18.9.05

ALBERTO DE LACERDA

ON HEARING MARIANNE MOORE
READING HER POETRY


Um pássaro Uma voz atravessada
Pelas nuvens da eternidade
Um pássaro Princesa
Suave dos animais estranhos
Das rochas dos límpidos encontros
Dama do esplendor consistente
Bronze preso à vida por um fio
gieseking Scarlatti
Marianne Moore

Austin,
2 de Maio de 1968

(da sequência Mecânica Celeste, in Oferenda II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994)
MARIANNE MOORE

PARA UMA AVE DE PRESA


Convéns-me, pois nem sequer te tomo a sério,
e não ficas cega pela palha que rodopia
ao ser trazida de uma meda pelos ventos.

Sabes pensar e o que pensas dizes
com muito do orgulho e fria firmeza
de Sansão, e ninguém ousa deter-te.

O orgulho assenta-te bem, tão empertigada, ave colossal.
Nenhuma capoeira te faz parecer absurda;
às tuas garras atrevidas são fortes, contra a derrota.

(de Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras - colecção o aprendiz de feiticeiro)
ALBERTO DE LACERDA

ELEGIA ESCRITA EM NEW ORLEANS
A 6 DE ABRIL DE 1968


A todos os negros assassinados
Humilhados e ofendidos

Hoje não estamos sós
Há cinco músicos negros tocando na noite
Hoje não estamos sós
Há um luar negro cobrindo a sucessão
Das ondas incompreensíveis
Mar de luto
Ó mar americano
De luto

Hoje não estamos sós
Há uma canção espessa
(Espessa como o sangue)
Redimindo a noite

Há cinco músicos negros

Há uma cantora negra
Sozinha na noite
No meio de nós

Hoje não estamos sós
Há cinco músicos negros tocando na noite
Irmãos da noite

Minha irmã
Meus irmãos

(da sequência Mecânica Celeste, in Oferenda II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994)

17.9.05

[o canto e a ceifa VIII]

DANIEL FARIA

EXPLICAÇÃO DA CEIFA


Colho espigas
e teço a minha teia

amarro espigas molhos de espigas
ato e desato o cabelo das aranhas

(de Explicação das Árvores e de Outros Animais, Fundação Manuel Leão, 1998)

16.9.05

[o canto e a ceifa VII]

SOARES DE PASSOS

MARIA, A CEIFEIRA
(imitação de Uhland)


«Bons-dias, Maria: da lida do prado
«Nem mesmo te afastam cuidados d'amor,
«Se ao fim de três dias mo deixas ceifado
«A mão do meu filho te quero propor.»

Promessa é do rico, soberbo rendeiro:
Maria, oh! quão ledo seu peito bateu!
Seus olhos brilharam, seu braço ligeiro
Mais forte nas messes a foice moveu.

Soou meio-dia: que ardente secura:
Já todos demandam a fonte, o pinhal;
Somente nos ares a abelha murmura:
Maria não pára, que é sua rival.

O sol esmorece, bateram trindades:
Debalde o vizinho lhe grita: bastou!
Zagais e ceifeiros se vão às herdades
Maria, coa foice, lidando ficou:

O orvalho desliza; desponta a seu turno
A estrela no espaço, na selva o cantor;
Maria, insensível ao bardo nocturno,
A foice incansável agita ao redor.

Os dias e as noites assim por tais modos,
Nutrida d'amores, mal sente passar,
Três dias findaram: oh! vinde ver todos
Maria ditosa d'esp'rança a chorar.

«Bons-dias, Maria; já tudo ceifado!
«Lidaste deveras: a paga hás-de ter.
«Enquanto a meu filho, foi graça o tratado;
«Quão loucos e simples o amor nos faz ser!»

Tal disse, e passava... no peito constante,
Ai pobre Maria, que transe cruel!
Teu corpo formoso tremeu vacilante,
E exausta caíste, ceifeira fiel.

Um ano a coitada, sozinha consigo,
Vivendo de frutos, vagou sem falar...
No prado mais verde cavai-lhe o jazigo:
Ceifeira como esta jamais heis de achar.

(de Poesias, prefácio de Álvaro Manuel Machado, Vega, 1983 - colecção Mnésis)
[o canto e a ceifa VI]

TERESA AICA BAIROS

canto mudo


eu sou a ceifeira.
seara fora colho braços de trigo
e joio também.
a minha lida:
trabalhar os montes que há
e os mais que desencanto.

se um dia perguntarem
que razão há para desencantá-los
não responderei
sei
mas não digo
- não responderei.
o murmúrio da terra ao ouvido das horas.
não tenho mais razões para desencantar
que a vida.

