18.2.06

Já aqui tinha dito que Amadeu Baptista é um dos poetas com mais fôlego da actualidade. Agora ganhou um prémio (mais um, a juntar a muitos outros) com "Estrela de Bizâncio", o seu primeiro original em prosa.

13.2.06

Álvaro Lapa no Almocreve das Petas, com o o seu retrato por João Cutileiro ('hors-texte' do livro Barulheira), entre outras coisas.

12.2.06

ÁLVARO LAPA


Campéstico (máquina / tempo)
Acrílico e grafite sobre tela (138 x 219 cm), 2003


Campéstico (máquina / tempo)
Acrílico e grafite sobre tela (138 x 219 cm), 2003

(em exposição, por estes dias, na Galeria Fernando Santos, no Porto)

ÁLVARO LAPA

UM PASSEIO


Combinai os trevos. Reaparecei. Caminhai nos trevos amarelecidos do crepúsculo. Findai o mundo. Depressa ide. Reduzide a pérolas as gotas do suor, do medo. Caminhai sobre pérolas. Investide. Atormentai a possibilidade (única?) do lugar. Sem testemunhas, as tormentas. Os pios de encontro ao veludo verde das bancadas. A água-suor do medo. A liberdade sem testemunho. O fundo livre sem comparsa na rota exangue do crepúsculo. Os detritos, as escamas, os rumores. No cimento alteado formam-se os montes, precipícios em flor de bouquet imediato, a estoirar na neve imaginária da solidão. Um cão morre por nada. Dois cães matar-se-ão várias vezes. Impossível recomeçar. Todas as viagens conduzem «à casa» (H. Hesse scripsit). Caseira, domesticamente protestante (Joyce dixit?). reaparecer nas palavras, contar com outrem, fazer dois sem um, desaparecer. Ir e vir. Depois nada mais. Quatro, quatro, quatro vozes soltas. Civa vai e vem, conta-se.

(de raso como o chão, editorial Estampa, 1977)


O MAR SECO DO BARREIRO:
DESCOBERTA DE UM OU MAIS MORTOS

Seria em 1950. Ou um ano à frente. Pr'aí. A viagem custava horas, e horas, desde o Alentejo à doca. Corriam canções dessa distância, os homens cantavam-nas pelo caminho, rumo à fama.

*

Compasso de sereias. São as sereias. Apitam, animam, erguem, distribuem, condicionam. Válvulas.

*

Fabrico de cortiça, arte de tomar a cortiça (casca de sobreiro... mas ouvi dizer de um rico, o Soares: «tem a cara encortiçada, feio, feio») utilizável. Entre a fábrica e os portos vão carroças. Tudo atado com arames. Caem bocados (de cortiça). Os moços pulam, esgravatam, e vão vender os caídos. A quem há que compre.

*

Dizer o seco. Porque tudo está seco no campo de léguas em volta do Barreiro. Um pó? um ácido (ar ácido)? Uma praga; ou algo de mais directamente «psíquico»? Verdade que os do Barreiro vão à praia. Tem lá toldos. Tem club. Tem cor verde e tem ping-pong. Carcaça e mulette, dita de omelette. Come-se, pincha-se, molha-se e seca-se, na praia do rio em que apitam sereias, estas de barcos, e as outras ao longe, as de ir e vir, pelos pés. Exibições, gloríolas, famílias e jogos vários, como nas praias. Tudo a pertence, como na vida. Em 2ª mão, passam-se as tardes. Ao sábado ferve. Multidão aparente. E em frente é Lisboa, como uma trama fantástica. Posta. A que ir à vezes. Onde não seca, assim. Ou: lá há luz.

*

E os mortos, ontem? Foi num passeio. Iam rapazes e um deles por fora, só. Subia outeiros, com o vale em baixo, carril parado. No pasto seco, ervas sem dono, e a respirar o acido topou o só: um corpo posto (casaco? boina? memória de trapos) ali caído em sesta funda, e foi a correr o achador e disse aos colegas, e juntaram adultos e correram mais longe, pelo Lavradio e volta.

