25.10.14

ALBANO MARTINS


Raul de Carvalho, o poeta português de que hoje aqui nos ocupamos, viveu, pode dizer-se, em risco permanente. Risco físico: uma aparente robustez disfarçava a doença - as doenças, várias, cedo manifestadas - que progressiva e inexoravelmente lhe corroeu o corpo e a que acabou por sucumbir, em 3 de Setembro de 1984, num hospital do Porto. Risco existencial: «filho de sapateiro bêbado», como de si um dia deixou escrito, do pai herdou a propensão, que nele era evidente, para «tudo discutir», o temperamento arrebatado e o «orgulho» que o manteve em rigoroso e diário conflito consigo e com os outros.
Do poeta diremos que ele é o retrato do homem, e nesta afirmação a melhor e mais justa homenagem que podemos prestar-lhe.


(excerto de «Raul de Carvalho e a Poesia da Autenticidade», in As Letras e as Tintas, edições Quasi, 2006)


PAULO DA COSTA DOMINGOS


Vivi, pois, durante uma época, ainda que muito brevemente, numa casa cujas janelas me inclinavam para as traseiras de um poeta: Raul de Carvalho. Cantava; ouvia-se-lo cantarolar sobre quintais e saguões, à luz de ouro no Outono lisboeta. E ia pondo a sua roupa lavada no estendal, na alegria doce de quem vive, não sozinho: na companhia de versos em louvor dos nadas do dia-a-dia. E o seu vidro saía cortado à medida da sua casa. Algo de que nunca eu me cansei, repetindo, repetindo iguais gestos, decerto, na minha própria construção. Ler, não chega; há que ver e ouvir pela abertura do coração, comovidamente. 


(excerto de Narrativa, Frenesi, 2009)

16.10.14




FERNANDO ECHEVARRÍA


AUTO-RETRATO DE REMBRANDT

1
A TELA OCULTA O OUTRO DE SI MESMO.
Que vai surdindo dela, da perdição de análise
que está no espelho lendo
a figura perdida, já só quase
ver o fora por dentro,
enquanto ver perdura em sua idade.
Cada minúcia incita no momento
a luz do objecto visto. E a do transe
duma veia infalível a que o peso
instrumental se iluminasse.
E, do fundo do outro de si mesmo,
o ver se vê. Com o só dentro de exterioridade.

2
E A DISCRIÇÃO DE VER DOMINOU TANTO
que a implacável doçura da velhice
se esqueceu de ir chegando,
com o uso da roupa, a essa luz humilde
de crânio coroado
de indiferença à encenação sensível.
E essa indiferença cumpre-se no trato
do porte diligente que a atenção atinge
e deixa iluminar-se até no pano,
gasto no uso que exige
a paciência esquecida no trabalho.
E que o estudo a claridade erige.

3
QUE A DISCRIÇÃO TAMBÉM É LUZ. DESPRENDE-SE
tanto da roupa como da paciência
com que se espera que o olhar se entregue
ao ajuste objectivo que a tristeza
instaura à volta de cada coisa. A ergue
à só indiferença de si mesma.
Não é luz que jubile. Apenas serve.
Cumpre a penumbra duma árdua empresa
em que tufos minúsculos somente
difundem uso de quase só emergência.
De aí as formas surdem. Quase nem se
desembacia o lume da surpresa.

4
OU É A SURDA SURPRESA DO VAGAR
que pelo escuro dos castanhos sobe
até um cinzento por que não se dá
nem na camisa, nem no rubro pobre
do manto casual.
Que na paleta quase que se escondem,
como se funde na mudez das mãos
a inteligência agora quieta. Porque
espera que ver as mova instrumentais
e só então acordem
a esse sono sobrenatural
que volve humilde o poderio ao homem.

