
que se lhe esvai a luz do pormenor.
Ou, talvez, essa luz entre em vigília,
sendo a vigília ritmo que se foi
esquecendo do ponto agudo em vista.
Agora, é sem ninguém a solidão.
Mesmo a paisagem desfalece. Fica
o eco trespassado de um fulgor
e decaindo para a cota implícita
que a explícita estranheza veio impor.


(de In Terra Viventum, edições Afrontamento, 2011)

2.1.12


EMANUEL FÉLIX


TRÊS POSTAIS DE SÃO JORGE
Para o João Félix

1.
Nas Velas, junto ao Arco
um chocalhinho breve
feriu furtivamente a superfície
de vidro
da manhã.


2.
Deixei o meu relógio algures numa fajã.
Onde não contam horas nem minutos
É o tempo de Deus.

3.
Acabo de enviar um apelo veemente
aos excelentíssimos
detentores do poder municipal:

“Deixem Nosso Senhor passear sossegado
p’los trilhos antiquíssimos
da inefável Fajã do Sanguinhal”. 

(São Jorge, 24 de Julho de 1993)


(de Habitação das Chuvas, edição do Autor, 1997)

18.12.11


WILLIAM SHAKESPEARE


Sonnet CXXI

‘Tis better to be vile than vile esteemed,
When not to be receives reproach of being,
And the just pleasure lost which is so deemed
Not by our feeling, but by others’ seeing:
For why should others’ false adulterate eyes
Give salutation to my sportive blood?
Or on my frailties why are frailer spies,
Which in their wills count bad what I think good?
No, I am that I am, and they that level
At my abuses, reckon up their own,
I may be straight, though they themselves be bevel;
By their rank thoughts my deeds must not be shown
     Unless this general evil they maintain,
     All men are bad, and in their badness reign.


CXXI

Antes quero ser vil que mal julgado,
Se, não o sendo, sofro igual censura;
Nunca colhe proveito o difamado,
Senão aos olhos de outra criatura.

E por que insistem olhos tão maldosos
Em afectar este meu sangue ardente?
Não são espiões bem mais pecaminosos
Os que acham mau quanto eu julgo inocente?

Que o achem. Eu sou eu, e em seu conceito,
P'ra mim transferem o seu próprio nível:
Oblíquos podem estar, e eu direito,
Seu mau juízo é, pois, inadmissível,

A menos que esta lei vão implantar:
Ninguém é bom, e o mal há-de reinar.


(tradução de Maria do Céu Saraiva Jorge, in Os Sonetos de Shakespeare, 1962)


SONETO CXXI

Antes ser vil que como vil ser tido,
quando o não ser de ser é suspeitado,
pois que o prazer se perde, imaginado
nos olhos doutrem, não por nós sentido.

Porque há-de dar dos outros o olhar falso
leis a meu sangue, se el' se goza assim?
Porque mais frágeis me andarão no encalço,
a condenar o que me praz a mim?

Ah não, eu sou quem sou. Quem me condena
por meus pecados, pelos seus me acusa:
posso mais recto ser que quanto ordena:
que os feitos meus não valham mente escusa.

Que a menos que se mude tanto mal,
homem não há livre de império tal.


(tradução de Jorge de Sena, in Poesia de 26 séculos, 1978)


CXXI

Bem melhor é ser vil do que por vil havido
quando a quem o não é o sê-lo se censura,
e vemos, como vil, justo prazer perdido
só porque o olhar dos mais — não nós — o desfigura.
Porque há-de agora o falso e turvo olhar alheio
cuidar da salvação deste meu sangue ardente?
E espiar-me as fraquezas quem delas é mais cheio
e teima em dizer mau o que eu julgo excelente?
Pois eu sou o que sou; e eles que denunciam
meus erros, vêem os seus e nisso são exactos.
Sou recto e eles oblíquos; ser nunca poderiam
seus baixos pensamentos medida dos meus actos,
     a menos que mantenham esta geral maldade
     e os homens todos nela governem à vontade.


(tradução de Vasco Graça Moura, in 50 Sonetos de Shakespeare, editorial Presença, 1987)


SONETO CXXI

Mais vale sermos vis que por vis tidos
Quando o não ser do ser leva a censura
E somos do prazer destituídos
P’la imagem que é dos outros, falsa e dura.
Pois como podem outros vir julgar,
De olhos impuros, os que a amor se rendem?
Os meus pecados quem vem espiar,
Incastos que o que é bom por mau entendem?
Não, eu sou o que sou, e os que falam
De abusos meus os próprios denunciam;
Sou vertical lá onde outros abalam.
Juízos tais meus actos desvaliam,
     A menos que a geral maldade eles defendam:
     Os homens são todos maus, e em sendo maus governam.


