12.8.07

DOMINGUEZ ALVAREZ

O Bispo, 1933
óleo sobre tela
Colecção de Menéres Campos




MIGUEL TORGA

Porto, 8 de Maio [de 1944]


O BISPO


Soturno como um cipreste,
O triste bispo que eu sou
É pintado.
Diante de Compostela,
Meu bispado,
Ali estou na minha tela,
Magro, pálido e parado.

Olhos cavados de fé
Nariz curvo e descaído,
Boca rasgada e torcida,
Até na tinta se vê
Que não anda bem na vida
Quem já no céu está perdido.

A fogueira arde por dentro
Da batina e da romeira...
A fogueira...
O lume que reconcentro
Numas brasas da lareira.

Ninguém se salva comigo,
Porque eu próprio me condeno.
No quadro, o meu inimigo
É um postigo...
Um simples olhar sereno.

Foi o pintor Alvarez
Que me pintou tal e qual:
Inquisitor castelhano
A fazer um entremês
Mais humano
Em Portugal.

(de Diário III, 1946)

2 comentários:

blá blá blá disse...

Olá! belo compêndio de poesias neste espaço

AF disse...

excelente escolha. fazem falta existências como a de Torga.