(de Barulheira, &etc, 1982)


- Não podes desanimar lê o qualquer. Lê o mesmo. Lê o simples. Lê sem livro. Lê e esquece. Vamos a Espanha. Ou ao rio. Ou à praia. Ver qualquer coisa que não leias. Tu és psíquico ou és físico és menos físico és pouco pai. Dá-me um bracinho olha o cigarro.

(excerto de Finnegans Wake, in Sequências Narrativas Completas, Assírio & Alvim, 1994)
[há uma obra de Álvaro Lapa incluída na exposição "O Poder da Arte", a decorrer no edifício da Assembleia da República. Sobre ela, reproduzo aqui o que diz o comissário da exposição]

JOÃO FERNANDES

Em Álvaro Lapa, as fronteiras entre a pintura e a escrita são difusas. Na sua prática, estas actividades permitem a criação de narrativas ou ficções que estabelecem entre si uma complexa teia de relações e sentidos. A partir do cruzamento de várias influências - literatura (Rimbaud, Michaux, Burroughs, Joyce?), filosofia (em particular o pensamento oriental) política, entre outras -, Lapa constrói um universo poético singular, um território de conflito, de recusa, de silêncio. As profecias de Abdul Varetti, Escritor Falhado (1972) - obra constituída por 22 elementos em lona, montados em ferro, com diversas frases bordadas - foram criadas em 1972. Segundo o artista, Abdul Varetti é uma espécie de seu alter-ego: "Duplo e mito, é o reconhecimento que fiz e que personifiquei de um escritor que considerei falhado", afirma. "É a minha alma do outro mundo. Era polígamo, muito independente. Nasceu algures na Sicília no séc. XIII. Vivia perto da natureza, acolhia-se em grutas, sem conforto...". Nesta obra deve sublinhar-se a forma da sua construção, para a qual o artista se serviu de materiais pobres - a lona, os fios coloridos - para expressar uma série de aforismos de natureza divinatória. Trata-se de um trabalho central no seu percurso, dado traduzir os limites de uma existência quando confrontada com uma sociedade conservadora. Lapa propõe assim um outro modelo, como se pode ler numa das profecias: "Um anarquismo integral, de produção natural, será a forma que se antevê; irá ser escolhida pela humanidade emancipada".

(do suplemento dedicado à exposição, integrado na edição do Público de 12 de Janeiro de 2006 e distribuído à entrada)
ÁLVARO LAPA


Auto-retrato
Óleo sobre Platex (60x49 cm)
JOÃO PINHARANDA

Álvaro Lapa (1939-2006)
"Que horas são que horas"


A sua obra é assumida como auto-biográfica, fortemente associada à literatura. Dizia que era um escritor que pinta. Um último conjunto de pinturas de Álvaro Lapa está até 7 de Março na Galeria Fernando Santos, no Porto. Ainda este ano, o Museu da Cidade, em Lisboa, poderá apresentar a exposição que estava a preparar no âmbito do Grande Prémio EDP, recebido em 2004