(de Luva descalça, incluído em Blémias, Ciápodes e Licornes - textos 2000 colectânea jovens criadores, co-edição do Clube Português de Artes e Ideias e da Íman edições, 2001)

13.9.05

[o canto e a ceifa VI]

FERNANDO PESSOA

«Ela canta, pobre ceifeira,»

(versão publicada na revista ATHENA, nº 3 - Dezembro de 1924)


Ella canta, pobre ceifeira,
Julgando se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anonyma viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E ha curvas no enredo suave
Do som que ella tem a cantar.

Ouvil-a alegra e entristece
Na sua voz ha o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência d'isso! Ó céu!
Ó campo! ó canção! A sciência

Pesa tanto e a vida é tam breve!
Entrae por mim dentro! Tornae
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passae!

(da 2ª edição fac-similada, Contexto, 1994)
[o canto e a ceifa V]

FERNANDO PESSOA

«Ela canta, pobre ceifeira,»

(versão enviada a Armando Côrtes-Rodrigues em 19 de Janeiro de 1915)

XI

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez...
Canta e ceifa, e a sua voz cheia
De alegre e anónima viuvez

Flutua como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar...

Ouvi-la alegra e entristece...
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida...

E com tão nítida pureza
A sua voz entra no azul
Que em nós sorri quanto à tristeza
E a vida sabe a amor e a sul!

Canta!... arde-me o coração...
O que em mim ouve está chorando...
Derrama no meu peito vão
A tua incerteza voz ondeando...

Canta e arrasta-me p'ra ti,
P'ra o centro ignoto da tua alma,
E que um momento eu sinta em mim
O eco da tua alada calma...

Ah! poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência
E a consciência disso! Ó céu,
Ó campo, ó canção,... a ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve...
Entrai por mim dentro, tornai
Minha alma a vossa sombra leve...
Depois, levando-me, passai...

(in Cartas a Armando Côrtes-Rodrigues, introdução de Joel Serrão, 3ª ed: 1985 - ortografia actualizada)

12.9.05

[o canto e a ceifa IV]

BUSON

Na água profunda
assobia uma foice
ceifando as canas

(versão de Adelino Ínsua, in O Crisântemo Branco - antologia de haiku, Pedra Formosa, 1995)
[o canto e a ceifa III]

OSSIP MANDELSTAM


Quando sai para os céus a lua citadina,
E a noite prenhe de cobre e mágoa cresce,
E de lua a cidade espessa se ilumina,
E a cera canora ao tempo rude cede,

E na sua torre de pedra o cuco chora,
E a pobre ceifeira - no mundo dessangrado -
Ajeita de leve agulhas da sombra enorme
E as lança, palha amarela, no sobrado...

(de Guarda a Minha Fala para Sempre, tradução Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, 1996)

11.9.05

[o canto e a ceifa II]

WILLIAM WORDSWORTH

The Solitary Reaper

Behold her, single in the field,
Yon solitary Highland Lass!
Reaping and singing by herself;
Stop here, or gently pass!
Alone she cuts and binds the grain,
And sings a melancholy strain;
O listen! for the Vale profound
Is overflowing with the sound.

No Nightingale did ever chaunt
More welcome notes to weary bands
Of travellers in some shady haunt,
Among Arabian sands:
A voice so thrilling ne'er was heard
In spring-time from the Cuckoo-bird,
Breaking the silence of the seas
Among the farthest Hebrides.

Will no one tell me what she sings? -
Perhaps the plaintive numbers flow
For old, unhappy, far-off things,
And battles long ago:
Or is it some more humble lay,
Familiar matter of to-day?
Some natural sorrow, loss, or pain,
That has been, and may be again?

Whate'er the theme, the Maiden sang
As if her song could have no ending;
I saw her singing at her work,
And o'er the sickle bending; -
I listen'd, motionless and still;
And, as I mounted up the hill,
The music in my heart I bore,
Long after it was heard no more.



A CEIFEIRA SOLITÁRIA

Só ela no campo vi:
solitária de altas serras,
ceifa e canta para si.
Não digas nada, que a aterras!
Sozinha ceifa no mundo
E canta melancolia.
Escuta: o vale profundo
Transborda à de harmonia.

Nunca um rouxinol cantou
em sombras da Arábia ardente
ao que exausto repousou
mais grata canção dolente;
ou gorjeio tão extremado
se escutou na Primavera,
cortando o Oceano calado
entre ilhas de Além-Quimera.

Quem me dirá do que canta?
Será que o que ela deplora
é antigo, triste e distante,
como batalhas de outrora?
Ou coisas simples são
do quotidiano viver?
Essas dor's de coração,
que já foram e hão-de ser?

