30.6.05

NUNO GUIMARÃES

Doença de palavras com morfina
sobre o peito que seca e envelhece
(as palavras as pedras como doem)

um peso em cada peito
deserto cada vez mais na raiz.
Não é bem a secura das palavras

mas a secura de aves. Perigoso
estio que, pesando sobre as asas,
lhes fere o voo livre.

Aves de seca. Anos que se queimam
noutro passe, outra morte, outra incerteza
outro repouso algébrico dos membros.

Nem a margem dos rios se acomoda
ao rumor geométrico do fogo
às formas aos sinais - o sedimento

onde as noites e o sono se acumulam
as areias, a fome, o movimento,
o corpo saturado nas arestas.

(de Corpo Agrário, 1970)

2 comentários:

A disse...

Tercetos do mais belo que li...

www.arcadobue.blogspot.com

Márcia Maia disse...

Algumas das metáforas mais belas ( e secas) que já li.
Vou roubar, tá? ;)

Beijo grande, Rui,

Márcia

tábua de marés

mudança de ventos

alfabeto