O pintor e escritor Álvaro Lapa morreu na madrugada de ontem no Porto. Tinha 66 anos. A sua obra é difícil de classificar apresentando-se como uma das mais singulares do universo contemporâneo.
Actuando sempre contra o "império dos finos estetas", assim o apresentou António Areal. A classificação surge no texto para uma exposição que, em 1969, o crítico Rui Mário Gonçalves organizou na Galeria Buchholz, em Lisboa. Areal foi dos poucos artistas que, em Portugal, escreveu produtivamente sobre arte. Anos antes, ele e Rui Mário Gonçalves tinham parado em Évora, a caminho de Paris, para verem trabalhos de uns jovens ainda sem passado e em que eles descobriram um longo futuro. Eram eles Joaquim Bravo, António Palolo, que morreram em 1990 e 2000, respectivamente, e Álvaro Lapa.
Logo em 1964, os três inauguram a Galeria 111, em Lisboa, com sucessivas exposições individuais. Bravo e, especialmente, Lapa estabeleceram-se, desde logo, numa linhagem de trabalho, que entroncava precisamente no exemplo nacional de Areal: uma arte que prescindia da formação académica (nenhum alguma vez andou em escolas de arte) e que fortemente se associava à literatura, à poética surrealista nos seus desenvolvimentos menos ortodoxos de Bataille a Michaux ou a Burroughs e relacionando-se, através deste escritor-pintor, com toda a riqueza da beat generation americana.
A inspiração formal de Lapa situa-o na linha das experiências da abstracção expressionista americana dos mesmos anos, de Kline a Pollock. Mas é, fundamentalmente, com os gestos heróicos através dos quais Robert Motherwell determina os fortes contrastes de negros e brancos e estabelece uma hipótese de paisagem descarnada e desconstruída, que a pintura de Lapa se encontra, nomeadamente na longa série Campéstico.
A sua pintura é marcada por uma dinâmica de narratividade - e o fenómeno funciona independentemente do facto de Lapa incluir muitas vezes longos textos nessas pinturas. A sua escrita tanto em livro como em pintura forma uma imagem funda, não apenas dentro da dinâmica língua (da sua semântica e síntase) como dentro do próprio corpo do leitor. O conjunto define uma inventividade de impossível partilha.
Toda a obra de Álvaro Lapa é, de facto, assumida como auto-biográfica, subjectiva e interior, é marcada por um programa de auto-conhecimento ou de auto-reconhecimento, como explicitam algumas pinturas que, sem mais, intitula Auto ou a criação de um verdadeiro alter ego na personagem de Abdul Varetti - de quem borda, em lona, uma vasta colecção de Profecias (1972).
A narratividade e a auto-referenciação assinaladas impedem (ou tornam relativamente inútil) a determinação de cronologias dentro da obra de Lapa. Ela é permanentemente pensada como circular e vertiginosa (abissal), permanentemente encenada, ela mesma como uma narrativa mas na certeza de que toda a espectacularidade deve ser crítica (disse em 1993 em entrevista ao PÚBLICO).
Nesse processo mobiliza um vasto universo de referências literárias e artísticas, algumas já referidas, e que sempre o coloca na margem dos que recusam a normalidade ("Do que eu vivo é da recusa", escreveu em 1971, em resposta a um inquérito de A Capital). Os nomes que escolhe para os seus Cadernos, homenagem a 18 escritores (que inicia com um não escritor, Freud), levam-nos de Celine a Kerouac, Rimbaud a Artaud, Beckett a Kafka, de Joyce a Henry Miller e esclarecem a dimensão de vida que tomava para si.
É muito significativo o recenseamento das formas e soluções compositivas a que obsessivamente recorre, de pintura para pintura, de série para série ou entre os desenhos e as pinturas. A falésia, o mar e o céu ou a cabana, aparecem nas suas pinturas de finais da década de 1960 e inícios da de 70. Nesses anos, Lapa viveu em Lagos, antes de se fixar no Porto onde leccionou em Belas-Artes e criou um campo magnético de influências. No Algarve surge também a Mesa e o Milarepa, silhueta de sábio budista que irá acompanhar nas décadas seguintes.
A cada vez mais forte presença da palavra escrita, as paisagens desconstruídas, que Lapa explorará na série sucessivamente retomada dos Campésticos, as grelhas que surgem nos Os criminosos e as suas propriedades, os gestos fortes que determinam manchas contrastantes de preto e branco ou de cor ou verdadeiros amorfos, o recurso à colagem de materiais, são outras referências. Mas é também significativo o percurso que podemos fazer através dos títulos das suas obras e designações das suas séries, algumas já referidas aqui: Moradas da Terra-Mãe, Amnésia, Escuro, Mesa, Passeio iluminam, ao mesmo tempo que obscurecem, significados - por exemplo, em Que horas são que horas estamos perante o verdadeiro diário de alguém que espera a morte ou a liberdade ou nada.
O corpo do artista encontra-se em câmara ardente na Misericórdia de Matosinhos, e a cremação realiza-se amanhã às 15h no cemitério do Prado do Repouso, Porto.

(do Público de hoje)

10.2.06

WISLAWA SZYMBORSKA

Advertência


Não levem para o cosmos os graciosos,
sou eu quem aconselha.

Catorze planetas sem vida,
alguns cometas, duas estrelas,
e logo no caminho para a terceira
os graciosos perdem o humor.