5
O SILÊNCIO COMEÇA DESDE BAIXO.
É de onde aponta a escuridão das linhas
que vão gerar essa estrutura de ângulos
difícil, mas de fundação precisa.
O pincel o sigilo vai ao canto
mais fosco alimentar. E traz acima
o nascimento vertical do traço
que o silêncio da tela em sua orla afinca
e, a custo, faz recrudescer o alto
vagar de ver. A independência pia
com que, do outro de si mesmo, tanto
a distância de ver se determina.

6
E, AÍ, A LUZ, DIR-SE-IA QUE DE DENTRO
da operação de estar a ver nos vem.
E quanta baste para nós lhe vermos
a claridade exterior. E o trem
de sono que a brancura deixa ao centro
da indiferença com que já se vê.
Mas que prolonga o horizontal acerto
da tela que na tela é tenso. E é
rectângulo que diz o descoberto,
enquanto o inferior é só refém
duma paleta que lhe adumbra o peso
e nutre o luto arcaico do pincel.

7
E UM OUTRO, DE VERTICAL DIFUSO
e de uma escuridão lenta de ofício,
de onde se arranca um quase eco de rubro
a um castanho profundo a abrir a vinho.
Mas de onde se adivinha sobretudo
que a vibração do escuro nos vai vindo,
até a cabeça destacar o vulto,
só iluminado quanto for preciso
para que em ver desembacie o estudo
a independência. Esse lugar vazio
que os outros de si mesmos vê no mundo
onde de si se vêem desprendidos.



(de Uso de Penumbra, 1995)

11.10.14

RUTH FAINLIGHT


ESSA PRESENÇA

Como um pintor afastando-se do cavalete,
erguendo-se da mesa de trabalho
com o pincel cheio de tinta, para ver melhor
onde é preciso outro toque de vermelho, como
um tapeceiro ponderando se chegou
a altura de mudar o padrão, um escultor
hesitando antes do primeiro e decisivo corte,
medito um poema, repetindo palavra por palavra,
tentando entender onde é preciso alterar uma nota,
testando a respiração, o sentido e a sorte,

como quem fita a superfície de um espelho
através dos insondáveis níveis entre vidro e prata
até às pupilas dessa presença reflectida
que por cima do meu ombro emerge das suas profundezas.


(in Visitação, tradução colectiva em Mateus, Quetzal editores, 1995)

10.10.14

SOUSA DIAS


[...] Como todas as artes, a poesia é experiência sensível, mas essa experiência não é a tradução estética da experiência vivida, não é a estetização do vivido. Não é a vida do criador que explica a obra de arte, quando muito é a obra que explica a vida, o modo de vida do autor. Impotência da psicologia em arte, ou a arte como uma antipsicologia objectiva, «poder do falso» (Nietzsche). Sem dúvida, cada poeta fala das suas experiências. Mas trata-se de experiências que são já uma evasão do vivido, a auto-ultrapassagem do vivido na sensação, em fulgurações visionárias de uma subjectividade alucinada, arrancada a si, posta na linguagem fora de si. Todos os poetas convergem neste ponto. «Os versos não são sentimentos, são experiências», escrevia Rilke (ou o seu heterónimo Malte Laurids Brigge), experiências literárias cuja matéria-prima não são pois vivências, nem mesmo a memória das vivências, mas antes, em termos rilkeanos, a sua marca «já sem nome» no poeta, o seu rasto anónimo no esquecimento de tudo: por exemplo a Infância pura tal como nunca foi vivida nem dada na recordação, o puro Amor como a invivível essência afectiva dos amores vividos. Mallarmé por sua vez falava da poesia como uma experiência sem eu, subtractiva do eu, como uma experiência de «destruição» do eu como ele dizia, mesmo se a experiência mallarmeana, ao encontrar no lugar do eu abolido apenas a linguagem e nada mais além dela, tendia a abolir com ele também a sensação, toda a sensibilidade, o 'pathos' poético. Paul Celan repetirá que «a arte põe o eu à distância», mas já antes Trakl aspirara a uma poesia «impessoal e saturada de visões», Pessoa autopsicografara o «fingimento» poético, a irredutibilidade da emoção poética à emoção psicológica, e Ruy Belo dirá que o poeta «imolou o coração à palavra». Eugénio de Andrade confirma: «a poesia é uma arte impessoal». Como o é toda a arte. 