(tradução de Jorge Miguel Bastos da Silva, in Op. Cit., N.º 3, Associação Portuguesa de Estudos Anglo-Americanos, 2000)


121

Antes ser vil do que por vil havido
Quando o não ser de sê-lo é censurado
E o são prazer se perde, envilecido,
P'lo que sentimos não, no olhar sesgado.
Por que há-de um outro falso olhar venal
Cumpliciar com o meu sangue ardente?
Ou na fraqueza, espião que menos vale,
Turvar, maldoso, o bem da minha mente?
Eu sou quem sou, e esses que me arquivam
Os erros os seus próprios apuram.
Seja eu recto, que de través vivam,
Seus pensares vis meus actos não figuram –
     A menos que este mal seja verdade:
     Ruins, os homens reinam na maldade.


(tradução de Jorge Vilhena Mesquita, in Di Versos 5, Outono-Inverno de 2000-2001)


121.

Mais val' ser vil do que por vil havido,
se a quem não é se acusa por o ser;
por vil se vê justo prazer perdido,
não que o sintamos, mas de alheio ver.
O falso olhar dos outros porque iria
dar salvação a este sangue ardente?
Ou espiar meus fracos fraco espia
que julga mau o que eu julgo excelente?
Não, eu sou o que sou, se denunciam
meus erros, vêem seus próprios desacatos.
Eu recto, eles oblíquos, nem podiam
seus pensamentos vis medir-me os actos,
     a menos que esse mal fique de vez
     e, todos maus, governe a malvadez.


(tradução de Vasco Graça Moura, in Os Sonetos de Shakespeare, 2002)


Soneto 121

Antes ser vil do que vil ser considerado
Quando, mesmo sem sê-lo, esta culpa te imputam
E então perdes um prazer verdadeiro, dado
Que tua alma não, mas os demais condenam.
Então, por que os olhos espúrios dos outros
Hão de julgar meu sangue quente?
Ou espiar minhas fraquezas os mais frouxos
E considerar ruim o que considero um presente?
Não, eu sou o que eu sou; e os preocupados
Com meus desmandos, eles próprios se expõem:
Eu sou franco enquanto eles são dissimulados,
E que seus juízos podres não sujem minhas ações.
A não ser que esta máxima eles mantenham:
Todos os homens são maus e na maldade reinam.


(tradução de Caio Túlio Costa, encontrada aqui)


SONETO 121

Melhor ser mesmo vil que ter a fama.
Se igual censura atinge Ser, Não-ser;
E perder-se o prazer, pois que o difama
Não nosso senso: o alheio parecer.
Por que aos adúlteros olhares calha
De assinalar meu sangue dissoluto?
Por que os mais falhos olham minhas falhas
E dizem mau o que eu tão bem reputo?
Oh, não! Sou como sou, todos aqueles
Que olham meus erros, neles se refletem;
Posso eu ser reto e oblíquos serão eles,
E quando eu faça, a eles não compete.
     Exceto se este mal dão por verdade:
     Que o Homem é mau e reina na maldade.


(tradução de Jorge Wanderley, in William Shakespeare: Sonetos, 1991 – encontrada aqui)

17.12.11


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


PRANTO PELO INFANTE D. PEDRO DAS SETE PARTIDAS
(poema escrito na noite de 17-12-1961, e interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa)

Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte


PRANTO PELO DIA DE HOJE

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas


(de Livro Sexto, 1962)

MANUEL DE FREITAS


TAKI- TALÁ

para o Jorge

Manhã ká tem dia, para
estes corpos que dançaram anos
e derrotas, na fome cantável das ilhas.
Souberam, melhor do que ninguém,
o preço imediato do futuro que
disfarçam, agora mesmo, de alegria.

E rodopiam, pesados, rente
à madeira das paredes e
ao rumor estrangeiro dos eléctricos.
Já não existem, talvez,
as crianças que na fotografia
a preto e branco brincam sem morte
pela praia — pequeno país que os rostos,
as canções e o álcool tornaram
desmedido. B(e)leza adivinhada
no copo que encontra o chão
e gosta, connosco, de cair.