O cosmos é como é
- isto é, perfeito.
E isso não lho perdoam os graciosos.

Nada os irá contentar:
o tempo - porque demasiado eterno,
o belo - porque sem defeitos,
a coragem - porque impossível de transformá-la em anedota.
Enquanto todos admiram,
ele boceja.

No caminho para a quarta estrela
vai ser ainda pior.
Sorrisos azedados,
perturbações do sono e do equilíbrio,
conversas imbecis:
que é corvo com um queijo no bico,
uma mosca no retrato do supremo senhor,
ou um macaco a tomar banho
- ora cá uma destas!

Limitados.
Preferem a quinta-feira ao infinito.
Primitivos.

(tradução de Júlio Sousa Gomes, in Paisagem com Grão de Areia, Relógio d'Água, 1998)

9.2.06

ANTONI TÀPIES


Tenalles blanques
Pintura sobre tela (162,5x261cm), 2002

(em exposição, por estes dias, na Galeria Fernando Santos, em Lisboa)
ARMANDO SILVA CARVALHO

Marfins


Em pelota. Rubicundos como velhos gansos. Já fastidiosos. Empolam a membrana onde esgalham versos. Empifarados. Que rilkas coisas estas crianças enfolam no amor pelos livros.
Começam com um lago, um poente, uma flor. A sua mousseline pende das líricas videiras do silêncio.
Sobem ao monte mais próximo onde descobrem um cágado. Deitam-no de costas e põem-se a chorar porque ele não anda.
Começam com um Deus. Uma forma obscuríssima de vida. Depois, a meio caminho, enxotam animais e homens e cotejam essa agreste solidão com extractos de cultura.
Os poetinhas desdenham um teclado sujo.
Enfiam-se em casa, polindo os seus marfins. Despedem a misericórdia dessa vida ingrata de reclusos e dão grandes passeios uterinos. Cansados dos avós, das palmadas no rabo, com olho fito em bibliotecas, esgueiram-se pelos corredores onde os papões os esperam, afeitos à brincadeira. Então a mousseline estica como leite azedado de bambinos.
Os poetas armam zaragatas porque todos pretendem o melhor dos desaguisados.
O povo, esse instrumento sofredor na mão dos literatos, ouve essas bulhas de bufarinheiros, cospe nas mãos e chama-lhes sacanas.
«É perigoso este instrumento dado aos inocentes.»
Os poetinhas fogem da rua dos fanqueiros, das fardas de criada, das popelines e das sarjas. Cegam com o pó que se levanta das peças de riscado e quando as burguesas, furiosas, colocam os maridos no caixote, os poetas saltitam, desdobram mousseline sobre os restos e fazem fogos-fátuos.
O povo, esse vazio onde as pessoas pousam mas não aquecem o lugar para os nomes, desfibra então a paciência, conta os tostões, inveja carpetes, lustres, pianos, magnetofones, e não inspira confiança.
Andam aos bandos como um poema antigo. Aonde esta escolástica precoce que lhes antolha os membros? Deserdados de músculos, com utensílios ineficazes ao pescoço, os poetinhas marujam na versátil confusão dos versos. Vêm-se penosamente nas tardes baças, onde piam pássaros de modo lúgubre, nas noites rígidas e calafetadas. Quando o aquecimento ao rubro já não dá mais margem ao desespero, os poetinhas sobem às cadeiras, retiram as molduras e põem-se ao espelho como as prostitutas.
Besuntam-se de tédio, colocam no rosto esses cremes nefastos que retiram dos armários culturais, desse arsenal de espólios que as famílias do espírito entesouraram para os descendentes.
Conhecem eles a guerra? O instante que se joga no gatilho? A cobiça dos bens? O mar de soluços que sobe pelas pernas podres dos que vão morrendo?
Arremedam o Instante, a Cobiça, o Soluço.
Fogem quando o pavor é real e a máquina uma força indomável que não cede a biografias nem a deuses.
E cantam.
Cantamos.