(excerto de «Poesia, Arte Bilingue», in O Que é Poesia?, nova edição aumentada: Documenta, 2014)

8.10.14

ADOLFO CASAIS MONTEIRO

O poder de alusão da poesia — que a tal se resume tudo quanto a tradição da análise literária clássica especificou sob os nomes dos vários tropos (metáfora, perífrase, etc., etc.) — não coube nunca nessas prisões douradas que a crítica lhe foi tecendo pelos séculos fora. O poeta diz muito em poucas palavras... e a análise literária diz de menos em palavras demais. Ai de nós, tentar compreender é uma doença incurável. Pois continuemos tentando.
A poesia é esquiva. A multiplicidade de aparências em que se envolve (ou seria melhor dizer: em que a envolvemos?) permite todas as confusões, e supor-se-lhe dificuldades ou facilidades que não tem, e nas quais se vão enredando inapelavelmente todos quantos são dominados pelo desejo de ser poetas, sem que nada os disponha realmente para tal. A todos ela parece oferecer uma esperança, mas... são sempre poucos os escolhidos.
A poesia moderna «permitiu» a ilusão de ser a poesia fácil. Foi mesmo este um dos argumentos mais reproduzidos por todos quantos procuravam «razões» contra ela. É, aliás, um argumento sob o qual se revela profundo pessimismo acerca da inteligência humana: pois entenderão tais objectores que seja realmente difícil aprender a «fazer» um soneto ou uma ode? Se tal fosse difícil, como havíamos de classificar as coisas realmente... difíceis?!
Na realidade, afirmar a facilidade em fazer versos «sem medida» nem rima será o mesmo que fazê-lo... em relação à prosa! De onde se conclui que tal argumento significa antes de mais nada o seguinte: ignorância de qual seja a dificuldade tanto de fazer verso como prosa. Valery Larbaud escreveu, falando do verso livre, que ele «estabelece limites e restrições (contraintes) mais subtis e mais difíceis de manter» do que o verso chamado «regular». Mas, precisamente, não é isto coisa de aparência, que salte aos olhos dos profanos — e, entre estes, há que contar todos aqueles que se dispuseram a fazer versos «sem medida», porque agora era fácil fazer poesia...
Mas não nos iludamos! Como realmente também não era difícil fazer versos «regulares», a situação não se modificou; somente que, antes de deitar versos no papel, os não poetas de antigamente iam aprender nos tratados de versificação aquilo que lá está — ao alcance de qualquer pessoa com algumas letras. A poesia era, e não deixou de ser, difícil. A dificuldade nunca estivera na técnica de fazer versos, e continuou a não estar na suposta falta de técnica do fazer versos livres.


(excerto inicial do ensaio «Dizer não dizendo», in A Palavra Essencial, editorial Verbo, 1972)

7.10.14

JOSÉ TERRA


Ah! Lanço o fumo do meu cigarro para o Universo...

Aqui há gente, caramba!
Gente com pescoço articulado para espreitar às vezes
um rumor de gente por de fora dos muros da cartuxa.
E há um poeta que se debruça à noite sobre o mar
antes de adormecer roído pelo caruncho da História.
E há paisagens inverosímeis que pousam por dentro do crânio.
Há degraus para o silêncio.
Um sábio estuda a nova fórmula da paciência.
Há os que acreditam e vão e os que vão pela porta estreita
no carrocel da morte e vêem coisas espantosas!


(de Canto Submerso, 1956)

30.9.14

KOSZTOLÁNYI DEZSŐ


A VIDA DE KOSSUTH LAJOS

A vida de Kossuth Lajos é razoavelmente monótona.
Nasceu em Monok.

