8.3.07

MARIA AMÉLIA NETO

OS OLHOS DE RUY CINATTI


O sangue do lado esquerdo,
Ensopava a camisa, escorria pelos dedos.
Amparando-o, um irmão? Um amigo?
Era um irmão, rosto perdido entre rezas e disparos.
Se os olhos de Ruy Cinatti pudessem ver...
O sangue corria sempre, como o sangue da outra ferida do lado,
Não de bala, mas de lança.
Novos disparos, gritos e rezas entre os túmulos e os corpos.
Quantas matanças? Quantas noites de St. Barthélemy?
Quantas caçadas? Quantas noites de cristal? Quantos silêncios?
Entravam nus dentro dos fornos. Choravam, lutavam
Ou pediam ao gás e à Morte que viessem depressa.
E o que dizia o vulto de vestes brancas no seu vastíssimo palácio?
E o que diziam as belíssimas canções ali tão perto?
Falavam do ouro do Outono e da rosa dos bosques.
Agora o sangue corria devagar, e a ferida era do lado.
Como outra chaga antiga.
Muitos corpos arrefeciam. A Sombra estava próxima.
"É grande a colheita" - pensou.
Se os olhos de Ruy Cinatti pudessem ver...

(de Oeste, Terra dos Mortos, edições Ática, 1999)

2 comentários:

Alves Bento Belisário disse...

"Sonhas um livro de infância
Que te não é dado ler:
--------------------------"

marta dutra disse...

andei a passear por aqui e gostei muito do que vi :-)