Mas tu, meu amigo, finges destoar
desta música de latas e violas
rombas, mornas cheias da vida
que nos foge. Essa incompreensível
saudade, sodade — de quando não
fomos felizes. Mar à volta, resignado.

E falas, soletras grogue e cerveja.
Convocas demoradamente
os autores franceses que mais leste
— tudo o que procuro esquecer
contigo, num país mais próximo
daquilo a que por vício chamo
às vezes coração, estrela d'nada.

Porque a música, Jorge, é a única
razão que nos sobra. E a ela apenas
bebemos, com um sorriso grande
a perder-se no rosto que passou já

para sempre. À tua.


(de Cretcheu Futebol Clube, Assírio & Alvim, 2006)

16.12.11


LÊDO IVO


ALÉM DO PASSAPORTE

A noite dá a sua lição de universo: as estrêlas caem. Suspensas no ar vazio, elas deslizam no céu negro, fulgem rápidas, desintegram-se. Mas êsses acidentes celestes não exprimem desordem ou fadiga. Estão inscritos na retórica do cosmo, onde tudo é ordem e rigor.

O tempo é uma mentira das êstrelas. Viajante, não sei onde estou, nem mesmo se estou. Na terra desprezada pelo estrondo rouco do jato, as fronteiras voam e os fusos horários zombam da ficção local dos relógios. E, entre o sono e a vigília, contemplo nuvens imensamente brancas no céu escuro, celeiro das estações.

De súbito, surgem debaixo das estrelas as ocasionais constelações terrestres: ilhas criolas, paraísos explosivos que se espraiam, no mar espumoso, como fragmentos de um continente esfarelado.

Banidas as estrelas, a manhã ocupa o céu e o mar. O leve frêmito vertiginoso anuncia que o avião vai descendo de seu abismo às avessas. Plea.se fasten seat. Um farol numa ilha e uma gaivota são os primeiros sinais da Terra. E ambos reiteram ao sol pálido o vigor cansativo dos símbolos.

Desembarco e é outono em Nova Iorque.



OUTONO EM WASHINGTON

Uma chuva de fôlhas douradas
cai e espanta os esquilos de Washington
que não podem catar suas nozes
sem que não sejam incomodados.

Insólito aguaceiro de dólares
atrapalha as pombas que passeiam
entre os sapatos dos intocáveis
e talvez gripados milionários.

O estrondeio dos aviões a jato
estilhaça nos ares de estanho
os direitos civis dos pardais
em vôo do Obelisco ao Potomac.

E o turbilhão de vento e folhagem
crispa a orquídea na loja de fôres
entre o Bank of America e a noite
nos abrigos contra a bomba atômica.

Uma tempestade de corn-flakes
cai sobre as moças em flor que vão
aos psiquiatras perguntar como
lidar com as máquinas do amor.

Chuva de apartes no Capitólio.
Republicanos e democratas
dão ao foguete chamado Apolo
um prazo para chegar à Lua.

Um anjo de goma e pepsi-cola
faz o pedestre apressar a passo
nas avenidas incandescentes
de olhos de vidro inquebrável e aço.

Na poderosa e marmórea Washington
cheia de templos greco-latinos
só a borracha da noite de outono
apaga as garatujas dos homens.



NOVA IORQUE

Como é bela a América, o país das gaivotas!

Do meu quarto de hotel, vejo os arcos do mundo
e as bandeiras de todos os navios.
Môças caminham sòzinhas no dia fluorescente.
A florista negra sorri entre as camélias.


(da secção América, de Estação Central, 2ª edição: edições Orfeu, 1968))

14.12.11


ERICH FRIED


POEMA MILITANTE

Lembro-me
da minha cólera
e da minha procura
das palavras exactas
para a minha cólera
da última correcção
antes de passar a limpo
da leitura em voz alta só para mim
e por fim da minha
satisfação
que veio pôr termo à minha cólera

E permito-me esquecer
como em vão tacteei
para agarrar as folhas brancas
e tive medo
porque os meus dedos
estão a tornar-se mais desajeitados
e porque o papel químico
me caiu ao chão
antes de passar a limpo
e fiquei tonto
quando o apanhei


PERGUNTAS DE UM POETA MILITANTE

De quanto tempo precisarão vocês
para deixarem
de se indignar
com o que eu digo?

E nessa altura ainda cá estarei
para o dizer?
E será útil ainda
que se diga?