1903


(tradução de Ernesto Rodrigues, in Antologia da poesia Húngara, Âncora editores, 2002)

22.9.14

FERNANDO MELRO (1930-2014)


A FOGUEIRA CLANDESTINA

Trouxe aqui a morte para a vermos
à luz deste sol concreto e solícito:
a morte igual a todos nós, irmã mais velha e servil.
Tem uns olhos suaves, e não vivos como é justo,
e as mãos — a barca do rio Letes —
num vaivém de cuidados para nos trazer
naquele asseio pobre de irmãos mais novos,
todos órfãos da vida anterior.
Lá nos abrigaremos, no refúgio das suas mãos,
os variadíssimos náufragos
que sobejamos à vida, à ordem, à finança,
às regalias sociais, às prepotências sagradas
que nos fecham as portas da cidade
e nos expulsam ladrando como cães.
Trouxe aqui a morte para junto
desta nossa fogueira clandestina
para termos ao menos uma razão de estarmos
à volta da fogueira clandestina.
Ela nos vem contar as suas muitas histórias
porque a morte leu todos os livros que se perderam
na frustração de milhões de homens
que nunca souberam uma letra
para exclamar os seus ódios
ou exorcizar os seus medos.
A morte sabe, irmãos, poesias de poetas
cujos versos jamais saíram dos olhos deslumbrados
diante da enorme vitrina do amor inacessível.
A morte sabe, irmãos, as doces poesias
dos pacíficos poetas
calados no holocausto de Hiroshima.
A morte sabe, irmãos, as canções incompletas
dos negros africanos
e de todo o homem que sonhou a liberdade
desde o ano primeiro do pecado original
até hoje, dez de Setembro de 1970, na era de Jesus Cristo.
Trouxe aqui a morte inadiável
que nos sustenta de dia e nos acalenta de noite,
a única certeza para desejarmos
os nossos actos de amor e de sexo
e não desistirmos de crer
nos filhos
nas flores
e na força solidária das nossas mãos desarmadas.

10.9.1970


(in Natal Crítico, edições Mic, 1980)

26.8.14

EDUARDO WHITE


O QUE VOCÊS NÃO SABEM NEM IMAGINAM

Ao Abdul Magide, ao Pilinhas, ao Ungulani, ao Rui, ao Zé Camudjoma e outros

Vocês não sabem
mas todas as manhãs me preparo
para ser, de novo, aquele homem.
Arrumo as aflições, as carências,
as poucas alegrias do que ainda sou capaz de rir,
o vinagre para as mágoas
e o cansaço que usarei
mais para o fim da tarde.

À hora do costume,
estou no meu respeitoso emprego:
o de Secretário de Informação e de Relações Públicas.
Aturo pacientemente os colegas,
felizes em seus ostentosos cargos,
em suas mesas repletas de ofícios,
os ares importantes dos chefes
meticulosamente empacotados em seus fatos,
a lenta e indiferente preguiça do tempo.

Todas as manhãs tudo se repete.
O poeta Eduardo White se despede de mim
à porta de casa,
agradece-me o esforço que é mantê-lo
alimentado, vestido e bebido
(ele sem mover palha)
me lembra o pão que devo trazer,
os rebuçados para prendar o Sandro,
o sorriso luzidio e feliz para a Olga,
e alguma disposição da que me reste
para os amigos que, mais logo,
possam eventualmente aparecer.

Depois, ao fim da tarde,
já com as obrigações cumpridas,
rumo a casa.
À porta me esperam
a mulher, o filho e o poeta.
A todos cumprimento de igual modo.
Um largo sorriso no rosto,
um expresso cansaço nos olhos,
para que de mim se apiedem
e se esmerem no respeito,
e aquele costumeiro morro de fome.

Então à mesa, religiosamente comemos os quatro
o jantar de três
(que o poeta inconsta
na ficha do agregado).

Fingidamente satisfeito ensaio
um largo bocejo
e do homem me dispo.
Chamo pela Olga para que o pendure,
junto ao resto da roupa,
com aquele jeito que só ela tem
de o encabidar sem o amarrotar.

O poeta, visto-o depois
e é com ele que amo
escrevo versos
e faço filhos.