(de O Alicate, editorial Presença, 1972)

5.2.06

[para uma antologia de bicicletas - 2]

JOSÉ MIGUEL SILVA

LADRÕES DE BICICLETAS - VITTORIO DE SICA (1948)


Vinte quilómetros por dia pedalava meu pai
desde a cama junto ao Douro até à próspera
Cerâmica de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veiculo de sombra, solitário
trepador pela encosta de Avintes. Não trabalha
em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões, na estrada
nacional, onde tudo, depois, será muito mais plano.

(in Telhados de Vidro n.º 4 - Maio de 2005 / de Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005)
[para uma antologia de bicicletas - 1]




(imagens de Ladri di Biciclette, de Vittorio de Sica, 1948)

3.2.06

JORGE DE SENA

ALGUNS POETAS DE 1958
(excerto)

Eu não costumo - e creio que só abri excepção, em vinte anos de vida literária, uma duas vezes - falar ou escrever de poetas que sejam meus amigos pessoais. Não é que para mim, ao contrário do que sucede habitualmente na crítica portuguesa, a amizade seja inibitória, e me impeça de elogiar ou admirar em público quem, além de contar com a minha estima, pode contar com a minha simpatia intelectual ou a minha admiração. Nem sequer assim acontece comigo, por reflexo do que acabo de afirmar ser habitual na crítica que por toda a parte vemos ser feita, com muito raras excepções. Sou muito pouco dado a reacções reflexas desta ordem, e, quando reajo, faço-o sempre calculadamente, e é talvez por isso mesmo que os meus escritos ferem tanto, e eu tenho fama de ser uma pessoa desagradável. Ora é esta precisamente a explicação. Quando uma pessoa, bem ou mal, se impôs, de alguma maneira, sem auxílio de ninguém, e tem constantemente de aguentar a raiva que isso causa - pois que, de um modo geral a sociedade só perdoa aquilo que ela mesma concedeu num jogo de empréstimos e hipotecas mútuas -, pode suceder, e é o meu caso, que tenha escrúpulos, fundos escrúpulos, em jungir os seus amigos à sua própria canga, forçá-los a partilhar o seu próprio destino. Porque estimo os meus amigos, nunca quis que se pensasse, eles pensassem, ou pensasse eu mesmo, que eu me escudava atrás deles, ou me servia deles para singrar o meu caminho, um caminho de que só eu, e não eles, sou ou devo ser o responsável.
Por outro lado, existe o prejuízo - que eu não temo - de que poeta a falar de outros poetas ou da poesia é uma coisa muitíssimo suspeita. Embora a minha qualidade de poeta, ou a categoria dessa qualidade, me seja contestada por alguns - com uma persistência odienta que não posso deixar de agradecer como uma homenagem -, a verdade é que, em que pese aos não-poetas, quando os poetas falam uns dos outros ou da poesia, sempre estão falando de alguma coisa que conhecem de dentro, de uma experiência efectiva que possuem e os outros, os não-poetas, não. E o testemunho que tragam, apesar de toda a ganga de particularismo subjectivo que acarrete, não pode deixar de ser da maior importância num mundo, e sobretudo num país, em que toda a gente fala, sem cerimónia alguma, daquilo que não entende ou não conhece. Se os poetas devem ser tomados exclusivamente pelo que está nos seus versos, uma vez que a poesia a não estar neles, nos versos, não está em parte nenhuma nem existe; e se por vezes os poetas contradizem, na aparência, com as suas pessoas e a s suas atitudes, o que de mais fundo na poesia dizem - não menos, apesar de tudo, pode ser um poeta ou alguém que se julga tal com consciência e dignidade, melhor apreciar o que de facto é essencial nos poemas, para lá das personalidades civis que todos usamos, nesta sociedade em que vivemos, na qual o bilhete de identidade - o do arquivo de identificação, concretizado no papel, ou o abstracto, passados pelos meios que frequentamos e principalmente pelos que desprezamos frequentar - tem tamanha importância.
Por tudo isto, que não quis deixar de lealmente expor, hesitei em vir aqui, e acabei por aceitar. Mas há ainda uma outra razão, e é essa que vai ocupar-nos.
Os quatro livros de poesia, dos quais fui convidado a falar, são subscritos por quatro poetas que eu estimo e são pessoas de quem sou mais ou menos amigo há muitos anos. Mas esses quatro poetas partilham comigo, de certo modo, de um comum destino: o de não serem unanimemente reconhecidos como tal, ou o mérito de não ser devidamente apreciado, ou de ser apreciado equivocamente, em função do que não é o mais importante e o maior da poesia que escrevem. Essa identidade contribuiu poderosamente para eu aceitar falar deles, por um imperativo de justiça que sempre me norteia, e que, após tudo o que vos expus, me libertou de facto para falar.
Pode parecer-vos estranho isto que começo por dizer deles. A maior parte das pessoas vive um pouco flutuantemente em compartimentos estanques, e esquece que a sociedade não é toda aquela rede de conhecidos e amigos que mutuamente fingem considerar-se muito. Há mais gente. E, com efeito, nem Merícia de Lemos, nem Ruy Cinatti, nem Sophia de Mello Breyner Andresen, nem Alexandre O'Neill são unanimemente considerados como os poetas que são. [...]

