24.11.08

ITALO CALVINO

(excerto de) O Rei à escuta

(…) Somos reis, tudo o que desejamos é já nosso. Basta levantar um dedo e trazem-nos de comer, de beber, pastilhas elásticas, palitos, cigarros de todas as marcas, tudo numa bandeja de prata; quando nos dá o sono, o trono é cómodo, bem forrado, basta-nos semicerrar os olhos e abandonar-nos contra o espaldar mantendo na aparência a posição de sempre: o facto de estarmos acordados ou a dormir não altera nada, ninguém dá por isso. Quanto às necessidades corporais não é segredo para ninguém que o trono tem um buraco no assento, como todos os tronos decentes; duas vezes por dia vêm mudar o bacio; e até com maior frequência se cheirar mal.
Em resumo, tudo foi predisposto para evitarmos a menor deslocação. Não teríamos nada a ganhar movendo-nos, e tudo a perder. Se nos levantarmos, se nos afastarmos nem que seja um passo, se perdermos de vista o trono nem que seja por um instante, quem nos garante que ao voltarmos não encontramos outro qualquer sentado nele? Se calhar alguém parecido connosco, igualzinho. Vamos lá depois demonstrar que o rei somos nós e não ele! Um rei distingue-se pelo facto de se sentar no trono, usar a coroa e o ceptro. Ora quando estes atributos são nossos, o melhor é não nos separarmos deles nem por um instante.
(…)

(in Sob o Sol Jaguar, Tradução de José Colaço Barreiros, editorial Teorema, 1992)

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