(in Nunca Mais é Sábado – Antologia de Poesia Moçambicana, org. de Nelson Saúte, Dom Quixote, 2004 / originalmente in Antologia da Nova Poesia Moçambicana, org. de Fátima Mendonça, 1993)


13.8.14

JOSÉ CARLOS SOARES


Havia a tristeza
como método, havia
a sedução

como razão. Havia
o tempo, a língua
pegajosa do sentido
marcando em cada ruga

o desenlace. O sol
também havia
até que passe.


(de O Visitante Paralelo, Língua Morta, 2013)

12.8.14



DÓRIS GRAÇA DIAS


PREFÁCIO

Dos livros. Que poderia ela dizer acerca desses objectos inteiros? Gostava deles velhos, mexidos, a cheirar a pó. Com as páginas insuportavelmente lisas, sem marcas de manuseamento, apenas as das lombadas quebradas pelo uso; sem indícios de dedos suados, mas repletas de sublinhados, de sinais, de notas à margem. Reescritas, reinterpretações.
Um livro escolhe-se. (Não, não vamos por aí. Não é o conteúdo que nos interessa agora!) Escolhe-se. Queria-os com as páginas cosidas, agarradas à capa forte, cartonada, com folhas porosas por onde se infiltrasse um simples riscado de bic, ou uma superfície macia onde sobrevivesse um borrão de tinta permanente.
Os livros por dentro têm de nos ensinar o manuseamento deles, qualquer coisa mais do que a simples imagem deles. Colectiva imagem. Plural imagem.
Gostava de espreitar os livros dos outros, tentar perceber como eles os usavam. Um livro limpo desses borrões de leitura dizia-lhe pouco. Essa tentativa de imacular, ou pretender imacular, uma leitura parecia-lhe uma farsa. Um livro fez-se para sair das nossas mãos velho. O tempo da sua leitura é o todo da sua vida. E uma infinita partícula das nossas existências, proporcional ao volume das nossas leituras. Ler, ler, ler; é só isso que os livros nos exigem. E nós a obedecermos. Sempre.
Pois não, um livro não é um objecto intocável sobre o qual não possamos reescrever as nossas vontades, desejos, ensejos, ansiedades, louvores, discordâncias. A um livro retribuem-se os sentidos que nos suscita. O entrelinhamento, as margens, os inícios de capítulos, as folhas de rosto, todos esses lugares em branco que o já escrito nos oferece, são lugares de manobra aguardando que os preenchamos.
Livre-se, caro leitor, de lhe mostrar um livro ainda em branco depois de lido. Ela encher-se-á de pressupostos e insultá-lo-á até à exaustão. Abrir-lho-á numa página ao acaso, deter-se-á sobre uma frase e questioná-lo-á sobre a sua incapacidade de ter passado por ela sem que se sentisse forçado a retê-la por mais um bocado: na página, em si, na memória, no tempo.
Um livro existe também para se descompor (atenção: ela disse descompor e não decompor); em extremo, se não gostarmos de uma frase podemos riscá-la, se não gostarmos de uma página podemos arrancá-la, se não gostarmos do todo que o constitui podemos deitá-lo fora.
A reverência é um mau hábito e a literatura de que se fazem os livros não gosta de maus hábitos. Aquilo que nos suscita prazer, que identificamos como o gosto, porque se impõe como estímulo dos sentidos, só adquire existência quando sujeito a uma escolha pessoal, feita de sujeição e rejeição.
Censura? Sim, censura! Ela há-de querer ter eternamente essa liberdade de negar páginas inteiras, de as destruir, aniquilando-as em si. Fascista da sua própria biblioteca, lápis-azul, inquisitorial, rogar-se-á o direito de formular indexes, que guardará juntamente com as cinzas desses outros livros rasgados. Porque é esta a inteira liberdade que os livros nos oferecem. A de sermos muito maus para eles, malvados até à saturação.