Não será então demasiado incompreensível
ou demasiado evidente?
E não repetirei então como uma gralha:
«Foi o que eu sempre disse?»


(de 100 Poemas sem Pátria, tradução deste poema de João Barrento, publicações Dom Quixote, 1979 - Poesia Século XX)

8.12.11


JOÃO RUI DE SOUSA


QUANDO AMANHÃ

Quando amanhã,
na subida mais íngreme daquele monte,
um deus inscrever seu azulado arco
por sobre o fio geral do horizonte
- sobre o esplendor das asas matizadas
pelo calor da lenha a crepitar, pelo fulgor
das cinzas espalhadas rente à terra
como adubo atirado ao amanhecer –
dirás quanto de mim for posse e perda,
sorriso e choro, sabor de doces frutos
ou parca ilusão:

dirás quanto de tudo a vida se revolve,
se incendeia.


RECOMENDAÇÃO

Mergulha e dissolve essas tensões
que pelas tardes cálidas sobrenadam.

Abre valas no tempo e na razão
(a do aturdimento, a do esquecer
as noites de ti próprio) e manuseia
alfaias com todo o desvelo
- transformando em música e palavra
(a voz de ti nascida)
o vasto e árduo esforço de drenagem.

Não deixes que as nuvens por demais
te pesem, por demais assombrem
rios e horizontes e arvoredos - como
cancelas postas no ar da paisagem.


RODA DOS VENTOS

O vento vai e vem, sobe as escadas
do caos e do esplendor
onde as palavras trémulas eram ar
de resistir ao pó e ao ranger das pedras.

O vento acompanha o rufar das folhas
que em transe e rodopio
roçam nos cimos das torres e telhados
ou do frio que habita em cada esquina.

O vento ruge e arde - é uma leve
estátua em movimento ou o irromper
de um estranho arco-íris que transportasse
o sol e as borboletas.

O vento canta em som que é das estrelas,
que é árvore exemplar em cada um
quando roça no ombro uma carícia
de dedos macios - os mais perfeitos.

Também o vento é morte em alto mar
de sombras e bramido e barcas leves,
transformadas em espuma e descalabro
e num estertor final de tábuas soltas.

Também o vento habita nos escombros
a dançar sobre nós como em conquista,
como a varrer a fronte quando a angústia
derrota o ânimo - e o próprio entendimento.

Ó ar que voa em nós em tudo e nada,
entre o fundo dos lodos e as framboesas!
O beijo tão coberto de incerteza!


VÊM DE DENTRO

Vêm de dentro, e sem fim, como as plantas
que ao nascerem ainda não soubessem
a que chuvas se destinam - ou geadas.

E crescem pelos dias, recolhidas na vastidão
dos prados, no som de labaredas inesperadas
e das enxadas que revolvem as margens.

Vêm de dentro, e sós, essas palavras - como
lugares de acaso, como chuvas despenhadas
ao ritmo regular de funda lavra.


(de Quarteto para as próximas chuvas, publicações Dom Quixote, 2008)

6.12.11


LI BAI


Ode à Lua na montanha Emei

A Lua de Outono, em quarto crescente,
       brilha sobre a montanha Emei,
sua claridade pálida cai
       e corre com as águas do rio Ping.
Deixo Qingsi, esta noite,
       rumo às Três Gargantas do Grande Rio.
Passo diante de Yuzhou e penso em vós,
       não fui capaz de vos dizer adeus.


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[nota do Tradutor:] Considerado há vários séculos um dos mais perfeitos de toda a poesia chinesa, eis um poema de "impossível" tradução. Trata-se de uma despedida, Li Bai aos 26 anos pede desculpa a um amigo por não o haver visitado. As referências geográficas e os topónimos (todos na província de Sichuan), que em chinês cadenciam rima e ritmo, desfiguram o poema, em qualquer outra língua.
A Lua, do alto do céu, observa a Terra inteira e aproxima os amigos ou amantes distantes, basta que ambos, em lugares diferentes, olhem a Lua exactamente a uma mesma hora. Este poema, dada a inexistência de géneros masculino e feminino na língua chinesa, pode ser dedicado não a um amigo mas a uma mulher, transformando-se num poema de amor.




Ode à Lua na montanha Emei
(desenho de autor desconhecido para um poema de Li Bai)


(in Poemas de Li Bai, tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, Instituto Cultural de Macau, 1990)