(início da palestra realizada na Livraria Guimarães, na tarde de 4 de Julho de 1958, para lançamento de livros dos poetas referidos - publicada pela primeira vez no 1º número de Colóquio em Janeiro de 1959 e recolhido em Estudos de Literatura Portuguesa - II, edições 70, 1988)

1.2.06

[com a força da Alegria]

NATÉRCIA FREIRE

PRIMAVERA DE JANEIRO


A Primavera anda longe,
mas eu a sinto nos dedos
da noite que se aproxima:
murmúrio de olivais
e a relva verde-fresca;
sol retardado, a pôr-se, embrulhado em mistério;
rumor de agua a correr, na Terra gigantesca.

E eu tão pequena, tão solitária, tão imensa,
no silêncio acordado desta casa da estrada!
Eu a perder-me nas adivinhações do Mundo;
a esconder-me entre os troncos tristes das oliveiras;
a debruçar-me no espelho das correntes
que irão banhar, talvez, os continentes
do meu exílio, em pátrias prisioneiras...

Ninguém me fale de beleza na Primavera!
É no Inverno que ela sempre me chega,
a erguer nos meus olhos a visão de bosques azuis...

Eu podia ser cega,
eu podia não ter tido nunca mocidade,
eu podia ignorar o cântico dos pássaros
nas madrugadas felizes,
que, ao avistar no espaço a Primavera,
quando todos os sonhos dormem,
e todas as mulheres são virgens,
e todos os homens são imaculados,
quando os doentes têm medo de morrer,
quando o ranger dos velhos carros,
nos caminhos da quinta, me ressuscita a infância,
a saudade da Primavera que há-de vir
e que, depois da chegada, nunca será aquela que sonhei,
cola-me na vidraça esta fronte sem estrelas,
- tão pequena, tão só, como podia eu tê-las?
Ergue-me o peito vasto,
desnuda-me sem luta...

Eu não escuto o silêncio,
e já ninguém me escuta.
Ao fundo, a Primavera
- que atónita ela vinha! -,
acenou-me de manso
na tardinha...

Mas fugiu da mulher
com olhos de adivinha...

(de Anel de Sete Pedras, 1952)

31.1.06

CARL SANDBURG

RÁPIDO


Viajo de rápido, num dos melhores comboios do país.
Lançados através da pradaria, da névoa azul, no ar escuro,
correm quinze carruagens com mil viajantes.
Todas estas carruagens serão, um dia, montes de ferrugem;
homens e mulheres que riem
no vagão-restaurante, nas carruagens-camas, hão-de acabar em pó.
No salão dos fumadores pergunto a um homem qual o seu destino.
«Omaha», responde.

(tradução de Alexandre O'Neill, publicado no número 4 da série de antologias Tempo de Poesia, s/d)


A. M. PIRES CABRAL

BILHETE A CARL SANDBURG


O meu comboio não é, bem sei,
o mesmo que o teu.
O meu é inoxidável.

Os passageiros sim,
são tal e qual.

E, tal como tu,
viajo acossado por perguntas
vivas como brasas.

E, tal como a ti, também a mim
um passageiro responde
quando lhe pergunto o seu destino:
Omaha.

Não há volta a dar-lhe: todos temos
Omaha por destino.

(de Que comboio é este, Teatro de Vila Real, 2005)