23.1.11

ANTÓNIO BARAHONA


COMENTÁRIO ALCORÂNICO


Quanto aos poetas, os que erram seguem-nos.
Não tens visto como eles vagueiam pelos vales
E como dizem isso que não praticam?


Alcorão

Vagueio pelos vales a falar sozinho:
não me lavo, não rezo, não me lembro
de Deus: apenas fumo o meu cachimbo
e saboreio Deus que sabe a fumo

Devagaroso a falar à pressa deliro
e digo o que não faço e faço o que não digo,
contraditório, incoerente, obsessivo,
mas verdadeiro eco de mim próprio

Que Deus me dê a força da fraqueza
que verga mas não quebra e endireita
mais dúctil do que a vara mais fibrosa

Que Deus me dê os vales mais obscuros,
lá onde a vista alcança só beleza
ao fundo da paisagem dos teus olhos

Lx., 20.VIII.85

(de Noite do meu inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)

2 comentários:

maria carvalhosa disse...

Muito interessantes, a vida e a obra de António Barahona. Atrai-me, especialmente, a sua permanente procura de uma divindade, venha ela donde vier. Gostei de ler o poema que escolheste. Beijo.

maré disse...

ocorreu-me, nesta leitura, mais um dos poemas do Gonçalo, mas é muita ousadia

só digo:
tristemente bem escolhido para este calendário