Seja o que for que cantara
é como infindo cantar,
que a vi cantando na seara,
no trabalho de ceifar.
Sem falar, quieto, eu escutava
e, quando o monte subia,
no coração transportava
o canto que não se ouvia

(tradução de Jorge de Sena, in Poesia de 26 Séculos)
[o canto e a ceifa I]

DANIEL FARIA

Encosto-me à morte sem amparo ou sombra
Como o grão alheio-me da flor que virá e venho
À superfície do teu sonho

Como se acordasse a mão que semeia
No coração lavrado de quem faz a ceifa
Rebento no interior da morte como o trigo

Rebento no interior do trigo
E de qualquer planta que se assemelhe a ti

(de Explicação das Árvores e de Outros Animais, Fundação Manuel Leão, 1998)

9.9.05

WILLIAM BRONK

A IMPRESSÃO

Tem-se a impressão de que tudo está a chegar
ao fim. Não, não é isso. Tem-se a impressão
que é como uma guerra em que a última batalha
é combatida muito depois do armistício
ter sido declarado. A iminência liga-nos
a uma desgraça passada. Olha-se para trás,
para um tempo, qualquer tempo, qualquer coisa
que já aconteceu. Olha, ainda estamos aqui,
mas repara que o nada do momento aconteceu
há muito, um tempo, tanto quanto se pode saber,
que não coincide com o tempo em que isso
aconteceu. Houve alguma vez esse tempo?
Outrora, deve ter havido. Quando acabará?

A METONÍMIA COMO ACESSO AO MUNDO REAL

Ou o que se sente deste mundo é o "que"
apenas deste mundo, ou o "que" do qual,
de vários possíveis mundos - que "que"?
- alguma coisa do que se sente pode ser
verdade, pode ser o mundo, o que é,
o que se sente. Quanto ao resto,
tréguas são possíveis, a tolerância
dos viajantes, comer pratos estrangeiros,
tentar palavras que distorcem a língua,
sentir esse tempo e esse lugar,
sem pensar que esse é o mundo real.

Certo, todos os relógios nos dão a hora
local; certo, "aqui" é qualquer lugar
onde se limita e se preenche um espaço;
certo, nós fazemos um mundo: mas alguma
coisa existe nele, está nele contida,
alguma coisa real, algo que se possa sentir?
Uma vez, numa cidade bloqueada e cheia,
vi a luz bater bem fundo no vazio da rua,
palpável, azul, como se tivesse vindo,
digamos, do mar, uma pureza de espaço.

(tradução de Silva Carvalho, in Ícones, Quatro Elementos editores, 1994)

4.9.05

FERNANDO GUERREIRO

A câmara clara


Desenganem-se os crédulos, a poesia não é um espelho
nem nela o sujeito passa por um processo de revelação
compatível com o impressionismo mimético tão comum
nas fotografias. Se não conseguimos escapar à mecânica
de arrasto pela qual um indivíduo, mal pega na caneta,
passa para a palavra, no entanto, talvez seja pela iconicidade -
efeito de relevo na linguagem, pelo próprio recorte das palavras
na sua espessura semântica produzido - que a estranheza
da poesia melhor nos surpreende e conjuga. Poder-se-á
pela palavra contrariar o carácter nostálgico da arte?,
o que nela existe de evocação de uma presença antiga
e erodida? Traindo-nos, a poesia ainda nos autoriza
uma forma branda de recusa: a dos frutos que se oferecem
aos favores do clima sem esperar o consolo de uma mão
que os proteja da sombra em que os contornos, na dúvida, se retiram.

(de A Balada de Liverpool e Bruxelas, in Bumerangue 04 - colecção Guarda-Rios)
HISAKI MATSUURA

A gaiola

Vacuidade
Vazio em forma de ovo
Num casaco silêncio fora do tempo
Colecciono aí
Raros, vivos minerais
Que agradam aos adultos garotos
Um bandolim (corpo feminino sem umbigo, cordas partidas)
Um morango (com o seu cálice)
Uma pulseira (de coral, da tia hipermetrope)
Um arranha-céus (maço de cigarros, Lua)

Um hipopótamo (enorme tristeza escorregadia)
Um bombom com whisky (homicida)
- Por exemplo
A estrela do mar seca apanhada na praia
Cada vez mais pequena
Um asterisco cada vez mais pequeno
Que se perderá certamente salvo precaução a tomar
Que desaparecerá numa serapilheira como pó
Ou como um ponto luminoso sobre a página de um livro
- Ou ainda
Uma silhueta sem vida que oscila vagamente
Uma espécie de sombra fútil caída
Sobre a superfície agitada da porta de madeira que range
Sarjeta triste
Bric-á-brac de todos e de todas as cores
Sem peso
A pôr indiferentemente na ordem da crónica
Passarei o meu tempo a dispô-los
De maneira bela e agradável
Uma selha de areia sem areia
Uma borboleta sem asas mica e geada de uma manhã de Verão
Contudo na noite em que a tempestade se aproxima
Posso contentar-me
Aconchegado a um canto do pomar
Sobre a colina de trás sem vento
Nem grito de corvos olho
Os grãos de ervilhas cair
As costas ao vento
É qualquer coisa que me falta e submerge
Pode-se apenas suportar?
Gaiola portátil do "eterno"

(tradução de Adília Lopes, a partir de uma versão francesa, in Bumerangue 04)