(de Biblos (Os Livros), Teorema, 2000)

30.7.14

MIGUEL MARTINS


Projecto de vida: Construir uma jangada. Descer um rio calmoso interminável. Alimentar-me das margens: figos de piteira, bagas, codornizes assadas no espeto ou sobre pedras quentes. Ser sempre Primavera - possuir apenas uns calções ligeiros, uma faca. Ser senhor de mim ou nem sequer. Ter o rio por espelho e desabituar-me disso. Esquecer os conluios do carvão e do aço. Assobiar melodias sem história. Foder com a água; depois, orar às estrelas. Saber que é na finitude da vida que reside a sua eternidade. Saber distinguir os sabores de oitenta águas. Saber embebedar-me com ares cegos e brisas e conversar com uma índia ou um cão incorpóreos. Morrer só, devagar, e decompor-me completamente entre chuvas e ramos de salgueiro.


(de Cotão, &etc, 2014)

29.7.14

LUÍS PEDROSO


NO PASA NADA

Não se passa nada,
como se cinco minutos depois do pequeno-almoço
tivesse entrado humidade para dentro da clepsidra
e eu saísse apavorado de uma biblioteca,
alegando silêncio em excesso

Desperdiço as minhas tardes na hemeroteca,
no arquivo fotográfico, à procura das minhas ruas,
dos becos e baldios abandonados,
pedregulhos sobre os auxiliares de memória,
e a partir de agora estar vivo é um estrangeirismo

Não se passa nada,
e o poema é um fragmento, um avolumar de palavras.
Penso na dignidade de não ter nada
e saio à rua limpo, radiante de ignorância


(de Romance ou Falência, artefacto, 2014)

28.7.14



RUI CAEIRO



Percorra a gente os caminhos que percorrer, Travessa dos Remolares incluída, sempre em nosso desnorte alguma coisa procuramos - ainda quando aparentemente estamos a fugir de qualquer coisa, às vezes nem sabendo bem de quê, ou ainda quando fugimos daquilo que procuramos ou procuramos aquilo de que fugimos.
Após tão arrevesado parágrafo, regressemos ao que ora importa, isto é, que remédio, à Travessa dos Remolares ela mesma.
Quem por lá passa, e não sei porquê (ou não sei eu outra coisa) nunca são muitos os que por lá passam, procura o quê?, foge de quê?, encontra o quê?
Há para mim mais metafísica, isto é, mais fonte de perplexidade, nestas três perguntinhas - ainda que a resposta devida a cada uma delas não passe de de um atónito «nada!» - do que nos terríveis labirintos dos livros sagrados: toras, bíblias, corões...
Percorrer a Travessa dos Remolares inculca, quer pela pequenez da artéria, quer pelo que nela há de insuportável, sair de lá quanto antes. Que aquilo não é sítio para um peão se demorar. Sair, tão depressa quanto possível, para depois trazer a rua agarrada à sola dos sapatos, à laia de algo que se pisou sem querer.


(excerto de Travessa dos Remolares, Paralelo W, 2013)

22.7.14



[por uma adesão do Senegal à CPLP]

LÉOPOLD SENGHOR


ELEGIA DAS SAUDADES

A Humberto Luís Barahona de Lemos


Ouço no mais íntimo de mim o canto de voz umbrosa das saudades.
Será a voz antiga, a gota de sangue português que ascende do fundo dos tempos?
O meu nome que remonta às suas fontes?
Gota de sangue ou então Senhor, a alcunha que um capitão pôs outrora a um bom de um marujo?
Reencontrei meu sangue, descobri meu nome o ano passado em Coimbra, em plena selva dos livros.
Mundo selado de caracteres estritos e misteriosos, ó noite das florestas verdes, alva das plagas inauditas!
Bebi — muros brancos colinas de oliveiras — todo um mundo de proezas de aventuras de violentos amores de ciclones.
Ah! beber todos os rios: o Niger o Congo e o Zambeze, o Amazonas e o Ganges
Beber todos os mares de um só trago, traço negro sem cesura não sem acentos
E os sonhos todos beber todos os livros todo o oiro, os prodígios todos de Coimbra.
Recordar, recordar apenas...

Cameleiro moiro, eis-te pois alçado à minha altura — nesse século de brio
Guerreiro, à altura da minha coragem.
À tua manha oblíqua opor a rectidão da minha lança — que desfere o raio como um veneno
À tua manha, o meu ímpeto sem costura.
Capitão ou marujo, já me não recordo, eu restauro a força dos meus fortes
A sua submissão mais dura do que os muros. Tenho ódio à desordem.
A minha missão é pascer os rebanhos
Tirar a desforra e submeter o deserto ao Deus da fecundidade.
Foi no século da honra.
Bela era a batalha, vermelho o sangue ausente o medo.
À sombra destas dunas, cantam as saudades de minhas glórias idas.

Um dia em Lagos oferta ao mar como a outra Lagos.
Não um rio mas mil rios, não uma lagoa mil lagoas
Um só e único mar com quatro distâncias.
Nenhum paletúvio: uma floresta no dilúvio, sobre a vasa fervilhante de répteis do Terceiro Dia
E no meio das aves-trombetas, macacos com seus gritos de címbalo, uma ascensão de odores mortais
E de outros, suaves como oboés.
Reinava o Terceiro Dia, e a vida corria bem.
Milhões de homens como formigas carnívoras, à corrida pelas pistas do desejo, e mulheres jazentes
Ébrias de sémen de espasmos, ébrias de vinho de palma.
Percebi os signos da Tribo.
O Amor: a morte, e com que exultação! A Morte: o renascimento cortado de raios.

Saudades dos amores antigos, saudades das minhas saudades
Do enorme vácuo vermelho da Imerina.
Ah! eu confundo eu confundo, confundo presente e passado.
Um serão houve em honra do Hóspede, em casa do Senhor dos Altos Planaltos
No meio de velas seda de cabelos, o veludo vivo das vozes o oiro dos braços de âmbar
Ao jorrar do longo queixume da orquestra
E do coro à sua volta. Acaso já ouvistes esses cantos dos Altos Planaltos, que cantam um mundo defunto
Em que a paixão é pura, impossíveis os amores, os corações abismos de vertigem?
Morrer morrer, morrer de um queixume incomensurável
Oh! morrer de um longo queixume que de súbito se nos abisma no coração.
Nada mais há, nada além do enorme e negro vácuo da Imerina.
Sangram ao longe as montanhas, como fogueiras no mato.

Perdido no oceano Pacífico, eu abordo a Ilha Ditosa — meu coração é sempre errante, o mar ilimitado.
Brancas asas de arcanjo têm os tubarões, as serpentes destilam êxtase, e os seixos...
Mulheres que são mulheres, mulheres que são frutos, e sem caroço: mulheres-sésamo.
Na escuridão dos cabelos, flores que são linguagem de Iniciados.
Trago um colar de corais, ofereço-o a quatro flores.
— Não sou livre de amar, terás que voltar amanhã de madrugada.
— A minha corola está aberta, meu mais-que-irmão, ao meu belo Príncipe-Abelha. Abstenham-se sobretudo as borboletas.
— São vãs as tuas armas meu irmão — quão ridículo é o Guerreiro!
— Morro e renasço como quero. O meu amor é milagre.
Era muito longe no tempo e no espaço, e era o mar pacífico.
Não falarei em feitos nem em reinos conquistados aos índios de ambos os horizontes.
Quantas aventuras bebidas na nascente dos rios sagrados!
Mas não tenho gosto pela magia, o Amor é a minha maravilha.
Meu sangue português perdeu-se no mar da minha Negritude.
Amália Rodrigues, canta ó canta em tua voz baixa as saudades dos meus amores antigos
Dos rios das florestas das velas, dos oceanos das praias do sol
E os golpes desferidos e o sangue derramado por tanta coisa fútil.
Ouço no mais íntimo de mim a plangente voz de sombra das saudades.



(tradução de Luiza Neto Jorge, in Poemas, Editora Arcádia, 1977)